Maio 6, 2021
Do Passa Palavra
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Por Sódio

Os comentários abaixo dão seguimento ao debate inaugurado pelo artigo Classe e conflitos: um debate entre camaradas, publicado pelo Passa Palavra. Neste debate sobre a classe trabalhadora e suas lutas, misturam-se outras duas questões: o “retorno à natureza” e a “centralidade do conflito”; pode haver alguma “embolação” com estes temas nos meus comentários, mas seu centro é aquele enunciado no título. Pedi ao coletivo que me escolhesse um pseudônimo para combinar com os demais.

1.

Os camaradas propuseram um debate sobre a natureza da classe trabalhadora por meio de uma crítica – ferina, mas necessária – a outros camaradas que propõem, entre outras coisas, “ir para a quebrada”, “retornar à natureza” ou que a classe trabalhadora só se forma enquanto tal por meio dos conflitos, que são tomados como elemento “central” para a formação da classe trabalhadora.

Do meu ponto de vista, a postura que se critica baseia-se em três pressupostos equivocados.

O primeiro pressuposto: não se considerar trabalhador, mesmo quando o é, mas alguma outra coisa (“intelectual”, “classe média” etc.). Quando não são, eles mesmos, essa “outra coisa”, os defensores da “ida à quebrada”, da “ida à natureza” ou da “centralidade do conflito”, tendo como base a identificação equívoca de um grupo social, consideram que este grupo equivocamente identificado não tem nenhum “papel” a desempenhar na luta anticapitalista, pois já são “privilegiados” que tiveram acesso a boa educação, família relativamente estável, e não passaram por maiores necessidades (mesmo quando tenham eventualmente vivido no limite da pobreza). Partindo daqui, só o que se pode fazer é “apoiar” as lutas de “verdadeiros trabalhadores”, qualquer que seja o critério desta “verdade”.

Essa questão dos “privilégios” leva a situações absurdas.

Um exemplo: um rapaz trabalhador, morador de um bairro popular, de família no limiar da pobreza, considera-se “privilegiado” por ser heterossexual, cisgênero e ter pele um pouco clara. O coitado dizia isso depois de ter tomado um esculacho brutal da polícia, de ter apanhado muito e quase ter sido preso, tentaram inclusive “plantar” drogas nele. Tudo isso se descobriu depois de a ação policial violenta ter sido acompanhada por algumas dezenas de vizinhos, que seguiram a viatura até a delegacia para salvar a vida do rapaz, como fazem com tantos outros. Casos assim multiplicam-se entre jovens sujeitos à ideologia dos “privilégios”, que é o novo vocabulário pelo qual as opressões e a exploração são abordados pela negativa.

A confusão tem uma explicação até simples.

Com a complexificação do capitalismo desde o advento das modernas sociedades por ações, o capitalismo não tem mais as “caras” de capitalistas individuais. Rotschilds, Fords, Vanderbilts, Siemens, Barings, Carnegies, Farquhars, Barclays, Morgans, Fuggers, Astors, Hearsts, aquelas figuras que antes se podia apontar como responsáveis pela exploração têm sido substituídas pela impessoalidade e extrema burocratização das corporações e grandes empresas. Claro, as listas de milionários da Forbes, e também os departamentos de relações públicas das empresas ainda modeladas em torno de certas famílias, acendem as imaginações dos “empreendedores”, mas torna-se cada vez mais difícil relacioná-las no imaginário popular com as empresas de onde extraem suas fortunas. Para os trabalhadores que consomem seus bens e serviços, a verdadeira “cara” dessas empresas é a de milhões de gerentes, capatazes, administradores e funcionários.

Em paralelo, há enorme dificuldade no meio anticapitalista de entender o capitalismo como um sistema de relações sociais necessárias, onde é extremamente limitado o campo das relações sociais que podem ser pautadas por escolhas éticas ou morais. Se é pelo caminho da indignação e da revolta contra injustiças que muitos de nós chegaram a este meio, este mesmo caminho deveria levar-nos além, a entender como se formam e operam a exploração e as opressões que nos indignam e revoltam, para melhor combater os adversários. Há, entretanto, muitos obstáculos neste caminho, que termina sendo percorrido por menos entre nós do que seria desejável. O resultado é a prevalência de concepções éticas ou filosóficas da luta anticapitalista que, conquanto necessárias, não são suficientes para construir algo além da própria revolta e indignação de que se partiu inicialmente. É neste mesmo nível basilar que opera a teoria dos “privilégios”: sob uma roupagem verbosa de “concretude” sociológica, essa teoria opera sobre tais concepções éticas e morais de anticapitalismo e converte-as num maniqueísmo ad personam.

As duas tendências coexistem e influenciam-se, com funestas consequências.

Como as maiores empresas no capitalismo não têm mais uma “cara”, um “corpo” de quem seria possível exigir uma conduta “ética” ou “moral”, é muito fácil olhar para os lados e encontrar essa “cara” nos capitalistas menores e mais próximos, donos de empresas com poucos funcionários e baixa lucratividade – em suma, nos capitalistas mais retardatários, naquelas empresas mais retardatárias. Nestas empresas, onde os donos ora supervisionam diretamente o trabalho, ora integram-se em alguma posição no processo de trabalho que lhes permita também exercer tal supervisão, não se verifica a concentração e acumulação de capital suficientes para desencadear a burocratização extrema daquelas empresas maiores, que concentram mais capital e, como resultado, não têm uma “cara”. Essas empresas costumam integrar-se muito marginalmente nos circuitos produtivos mais tecnologicamente desenvolvidos, relegando-se portanto a extrair mais-valia na forma absoluta por meio da combinação variada de diferentes métodos: extensão de jornada, intensificação coerciva do processo de trabalho, tecnologias baratas e ultrapassadas etc.

Ocorre que estes capitalistas desfrutam de um padrão de vida equivalente a um trabalhador qualificado. O dono de uma pequena serralheria num bairro popular, ou a dona do salão de beleza no mesmo bairro, têm renda líquida mensal situada numa faixa cujo limite inferior equivale à renda de uma bibliotecária, de um advogado celetista, de um mestre de obras ou de uma professora do ensino fundamental, e cujo limite superior equivale à renda de um engenheiro civil celetista, de um gerente de logística ou de um engenheiro devops. (Voltarei ao assunto do “padrão de consumo” e das “faixas de renda” mais à frente.)

Na medida em que estes capitalistas retardatários são a “cara” visível do capitalismo para amplos setores no meio anticapitalista, é deles, e de suas reclamações habituais para que se removam os entraves criados pelos capitalistas mais poderosos para que fiquem lá onde estão, que certos anticapitalistas estão a falar quando mencionam qualquer demanda ou reivindicação empresarial. É seu “padrão de consumo”, não muito diferente daquele de um trabalhador qualificado, que aos olhos de certos anticapitalistas nivela a ambos em seus “privilégios”, e portanto leva a tratar como uma estranha espécie de “capitalistas” aqueles trabalhadores mais qualificados.

Pior: aquela concepção “ética” e “moral” de anticapitalismo, ou ainda aquela outra estritamente baseada no combate a “privilégios”, leva certos anticapitalistas a a esconjurar o dono do mercadinho, mas a ver-se perdidos quanto aos acionistas da Vale ou da Petrobras. Não há, quanto a estes últimos, qualquer eficácia em apontar-lhes falhas “éticas” ou “morais” em suas decisões, porque são milhares. Se esta é a situação quanto aos acionistas, pior ainda é a situação quanto aos chief officers das corporações, quanto aos gestores de topo, este corpo profissional relativamente anônimo que, não tendo qualquer apego ao cargo senão as remunerações que aí recebem, podem transitar silenciosamente de empresa em empresa. Frente às decisões “antiéticas” e “imorais”, basta-lhes receber discretamente as vultosas indenizações demissionais contratualmente pactuadas e seguir adiante rumo outras empresas para que comecem nova carreira sem grandes máculas; da parte dos que ficam, bastam alguns comunicados quanto a “cooperar com as investigações”, e a empresa segue com a exploração nossa de cada dia.

Aliás, essa concepção “ética” e “moral” de anticapitalismo, ou ainda aquela outra estritamente baseada no combate a “privilégios”, porque voltadas para os agentes mais retardatários do capitalismo, arrisca entrar sem maiores ressalvas pelas portas abertas para os mecanismos compartilhados de gestão característicos das empresas onde inovações tecnológicas, gestão “mais humana” e maiores possibilidades de novos investimentos caracterizam as formas mais avançadas de extração da mais-valia. Tal característica é ainda mais verdadeira quando essas empresas abrem possibilidades de mobilidade social ascendente a setores historicamente desprivilegiados da sociedade. Eis porque, voltando ao tema da personificação dos capitalistas, há tanta gritaria quanto a Luciano Hang e tanto silêncio quanto a Luíza Trajano.

Mas esse primeiro pressuposto, de tão complexas consequências, só existe por causa de um segundo que, embora menos aparente, precede-o. Conquanto os defensores da “ida à quebrada”, da “ida à natureza” ou da “centralidade do conflito” considerem como trabalhador qualquer assalariado com padrão de consumo compatível com as “classes” “C” e “D”, é precisamente por ver no “padrão de consumo” a linha divisória entre classes que situam “fora” da classe trabalhadora qualquer pessoa que não esteja no limiar da pobreza.

Note-se: “padrão de consumo”, não “estratificação de renda”, tampouco “classe social”. São três critérios distintos.

“Estratificação de renda” é critério estritamente censitário de segmentação de uma população, adotado como distintivo de classes sociais a partir da sociologia estadunidense de início do século XX. Servia ao mesmo propósito do “padrão de consumo”, porque atendia a um pressuposto comum: uma sociedade de indivíduos iguais em direitos, tornados “ricos” ou “pobres” por questões estritamente individuais de “força de vontade”, “resiliência”, “sacrifício”, “esforço”…

“Padrão de consumo” é o critério mais usado pelo senso comum para distinguir as classes sociais. Aqueles mais afeitos às redes sociais devem lembrar de uma polêmica relativamente recente surgida a partir de uma brincadeira de adolescentes, que definiam quem é “burguês” pelo fato de ter acesso a Netflix, iPhone, número de vezes em que sai para jantar fora num mês, entre outros pequenos prazeres pessoais, aliás fornecidos ou produzidos em massa. Bens e serviços posicionais extremamente sofisticados, alguns inclusive produzidos sob medida, sequer entraram na brincadeira. Pode-se perceber aí duas coisas: ou pequenos prazeres pessoais como pizzas e viagens de férias dentro do próprio país transformaram-se subitamente em bens posicionais, o que é falso, ou aqueles bens e serviços mais sofisticados – como panelas Le Creuset, sapatos John Lobb ou Edward Green, carros Maybach 57 ou Bentham Mulsanne, ou férias no Hotel Negresco, no Fairmont Le Montreux Palace, no Reverie Saigon, no PuLi, no Schlössle Hotel ou no Burj Al Arab – encontram-se tão fora do alcance das massas de trabalhadores que passam despercebidos, conhecidos apenas de um publico especializado. De qualquer modo, tal ocultamento contribui para reforçar a impressão de que “capitalistas” mesmo, “capitalistas” de verdade, são os pequenos capitalistas e seus pequenos prazeres – enquanto os verdadeiros capitalistas e seu consumo conspícuo seguem incólumes.

Do senso comum, o “padrão de consumo” foi convertido em critério “científico” por Milton Friedman – ele mesmo, o “pai” de todos os Chicago Boys – como parte integrante da hipótese da renda permanente (interessados poderão pesquisar sobre o assunto e descobrir do que se trata). Transformado o senso comum em algo matematicamente calculável, esse critério foi adotado pela Agência Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP) para segmentar público de marketing; são as “classes” A, B1, B2, C1, C2, D e E, tão referidas na mídia.

Vimos acima alguns problemas do uso do “padrão de consumo” como sinal distintivo único ou principal de certas classes sociais , que mais confunde do que explica, mas é possível encontrar ainda outros equívocos, aliás de péssima linhagem. Basta olhar a história dos processos revolucionários na Rússia, na China, em Cuba, na Coreia, no Vietnã e em vários países africanos para ver como a aparência de frugalidade foi elemento importante para que novas camadas dirigentes mascarassem seu poder frente às massas revolucionárias. Se a ostentação de bens posicionais pelos burgueses é uma das razões do ódio que lhes devotam os trabalhadores a cada novo dia de exploração, em especial porque é da sua exploração direta e intensa que vem tal ostentação, é curioso observar como nos processos revolucionários essa ostentação é fortemente reprimida pelas novas classes dirigentes quando a atividade revolucionária das massas de trabalhadores é mais pujante, e paulatinamente permitida quando tal atividade se reduz.

Estratificação de renda e padrão de consumo não determinam adequadamente as classes sociais. Quando muito, levando em conta as formações sociais hegemonizadas pelo capitalismo, o que há são somente diferenças de fortuna, que podem eventualmente refletir a estrutura das classes sociais, mas não se confunde com elas.

“Classe social” é outra coisa, com uma longa história que abrange desde definições jurídicas (como no império romano) até determinações sociológicas e econômicas. Foi nos meios revolucionários, primeiramente, que se percebeu como só há classes sociais no capitalismo por força das relações antagônicas de produção que o formam. Decorrem dessa constatação a definição das classes sociais com base na propriedade de meios de produção (Marx), ou na propriedade de meios de produção conjugada com o acesso à educação (Bakunin). Tão impactante foi essa descoberta que mesmo na sociologia acadêmica a propriedade de meios de produção foi incorporada como critério distintivo das classes sociais, mesmo quando “temperada” pelo prestígio social (como em Max Weber – que nada tem a ver com a estratificação por renda, como habitualmente se pensa).

A renda das classes sociais, assim como sua capacidade de consumir, encontra sua origem e justificativa no seu lugar no processo produtivo global, e portanto na luta de classes. Já o contrário é impossível. Um trabalhador que ganhe o suficiente para contratar serviços pessoais ou domésticos pode viver da ilusão que isso faz dele um capitalista – mas nunca o será. Qualquer trabalhador contratado para prestar habitualmente tais serviços, especialmente quando eles reproduzem formas sociais pré-capitalistas de trabalho, sentirá que esse patrão é um capitalista – no que também se enganará. (Voltarei a este assunto mais à frente.)

Apesar de a concepção moderna das classes sociais ter surgido nos meios revolucionários, ainda há enorme confusão nestes mesmos meios sobre quais determinações diferenciam uma classe social da outra, em especial quando a diferença de fortunas entra na mistura: ela oculta o lugar onde se produz a contradição entre classes, e dificulta estabelecer as pontes de solidariedade entre setores diferentes da classe trabalhadora. A situação fica ainda pior quando essa confusão opera junto com a ideologia dos “privilégios”, apesar de nem sempre essa confluência ocorrer.

O último pressuposto tem a ver com a formação de consciências pela prática de trabalho. O trabalho em profissões cujos locais de trabalho ou concentram poucos profissionais, ou concentram muitos profissionais com “renda” ou “padrões de consumo” diferentes, ou mesmo em profissões onde não há um local de trabalho físico a concentrar trabalhadores, este trabalho condiciona certos militantes que nele trabalham a ver no “território” (ou seja, na “quebrada”, na “comunidade”, no “quilombo” etc.) o único lugar onde construir laços de solidariedade que podem, eventualmente, assumir caráter militante.

Sim, de fato, é possível construir militâncias baseadas em territórios. Negá-lo seria perda de tempo. Mas ao dissociar-se das lutas contra a exploração, essa militância transforma-se em “bairrismo”, em “quebradismo”, em “periferismo”, ou como queiram chamar. Transforma-se em mais uma identidade, desta vez radicada na “pertença” a um dado território. As péssimas condições de vida nos bairros de trabalhadores não são mais tomadas como decorrência da materialização das relações de exploração no espaço, mas como ponto de partida. Não se mora em bairros com péssimas condições porque os capitalistas, por serem capitalistas, mobilizam todos os seus poderes para conquistar os melhores lugares, ou para construir lugares melhores, deixando aos trabalhadores todo o resto; mora-se lá porque é-se de lá, e pronto. De onde venho, essa “pertença” me impediu várias vezes de visitar amigos em bairros vizinhos, porque para gente do nosso bairro entrar nos bairros desses meus amigos era uma condenação ao espancamento, e em casos extremos à morte.

Mas é de se perguntar: não estariam assim os defensores da “ida à periferia”, da “ida à natureza” ou da “centralidade do conflito” evitando as lutas existentes em seus próprios locais de trabalho, em seus próprios bairros? Não seria a aspiração à participação em lutas em outros lugares uma “fuga” daquelas que se pode travar em seu próprio lugar? Não seria essa ansiedade por encontrar os lugares onde há “conflitos” um reconhecimento da própria impotência para construir as lutas que se pode travar ali mesmo onde se trabalha? É talvez essa busca frenética pelas categorias profissionais ou pelos lugares onde há mais “conflito” que tornaram infensos aos conflitos tanto certas categorias profissionais quanto certos lugares.

Esse descolamento entre exploração econômica e formação de territórios tem o mesmo efeito tanto para a “quebrada” quanto para a “natureza” – mas desse último caso falarei mais adiante.

2.

Estabelecidos os pressupostos do debate, comento a seguir num só fôlego as muitas intervenções que fazem uma oposição artificial entre dois momentos da luta de classes: os conflitos de todos os dias, que opõem os trabalhadores àqueles que exploram seu trabalho, e as lutas abertas, intensas, violentas. Meu argumento é de que não se pode “decretar” a “centralidade” de um ou de outro aspecto sem tirar do centro o que realmente deveria ser central: a experiência no trabalho coletivo, cooperativo, associado. De igual modo, é esta experiência quem evidencia o caráter estritamente ideológico da “volta à natureza”, porque sua complexidade, tal como sua plena inserção em formas capitalistas de produção, é ocultada sob palavras de ordem “revolucionárias” muito enganadoras.

“Trabalho”, se levarmos as coisas até as últimas consequências, se formos apagando as diferenças pouco a pouco até chegarmos ao que todos os trabalhadores realmente têm em comum em seus muitos trabalhos, é uma atividade produtiva, adequada a determinado fim e que adapta certos elementos da natureza às necessidades particulares da humanidade. Para onde quer que se olhe, se encontrará o mesmo: o intercâmbio material entre a humanidade e a natureza, ou seja, uma atividade produtiva; a adequação desse intercâmbio material a determinada finalidade, adaptando-lhe aquela porção da natureza envolvida nesse intercâmbio; e o atendimento de uma necessidade humana por meio desse intercâmbio adequado a um fim.

Nesse nível mais abstrato, é o trabalho quem permite colocar na mesma classe trabalhadores tão distintos quanto uma confeiteira, um eletricista, um entregador e um engenheiro químico. Mas o trabalho, sozinho, não é suficiente para entender a formação de uma classe social. Há outras determinações a observar, como a presença e a intensidade da cooperação nos processos de trabalho de cada setor. Essa determinação tem consequências políticas importantes, e precisa ser mais bem explicitada.

Tomem o exemplo de uma contadora recentemente desempregada que resolveu fazer bolos para vender. Se os bolos são bons e a propaganda é boa, cresce a procura, e ela, sozinha, não dá mais conta da produção. Tem de chamar alguém para trabalhar junto. Tomem agora o exemplo de uma costureira que passou a costurar máscaras nos primeiros meses da pandemia, para não ficar sem trabalho. Deu para suportar os primeiros meses, e como passou a atender pedidos pelo Whatsapp, ela resolveu oferecer também vestidos, saias e blusas sob medida, e os pedidos começaram a chegar. Novamente, fez-se necessário chamar alguém para ajudar: a vizinha da rua de trás, uma sobrinha, qualquer pessoa. Não importa, aqui, se esses que vieram ajudar na produção o fazem como um favor, como sócios ou como trabalhadores assalariados; importa é perceber a necessidade de aumentar o volume da produção por meio do aumento de pessoas engajadas no processo produtivo: trabalhar junto, trabalhar com alguém, trabalhar em cooperação, aumenta a produtividade. Não só isso: a depender de com quem se trabalha e como se trabalha, o trabalho rende mais.

Ocorre que esta é uma cooperação simples: muitas pessoas fazendo as mesmas tarefas.

Veja-se agora o exemplo de um eletricista autônomo. Claro, ele poderá consertar a instalação elétrica de uma casa, e poderá mesmo trabalhar com mais um ou dois aprendizes, mas essas pequenas equipes nunca conseguirão, sozinhas, produzir a energia elétrica ou distribuí-la para seus consumidores finais. Vale o mesmo para o encanador quanto à rede de abastecimento de água, a enfermeira quanto a certos cuidados mais complexos com a saúde, a professora quanto ao processo pedagógico integralmente considerado… Há certos trabalhos impossíveis de se desenvolver a contento sem algum nível de cooperação mais complexa entre trabalhadores com diversas especialidades.

Esta cooperação mais complexa, no capitalismo, pode-se dizer que funciona mediante dois pressupostos. Primeiro: nas empresas, não foi com recursos dos próprios trabalhadores que eles foram postos a trabalhar juntos, mas sim porque o capitalista, dispondo de recursos aptos a transformar em capital, comprou todas as instalações, as ferramentas, as matérias-primas e os estoques, e comprou também a força de trabalho dos trabalhadores pelo preço do seu salário. A descrição não é a mais exata, mas é mais ou menos isso. Ele é dono, e portanto, pelas leis de hoje, ele pode exigir que se faça isso ou aquilo, e ainda pode ficar com tudo o que os trabalhadores produzem. Daí vem o segundo pressuposto: como o capitalista é dono disso tudo, ele pode ou supervisionar o trabalho diretamente, ou contratar uma porrada de gente para fazer esse serviço. Toda aquela força produtiva, todo aquele poder, tudo o que resulta daquele trabalho em cooperação, ou seja, todos aqueles ganhos de produtividade, tudo isso é direcionado como um “plus” para o patrão por meio do trabalho da apropriação do trabalho coletivo.

Sem algum nível de cooperação no trabalho, é impossível manter uma sociedade complexa como a nossa. Mesmo nas menores cidades do interior, mesmo nas roças mais isoladas, existe algum nível de cooperação no trabalho. É aí que reside a força de todos os trabalhadores. A força dos trabalhadores no capitalismo, o que aterroriza os patrões, é o fato de que eles, os patrões, só existem enquanto tal por causa desse trabalho associado, desse trabalho em cooperação. Eles só são patrões enquanto, além de explorar o trabalho dessa coletividade de trabalhadores, supervisionarem tal exploração, ou contratarem quem o faça em seu nome. Se pararem com a exploração, viram qualquer outra coisa – menos patrões. Patrão de grande empresa, patrão de pequena empresa, patrão de microempresa, todos têm esse medo em comum. É de interesse dos patrões desenvolver todos os meios possíveis para quebrar, nos trabalhadores, a consciência a respeito desse trabalho em comum, e a respeito do poder dos trabalhadores quando trabalham em comum. Sem retomar na prática esse vínculo com essas práticas coletivas, com esse trabalho associado, não há mudança possível.

A meu ver, está aqui o ponto cego que põe no mesmo campo posturas tão diferentes quanto a “volta à natureza” e a “centralidade do conflito”.

A primeira mascara sob uma utopia agropastoril um trabalho extremamente complexo como o trabalho agrícola, idolatra a figura do camponês sem dar a menor noção da complexidade de mecanismos de mercado e de “políticas públicas” que envolve o trabalho nessas pequenas indústrias semicooperativadas construídas nas experiências mais “exitosas” da luta pela terra.

A segunda aposta em momentos episódicos das lutas de trabalhadores, especialmente nas “revoltas contra o Estado” que enxergam a cada revolta parcelar, sem dar a devida atenção seja às lutas que envolvem o cotidiano da exploração no trabalho associado, seja às formas que os trabalhadores encontram para produzir valor para si próprios.

Tratarei mais extensamente desses dois assuntos na semana que vem.

As esculturas que ilustram o artigo são de León Ferrari (1920 – 2013)




Fonte: Passapalavra.info