Maio 13, 2021
Do Passa Palavra
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Por Sódio

3.
Vamos ao primeiro ponto cego, o da “volta à natureza” que não existe mais.

Ressalvadas as enormes e pouco povoadas áreas da selva amazônica e partes do cerrado, os “sertões” brasileiros também são bastante urbanizados. Quase não há mais o estilo de vida rural, absolutamente rural, que certos defensores da “volta ao campo” defendem. Já nos anos 1980 Milton Santos, que com certeza entendia do que falava, dizia não existir mais no Brasil algo como um “rural” separado de um “urbano”, mas sim cidades agrícolas, dependentes da economia agrária, e sobrevivências rurais nas metrópoles (p. ex., minha vizinha do fundo que cria galinhas, ou as hortas comunitárias em certos bairros de trabalhadores).

Especialmente nas cidades ligadas ao agronegócio, e mesmo naquelas que estão nas últimas pontas da rede urbana brasileira, encontram-se já os principais serviços urbanos (esgotamento sanitário, pavimentação, iluminação pública, SUS, INSS, sindicatos etc.); é muito forte a tendência à substituição dos veículos de tração animal por veículos motorizados, especialmente motos e camionetes, reservados aqueles primeiros a eventos “culturais” específicos (vaquejadas, festas do carro do boi etc.); poderia continuar com vários exemplos, mas a tendência está bem demonstrada.

Não há somente a chegada destes elementos de urbanidade, como há fortíssima demanda dos moradores destas cidades por estes serviços, pautada inclusive por movimentos sociais ligados à reforma agrária. Por sinal, mesmo nos bastiões da agroecologia ninguém recusa tecnologias como eletrificação rural, sinal de celular, internet rural, smartphones, veículos motorizados, TV a satélite e frigoríficos; a agroecologia, a produção de orgânicos, está muito restrita ao campo das técnicas de produção, sendo absolutamente excepcionais os casos em que essa “vida com a natureza” implica em alguma recusa das tecnologias de ponta.

A “soberania”, nestes casos, mantém-se restrita ao compartilhamento de sementes crioulas (ou seja, sem a esterilização e demais modificações genéticas laboratoriais necessárias ao uso de certos agrotóxicos), à produção de orgânicos (de inegável qualidade, mas com preço bem mais alto que os “industrializados”), e à participação em programas de escoamento da produção (como o Programa Nacional de Alimentação Escolar — PNAE ou o Programa de Aquisição de Alimentos — PAA) que suavizam a baixa competitividade da agricultura familiar orgânica frente ao agronegócio. Em todos os demais aspectos da vida, segue-se a rotina de qualquer cidadão.

É neste “rural” altamente complexo, onde um capitalismo de pequenos produtores rurais se desenvolve em meio aos assentamentos da reforma agrária, que certa militância parece querer se integrar, quaisquer que sejam os discursos sobre “natureza”, “terra” e “território”. Não se deve, portanto, misturar essa ideologia da “volta à natureza” com aquela professada, por exemplo, pela ecologia profunda, ou pelos anarcoprimitivistas. Cumprem as três a mesma tarefa de ocultação, mas a realidade prática a que remetem é ligeiramente diferente: nas duas últimas o que se vê é um retorno a formas pré-capitalistas de vida social, “ilhas” “libertadas” completamente cercadas de capitalismo por todos os lados, mas na primeira a integração com o capitalismo é total.

Deve-se adicionar ainda um último fator a esta questão.

O comentador que assina como arkx Brasil insiste no fato, aliás inegável, de a população brasileira ter migrado maciçamente para as cidades desde pelo menos os anos 1940. Apresenta tal fato, inegável, como “prova” da “urbanização forçada” da população brasileira.

O recorte temporal escolhido é muito conveniente, porque só no censo demográfico brasileiro de 1940 se pôde avaliar o impacto da industrialização de base implementada pelo regime varguista. Entretanto, as estatísticas brasileiras demonstram existir migração dos campos para as cidades desde pelo menos 1900 ou mesmo antes, pois com a abolição da escravatura verificou-se que migrações internas provocaram crescimento populacional nas capitais (às quais se restringiam as pesquisas censitárias); este fato verifica-se facilmente analisando a taxa de urbanização verificada nos censos populacionais brasileiros de 1872, 1890, 1900 e 1920. Desde antes da industrialização maciça, portanto, existe migração do campo para as cidades; a industrialização varguista intensificou a tendência, mas não inventou nada.

Aliás, há ainda outra tendência demográfica gritante que o comentador, muito convenientemente, omite: desde o censo demográfico brasileiro de 1980 pelo menos, é nas cidades de pequeno e médio porte que se verificam sustentadamente as maiores taxas de crescimento demográfico, não nas grandes metrópoles, cujas taxas de crescimento demográfico mostram-se menores a cada novo censo, ao ponto de representarem quase uma estagnação populacional. Parece, portanto, que este comentador quer dar ares “revolucionários” a uma tendência demográfica bem conhecida dos geógrafos, mas atribuída por eles ao simples fato de que as pessoas querem encontrar nessas cidades de menor porte as mesmas comodidades e serviços das grandes metrópoles, sem ter de arcar com os problemas que lhe são próprios.

Quero adicionar algo ao contributo de Estrôncio acerca da “volta ao campo”, para arrematar a questão neste particular. Estrôncio joga na conta do maoísmo o verdadeiro fascínio pelas “camadas mais miseráveis da mais-valia absoluta”, pela “busca da mais-valia absolutíssima” que leva militantes a centrar sua militância “exclusivamente nas camadas mais pobres e menos qualificadas da classe trabalhadora”.

Como o Brasil está no mundo, mas não se dissolve completamente no mundo, há um fator diferencial a se considerar na construção desses mitos por trás da “recampesinação” — neologismo tão feio que prefiro continuar a chamar o fenômeno pela expressão “volta ao campo” ou similares. Este fator é a fortíssima influência do cristianismo, e em especial do catolicismo, sobre a esquerda brasileira (e latinoamericana), muito maior que a influência maoísta. Se a velha esquerda comunista no Brasil devia muito de suas práticas ao tenentismo e aos militares, a esquerda surgida de meados dos anos 1970 em diante no Brasil tem inegável raiz cristã e católica. O problema geral, neste caso, só aparece quando se compara muitos problemas específicos.

Se a absorção da maioria da juventude católica da Ação Popular — AP pelo PCdoB maoísta dos anos 1970, feita por ordens de Pequim, não é suficiente para dizer algo sobre essa relação, recomendo procurar o livro O partido de Deus, de Luís Mir; se o autor erra e exagera muito ao descrever o PT como mero instrumento político da CNBB, o decidido apoio da CNBB à formação do PT somado ao fato de o grosso dos primeiros diretórios do PT ter sido formado a partir de pastorais e de CEBs, sintomatizam o peso que o apego da teologia da libertação ao “pobre”, e à identificação do “trabalhador” com o “pobre”, tiveram sobre a formação da esquerda brasileira. Isso, e as muitas pastorais sociais espalhadas país adentro, que graças à estrutura das dioceses e paróquias chegam a lugares onde a esquerda laica nunca colocou os pés.

Some-se a isso a extrema deficiência do sistema educacional brasileiro, que não consegue desenvolver entre os estudantes o tipo de leitura científica da realidade que está na base da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e portanto deixa a porta aberta para explicações místicas e mágicas da realidade, e temos um cenário perfeito para o desenvolvimento do tipo de concepções de “volta à natureza” que grassam em certos meios.

Comparadas as situações brasileira e europeia, vez que o Brasil está no mundo, diria que o maoísmo europeu e a esquerda católica são as matrizes estranhamente convergentes dessa substituição do “trabalhador” pelo “pobre”.

Quais as consequências dessa confusão entre “trabalhador” e “pobre”?

Tratamos de algumas em momentos anteriores, mas, retornando ao caso brasileiro, que conheço mais de perto, por meio dessa confusão o “pobre” é transformado numa espécie de “clientela”. Esses que foram até o “pobre” transformam-se, com o tempo, ora em intermediadores da relação entre esses “pobres” e o Estado, potencializando assim futuras carreiras político-eleitorais, ora em “lideranças” a serem reconhecidas entre seus pares (outras “lideranças”, jamais os outros “pobres”), ora em pequenos gestores.

Quando essa confusão se dá em conjunto com a “volta ao campo”, o que se tem aí é gente com todas as qualificações profissionais e intelectuais adquiridas nas cidades, onde há um meio social e tecnológico muito mais desenvolvido, radicando-se num ambiente onde este meio é tecnologicamente atrasado; o efeito é o mesmo, mas ultrapassa o âmbito dos movimentos sociais e alcança outras relações sociais travadas naqueles lugares.

4.
Vamos ao segundo ponto cego, o da “centralidade dos conflitos” em contraposição à centralidade do trabalho, em especial do trabalho associado, do trabalho em cooperação.

Num comentário cheio de frases sobre o “abstrato” e o “concreto”, sobre “negações abstratas” e “negações determinadas” — a indicar que se trata de comentador muito bem instruído no vocabulário filosófico do marxismo — lê-se uma cobrança: “Qual a forma de conflito de classe que vocês ‘imaginam’ como central hoje? Porque isto vocês não respondem (sequer esboçam). Vamos discutir nesses termos, ao invés de ficar jogando palavras vazias ao vento.” O caso é que, momentos antes, todo esse vocabulário é jogado fora numa só frase: “o que significa dizer que é necessário imaginar um novo mundo a partir de elementos do mundo atual?”

Esta última frase parece demonstrar que o comentarista conhece bem o vocabulário filosófico do marxismo, mas parou por aí. Lançou-se fora com aquela frase toda a análise de Marx sobre o caráter cada vez mais coletivo, cooperativo e associado do trabalho sob o capitalismo — que Marx, na verdade, deve a Proudhon sem creditá-lo adequadamente, e os dois devem-na a todo o movimento operário. São sumariamente eliminadas do horizonte as muitas e bem determinadas formas do trabalho coletivo, cooperativo e associado, estes “elementos do mundo atual” sobre os quais é possível e necessário “imaginar um novo mundo”.

Digamos que o comentário busque apenas indagar do coletivo do Passa Palavra, contra quem ele se dirige, qual conflito é “central” neste momento, no sentido de “mais importante”. Parece ser este o sentido de outra indagação: “O problema de vocês com os defensores da centralidade do conflito gira mais em torno da definição dos conflitos que interessam, atualmente, e também o modo de concebê-los etc”. Esta posição se conhece pelos editoriais assinados pelo coletivo; cabe concordar com eles ou não, mas não se pode dizer que o coletivo não se posicionou.

Digamos, para seguir no debate, que o comentário busque interpelar um público mais amplo, além do coletivo do Passa Palavra. Só então eu diria que a posição do comentarista é profundamente equivocada. Tal como certas organizações revolucionárias do passado, busca um conflito mais “central”, mais capaz de atingir o “coração” do capitalismo, para lá concentrar suas energias, ou seja, seus militantes e seus parcos recursos. Se essa tática podia fazer algum sentido até meados do século XX, quando a paralisação de dada fábrica ou setor tinha enorme influência na economia como um todo, no atual momento, em que a produção é intensamente globalizada e mesmo os lazeres são produzidos obedecendo a critérios capitalistas, esta busca por uma “centralidade” perdeu completamente o sentido; pode-se encontrar luta de classes tanto nas formas mais “clássicas” de produção capitalista quanto em outras que mesmo num passado recente dificilmente se enquadrariam aí. A posição revela-se ainda mais equivocada se abordada por um outro lado: se se entende como “central” uma luta que se deve ter como uma espécie de “modelo”, como as “formas avançadas de associação e sociabilidade” aludidas no comentário, trata-se da busca por uma transposição “mecanicista”, aliás “abstrata”, das condições de um lugar para outro, de um ramo de trabalho para o outro, de um tempo para o outro…

Tal posição da “centralidade do conflito” se revela ainda mais curiosa quando outro comentarista que com ela converge estabelece uma oposição entre tal postura e o que ele chama de “construção de bolhas de autocuidado” durante a pandemia nas cidades brasileiras. De onde vejo as coisas, esse autocuidado resultou de lutas.

Primeiro, houve lutas para que os capitalistas retardatários, numericamente majoritários, fechassem suas portas para respeitar as medidas de isolamento sanitário. A chamada “greve sanitária” foi apenas uma entre as muitas formas observadas naquele momento dos conflitos, que envolveram também absenteísmo, atestados médicos e, claro, ameaças de espancamento dos patrões em casos isolados. Houve momentos em que mesmo camelôs e ambulantes, premidos a trabalhar pela extrema necessidade, precisaram parar por força da redução acentuada no fluxo de pedestres. (Esse “conflito entre trabalhadores” merecerá comentário mais detalhado em algum momento.) Tais lutas pressionaram esses capitalistas retardatários, e também aqueles mais avançados, a transferir para o governo federal a responsabilidade pelo pagamento de salários e de auxílios.

Segundo, houve lutas para que o isolamento social em certas comunidades fosse respeitado. Em especial naquelas localidades cuja economia depende do turismo e do lazer alheio, houve o erguimento de barreiras sanitárias organizadas pela própria comunidade, que voltam a ser erguidas a cada nova onda de contaminação.

Terceiro, houve lutas dos trabalhadores dos chamados “serviços essenciais”, abrangendo desde o respeito às medidas sanitárias e demandas represadas por melhores condições de trabalho e de pagamento, até a paralisação total das atividades. As greves sanitárias dos trabalhadores do teleatendimento, dos metrôs e o “breque dos apps” devem ser vistas aqui, como parte das lutas que ora convergem em torno das questões sanitárias, ora aproveitam o momento para arrancar conquistas dos capitalistas. Com a pressão pelo retorno do ensino presencial, mesmo os trabalhadores da educação, que de início mostraram-se avessos à implementação do ensino remoto, hoje defendem abertamente as greves sanitárias — contando, talvez de modo inédito, com o apoio da maioria dos pais, especialmente em escolas públicas.

A preservação de suas vidas e saúde, como se vê, não ocorre apenas por meio dos cuidados individuais, de “bolhas de autocuidado”. Não há contradição alguma entre lutas anticapitalistas e lutas pela preservação das vidas e da saúde dos trabalhadores, em especial no contexto de epidemias e pandemias; há, isto sim, um contínuo que vai desde os cuidados com a saúde pessoal e familiar até lutas mais amplas. O que os defensores da “centralidade do conflito” perdem é exatamente este fio de Ariadne, e por isso circulam de luta em luta, de conflito em conflito, tentando “acendê-los”, “animá-los”, acirrá-los. Este fio só se recupera conhecendo intimamente a relação entre os conflitos mais abertos e aqueles mais silenciosos, onde se vão gestando as contradições que só parecem existir quando irrompem aquelas lutas mais pujantes. Sem tal fio condutor, há enorme risco nessa postura: tomar-se a si próprios não como alguns trabalhadores em meio a outros, mas como a “vanguarda proletária”. Mesmo por caminhos diversos, não faltam exemplos históricos do isolamento a que se condena essa “vanguarda proletária”, qualquer que seja o nome que se lhe dê: bordiguismo, a “esquerda comunista” francesa, o insurrecionarismo anarquista…

Se as “formas avançadas de associação e sociabilidade” algum dia existiram e decerto voltarão a existir, é porque precederam-nas outras, tão avançadas quanto, construídas nessas contradições aparentemente “menores” hoje a se espalhar e se intensificar em todos os setores por onde se imiscui a mercantilização da vida social. Tais condições só se observam adequadamente ao se analisar as formas de trabalho coletivo, cooperativo e associado existentes sob o capitalismo; por que formas os capitalistas extraem aí a mais-valia e acumulam capital; que conflitos emergem nos processos de trabalho em cada forma; e o que é necessário fazer para libertar da exploração capitalista o trabalho coletivo, cooperativo e associado executado pelos trabalhadores.

Não é questão de conhecer aprofundadamente cada ramo, cada processo de trabalho, cada forma de exploração, porque não se espera de ninguém conhecimento enciclopédico. Deve-se, entretanto, conhecer amiudadamente os processos de trabalho em que se está inserido para aí fortalecer as lutas anticapitalistas. Deve-se igualmente conhecer os processos de trabalho que contribuem para a reprodução da própria força de trabalho, e buscar solidarizar-se na prática com as lutas aí travadas.

É na “cozinha” dos conflitos em torno desse trabalho coletivo, cooperativo e associado que aparecem primeiro os elementos que nos permitem “imaginar um novo mundo a partir de elementos do mundo atual”, ou mesmo as “revoltas contra o Estado” que os defensores da “centralidade do conflito” enxergam lá onde sequer a questão foi pautada. Não é tarefa simples. Trabalho paciente, coletivo e continuado, exige perceber o que vai por trás das explosões de revolta; implicar-se na construção cotidiana daquelas “formas avançadas de associação e sociabilidade” lá onde elas são realmente gestadas; e ligá-las onde estiverem distantes.

Para arrematar a questão quanto aos defensores da “centralidade do conflito”, remeto primeiramente a uma afirmação de Argônio: “Existe de parte da esquerda uma ignorância dos mecanismos de exploração no capitalismo, e tendem a ver esses [os trabalhadores mais pobres] como os mais explorados e, portanto, como os mais potencialmente revolucionários.” Para essa “ignorância”, muito mais próxima dos defensores da “centralidade do conflito” que dos defensores da “volta à natureza”, convergem bordiguismo, “comunismo de esquerda”, maoísmo europeu, esquerda católica, confusão entre classes sociais e poder de consumo e, além disso, puro voluntarismo, ou seja, a perspectiva da “ação pela ação” sem considerações de maior envergadura sobre o sentido desta ação.

Qualquer ação coletiva um pouco mais radicalizada é entendida pelos setores influenciados por esta ideologia como uma “revolta contra o Estado”, e a ação mais violenta de setores inseridos em movimentos de massa é entendida como representativa do estado de ideias desses movimentos como um todo. Se há, realmente, uma tendência entre alguns dos mais jovens desses “pobres” “mais explorados” a ações mais radicais, qualquer nova situação que implique em alguma estabilização apaga muito rapidamente este “fogo” revolucionário. Conheço muitos que ao se casarem, ou ao terem filhos, passam a priorizar a sobrevivência em vez das “ações radicais”. Não por outra razão, especialmente em meio a movimentos sociais urbanos, grande número de jovens trabalhadores são envolvidos em todo o seu tempo livre por ações de formação política; além do objetivo evidente de transmitir conhecimentos aos mais jovens, seus pais não têm pudores de afirmar que concordavam que os jovens participassem dessas atividades para assim “ocupar o tempo” e, consequentemente, “não entrarem para o crime”, única atividade “radical” o suficiente para eles.

Os apontamentos de Hélio sobre o “esgotamento” da autogestão levam à seguinte reflexão: quando a autogestão é virada “para o grupo”, não para a sociedade, transforma-se em política de grupúsculos, em “coletivos”. Se até este ponto a crítica já foi feita, e não além daí, é porque talvez não estivessem dados outros elementos de que hoje dispomos em maior abundância: o alastramento das redes sociais por meio do barateamento dos smartphones, o surgimento dos “influenciadores militantes”, a redução dos debates políticos à “lacração” etc. Essa autogestão “virada para o grupo” é uma das razões para o sucesso dos “influenciadores militantes” que apresentam alguma leitura da realidade menos imediata: não dispondo das ferramentas teóricas e práticas para ler a realidade à sua volta, porque presos no narcisismo de grupúsculos, os militantes que anteriormente “acreditaram” na autogestão agora voltam-se para a “centralidade do conflito”, para as alternativas “comunitárias”, para o neostalinismo. Como se isso tudo fosse novidade, como se cada uma dessas “novidades” nunca houvesse ocorrido antes, como se essas “novas” coisas em que “acreditar” não tivessem História.

Pensando no que Selênio apresenta, o “medo” dos defensores da “centralidade do conflito” em “parecerem reformistas” é importante, mas secundário. Esse “medo” tem muito maior relevância para as psiques que para a caracterização de uma ação coletiva. O aspecto central da situação, a meu ver, é a tendência, apontada por Selênio, de viverem atrás dos setores “mais propensos a grandes revoltas”. É como se vivessem “testando” os limites da ação em cada setor, e consolidassem-se naqueles onde podem ter maior influência.

Neste mesmo sentido uma intervenção de Argônio, para a qual chamo a atenção: “Os grupos inseridos de forma mais precária na estrutura capitalista também não estão tão inseridos nas estruturas de cooptação, não existe uma atividade sindical tão forte ou uma troca tão grande entre trabalhadores e gestores. Isso deixa um espaço político para a atuação aí que não se encontra entre outros setores”. Lá onde há uma estrutura sindical consolidada e um grupo mais ou menos homogêneo de sindicalistas/gestores, é muito mais difícil atuar de forma revolucionária, pois, graças ao hábito de aguardar a iniciativa sindical para qualquer ação, há a tendência de a categoria voltar-se para o sindicato em momentos de crise, e pressionar um sindicato a adotar tal ou qual postura é enfrentar tanto os patrões quanto a própria burocracia sindical. Também eu atuei tentando contribuir com a formação de uma oposição sindical entre professores durante um tempo, e sei das dificuldades. Por sua vez, lá onde essa estrutura e esse grupo não estão consolidados, pode ser difícil mobilizar, mas há apenas um adversário consolidado (os patrões), não dois (patrões/burocracia sindical).

***

Descontados esses primeiros comentários, que dizem respeito às duas questões centrais em torno das quais o debate foi inicialmente travado, há ainda outras a tratar, como a dos “trabalhadores que exploram trabalhadores” e a da influência das universidades sobre a preferência de certos militantes pela atuação nos meios onde vigora a “mais-valia absolutíssima”, a serem vistas na semana que vem.

Ilustram este artigo obras de Adja Yunkers (1900-1983).

Leia a primeira parte aqui.




Fonte: Passapalavra.info