Abril 29, 2021
Do Passa Palavra
256 visualizações


Por Passa Palavra

Um debate ocorrido recentemente na seção de comentários do Passa Palavra prolongou-se no interior do coletivo. Decidimos torná-lo público, na expectativa de que estimule novas reflexões.

Estrôncio: A propósito daquele menino que quer regressar ao Brasil agrário, e também a propósito dos outros meninos e meninas que querem dizer onde fica a “centralidade do conflito”, e a propósito e a propósito, porque a série é infindável, reparem que eles restringem o proletariado aos favelados mais pobres. Para eles, classe trabalhadora = vítimas da mais-valia absoluta. Daqui decorrem imediatamente três resultados: 1) ignoram a complexidade orgânica da classe trabalhadora, que vai desde esses favelados até aos especialistas mais qualificados; 2) consideram que o capitalismo é incapaz de qualquer desenvolvimento e só cria miséria; 3) são incapazes de propor uma alternativa eficaz ao capitalismo.

Estes três aspectos têm sido abundantemente tratados no Passa Palavra, de variadas maneiras e sob diversas perspectivas. Mas para aprofundar a crítica é necessário entendermos o seguinte. Que motivo leva esses meninos e meninas a centrarem a sua militância exclusivamente nas camadas mais pobres e menos qualificadas da classe trabalhadora? Que motivo os leva a encontrar aí a sua única base social? É esta a reflexão que proponho.

Selênio: Quem defende o regresso ao Brasil agrário parece que é um grupelho sem muito palco. Já os outros, acho que o buraco é mais embaixo. As apostas são em surfar nas revoltas explosivas, e as tentativas de conversas que não resultem imediatamente de chamados para manifestações são consideradas práticas “clientelistas” ou “gestoriais”. As tentativas micro de auto-organização são nomeadas de “gestão da barbárie” porque não estimulam o conflito (aquele que seria central para os revolucionários). Por isso o auto-cuidado é chamado de “franciscano”. Eu diria que é pior que um erro de composição de classe, é um erro de norte político. É a aposta numa guerra social na qual se abandona os abatidos. Já chegaram a acusar camaradas preocupados com os auto-cuidados na pandemia de se focarem em “contar os corpos”, quando é justamente isso o que eu acho o que devemos fazer — contar os corpos e politizar cada uma dessas mortes.

Estrôncio: Mas a minha questão consiste em saber o que leva esse tipo de militantes a procurar como base de apoio social exclusiva as camadas mais degradadas da mais-valia absoluta. Não estou a sonhar acordado nem a fazer perguntas ociosas, porque este é um problema crucial se quisermos entender as razões profundas desse tipo de actuação política. Tenho pensado muito na questão e não consigo avançar além de algumas correlações.

Argônio: Me parece que existe uma questão dupla. Os grupos inseridos de forma mais precária na estrutura capitalista também não estão tão inseridos nas estruturas de cooptação, não existe uma atividade sindical tão forte ou uma troca tão grande entre trabalhadores e gestores. Isso deixa um espaço político para a atuação aí, que não se encontra em outros setores.

Existe de parte da esquerda uma ignorância dos mecanismos de exploração no capitalismo, e tendem a ver esses como os mais explorados e, portanto, como os mais potencialmente revolucionários. Ao mesmo tempo essa atuação faz um certo controponto à idealização do operário fabril como único sujeito revolucionário. Também é nesse setor que a “oposição ao capitalismo” aparece de forma mais violenta, o que dá para alguns a impressão de que é o lugar onde o conflito ocorre.

Cádmio: Certamente é um assunto que me preocupa e imagino que preocupe outros camaradas. Sempre achei que tinha a ver com uma reminiscência cristã que confere uma maior legitimidade social à ação e ao militante, somado a uma confusão entre exploração e miséria.

Mas isto é suficiente para explicar? Certamente não, mas é algo que me orienta.

Irídio: Para além do que foi escrito por Argônio e Cádmio, eu acho que existe aí também uma contribuição importante das universidades. Há já algumas décadas, nos departamentos de ciências humanas, tem havido um estímulo, cada vez mais intenso, para que as pesquisas tenham como objeto prioritário a atuação de grupos sociais sujeitos a condições de vida o mais precárias possível, e estes são invariavelmente as vítimas da mais-valia absoluta, que por isso mesmo se localizam, no geral, nas periferias. E como, para muitos, a militância política passa pelos departamentos universitários, ou para eles converge, o que abrange partidos, sindicatos e movimentos sociais — há aí uma tripla oportunidade, de inserção das pautas dessas organizações no meio universitário, de cooptação de estudantes e professores e de estabelecimento de elos com aqueles grupos sociais mais periféricos, a partir do contato com universitários vindos desses meios, explorando condições estabelecidas pelas transformações operadas pelos governos petistas nas instituições de ensino superior —, essa tendência é ainda mais reforçada. Essas organizações e as suas dissidências tendem a levar adiante esse mesmo enfoque, cada uma à sua maneira; estas últimas buscam desenvolver uma militância nas periferias à revelia das lideranças tradicionais. E, por outro lado, a crise por que passam partidos, sindicatos e movimentos sociais, sua degenerescência, etc., reforçam essa mesma tendência, que se expressa ideologicamente por meio da crítica à atuação dessas organizações, como se sua crise pudesse ser reduzida a um enfoque equivocado, ignorando ou dando pouca importância ao cotidiano das vítimas periféricas da mais-valia absoluta. Daí para a esquerda libertária, de um lado, e para o identitarismo e a ecologia, de outro (porque a periferia mais periférica que a urbana é certamente a rural), é apenas um degrau.

Hélio: Me aventuro em algo um pouco mais especulativo. Tanto a fuga à ruralidade como o niilismo da centralidade do conflito parecem apontar a uma falta de imaginação, que seria necessária para poder vislumbrar um novo mundo a partir de apenas elementos, às vezes fugazes e frágeis, do atual. Em lugar de apropriar-se do processo de produção, numa perspectiva social, existe uma recusa. Claro que isso não vem do nada, vem de derrotas e experiências concretas que apontam os limites da autogestão, dos espaços e das organizações de classe sedimentadas e institucionalizadas. Só acho que, assim como houve um momento em que “estava na moda” na esquerda libertária a autogestão como uma fórmula, uma resposta para tudo, também se abandona e se denuncia esta (e outras) prática(s) como se sempre estivéssemos buscando fórmulas e respostas polivalentes, isto é, uma desejada ”centralidade”. Frente a isso, pareceria que o único indício concreto de luta de classes “pura”, como dejeto do capitalismo, ocorre nestes setores de fodidos e fodidas. Como se com eles e elas não houvesse chance de erro.

Acho também que se trata de não assumir riscos quando se critica tão arduamente quaisquer outras práticas. Pois, repito, a vocação para o conflito não me parece algo ruim, mas é algo péssimo quando se eleva a uma questão de “centralidade” e se passa a uma crítica de tudo o que não é espelho. Parecido com o caso destes neo-ruralistas, que não apenas defendem o retorno ao campo senão que passam a acusar todo o resto da esquerda disto e daquilo.

E não assumir riscos é também parte de não pensar o novo mundo, e as formas pelas quais poderíamos chegar a ele. Oras, se a ideia é simplesmente explodir tudo num grande atentado niilista social, a quem estamos delegando a tarefa de reorganizar tudo de uma maneira melhor? Ou apenas assumimos que quando este modo de produção colapsar, o seguinte será melhor?

Estrôncio: Todas estas contribuições, sem excepção, fazem reflectir. Mas acrescento dois problemas:

1) Como habitualmente, o Brasil não está no Brasil, está no mundo, e aqui também. Soluções especificamente brasileiras, ou mesmo latino-americanas, podem contribuir, mas são acessórias, porque a questão se coloca igualmente na Europa. Na França, onde a extrema-esquerda é não só ateia mas decididamente anti-religiosa (uma herança directa da Revolução), o problema verifica-se também, incluindo essa ida para os campos, que lá assume a forma de promoções de regionalismos e outras especificidades míticas. E o mesmo nos outros países europeus. Ora, na Europa os campos não são como os sertões do Brasil, estão completamente urbanizados e as aldeias são como minúsculas cidades, só que muito menos cómodas do que as cidades. E, no entanto, esse tipo de militantes pretende retirar-se para as aldeias e recriar aí os mitos históricos. Todos são ecológicos e agro-ecológicos, evidentemente, mas na minha opinião a ecologia para eles veio atrás da prática, como pretexto ideológico, e não constituiu o mecanismo motor. Então, o problema é geral e não específico.

E acrescento o seguinte. Nos anos 1960 nos Estados Unidos, num movimento que antecipou de alguns anos as lutas estudantis na Alemanha Federal e na França, ocorreu a mesma tendência a sair das cidades e fundar comunidades rurais de cariz religioso. A New Age tem aí as suas raízes. Mais um elemento para reflectirmos.

2) Esse tipo de prática que estamos aqui a analisar, baseada nas camadas mais miseráveis da mais-valia absoluta, está em franca oposição à tradição dos partidos comunistas, que sempre procuraram como base social o proletariado mais evoluído e instruído. Ora, quem eu primeiro vi romper com essa tradição foram os maoistas europeus na imediata sequência do Maio de 68. Por isso é indispensável, para quem estude essa época, entender a distinção que então se fazia entre maoismo e marxismo-leninismo, sendo este último uma tentativa de orientar mais à esquerda a velha tradição dos partidos comunistas. Os maoistas, pelo contrário, romperam com essa tradição e procuraram uma base social no estrato que a terminologia dessa época denominava correntemente «lumpen». Tudo o que eu vejo hoje nesse tipo de militantes nasceu no maoismo europeu pós-Maio de 68. Ora, os maoistas foram afastados do palco e já não desempenham nenhum papel, mas a geração política seguinte herdou as características mais nocivas que haviam sido iniciadas por esse maoismo. E para isso não precisou de lhes herdar a ideologia. Assumiu outra ideologia. Verificamos aqui o mesmo que se passou com a ecologia. Estas ideologias aparecem como pretextos ideológico e não como determinantes da acção. Portanto, é essa acção, essa busca da mais-valia absolutíssima, que tem de ser entendida.

Vem a propósito reproduzir o final de um artigo de João Bernardo, «Epílogo e Prefácio», publicado em 2009:
«Nos anos de 1960 e de 1970 os elementos mais aguerridos do anticapitalismo eram operários qualificados, aptos a fazerem laborar as empresas na ausência dos patrões, e estudantes para quem a cultura não era uma palavra sem significado. Apesar disto fomos considerados inimigos terríveis. Chamaram-nos violentos porque nos defendíamos da violência, violentos nós, os que lutávamos contra as guerras e contra os exércitos e as polícias. Chamaram terrorismo à desesperada acção defensiva a que alguns se sentiram obrigados a recorrer. Lutámos numa época em que existiam ainda, no Ocidente, instituições mediadoras dos conflitos e em que a democracia representativa gozava de um prestígio mensurável nas taxas de participação eleitoral, e estes dois factores contribuíram para a nossa derrota. Agora, porém, as classes dominantes apresentam-se desprovidas de biombos institucionais, que são a mais eficaz das protecções. E quem vão enfrentar? Aqueles que se têm movido nos últimos anos contra o capitalismo não são operários qualificados mas trabalhadores precários, não são estudantes letrados mas analfabetos funcionais que incluem a cultura no mesmo desprezo que sentem por tudo o resto, jovens dos subúrbios — dos subúrbios das cidades e dos subúrbios do mundo — enquadrados por mais ninguém senão por eles próprios e capazes do furor destrutivo necessário para abalar as instituições em que vivem. Será este o perfil da próxima maré de lutas sociais. A violência sem precedentes de um confronto generalizado desprovido de mediações. Terríveis, nós, os vencidos dos anos de 1970? Ouçam no YouTube as músicas que nos serviam de liturgia. Em França eram Brassens e Léo Ferré quem reverentemente escutávamos. Ouçam o canto de Nina Simone, cru pressentimento do destino da luta dos negros nos Estados Unidos, mas elevado a um plano onde o som rasgava o véu de outro horizonte. Ouçam e vejam Bob Dylan cantando Blowin’ in the wind com Joan Baez, os Freedom Singers e Peter, Paul & Mary no festival de Newport em 1963. Era um dos nossos hinos, que todos conheciam, de um e outro lado do oceano. Chamaram violência a esta candura. E o quê, agora? O que anunciam as músicas que dão voz às revoltas urbanas de hoje?»

Penso que esta continua hoje a ser a grande questão. É que com este tipo de violência e este tipo de lutas não se constrói nada, só se limpa o terreno para um populismo fascista. E a minha dúvida permanece. Porque aqueles militantes, oriundos de um meio muitíssimo diferente, escolhem essa base social?

Selênio: Lendo a discussão até aqui e pegando um gancho no comentário de Hélio, eu lembrei deste artigo que coloca o seguinte questionamento: “como era possível que os trabalhadores preferissem trabalhar em sistema de mais-valia relativa, se eram mais explorados do que no sistema de mais-valia absoluta. Pior. Como era possível que os trabalhadores lutassem por condições que, afinal, correspondiam ao desenvolvimento da mais-valia relativa. E eu respondia-lhes com outra pergunta: Vocês preferem ser torturados ou não ser?” Não me parece que o que esses militantes queiram é ser torturados, mas que o medo em parecerem reformistas é tanto que buscam os conflitos por fora de onde é acostumado se ver a assimilação por parte dos capitalistas. Ontem participei de uma discussão com alguns camaradas em que falávamos sobre a luta dos entregadores de aplicativo. Parte deles reivindica mecanismos de segurança para o trabalhador que também podem aumentar exponencialmente a margem de lucro para os aplicativos. Os capitalistas, por outro lado, não conseguem enquadrar ainda as formas de solidariedade que esses trabalhadores estabelecem na luta. Esses vínculos conspiratórios (contra os apps) tem potencial para ter vida mais prolongada que a organização de manifestações em si. Enfim, com a assimilação das pautas de luta pelos capitalistas, fica um espaço em branco para os trabalhadores decidirem o que fazer com os vínculos solidários, e é daí que pode surgir uma margem para autonomia. Enfim, por mais empobrecida que seja essa categoria, ela é atravessada também pela mais-valia relativa, o que também ocorre com outras classes (nesse caso ‘classe’ tem o sentido de disparidade de renda). Repito o que eu disse no primeiro e-mail. Não me parece que seja o caso de alguns buscarem atuar apenas com trabalhadores empobrecidos, mas com aqueles mais propensos a grandes revoltas, pois o medo de deixar-se enquadrar pela mais-valia relativa é muito grande, talvez maior do que o medo em se deixarem atropelar pelas tendências mais populistas dentro desses movimentos.

As obras utilizadas para ilustrar este artigo são de Renato Guttuso (1911-1987).




Fonte: Passapalavra.info