Dezembro 28, 2020
Do ITHA-IATH
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A Colonização está se expandindo demais, na época presente, para que anarquistas não tenham uma posição sobre essa questão. Em um tempo em que as então chamadas nações civilizadas estão disputando áreas de influência na África – em Tripolitania, no Congo, no Marrocos – dividindo as pessoas como gado, tudo isso ocultando os mais sombrios esquemas financeiros, com os pastores de pessoas sendo ninguém menos que os gerentes financeiros dos tubarões financistas, interventores de negócios desonestos, nós devemos nos erguer contra este produto híbrido de patriotismo e mercantilismo combinados – banditismo e roubo para o benefício das classes dominantes.

Um indivíduo particular entra na casa de um vizinho, quebra tudo o que coloca as mãos, desfruta de tudo o que encontra de conveniente para seu próprio proveito: ele é um criminoso; a “Sociedade” o condena. Mas se um governo se encontra preso num imobilismo por uma situação interna na qual necessita de um desvio externo, se se encontra sobrecarregado em casa com mãos desempregadas das quais não sabe como se livrar, de produtos que não podem ser distribuídos; deixe esse governo declarar guerra contra povos remotos, os quais se sabe que são fracos demais para resistir, deixe-o tomar posse do país deles, submeta-os a todo um sistema de exploração, force os seus produtos sobre eles, massacre-os se eles tentarem escapar dessa exploração que os afunda, ah e depois, isso é moral! A partir do momento em que você opera em grande escala isso qualifica a identificação como homens honestos. Não é mais chamado de roubo ou assassinato; há uma palavra honrada para acobertar os atos desonrosos que o governo comete: ela é chamada de “civilização” dos povos subdesenvolvidos.

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E que ninguém julgue isto como exagero. Nenhuma nação é reconhecida como colonizadora exceto quando é bem sucedida em retirar de um país o máximo de produtos que ele seja capaz de produzir. Assim, a Inglaterra é um país colonizador porque ela sabe como “recompensar” suas colônias com a prosperidade do povo que ela envia para governá-las, assim como trazer de volta para seus cofres os impostos com os quais ela os onera. Nas Índias, por exemplo, aqueles que ela envia fazem fortunas colossais. O país, certamente, é completamente devastado de tempos em tempos por uma fome terrível que dizima centenas de milhares de pessoas. Mas de que importam os detalhes, desde que John Bull possa comercializar seus produtos manufaturados e assim conseguir obter, para seu próprio benefício, o que o solo da Grande Bretanha não pode produzir? Tais são os benefícios da colonização!

Hoje, é verdade, é preciso estar desiludido. A Índia compete com os produtos da “Pátria Mãe”. A despeito disso, os capitalistas transportarão seu capital e fábricas para lá e desde que os Hindus se alimentem de um punhado de arroz, fortunas ainda poderão ser construídas; pouco importa se os trabalhadores ingleses paguem a diferença. Para acalmá-los, eles prometerão o império do mundo e os jogarão contra os Bôers ou os Alemães.

Na França é diferente; nós não somos colonizadores. Oh fique tranquilo; isso não quer dizer que nós somos menos criminosos e que os povos conquistados por nós são menos explorados. Não; nós somos apenas menos “práticos”. Em vez de estudar os povos que nós conquistamos nós os entregamos diretamente aos caprichos da espada; nós os subjugamos ao regime da “pátria mãe”; se esses povos não podem se curvar a ele, pior para eles! Eles desaparecerão aos poucos sob a degenerada influência da administração a qual não estão acostumados. E daí? Se eles se revoltarem nós os caçamos como animais selvagens, os rastreamos como cervos e os saqueamos, nesse caso, esta não só é tolerada, como encorajada; ela é chamada de “incursão”.

A besta feroz que nós treinamos e mantemos sob o nome de “soldado”, é solto sobre povos inofensivos. Estes últimos se veem entregues a todo e qualquer excesso que esses brutos soltos podem conceber: mulheres são estupradas, as gargantas de crianças são cortadas, vilarejos inteiros ardem em chamas, populações inteiras são levadas até as planícies onde estão destinadas a perecer miseravelmente. Isso é tudo? Deixe passar; isto é uma nação civilizada levando a civilização aos selvagens!

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Certamente, sob um exame completo do que se passa ao nosso redor não há nada de ilógico ou anormal em tudo isso; este é, na realidade, o resultado da nossa atual organização. Não é nada surpreendente que todos esses “grandes feitos” de armas obtenham a aprovação e aplauso da burguesia mundial. A burguesia está interessada nesses golpes de banditismo; eles servem como pretexto para a manutenção de exércitos permanentes; eles ocupam os pretorianos que, durante esses massacres, usam suas mãos para um “trabalho” mais sério; esses exércitos, por si só, servem para descarregar todo um conjunto de idiotas completos e de pessoas imprestáveis dos quais a burguesia ficaria bastante constrangida e que, em virtude de algumas listras douradas, se tornam seus mais furiosos defensores. Essas conquistas facilitam toda uma série de tramoias financeiras por meio dos quais eles podem raspar as poupanças dos especuladores em busca de negócios duvidosos.  Eles monopolizarão as terras roubadas ou conquistadas. Essas guerras causam massacres de trabalhadores cujos números excessivos os causam embaraço; os países conquistados, “necessitando” de uma administração, tornam-se um novo mercado para todo um exército de candidatos à burocrata e pessoas ambiciosas a quem aqueles atrelam a sua carruagem, ao passo que, se estes últimos tivessem ficado desempregados suas trajetórias poderiam ter sido prejudicadas.

Melhor ainda que haja pessoas para explorar, para serem submetidas a seu serviço, sobre os quais os produtos deles podem ser empurrados, os quais podem dizimar sem que sejam responsáveis por nada. Em vista dessas vantagens, a burguesia sequer hesita; e a burguesia francesa entendeu isso tão bem que se lançou precipitadamente na empreitada colonial. Mas o que nos surpreende e desanima é que existam trabalhadores que apoiem estas infâmias; que não sentem qualquer remorso em apoiar essas canalhices, e não entendem a injustiça flagrante de massacrar pessoas em suas próprias casas com a finalidade de moldá-las em um modo de vida não natural para elas.

Oh, nós conhecemos as respostas prontas que costumam ser direcionadas àqueles que se indignam diante de injustiças tão flagrantes. “Eles se revoltaram, eles mataram gente nossa; nós não podemos aceitar isso… Eles são selvagens, eles tem que ser civilizados… As necessidades do comércio exigem isso… Sim, talvez tenha sido errado ir para o meio deles em primeiro lugar, mas as colônias nos custaram homens demais, dinheiro demais, para abandoná-las agora”, etc.

Eles se revoltaram; eles mataram nossos homens!”. Bem, o que mais? O que nós estávamos fazendo no país deles? Por que nós não os deixamos em paz? Alguma vez eles vieram e nos pediram algo? Nós tentamos impor leis sobre as quais eles não queriam aceitar. Eles se revoltaram?  Pois fizeram muito bem. Muito pior para aqueles de nós que morremos na batalha; deveriam ter se recusado a participar nessas infâmias.

“Eles são selvagens; eles devem ser civilizados”. Deixe qualquer um tomar a história das conquistas e depois nos dizer quem foi o mais selvagem, aqueles que foram assim chamados ou os “civilizadores”.  Qual tinha maior necessidade de ser civilizado, os conquistadores ou os povos inofensivos que, geralmente, deram boas-vindas aos seus invasores com braços abertos e como recompensa por sus postura avançada foram torturados e dizimados? Tome a história das conquistas na América pela Espanha, da Índia pela Inglaterra, da África, Cochinchina e Tonquim pela França e depois se gabe sobre “civilização”. Lembre-se também que nessas histórias você só encontrará os “grandes eventos”, cuja importância deixaram rastros; mas se você for imaginar todos os “pequenos eventos” do quais ela é composta e que passaram de forma imperceptível; se você fosse trazer à lume todas as torpezas que são absorvidos pela imponente massa dos fatos principais, então o que aconteceria? Você recuaria assustado diante de tais horrores!

Tendo passado algum tempo no serviço naval, nós escutamos a descrição de inúmeras cenas que provam que quando um soldado chega em um país conquistado, ele se considera, por esse simples fato, mestre absoluto de lá; para ele, os nativos são burros de carga, que ele pode mandar a vontade; ele tem o direito de se aproveitar de qualquer objeto que lhe convenha; ai do nativo que queira se opor a ele! Ele não tardará em ensinar que a lei da espada é a única lei; a instituição que protege a propriedade na Europa não a reconhece em outra latitude. E com tudo isso, o soldado é encorajado pelos oficiais que pregam pelo exemplo, pela administração que coloca o porrete na mão dele para que possa supervisionar os nativos que emprega em suas obras.

Quantas ações repugnantes são ingenuamente repassadas a vocês como ocorrências completamente naturais! Se você disser que alguns nativos que se revoltaram e mataram seus opressores fizeram bem, você verá os lamentos de estupefação que se seguirão ao seu comentário! “O que! Como somos os mestres deles, como nós comandamos eles, eles devem nos obedecer; se nós os deixarmos em paz todos eles se revoltarão, eles nos expulsarão! Depois de gastar tanto dinheiro e tantos homens, a França perderia o país! Ela não teria mais colônias!”.  Observe que efeito uma disciplina militar e um embrutecimento tem sobre as mentes dos trabalhadores. Eles enfrentam as mesmas injustiças, as mesmas torpezas, as quais eles estão ajudando a infligir sobre outros; e eles não sentem mais a ignominia de sua conduta; eles vieram a servir, inconscientemente, como instrumentos do despotismo e a se vangloriar deste papel, sem perceber sua baixeza e infâmia.

Os civilizadores europeus, italianos, franceses ou outros, fariam muito melhor em se aproveitar da terra improdutiva em casa antes de ir roubar a dos outros. Quanto às “necessidades do comércio”, aqui, de fato, nós temos o motivo genuíno. Senhores burgueses sendo constrangidos por produtos que eles não podem se desfazer, não encontram nada melhor a fazer além de declarar guerra contra pobres diabos incapazes de defender a si mesmos, com a finalidade de impor esses produtos à eles.

Para assegurar que seja fácil o suficiente entrar em acordo com eles, é possível realizar trocas por meio de escambo, sem ser escrupuloso demais, até mesmo acerca do valor dos objetos trocados; sendo estes objetos sem valor para eles, salvo, quando atraentes aos olhos, seria fácil o bastante retirar o melhor deles e, assim, produzir bons lucros. Não era assim antes do continente desconhecido ser penetrado? Nós não estávamos, através da intermediação de tribos da costa, em contato com as tribos do interior? Nós não obtivemos os mesmos produtos antes como obtemos agora?

“Sim, é possível que fosse assim, mas o diabo disso é que operar de tal forma requer tempo e paciência, é impossível avançar em uma grande escala”; alguém poderia pensar em competição; “o comércio deve ser protegido”. Nós sabemos o que isso significa: dois ou três encouraçados rápidos, uma ordem rápida, meia dúzia de canhoneiras, um corpo de tropas para desembarcar – pronto! A civilização está indo fazer o seu trabalho! Nós pegamos um povo robusto e sadio; em quarenta ou cinquenta anos nós o encontraremos transformado em uma horda de desnutridos, brutalizados, miseráveis, dizimados, corrompidos, que rapidamente desaparecerão da face da terra. Então o trabalho da civilização estará feito!

Se qualquer um duvidar do que aqui afirmamos deixe-os conhecer os relatos dos viajantes, deixe-os ler as descrições daqueles países nos quais os europeus se instalaram pelo direito da conquista: em toda parte as populações nativas decresceram e desapareceram; por toda parte alcoolismo, sífilis e outras exportações europeias os levaram para a cova. Atrofia e desnutrição para os que sobreviverem. E poderia ser de outra maneira? Não, não quando esses meios são empregados! Aqui estão pessoas que possuem um modo de viver diferente do nosso, outras aptidões, outras necessidades; em vez de estudar essas necessidades e aptidões, buscando adaptá-los à nossa civilização gradualmente, pouco à pouco, sem exigir que eles tomem mais dela do que podem assimilar, nós tentamos submetê-los a ela de uma vez só, nós quebramos tudo em pedaços; e não só fazemos com que se tornem refratários, como tornamos a experiência fatal para eles.

Quão glorioso o papel do então chamado homem civilizado poderia ter sido, se tivesse simplesmente entendido isto e se ele mesmo não tivesse sido afligido por essas duas pestes, governo e mercantilismo – duas pragas assustadoras, das quais ele faria muito bem em aprender como se auto governar antes de buscar civilizar os outros. A educação de tribos não desenvolvidas poderia ocorrer pacificamente e trazer para a civilização novos elementos, capazes, no curso da adaptação deles, de infundir vida nova nela. Que ninguém nos fale da duplicidade e ferocidade dos bárbaros. Nós temos mais é que ler os relatos daqueles verdadeiros homens corajosos que foram para o meio de tribos desconhecidas, imbuídos unicamente pelo ideal científico e o desejo pelo conhecimento. Tais pessoas foram bem sucedidas em fazer amizade com esses povos, foram para o meio deles, sem nada a temer; duplicidade e ferocidade vieram somente com esses traficantes miseráveis que falsamente se adornaram com o nome de viajantes, não vendo nada em suas viagens além de um bom acordo comercial ou político. Eles estimularam a animosidade desses povos contra os brancos ao traí-los em suas trocas, ao descumprir seus acordos, ao massacrá-los se preciso fosse, quando eles puderam fazê-lo impunemente.

Nós devemos mostrar os fatos? Vamos ler os livros de Octon Vigné, e Chez les Hova de Jean Carol. As atrocidades dos Channoines e dos Voulets não estão muito distantes de nós na medida que nós persistimos em não nos lembrar delas. Quanto às explorações dos civilizadores italianos em Tripolitania, elas são dos dias atuais.

Avante, avante, filantropos do comércio, civilizadores pela espada! Suporte suas ações em benefício da civilização! Aquilo que você chama, aquilo que você disfarça sob o nome de colonização, tem um nome bem definido no seu código, quando é a ação de alguns obscuros indivíduos: se chama “pilhagem e assassinato por grupos armados”. Mas a civilização não tem nada em comum com suas práticas de roubos de estrada!

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O que as classes dominantes precisam são novos mercados para seus produtos e novos povos para explorar; para isso eles enviam seus Solcillets, seus de Brazzas, seus Crampels, Triviers, etc., em busca de territórios desconhecidos, para lá abrirem empresas que devem entregar esses países para sua exploração ilimitada. Eles começam explorando comercialmente e terminam explorando de todas as formas, quando estas tribos são trazidas sob seu protetorado. O que eles necessitam são de imensas extensões de terra que eles podem anexar gradualmente depois de despovoá-las; eles não precisam de bastante espaço no qual eles possam deslocar a população excedente que os incomode e comprar os parlamentares que se tornem seus cúmplices na Casa [dos Representantes]?

Vocês, governantes, são civilizadores? Por favor! O que vocês fizeram com essas tribos que habitaram na América e que desaparecem a cada dia, dizimadas pelas traições, aquelas tribos das quais, desafiando a fé professada, vocês arrancaram, pouco a pouco, as terras de caça que vocês reconheceram como deles? O que vocês fizeram com as tribos da Polinésia, que todos os viajantes concordaram em retratar como povos fortes e vigorosos e que agora estão desaparecendo sob seu domínio?

Vocês, civilizadores? Mas do jeito que sua civilização caminha, se os trabalhadores estão prestes a sucumbir na luta a qual vocês os levaram, vocês, por outro lado, não tardarão em sucumbir da mesma forma por meio de sua indolência e preguiça, assim como a queda das civilizações grega e romana, que, tendo alcançado o ápice da luxúria e da exploração, tendo perdido todas as capacidades de luta, preservando a capacidade do prazer, sucumbiram muito mais sob a pressão de seus próprios excessos, mais do que sob os sopros dos bárbaros que, entrando na batalha com o máximo de sua força, não tiveram grandes problemas em derrubar essa civilização em rápido declínio.

Como vocês se comprometeram em destruir estas raças, não inferiores, mas apenas retardatárias, vocês tendem, da mesma maneira, a destruir a classe trabalhadora, que vocês também qualificam como inferiores. Dia após dia vocês buscam eliminar o trabalhador da oficina, substituindo-o por máquinas. Seu triunfo seria o fim da humanidade; por perder, pouco a pouco, a capacidade adquirida pela necessidade da luta, vocês poderiam retornar as formas ancestrais mais rudimentares da sociedade e a humanidade logo não teria nenhum outro ideal além daquele de uma associação de sacos digestivos comandando uma nação de máquinas, servida por autômatos, sem que restasse nada de humano além do nome.

 

Publicado originalmente em 1912, em francês.

Tradução do Inglês ao Português: Ivan Thomaz de Oliveira

Revisão: Instituto de Teoria e História Anarquista




Fonte: Ithanarquista.wordpress.com