Abril 30, 2021
Do Uniao Popular Anarquista
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Comunicado nº 76 da União Popular Anarquista – UNIPA, 29 de abril de 2021

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Existe um massacre populacional em curso no Brasil. Já são quase 400 mil mortos pelo coronavirus, isso sem contar a subnotificação e as mortes indiretas da pandemia por falta de leitos e outros fatores. As mortes diárias já ultrapassaram 4 mil, e a tendência é piorar. A classe trabalhadora é a mais afetada, especialmente a fração do proletariado marginal (terceirizados, subempregados, informais, etc.). Muitos países têm fechado as fronteiras para o Brasil e a imagem internacional têm piorado rapidamente, especialmente após a derrota eleitoral de Trump nos EUA. Além disso, a dicotomia criada pelo governo Bolsonaro entre “salvar a economia” e “salvar vidas” começa a demonstrar a sua falácia com o avanço da crise social e econômica, o aumento do desemprego, da fome e da queda na taxa de lucro dos empresários, e a política que antes era para defender a acumulação capitalista começa agora a ser visto como uma ameaça real a ela. Segundo IBGE, em julho de 2020, das 4 milhões de empresas existentes no Brasil, 523 mil faliram devido a pandemia, 99,2% destes negócios de pequeno porte (até 49 empregados), sendo o setor de serviços (258,5 mil) e comércio (192 mil) os mais impactados.

Todo esse cenário de caos social e sanitário é fruto da ofensiva ultraliberal da grande burguesia e do imperialismo gerenciada por um governo de extrema direita, militarista e obscurantista. Durante mais de um ano o que se presenciou em nível nacional foi a campanha sistemática de desinformação em relação às medidas de segurança sanitárias, campanhas antivacina e em prol de “tratamentos precoces” ineficazes e prejudiciais, bem como o boicote de medidas básicas que garantissem um isolamento social mínimo da classe trabalhadora. Por outro lado, as medidas de governadores e prefeitos da oposição socialdemocrata e liberal penderam entre a demagogia e o oportunismo, guiadas pelos mesmos parâmetros de garantir a acumulação capitalista mas ao mesmo tempo tentar desgastar politicamente o governo Bolsonaro.

Diretamente relacionado às anteriores estão as disputas palacianas no interior do bloco no poder. Disputas essas que podemos chamar de Pequena Política, ou seja, que não representam uma alteração real das relações de classe e de poder na sociedade. Essa pequena política diz respeito aos acordos, negociatas, maiorias e minorias parlamentares, acordos para benefícios pessoais ou corporativos, escândalos morais e éticos, que se avolumam diariamente e que em geral é o foco da atenção da mídia e da oposição socialdemocrata, liberal mas também do próprio setor social governista de extrema direta.

É o circo montado da democracia burguesa no Brasil, controlado e mantido nos limites estipulados pela Grande Política do capital/imperialismo que dita as políticas estratégicas da acumulação capitalista e das forças armadas, verdadeiros pilares do Estado burguês. E como já temos analisado, a grande política burguesa no Brasil é hoje o aprofundamento do neoliberalismo e da constrainsurgência, características essas que não estão em questionamento nas “disputas palacianas” e eleitorais da pequena política reformista.

Apesar disso, a pequena política traz uma certa dinamicidade à conjuntura que é importante analisar, além dela ser a forma hegemônica de disputa entre as forças políticas de direita e de esquerda nacionais. Mas a linha política bakuninista não se deixa levar pelas ilusões da pequena política. As e os bakuninistas preparam desde já, em âmbito local e diária da luta de classes a grande política popular e revolucionária, a única forma possível de enfrentar e vencer a grande política burguesa-imperial.

Por outro lado, a partir da análise da conjuntura, reafirmamos que é fundamental encarar um problema central: a profunda crise de organização da classe trabalhadora. No período que vai de 2015 até 2022, a nossa classe está vivendo uma situação de defensiva estratégica. A ofensiva estratégica no terreno político-econômico pertence à burguesia. Isto quer dizer que quem está desenvolvendo ações no sentido de efetivamente conquistar seus objetivos e expandir a realização de seus interesses no curto prazo é a burguesia, enquanto que o proletariado passará prioritariamente a se defender. Mas a defensiva estratégica pode ser passiva ou ativa. A defensiva ativa prepara a contra-ofensiva; a defensiva passiva apenas retarda a derrota. Neste sentido, a defensiva estratégica do proletariado deve ser ativa e não passiva.

No início do governo Temer, com a onda de ocupações de escolas e os protestos contra a PEC da Morte que tiveram seu ápice no “Ocupa Brasília”, existia uma situação de defensiva ativa. Naquele momento de crise política e social nós defendemos a construção de um Congresso do Povo, como alternativa independente de poder da classe trabalhadora e dos povos. Mas o papel da socialdemocracia, especialmente CUT e PT, foi nefasto e paralisou as lutas em nome das eleições de 2018. Hoje, nem uma defensiva ativa é o que tem ocorrido, e o atual refluxo das lutas (talvez um dos maiores desde a redemocratização) não pode ser explicado unicamente pela pandemia, ainda que seja um fator importante. O proletariado brasileiro está em uma defensiva passiva e sofrendo as piores e terríveis consequências dessa situação histórica, principalmente pelos efeitos nefastos da burocratização do movimento sindical, popular e estudantil e da ideologia lulista-reformista que é sua expressão.

A atual ofensiva estratégica da burguesia é uma reação ao novo ciclo da luta de classes aberto pela insurreição popular de junho de 2013 e pela crise dos governos petistas. As pequenas organizações combativas que participaram e emergiram de J13 foram incapazes de sustentar e construir organizações de massas de novo tipo, ficando novamente reféns das burocracias sindicais-partidárias de esquerda (CUT, CTB, PT, PCdoB, PSOL) e, dessa forma, abrindo o caminho para a contra-ofensiva burguesa atual. Ainda que tenha existido iniciativas minoritárias de superar a crise de organização do proletariado (a exemplo do sindicalismo revolucionário que ganha novo fôlego em 2013) a tendência geral foi a revitalização do Lulismo e a acensão do Bolsonarismo, ou seja, da polarização sistêmica, circunscrita à pequena política, disputando a eficiência da aplicação da grande política burguesa e imperial.

Nesse Comunicado buscamos dar continuidade às análises do último período. Apesar de todas as dificuldades desse momento de refluxo das lutas e genocídio do nosso povo, como trabalhadores revolucionários temos encontrado brechas para seguir não só resistindo mas avançando modestamente nosso projeto estratégico de construção das lutas pela sobrevivência e direitos do nosso povo rumo a revolução brasileira.

1 – O Bolsonarismo: disputas no bloco no poder e a grande política burguesa-imperial

No nosso último congresso nacional (2019), debatemos 3 cenários prováveis (tendências) para a conjuntura política nacional, estes cenários eram:

1) Um golpe militar que desestruture de forma geral as instituições democrático-burguesas e republicanas em favor do sistema político ditatorial de base miliciano-clerical-burguesa que ascenderia ao exercício do poder de Estado;

2) Uma ofensiva da burocracia partidária e republicana de direita e de esquerda, apoiada na insatisfação de setores populares e da burguesia, para realização de um impeachment e manutenção da ordem burguesa e republicana;

3) A articulação da burguesia para uma reestruturação política por meio das eleições de 2022, que pode apontar tanto para uma alternativa eleitoral mais pragmática e neoliberal (sem o bolsonarismo) ou um novo pacto de conciliação de classes com as burocracias sindicais-partidárias de esquerda.

Hoje, depois de dois anos de governo Bolsonaro/Mourão, o Cenário 1 é uma tendência muito fraca e improvável na conjuntura, ainda que não seja impossível. Pelas características que tem tomado a gestão da pandemia, bem como as atitudes médias das forças sociais e políticas na conjuntura, especialmente do bloco no poder e do imperialismo, indicam que o Cenário 3 e 2 sejam os mais prováveis, ou seja, uma disputa dentro da ordem e um provável enfraquecimento eleitoral de Bolsonaro. A elegibilidade de Lula, as recentes trocas de ministros, a mudança do governo dos EUA e a abertura de CPI da Pandemia são apenas alguns indícios disso.

A entrada em ação do proletariado seria um fator que poderia desestabilizar ou acelerar algumas dessas tendências, mas tudo indica que nenhuma força social hoje tenha vontade política ou condições para impulsionar uma ação real nesse sentido. Além disso, uma ação autônoma das massas populares poderia criar outros cenários, incluindo uma situação revolucionária ou insurrecional, mas essa não é uma tendência provável na conjuntura no curto prazo. Além disso, hoje não existe nenhuma força política no Brasil capaz de iniciar-dirigir uma insurreição no sentido revolucionário. A disputa nesse sentido segue aberta, mas o foco dela é a curto prazo tornar a defensiva passiva em ativa, e não propriamente “fazer a revolução” agora. Deixamos isso aos doutrinários e oportunistas. As lutas populares (greve e protestos parciais e locais, por reivindicações básicas e materiais) tendem a continuar surgindo de forma mais ou menos espontânea e são o alvo principal dessa disputa.

Assim, não se trata de abrir mão das palavras de ordem revolucionárias. Estas devem ser bem combinadas com as pautas reivindicativas imediatas pela sobrevivência que adquirem o centro de gravidade para mobilização. Manter o foco nas condições econômicas não deve significar apoliticismo, eis um grave erro histórico de organizações sindicalistas revolucionárias no século XX. E não se trata de abrir mão das ações combativas. Estas devem ser exercícios dentro da capacidade de autodefesa neste cenário de refluxo e isolamento, nunca como um passo maior que a perna, mas dando todo passo firme que a perna puder dar, e que pouco a pouco eduquem nossas fileiras e criem condições para a ruptura revolucionária no futuro.

A saída revolucionária deve ser propagandeada politizando a resistência defensiva da classe trabalhadora de modo que rivalize com a colaboração de classes como falsa alternativa e minem o eterno esperar de um salvador da pátria… inexistente. O Estado e o capitalismo devem ser rejeitados em cada reivindicação e ação por aumento salarial, por direitos trabalhistas, por saúde e por um prato de comida. E serão rejeitados não abstratamente, mas concretamente no paulatino afastamento e rejeição da tutela e colaboração com os patrões nos locais de trabalho e na ruptura de relações com os padrinhos e madrinhas políticos e candidatos nas comunidades. O meio para isso são as atividades de agitação e organização em categorias sociais e territórios estratégicos, prezando pela aprendizagem prática com ações de apoio mútuo, manifestações, paralisações, e não apenas ideológico. As práticas dessa resistência devem ser ativas, orientadas como ginástica para a ruptura revolucionária, criando as condições para o futuro, pois as condições da Revolução não cairão do céu.

Em todos os cenários apontados, a tendência global da grande política do capital/imperialismo para o Brasil é de aumento da repressão e da exploração sobre as massas trabalhadoras e sobre os recursos naturais, incluindo um possível novo governo de conciliação liderado pelo Lulismo. Já havíamos analisado que nos cenários 2 e 3 a tendência seria de revitalização do Lulismo em oposição ao Bolsonarismo, e é o que têm se verificado. Nesse sentido, é fundamental lembrar que o Bolsonarismo (e a ditadura militar) não foi nem é a única face da reação burguesa no Brasil, e que a estrutura do que chamam de “Estado democrático de direito” sempre conviveu com estruturas colonialistas, racistas e semiescravistas, com a ajuda das ilusões semeadas pela socialdemocracia/comunismo. Portanto, o Bolsonarismo não é imprescindível para a grande política burguesa, ainda que tenha sido sua única alternativa concreta nas eleições de 2018.

1.1 – A ascensão e as crises atuais do governo Bolsonaro/Mourão

A atual ofensiva estratégica da burguesia contra a classe trabalhadora brasileira ocorreu ainda por dentro do governo Dilma (PT/PMDB). Essa ofensiva tencionou as posições no interior do bloco no poder ao ponto da ruptura de setores importantes das classes dominantes, que foram pulando fora do barco do governo federal. Essas forças da burguesia nacional em aliança com as forças armadas e o imperialismo estadunidense se rearticularam por fora do governo Dilma a fim de derrubá-lo, o que foi concretizado em 2016.

O político Bolsonaro surge das sombras de partidos do chamado “Centrão”, ao qual fez parte durante toda sua carreira política, capitalizando o apoio de setores reacionários e de extrema direta à sua candidatura, com base tanto em elementos morais conservadores quanto elementos discursivos de crítica ao “sistema” que encontravam eco em vários setores da população e que a chamada “esquerda” (PT, PCdoB, PSOL, etc.) não mais representava, ao contrário.

De um agente marginal e fraco, Bolsonaro se torna nas vésperas das eleições de 2018 a única opção viável para vencer o PT e dar certa continuidade a campanha estratégica de ofensiva burguesa sobre os direitos do povo. A mais ou menos um ano antes das eleições de 2018, Bolsonaro não tinha o apoio de partidos tradicionais de direita, nem era a opção preferencial de frações importantes da grande burguesia.

Mas a queda de Dilma e o estabelecimento do governo Temer (MDB) foi um divisor de águas nessa disputa direção-base no interior da direita brasileira, bem como em relação à sociedade de forma geral. Enquanto muitos setores da centro-direita e da burguesia se integraram no governo Temer, e a socialdemocracia recuou politicamente e desmobilizou os processos de resistência popular existentes (que tiveram como ápice o “Ocupa Brasília”), a extrema direita bolsonarista se desvinculou do governo Temer, seguiu mobilizada e disputou, por exemplo, a direção de um importante movimento de massas que foi a greve dos caminhoneiros em maio de 2018. A greve dos caminhoneiros foi parcialmente vitoriosa, utilizando métodos combativos, gerando desabastecimento em várias cidades, obrigou Temer (MDB) a recuar. O papel cumprido pela socialdemocracia foi da mais clara traição à classe trabalhadora: sob a justificativa da “ameaça de golpe”, a CUT/PT agiu contra a greve dos caminhoneiros, se isentou da luta contra o governo e a política neoliberal para a Petrobras que estava sendo combatida pelos caminhoneiros.

De uma certa forma, Bolsonaro “obrigou” esses agentes da grande política burguesa a apoiá-lo nas eleições de 2018 como única opção de impedir a volta do PT e, assim, conduzir uma aceleração de políticas de tipo privatistas, de destruição de direitos trabalhistas, ambientais e sociais, bem como de cunho repressivos/militaristas: este é o fator que ainda traz governabilidade ao seu governo. A burguesia tinha unidade em retirar o PT e a socialdemocracia do poder, mas a direita tradicional brasileira não possuía nenhuma liderança forte, com real apoio popular, capaz de derrotar o PT nas eleições de 2018 (já que o PT, apesar de tudo, continua sendo o maior partido brasileiro). Por outro lado, o próprio PT seguia cavando a sua própria cova, apostando na conciliação de classes, na defesa do Estado burguês e na dependência da imagem/candidatura de Lula. A prisão de Lula em 2018, o tornando inelegível, foi a farsa jurídica necessária para manter o curso da ofensiva burguesa.

E como Bolsonaro conquistou apoio popular? A força do Bolsonarismo veio através de uma disputa no interior do movimento “Fora Dilma”, das igrejas e dos quartéis. Em todos esses âmbitos/setores o Bolsonarismo estimulou um certo conflito direção-base para disputar a hegemonia política, sempre tencionando para posições de extrema-direita supostamente “antissistema”. Desde a agitação pela “intervenção militar” e pelo “fim do comunismo” nos atos de rua contra a Dilma e nos quartéis, ou as críticas ao Papa, ou o apoio a motins e greves reacionárias de policiais, cumpriram e cumprem essa função agitativa utilizada pelo Bolsonarismo. No conflito direção-base, a partir desta política sistemática de “oposição neofascista”, o bolsonarismo mudou a dinâmica maioria-minoria a favor dessa nova tendência política de extrema direta. E obviamente as redes sociais, as mentiras e escândalos, cumpriram função importante na agitação bolsonarista, para alimentar o engajamento e manter a sua base mobilizada, mesmo quando o motivo era pura mentira.

Todo esse processo também estava reforçado internacionalmente pelo governo Donald Trump nos EUA. A participação de Steve Bannon (preso em 2020 por tentativa de fraude milionária nas eleições dos EUA) na estratégia política e de propaganda da campanha presidencial de Bolsonaro, demonstra essa relação geopolítica da nova extrema direita mundial. A derrota de Trump em 2021 foi um golpe ao governo Bolsonaro/Mourão. A queda do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, no dia 29 de março, está diretamente relacionado a essa mudança de governo nos EUA, pois isolaram ainda mais o Brasil na sua política externa negacionista. Também no cenário internacional os acontecimentos políticos e eleitorais da Bolívia, México e Argentina com uma tendência a uma “nova onda progressista”, assim como as derrotas da intervenção imperialista na Venezuela, colocou limites ainda maiores às pretensões geopolíticas da extrema direita no governo Bolsonaro/Mourão.

Assim, entre 2016 e 2018 Bolsonaro traçou uma estratégia de disputa política que não apenas contou com fatores externos que o beneficiaram (crise do PT, governo Trump, falta de liderança na direita tradicional, etc.), como uma atuação própria que conseguiu se aproveitar desses elementos e dar uma relativa unidade (ainda que muito instável, e a contragosto para algumas frações burguesas) em torno da sua candidatura.

Mas o elemento central, para entender alguns movimentos da conjuntura atual, é que Bolsonaro não era a opção preferencial da grande burguesia, com exceção talvez da burguesia militar. O apoio da grande burguesia ao Bolsonaro é conjuntural, tático, e não possui bases sólidas. Nem Bolsonaro, nem Olavo de Carvalho, nem a cúpula do governo federal, formam uma “elite orgânica” da burguesia. Até mesmo a burguesia militar, totalmente aparelhada no atual governo (são mais de 11 mil cargos no governo distribuídos entre militares na ativa e da reserva), teve e ainda tem cautela em se apresentar como “governista”. Exemplo disso foi o circo montado para a demissão do ministro da Defesa Fernando Azevedo, seguido da autodemissão dos três comandantes das forças armadas, e com forte apoio da mídia dar um verniz hipócrita de “neutralidade e constitucionalismo” aos militares. Portanto, Bolsonaro será apoiado até o momento que for útil a grande política burguesa, mas no momento que ameaçar a taxa de lucro dos empresários e banqueiros, certamente a tendência será o seu isolamento e uma pressão cada vez maior.

Além disso, em termos políticos internos, a extrema direita Bolsonarista não possui uma estrutura organizativa própria e que a unifique, ela permanece dependente de instituições externas, tais como igrejas, instituições militares, empresariais e partidos. E essa dependência, em vários momentos, é instável e conflituosa. Para superar essa situação, Bolsonaro tentou construir o partido Aliança pelo Brasil, mas até março de 2021 só havia recebido 16% de filiados necessários para fundar um novo partido de acordo com o TSE. Com um partido “seu”, Bolsonaro e a extrema direita ampliariam a sua força política e, portanto, de pressão dentro do bloco no poder. Mas é exatamente isso que a grande burguesia demonstra não querer. Ela quer uma marionete dos seus interesses. Por isso o Aliança pelo Brasil não obteve até hoje o engajamento real de grandes nomes políticos e empresariais. E isso pra não falar da própria limitação de um programa neofascista e ultraliberal angariar apoio de massas na realidade étnica-nacional e de classes de um país periférico como o Brasil (ver o Comunicado nº 69). Essa unidade instável no interior do bloco no poder, começa a ficar cada vez mais evidente ao passo que avançam as crises pandêmica e social/econômica no Brasil.

Com ou sem Bolsonaro, a crise atual não deve deixar qualquer dúvida da monstruosidade e crimes contra o povo que as forças armadas, a classe burguesa, a base parlamentar governista e o imperialismo estão dispostos a sustentar em defesa do Estado e do Capital. Qualquer crise política ou institucional nascida desde cima, que venha a levar ao impeachment de Bolsonaro ou ao seu enfraquecimento para as eleições de 2022, não terá nenhum traço de “humanismo” ou “esclarecimento”. Assim como embarcaram no obscurantismo genocida para proteger seus lucros enquanto centenas de milhares morriam, os ricos começam agora a pedir “medidas sanitárias” e uma “postura responsável” do governo federal, tal como a Carta Aberta de banqueiros e economistas no dia 21 de março. Mas não é o massacre populacional, nem os empregos ou a miséria que os motiva. Nem o perfil pessoal asqueroso, hipócrita, mentiroso e psicopata do presidente (perfil esse compartilhado, em maior ou menor grau, de forma mais ou menos pública, pelo restante da classe dominante no Brasil). É a ameaça de que o colapso da saúde e do caos social (do consumo, especialmente) levem à queda das taxas de lucro e cenários de instabilidade política, à revoltas e lutas populares mais ou menos desesperadas, que ameacem a continuidade da ofensiva estratégica do Capital/Imperialismo.

1.2 – A configuração atual do bloco no poder

Hoje o governo Bolsonaro ainda conta com o apoio de importantes setores e organizações das burguesias militar, agrária, industrial, comercial e financeira. O apoio das classes dominantes se dá em torno ao programa ultraliberal e extrativista do Ministério da Economia de Paulo Guedes, peça fundamental para consolidar em 2018 o atual bloco no poder. Um jantar promovido pelo governo com empresários, no dia 07 de março, contou com a participação de representantes do Banco BTG, FS Security, FIESP, COSAN, Habib’s, Hapvida, Granja Faria, Ceagesp, construtora MRV, CNN Brasil, Banco Inter, Jovem Pan, Gocil, farmaceutica EMS, Banco Safra, Riachuelo, Hospital Albert Einstein, Confederação Israelita do Brasil, Bradesco, Grupo Alpha de Comunicação, Multiplan, SBT. Nesse jantar, assim como nos últimos discursos públicos, Bolsonaro e seus ministros têm buscado de forma conveniente mudar a narrativa “antivacina” frente a pandemia, respondendo a pressão da classe burguesa e do imperialismo.

As vitórias do governo na aprovação das reformas da previdência e em leis trabalhistas, a PEC emergencial, etc. bem como a expectativa de que mais medidas de cunho ultraliberal e favoráveis ao capital possam ser aprovadas (como a Reforma Administrativa, privatizações etc.), é um fator importante para a continuidade do governo Bolsonaro/Mourão/Paulo Guedes. O governo Bolsonaro, apesar de suas incorrigíveis tolices, toma iniciativas que agradam diversas frações burguesas, mas que outros governos não tinham condições ou coragem de tomar em relação a flexibilização de legislações de proteção ambiental, indígena, educacional, trabalhista e fiscal, em parte devido à impopularidade que causam. Por exemplo, nenhuma das reformas previdenciárias feitas após a constituinte de 88 (1991 com Collor, 98 com FHC, 2003 com Lula, 2015 com Dilma e finalmente 2019 com Bolsonaro) foram acompanhadas de medidas políticas ativas ou omissas que resultaram na queda da expectativa de vida da população. Bolsonaro está fazendo com a oportunidade da pandemia, atingindo uma mortalidade sobretudo da população mais idosa, o que para os “pragmáticos economistas” significa reduzir o deficit previdenciário e os investimentos em saúde pública.

A burguesia agrária, por exemplo, tem desenvolvida intensas articulações para o avanço da fronteira agrícola-extrativista, especialmente para a Amazônia e o Cerrado. Todo esse processo conta com a mediação, omissão e projetos (a depender da situação) desde o governo federal e a base governista, tal como a busca pelo “selo ambiental” através de um possível acordo com Biden, assim como a estratégia amplamente defendida pela burguesia agrária de integração de lideranças indígenas à exploração capitalista em Terras Indígenas, dentre outras. Essa nova política de expansão da fronteira agrícola-extrativa tem se amparado numa militarização cada vez maior, onde a atuação de órgãos fiscalizadores como IBAMA e ICMbio, que já eram fracos ou injustos, são paulatinamente desidratados e substituídos pela presença de militares na tarefa de fiscalização ambiental.

Um exemplo disso foi a operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para a Amazônia, que além de fortalecer economicamente as forças armadas com um total de cerca de 530 milhões de reais (segundo o Ministério da Defesa), garantiram a continuidade do desmatamento/queimadas e expandiram a presença e o melhor conhecimento territorial do aparato repressivo do Estado em uma região estratégica para a luta de classes.

Por esses e outros motivos menos “estratégicos”, tal como o enriquecimento pessoal de militares de altas patentes através da máquina governamental, o aparelhamento em cargos públicos de mais de 11 mil militares da ativa e da reserva (segundo revela o site Poder360), a concessão de aumento salarial e proteção frente a reforma da previdência, são alguns motivos pelos quais os militares ainda são a principal base de apoio do governo Bolsonaro/Mourão. Por outro lado, o jogo de cena dos militares para demonstrar certa “independência” ao governo (farsa amplamente repercutida pela mídia burguesa e pela oposição socialdemocrata/liberal) com a demissão oportunista do ex-ministro da defesa Fernando Azevedo e Silva, ocorre com o aprofundamento da crise e das pressões burguesas internas e externas a Bolsonaro, demonstrando que mesmo as forças armadas podem pular fora do projeto bolsonarista caso a situação se agrave.

Assim como a base de apoio militar, a base teológica tem sido fiel ao bolsonarismo, até agora. Assim como nas forças armadas, as Igrejas possuem uma fidelidade grande dos seus fiéis, em muitos casos chegando ao fanatismo e ao irracionalismo induzido de cima. A política da esquerda reformista para esse problema tem sido a critica formal à “consciência atrasada” do povo e na maioria dos casos os reformistas não fazem mais que expressar um educacionismo e elitismo pueril e pequeno burguês. A verdade é que o abandono durante anos da organização e trabalho de base junto ao proletariado marginal foi preenchido pelas igrejas nas comunidades. As ideias equivocadas no seio do povo não serão alteradas por “argumentos”, mas pela prática, ou seja, pela retomada da atividade de resistência que envolva esses setores populares duramente atacados e oprimidos hoje convertidos aos “comerciantes de fé”.

Assim, a crise de organização do proletariado está diretamente relacionada a essa hegemonia ideológica das igrejas, pois ao invés das massas populares acreditarem e se dedicarem às lutas coletivas e a construção do Socialismo e da Liberdade, hoje elas buscam na religião e nas igrejas algum sentido pra vida e, principalmente, alguma assistência material, cultural e espiritual. Isso tem gerado numa escala local uma grande fidelidade às instituições religiosas reacionárias, que mobilizam semanalmente mais gente que assembleias e atos sindicais, que por sua vez têm atuado na esfera macropolítica contra os interesses do povo (e dos seus próprios fiéis), a exemplo da Bancada da Bíblia no Congresso. Essa contradição de interesses de classe latente e potencial dentro das instituições religiosas já têm gerado algumas fissuras, mas só será resolvida de fato com a luta ideológica e política pela reorganização da classe trabalhadora. A base teológica ainda é significativa e a mais popular do Bolsonarismo, tratada literalmente como “massa de manobra”.

Por fim, é importante analisar a dança das cadeiras no governo Bolsonaro/Mourão. As mudanças no Itamaraty, na Secretaria de Governo, na AGU e em ministérios, estão relacionadas a pressões políticas diversas dentro do governo, em especial com o chamado “Centrão”, e têm sido medidas buscando um novo equilíbrio político que garanta a governabilidade e resolva momentaneamente as crises políticas e institucionais. Hoje a base governista no parlamento é composta por MDB, PL, DEM, PTB, Solidariedade, Podemos, Avante, PSC, PSL, PP, PSD, Patriota, Republicanos e Pros. Esses partidos são fundamentais hoje para a sustentação do governo, e, portanto, para a continuidade da política genocida e anti-povo em curso.

Por um lado, o novo arranjo do Bolsonaro com o centrão não pode ser visto só como recuo e enquadramento do presidente. E, o que parece óbvio, mas precisa ser dito, não significa razoabilidade política do centrão. Os partidos do centrão hora mordem o Bolsonaro, hora o assopram. Esta conveniência utilitarista é o que caracteriza este centrão, e Bolsonaro sabe pois é cria deste ninho de cobras. Recentes projetos de lei convergentes do executivo e do centrão foram recolocados pra tramitação, como o da Lei Antiterrorista do deputado Major Vitor Hugo (PSL). A enxurrada de ataques que a classe trabalhadora sofreu aprovadas no Congresso, como reformas da previdência e em leis trabalhistas, a PEC emergencial e outras atestam a conveniência deste casamento: embora surjam discursos ásperos de um contra o outro, estão fielmente unidos em política anti-povo.

A forma principal de Bolsonaro alcançar a governabilidade e a solução de crises tem sido aquilo que em campanha prometeu combater: o velho “toma lá, dá cá”, distribuindo cargos e emendas parlamentares em troca de apoio. Isso demonstra a fragilidade de Bolsonaro frente a máquina burocrática estatal e o fisiologismo dos partidos do Centrão. Obviamente que nada disso significa razoabilidade política ou humanismo do centrão. Este arranjo é também uma possibilidade de sobrevida ao Bolsonaro. Um novo equilíbrio pra mantê-lo na presidência. Um equilíbrio instável, é verdade, pois Bolsonaro se caracteriza por certa intempestividade de extrema-direita e o centrão é marcado profundamente pelo fisiologismo, mas ainda assim há nesta relação um provisório equilíbrio. A aprovação da CPI da Pandemia é hoje uma importante peça no tabuleiro político institucional, uma pressão a mais sobre o governo Bolsonaro/Mourão e que deve repercutir em como o Centrão vai seguir a blindagem ao Governo Federal.

O tal “toma-lá-da-cá” que Bolsonaro dizia rejeitar na campanha eleitoral é agora seu novo firmamento, condicionando indicação de cargos no executivo para nomes do centrão em troca da governabilidade, como a não abertura de impeachment e aprovação de projetos de leis. Bolsonaro já o fazia antes, recentemente na liberação de emendas parlamentares em troca de votos nos seus aliados para a presidência da Câmara e Senado e em 2019 na aprovação da Reforma da Previdência, para citar dois eventos apenas.

As mudanças de cargos nos Ministérios vieram em parte por pressão do Centrão (no caso do Itamaraty e da Secretaria de Governo), mas ocorreram principalmente por pressão de Bolsonaro, buscando maior fidelidade ao governo e maior alinhamento com o projeto da extrema direita. O Bolsonarismo “encurralado”, mesmo sendo governo tem utilizado algumas formas de agitação e mobilização de sua base, mas que estão cada vez mais fracas e isoladas, embora persistam na constância, e também tem testado táticas mais ousadas como a agitação armada em prol da greve da PM na Bahia, por exemplo. Embora não tenha atingido grandes resultados, esse último exemplo indica que tipo de tática o campo da extrema-direita está disposto a usar, a exemplo da tomada do Capitólio nos EUA pelos neonazistas apoiadores de Trump ou do golpe na Bolívia.

O Bolsonarismo tenta ainda manter uma retórica autoritária e de ruptura institucional cada vez mais distante da realidade. A realidade tem sido o seu “enquadramento” cada vez maior pela grande burguesia e pelos partidos do Centrão, através dos velhos métodos do parlamentarismo burguês. Dialogando com o nosso Comunicado nº 57 de março de 2018, não só o PT não foi colocado na ilegalidade como “organização criminosa”, como nenhuma outra organização de esquerda foi, e Lula reverteu a prisão e está novamente elegível. Portanto, hoje o objetivo principal dessa retórica autoritária tem sido a chantagem das demais forças políticas em disputa e a agitação interna de seus militantes de extrema direita. Não se pode menosprezar as agitações autoritárias, pois associada a disseminação de armamentos ainda elitizadas, a cooptação de quadros e setores militares e de redutos religiosos, tais agitações podem resultar em fatos políticos importantes.

No entanto, existir intenções de golpe ou ditadura militar por parte de um setor da extrema direita é diferente de existir condições, ou mesmo necessidade, para isso. De modo comparativo, existir intenção (ou a retórica) de construir a revolução por parte de organizações e partidos socialistas não cria as condições para esta. As condições de avanço da contrainsurgência e superexploração se encontram hoje plenamente estabelecidos no governo e nas estruturas do Estado, além disso não existe uma oposição forte e radical de base popular que ameace esse projeto em curso, o que justificaria um golpe militar. É importante diferenciar isso na análise de conjuntura, sem subestimar ou superestimar os perigos do Bolsonarismo e do crescimento da extrema direta, mas combatê-lo radicalmente com uma análise materialista e com os métodos de luta proletária.

 

3 – Romper com o Lulismo, liberar as forças coletivas do proletariado

 

E o que é o Lulismo? É a ideologia do reformismo socialdemocrata brasileiro em seu estado mais avançado de degeneração política. Está baseado na conciliação de classes a partir da figura do Lula, construída com base em organismos partidários, sindicais e de movimentos sociais (especialmente, CUT, CTB, UNE e MST) que beneficiou economicamente a aristocracia operária, uma parcela da tecnocracia e de uma pequena burguesia dependente do Estado. Expressão da política socialdemocrata dirigida pela CUT-PT, principalmente a partir do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista. A própria constituição dos governos petistas (2003-2016) foi uma continuação macroeconômica dos governos anteriores de caráter neoliberal e seu estado policial foi uma evolução da transação negociada entre “ditadura e democracia”. O Lulismo serviu durante mais de uma década no governo federal à grande política burguesa-imperial, assim como o Bolsonarismo faz agora com outras configurações políticas e sociais, ou seja, sob uma nova conjuntura e correlação de forças.

Nesse cenário histórico de defensiva e de refluxo das lutas, a verdade deve ser dita: o principal fator da passividade e impotência atuais da classe trabalhadora é a hegemonia da tendência lulista-reformista no movimento sindical-popular. Soma-se a isso o adoecimento físico, sentimental e psicológico de uma parcela do nosso povo frente a pandemia e a crise social, incluindo importantes lutadores do povo. Mas a luta e a organização coletiva do nosso povo, que eram a única alternativa pra enfrentar melhor esse momento, foram intencionalmente e covardemente boicotadas em nome da política liberal do “fique em casa” (de indivíduos atomizados, indefesos e amedrontados em suas casas) e, a partir dessa desmobilização, fragmentação e individualismo sistematicamente defendidos pelo lulismo-reformismo o resultado esperado é a tendência a revitalização da ilusão (ou do pragmatismo) eleitoral em 2022 como a única alternativa desesperada de “mudança”.

As principais organizações sindicais e movimentos populares da socialdemocracia ao manter sua política do “fique em casa” estão deixando um flanco aberto ao Bolsonaro. Esta é uma aparente política responsável contra a aglomeração, sobretudo pela oposição discursiva à necrocampanha pró-contágio de Bolsonaro que nos tem levado à tragédia epidemiológica, ao luto coletivo. Porém, quando o “não aglomerar” nega também as ações de pressão coletiva por reivindicações vitais, retira de cena a principal oposição ao genocídio de Bolsonaro, com quem hoje este não tem grande preocupação: a classe trabalhadora. As pressões e movimentos virtuais são absolutamente insuficientes se não vão as ruas. No exato momento em que é preciso ir do luto à luta, e reconhecer a mobilização popular como atividade essencial, vivemos um refluxo, uma profunda defensiva passiva do povo. Em que pese haver resistências populares pontuais, o grave refluxo nacional é fruto da associação do empobrecimento e adoecimento da classe trabalhadora e do acovardamento incentivado de modo forte e vergonhoso pela socialdemocracia.

O sindicalismo socialdemocrata não só demonstrou sua incapacidade em termos de luta de massas nas ruas e greves para fazer frente às tendências da macropolítica burguesa e genocida, mas também em termos de organização de base, nos locais de trabalho e moradia, aonde poderia ter agido em prol de medidas de segurança sanitária, conscientização e apoio mútuo aos atingidos pela Covid, pelas demissões, etc. Optou-se pela apatia e a mera “denúncia” ao governo, como se nada pudesse realmente ser feito por fora e contra o Estado. É, portanto, um fracasso de cima a baixo do modelo de sindicalismo de Estado e da política sindical-popular do reformismo marxista.

Assim, a desmobilização da classe e a rendição mais vergonhosa das burocracias sindicais e partidárias de oposição ao governo Bolsonaro é hoje um dado mais significativo e real do que as possibilidades de um “golpe”. Hoje a tendência neofascista que existe no governo não está sendo contida pela luta popular, mas pelas pressões intraburguesas no interior do bloco no poder, como já analisamos. O reformismo degenerado se desloca inteiramente ao terreno da contrarrevolução (mesmo como oposição), e a sua passividade é um dos fatores fundamentais para o êxito do atual genocídio e política ultraliberal em curso. Assim como fez durante o governo Temer, o lulismo-reformismo faz agora durante a pandemia: no menor sinal de uma resistência popular que possa fugir ao seu controle, trabalha para desmobilizar a luta, a exemplo dos protestos antirracistas em junho e novembro de 2020.

O discurso economicista e determinista da socialdemocracia/comunismo de que “faltam condições” (para as lutas populares e para a combatividade), agora vem associado com a ilusão requentada de que as tais condições necessárias seriam unicamente a vitória eleitoral do PT, mais especificamente de Lula. Para o reformismo degenerado não existe vida além das eleições. Mais do que isso, para o Lulismo não existe política além da conciliação de classes e do oportunismo. É o fim de uma política socialdemocrata de oposição de massas, é a degeneração histórica do reformismo em contrarrevolução e a negação do socialismo e da capacidade política autônoma do proletariado através de sua ação direta coletiva.

Retomando uma elaboração do IV CONUNIPA (Congresso Nacional da UNIPA) sobre o catastrofismo econômico do marxismo sobre as crises:

Esse posicionamento teórico catastrofista só pode produzir um revolucionarismo idealista que considera que o capitalismo irá se autodestruir. Ou então, uma instrumentalização oportunista-reformista, em que a tese da autodestruição é manejada como um mito por setores reformistas que consideram que qualquer estratégia e tática política podem ser adotadas (especialmente as mais oportunistas), cabendo ao proletariado apenas esperar a ‘crise final do capitalismo’”.

Associado a esse catastrofismo “econômico” do marxismo, podemos dizer que existe hoje também um catastrofismo “político” da socialdemocracia/comunismo no Brasil. O catastrofismo político anuncia o fim sempre iminente do sistema político atual. Assim como o primeiro, o catastrofismo político tem servido de mito tanto para o revolucionarismo idealista (maoistas, trotskistas, autonomistas, etc.) mas principalmente para os setores reformistas (PT, PCdoB, PSOL) para justificar as “frentes amplas”, alianças e táticas ainda mais rebaixadas e oportunistas no terreno político, sindical e eleitoral com objetivo de “salvar a democracia” e “impedir o fascismo”. Nesses casos o catastrofismo político dos reformistas se torna um método de chantagem política à direita, ou seja, que não combate na raiz as tendências da contrarrevolução burguesa e da reação conservadora, ao contrário, concilia com elas e enfraquece a força coletiva da classe trabalhadora.

O PSOL com o seu oportunismo de direita caminha a passos largos para a conciliação de classes e integração no sistema. A reunião no dia 16/04/2021 no bairro dos Jardins entre Guilherme Boulos (PSOL) e Marcos Pereira, presidente do partido Republicanos (da base de apoio do governo federal e que abriga os neofascistas Flávio e Carlos Bolsonaro), para articular uma possível aliança, é um claro sinal disso. O PSTU, por sua recente desintegração parcial (especialmente com os rachas à direita para o PSOL), provou a consequência amarga da sua política oportunista e eleitoreira de liquidação do campo anti-governista anteriormente organizado na Conlutas, para fazer frentes eleitorais com o PSOL. Hoje o PSTU busca uma renovação do discurso radical, assim como personalidades e pequenos grupos do PSOL, PCB e outros mini-partidos. Mas isso não têm significado nada em termos de uma verdadeira mudança de linha política, seguem satélites do Lulismo, ora como “conselheiros” ora com ultimatos e notas de repúdios inexpressivos na realidade. É o ciclo de horrores do marxismo brasileiro, presos à teoria da revolução democrático-burguesa e ao oportunismo eleitoral.

Assim, a atual e profunda crise de organização popular não caiu do céu nem pode ser explicada unilateralmente por aspectos “naturais” como a pandemia ou a ascensão da extrema direita bolsonarista. O principal responsável pela crise de organização hoje é o Lulismo, principal responsável pela apatia e desmobilização vigentes. Assim, o lulismo é um fator auxiliar importante para a continuidade do massacre e da superexploração quase sem resposta e agência do proletariado no cenário político nacional. É a miséria da socialdemocracia brasileira e suas terríveis consequências.

Por isso, para a construção de uma alternativa revolucionária no Brasil não existe atalho possível: é imprescindível travar uma luta ideológica, isto é, política e organizativa, contra o Bolsonarismo e contra o Lulismo. As principais tendências da conjuntura, pelo menos até as eleições de 2022, não são boas para uma política revolucionária. Tudo indica um fortalecimento da polarização eleitoreira bolsonarismo x lulismo, tragando ainda uma parcela significativa do povo e suas organizações para as ilusões personalistas, messiânicas e estatistas que até agora hegemonizam os movimentos sociais.

3.1 – A elegibilidade de Lula é uma cartada da burguesia e do imperialismo

O PT que nas suas primeiras vitórias eleitorais em 2002 trazia uma força da organização de base, agora amplia sua chance de voltar ao poder central do país a partir de uma decisão de cima, jurídica-burguesa, sem relação direta com qualquer processo de luta e organização popular.

A irrisória mobilização “Lula livre” foi derrotada, assim como o PT foi derrotado em 2016 (com o impeachment) e em 2018 (nas eleições e com a prisão de Lula). A decisão atual da elegibilidade de Lula está ancorada na grande política burguesa-imperial e no papel que Lula/PT pode cumprir em prol dessa política, de dois modos: 1) seja no contexto atual como um elemento de chantagem/pressão política por parte de determinadas forças das classes dominantes insatisfeitas com a condução de Bolsonaro na pandemia, ou 2) nas próximas eleições com um governo de conciliação de classes que dê prosseguimento com maior eficiência ao plano de desenvolvimento capitalista no Brasil.

O Lulismo é hoje, sem dúvidas, maior que o PT. É o resultado histórico do centralismo político e teórico que domina o marxismo brasileiro articulado ao processo histórico de integração do PT no sistema. A substituição da ação direta da classe trabalhadora pela ação política do partido (PT), e a substituição da ação do partido pela ação salvadora de um líder pessoal (Lula). Nesse processo, as ilusões personalistas e o fanatismo do Lulismo não deixam nada a desejar ao Bolsonarismo. O PT pode se aliar aos golpistas e carrascos do povo, pode prender Rafael Braga, pode liderar a invasão colonial no Haiti, pode sancionar a Lei Antiterrorismo, atualizar a GLO (Garantia da Lei e da Ordem) e militarizar escolas, aumentar a concentração de terras e o encarceramento, pode fazer Reforma da Previdência, pode até mesmo se aliar com os políticos e empresários genocidas que hoje dão sustentação a Bolsonaro: mesmo assim, a ideologia Lulista justificará como “maus necessários” para cumprir a sua missão de “democratizar” o capitalismo e o Estado brasileiro, semelhante ao Partido Democrata norteamericano atualmente encabeçado por Joe Biden na presidência do país.

Lula é uma velha peça sendo usada pelo imperialismo e a grande burguesia. Não à toa, uma semana após se tornar novamente elegível por decisão do STF, Lula tomou a iniciativa de pedir para o recém eleito presidente dos EUA, Joe Biden, ajudar os países no combate à pandemia, afirmando que o novo líder do império é um “sopro da democracia no mundo”. No dia 17 de abril, em entrevista a TV Al Jazeera, Lula afirmou claramente que os “empresários brasileiros, donos de fundos e os banqueiros deveriam estar todos os dias, fazendo uma reza e pagando promessa para que eu voltasse a governar o Brasil”.

Já existem movimentações políticas do PT e outros partidos socialdemocratas/comunistas para a consolidação de uma nova “grande aliança”. Além disso, é possível que o Lulismo impulsione algumas manifestações controladas com o objetivo de fazer “lobby parlamentar” e pré-campanha para as eleições de 2022. Na correlação de forças atual, sob uma ofensiva da burguesia, as tendências prováveis para a construção de um novo bloco no poder sob a liderança do PT são ainda piores para as massas populares do que os governos petistas anteriores. Em termos econômicos, a margem de concessão de mínimos direitos sociais hoje seja extremamente reduzida, dado a inexistência hoje do círculo virtuoso internacional do primeiro mandato de Lula em 2002 pela valorização das commodities, por exemplo. O Lulismo não é um instrumento de luta por direitos, ao contrário, é um instrumento alternativo da dominação capitalista no Brasil. E ele não pode derrotar o bolsonarismo: este é uma expressão particular e recente da histórica elite colonial e militarista brasileira. De modo que não se derrota este com as eleições, única arma do lulismo. O bolsonarismo só pode ser derrotado pela força.

 

4 – Do luto à luta! Avançar nas tarefas de reorganização da classe trabalhadora

 

Como anarquistas revolucionários nós temos que falar a verdade: somente uma greve geral e um levante popular, semelhante a 2013, poderia frear nacionalmente a atual ofensiva burguesa e o genocídio do povo brasileiro. Mas entre essa verdade e o nível atual de desmobilização e desorientação da classe trabalhadora existe um abismo. A conjuntura geral é de refluxo das lutas, o proletariado brasileiro está na defensiva. É claro que isso pode mudar, novos fatores intervindo na realidade podem gerar ações-reações novas. É nosso papel como revolucionários trabalhar pra isso. Mas de nada adiantará desconsiderar a realidade, que salta aos olhos. É preciso retomar urgentemente uma capacidade básica de resistência e organização popular, passar dessa defensiva passiva para uma defensiva ativa. Isso não significa deixar de mostrar pela agitação e propaganda a necessidade de construir uma greve geral, mas compreender que caso ela não esteja ligada a essa retomada da atividade de resistência e luta reivindicativa, cairá no idealismo e no isolamento.

É preciso reconhecer, com realismo e sem delírios triunfalistas, que no momento a ofensiva estratégica pertence à burguesia e a defensiva tática ao proletariado. A principal característica desta situação, de defensiva tática é que, o principal objetivo é conservar e ampliar as próprias forças e não destruir as forças do inimigo. Em outras palavras, os objetivos do povo no atual momento não são a destruição do Estado e do Capitalismo, porque não existem condições objetivas e subjetivas para isso. No momento, os principais objetivos destrutivos/criativos são:

1) retomar e fortalecer as instâncias básicas de luta e organização da classe trabalhadora, tais como assembleias, reuniões, agitação, propaganda, protestos, greves e redes de solidariedade;

2) combater o bolsonarismo nos setores mais difusos e desorganizados do povo e a ideologia lulista no movimento popular-sindical: tais combates devem combinar as lutas por reivindicações imediatas concretas e a luta ideológica em defesa da independência de classe, da greve geral e do boicote eleitoral. O lulismo e o bolsonarismo são duas formas históricas da negação da capacidade política autônoma da classe trabalhadora, portanto, o princípio da independência de classe sem uma luta ideológica claramente definida contra essas duas tendências não passa de fraseologia oca, e esta luta ideológica produzirá mais efeito dentro de movimentos reivindicativos reais;

3) construção e fortalecimento de novas ferramentas de luta do proletariado e dos povos (sob a estratégia do sindicalismo revolucionário), tais como movimentos e sindicatos autônomos, oposições combativas, grupos de apoio mútuo, assembleias populares, cooperativas, etc.;

4) o desenvolvimento de uma linha de massas revolucionária que articule a tarefa de oposição às burocracias e de organização autônoma de massas, ou seja, que tenha flexibilidade tática para disputar o curso das lutas como Oposição e como Movimentos Independentes.

A linha de massas bakuninista de construção do sindicalismo revolucionário no Brasil se mostrou correta. Hoje os proto-sindicatos autônomos e núcleos militantes desenvolvem uma ação reivindicativa, solidária e agitativa importante, ainda que em pequena escala, num cenário nacional de total desmobilização e paralisia por parte do sindicalismo oficial e reformista. Essa ação cumpre a importante tarefa de conservar e expandir um pequeno polo de resistência constituído no último período através de anos de luta político-ideológica, evitando assim a apatia e a desintegração, e ensaiando os métodos e formas organizativas para construir verdadeiras organizações de massas quando isso for possível. O salto qualitativo e quantitativo do sindicalismo revolucionário foi fruto de 2013, mas a conjuntura de radicalização e massificação das lutas que beneficiou esse processo hoje não existe mais. Isso traz novas e profundas dificuldades, mas não impede o avanço tortuoso e os saltos imprevistos, se continuarmos nos guiando por uma linha política correta.

Na situação de defensiva passiva por parte da classe trabalhadora existe uma tendência ainda mais forte de integração sistêmica e fortalecimento do reformismo e de desintegração dos setores combativos ou revolucionários. A tendência a desintegração dos setores combativos pode surgir sob a forma de uma repressão seletiva e sem capacidade de resposta pelo grupo-alvo, mas também pode surgir internamente através de desvios de diferentes naturezas: oportunistas, divisionistas, idealistas, educacionistas/propagandistas, pragmatistas, academicistas, denuncistas, catastrofistas, modistas. Através de todos eles podem se expressar a tendência à desintegração interna. Os revolucionários sérios devem se vacinar contra essas doenças da “pequena política do revolucionarismo idealista”, sabendo reconhecer os pequenos avanços de uma linha revolucionária no Brasil, bem como os limites e as tarefas reais do momento. Num momento político difícil como esse, que contrasta com uma memória ainda fresca das barricadas do levante de 2013, a aposta pela paciência, disciplina, coesão e fraternidade entre os nossos certamente serão valores decisivos para os militantes revolucionários que atuam nas organizações sindicais, populares ou estudantis.

Os trabalhadores anarquistas e autônomos ficarão, em qualquer cenário, sob a pressão de duas forças, da reação burguesa e do lulismo. É preciso se preparar para isso. Caso não ocorram eventos de grande porte que modifiquem a situação de refluxo, os cenários serão cada vez mais difíceis para as alternativas combativas no curtíssimo prazo. Por isso será necessária uma luta de palmo a palmo, casa à casa, rua à rua, combatendo em duas frentes: a reação clerical-militar-burguesa (hoje dirigida pelo governo Bolsonaro/Mourão) e o lulismo-reformismo. Nessa tarefa os anarquistas revolucionários e a jovem classe trabalhadora em gestação estarão praticamente sozinhos.

Estas são as pré-condições para que o proletariado brasileiro possa passar a uma defensiva ativa e no médio prazo retomar a ofensiva estratégica, ajudando a criar as condições objetivas e subjetivas da eclosão, no longo prazo, de uma situação revolucionária no Brasil. Estas são pré-condições da luta revolucionária no Brasil.

 

BOLSONARISMO E LULISMO: INIMIGOS DA CLASSE TRABALHADORA!

ABAIXO A POLÍTICA GENOCIDA E ANTI-POVO DO GOVERNO BOLSONARO/MOURÃO!

CONSTRUIR O SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO E A GREVE GERAL PELA VIDA!

ANARQUISMO É LUTA! AVANTE O BAKUNINISMO!

 




Fonte: Uniaoanarquista.wordpress.com