Novembro 16, 2020
Do A Inimiga Da Rainha
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Imagine um dia chuvoso numa cidade fria, sem verão, do norte. Não está nem chovendo, na verdade. Está úmido e frio, como se você estivesse dentro de uma nuvem cinza, e a chuva caindo abaixo.

Não é nada como os dias chuvosos tropicais, onde jorra uma cachoeira dos céus. As ruas viram rios, tudo se segura no lugar para não ser levado. Meia hora depois, acabou. O céu se abre, o sol aparece, as coisas começam a funcionar novamente.

As chuvas do norte vêm lentamente e permanecem por muito tempo. Um tipo particular de tortura. Não passa te banhando, atira flechas de todas as direções. Você não sente a umidade em sua pele, você sente a mordida em seus ossos.

Você se imagina na areia de uma praia linda, com a sensação do calor do sol queimando sua pele. É para lá que as pessoas vão quando morrem?

Se há pessoas por perto, você sente que tem que dizer algo, para não parecer distante. E sai uma dessas:

“Eu odeio esse clima!”

Se você é uma pessoa não-branca, que fala um idioma diferente do local, e há moradores locais brancos ao seu redor, é provável que o seguinte esteja passando pela mente de algum deles, e apenas os mais ousados ​​se atreverão te responder em frustração:

“Por que você não volta para o seu país, então?”

Estas pessoas brancas mais ousadas ​​podem muito bem ser do tipo que vão para lugares tropicais de férias e, de fato, voltam para seu país. Elas romantizam as vidas de pessoas pobres, como a de vender gasolina diluída na beira de uma estrada na Indonésia. Pensam “seriamente” em não ir embora porque gostam muito dali, dizem “aqui as pessoas são tão felizes mesmo tendo tão pouco”, flertam e fazem sexo sem compromisso. Mas elas sempre voltam para o ninho. Seu pequeno país.

O erro delas é pensar que esta é uma rota de mão dupla. Que se elas voltam, você também pode voltar, embora os sacrifícios desta jornada não sejam os mesmos em ambos os sentidos. Será que essas pessoas sabem dos sacrifícios que não são escolhas? Sabem a diferença entre as escolhas que imigrantes e expats[1] fazem em suas viagens? Sabem alguma coisa sobre você?

Essas pessoas podem muito bem estar fazendo birra:

“Se você ama tanto a selva, por que não casa com ela, hein?”

Você sabe, porém, que foram os brancos que tornaram a selva inabitável. Foram os brancos que mapearam, dilaceraram e venderam as terras do seu povo. Foram esses brancos que inventaram o seu país, e você não agradece por isso. Porque eles fizeram isso só para te prender nele, enquanto sugam a vida da selva, e a sua.

Os brancos muitas vezes se veem como o epítome da civilização humana, mesmo você pode ter os visto dessa forma, até perceber que eles não sabem nada de você e pouco deles mesmos. Eles nem sabem que são racistas, porque, como as melhores pessoas podem ser racistas? Como seus investimentos desenvolvimentistas podem ser rejeitados?

Você, então, nesta situação, não é nada racista em falar de volta:

“Por que seu povo não fica neste país de merda e fora da terra dos meus ancestrais?”

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[1] “Imigrantes são geralmente definidos como pessoas que vieram para um país diferente para morar lá permanentemente, enquanto expats se mudam para o exterior por um período limitado de tempo ou ainda não decidiram sobre a duração de sua estadia”. (Zeeck no BBC.)

“Por que os brancos são expats quando nós somos imigrantes?”

Expat é geralmente usado para descrever a imigração de pessoas com nacionalidades de países “desenvolvidos”, que se mudam por escolha profissional. Enquanto “imigração” se refere às pessoas de países “em desenvolvimento”, possivelmente escapando condições “deploráveis”.

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texto: Mirna Wabi-Sabi




Fonte: Ainimiga.noblogs.org