Janeiro 21, 2021
Do Uniao Popular Anarquista
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Consideramos que a atual aspiração plurinacional e a participação “indígena” no processo constituinte formam a expressão contemporânea de uma lógica colonial de submissão com a qual se tenta colocar uma camisa de força ao Weichan e à autonomia Mapuche. – CAM

Dando continuidade a nossa posição desde o anarquismo revolucionário sobre as lições da luta insurgente no Chile, exposta em nossos recentes Comunicados nº73 e nº75, traduzimos e divulgamos para os militantes brasileiros mais essa importante declaração da organização mapuche Coordenação Arauco Malleco (CAM), de outubro deste ano, que comunica sua posição frente a reforma constitucional em curso, reivindica diversas ações de sabotagem e reafirma a luta pela autonomia territorial contra o colonialismo do Estado chileno e dos capitalistas. Desde o Brasil saudamos a heroica resistência nacional e libertadora do povo Mapuche e suas organizações revolucionárias. Desde o Brasil seguimos firmes em nosso caminho de organização e resistência autônoma popular. Segue a declaração na íntegra:

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Ao nosso povo nação mapuche, à opinião pública, chilena e internacional, a Coordenação Arauco Malleco (CAM) e os seus diferentes Órgãos de Resistência Territorial (ORT) comunicam o seguinte:

Kiñe: Em primeiro lugar, declaramos o nosso total apoio ao pu peñi ka pu lamgen do território de Kiñel mapu Makewe frente aos recentes acontecimentos no seu mapu e face às acusações racistas e infundadas feitas por vários sectores do mundo político e econômico do Chile. Como CAM, subscrevemos a responsabilidade do Estado do Chile pela morte do carabineiro, pois foram eles que nos posicionaram como seu inimigo interno, declarando-nos guerra sempre que se colocaram do lado dos interesses do grande capital, gerando um conflito de baixa intensidade a fim de militarizar e dar livre acesso à repressão seletiva e indiscriminada sobre as nossas diferentes expressões de luta. Assim como há baixas nas fileiras do inimigo, também nós já vivemos o assassinato do nosso povo, uma questão que assumimos com dor e raiva, mas somos categóricos em sustentar que tanto as mortes bilaterais passadas como futuras são e serão da responsabilidade do Estado criminoso e dos seus vários governos de turno; neste caso, devido a ação dos carabineiros [polícia] que sempre agiram como guarda pretoriana do capital, assassinando, matando, baleando crianças, idosos, mulheres, e fazendo montagens contra o nosso povo.

Epu: Reafirmamos nosso weichan rakizuam através do horizonte estratégico da Libertação Nacional Mapuche, lutando para acumular forças e lançar as bases de nossa emancipação como Povo oprimido, um processo que implica em nos proporcionar novamente uma capacidade política, ideológica, social, cultural, mas acima de tudo espiritual, como fez nosso kuifikecheyem.

Kvla: Como expressão revolucionária do movimento mapuche autonomista, nos comprometemos a continuar desenvolvendo processos consequentes de luta, a não comprometer nossos princípios e a lutar ideologicamente contra todos os detratores refugiados entre a institucionalidade winka e as academias coloniais. Consideramos que a atual aspiração plurinacional e a participação “indígena” no processo constituinte formam a expressão contemporânea de uma lógica colonial de submissão com a qual se tenta colocar uma camisa de força ao Weichan e à autonomia Mapuche, uma vez que estas estão subjugadas ao mesmo mecanismo partidário chileno que tem protegido historicamente o grande capital. Convocamos o povo Mapuche a não cair nessa cortina de fumaça, já que a autonomia se conquista através da luta territorial, não desde cima, e sem mendigar cotas de poder ou curvar-se diante de ninguém.

O processo constituinte não garante uma transformação estrutural que resolva os problemas de fundo e a violência colonial a que estamos submetidos. Dessa forma, é uma contradição que certas pessoas “iluminadas”, supostamente intelectuais de nossa história e da história dos povos de Abya Yala, aspirem a participar de tais espaços institucionais dotados de traços plurinacionais, os mesmos que foram utilizados em nível continental para intensificar a cooptação neoliberal dos setores vacilantes acostumados a mendigar a representação política das elites.

O caminho plurinacional a partir de cima, tal como é postulado hoje, é um obstáculo à autonomia revolucionária mapuche, pois implica o reconhecimento da legitimidade absoluta do Estado chileno em Wallmapu, condição a qual resistimos e pela qual nosso povo tem derramado sangue, sofrido perseguição e encarceramento. Não é nenhuma novidade que esta via na atualidade possui sua máxima representação através de acadêmicos mapuches que, desde Santiago, querem se aproveitar das conquistas e acertos do movimento autonomista para ascender intelectualmente e politicamente. Nós, a partir das experiências de controle territorial, lamentamos que existam mapuche tão sedentos de poder e prestígio. Consideramos que suas ações são baixas e deploráveis, a ponto de muitos terem chegado a fazer pactos com a direita ou com os setores mais rígidos do empresariado, e a ignorar as dignas ações de resistência de nosso povo com o objetivo de garantir sua participação nos assentos institucionais e não perturbar o poder. Entretanto, em Wallmapu a situação está longe a tal pseudo-realidade santiaguense, já que o racismo e o fascismo exacerbado continuam a sujeitar nosso povo e em nossos trawün, palin, nguillaimawün não se discute a participação em sua institucionalidade; aqui vivemos o weichan, a repressão, o controle territorial e a resistência.

Meli: como pu weichafe que assumimos a luta frontal contra os interesses do grande capital, nos manteremos com o controle territorial e a sabotagem, já que a disposição do Estado do Chile nos condena ao extermínio no que diz respeito ao nosso itrofilmongen, intensificando a expropriação, as batidas, a militarização, a perseguição política e a prisão política. Portanto, daremos continuidade ao weichan, assumindo todos os custos que isso implica, inclusive a morte. É neste cenário que reivindicamos as seguintes ações executadas pelos diversos ORTs em Wallmapu:

  • Fundo Rukamanke, florestal Mininco, 5 maquinarias de última geração completamente queimadas. Temuco ORT- Nagche Ankanamun (fevereiro).
  • Setor Chacamo, florestal Mininco, um caminhão queimado. Carahue, ORT Lavkenche (abril).
  • Fundo Santa Elena, três tratores, uma escavadora e um caminhão. Caminho Freire Villarica, ORT- Wenteche Kvlapan (abril).
  • Fundo El Puma, florestal Arauco, duas colheitadeiras, Panguipulli. ORT Huilliche Kalfulikan (maio).
  • Fundo Los Tallos, florestal Arauco, duas colheitadeiras. Panguipulli – Los Lagos, ORT Huilliche Kalfulikan (maio).
  • Fundo San Ernesto, florestal Mininco, uma skider, um trineumático e um contêiner. Contulmo, ORT Lavkenche- Levtraru (julho).
  • Máquina yanakona Norin. Traiguen, ORT Nagche Mañil Wenu.
  • Los Riesqos, florestal Anchile, um caminhão e um contêiner. Purranque, ORT Williche Kalfulikan (agosto).
  • Fundo La Castilla, florestal Arauco, 4 colheitadeiras e uma caminhonete. Loncoche, ORT Williche Kalfulican (agosto).
  • Fundo Pichibureo, florestal Mininco, Besalco, 6 máquinas e 3 caminhonetes completamente queimadas. Mulchén, ORT Wenteche Katrileo (agosto).
  • Fundo Saboya, florestal Mininco, contratista Cerda, 5 máquinas y dois ônibus sabotados. Los Sauces, ORT Nagche Pelontraru (setembro).
  • Ruta Purén- Lumaco, dois caminhões florestais, comuna de Lumaco, ORT Nagche Pelontraru (setembro).
  • Fundo Vista Hermosa, florestal Cautín, maquinaria incendiada. Padre Las Casas, ORT Wenteche Katrileo.
  • Fundo Antofagasta, florestal Cautín, maquinaria queimada. Traiguen, ORT Nagche Manguil Wenu.
  • Fundo San Carlos, florestal Mininco, uma máquina e um caminhão queimado. Selva Oscura, ORT Wenteche- Manguil Wenu.
  • Fundo Nahuelcura, florestal Mininco, 7 máquinas e 3 caminhões completamente incendiados. Cunco, ORT Wenteche Matias Katrileo.

Kechu: Por último, convocamos as demais expressões em resistência, comunidades em luta, para dar continuidade ao weichan, no caminho de uma luta frontal para recuperar o território e a liberdade para nosso povo. Unir-se na luta, fortalecer os processos, manter a dignidade que caracteriza o mapuche que luta por território e autonomia, a não nos deixar derrotar por todo o aparato econômico e político. Não permitamos que eles venham falar conosco sobre paz, quando massacraram nosso povo, quando suas riquezas estão manchadas de sangue mapuche, quando saquearam nossos territórios: eles querem paz, mas com o povo mapuche de joelhos. Que a luta continue até expulsar as empresas florestais, hidrelétricas e latifundiários que nos roubaram o território e a liberdade a custa de morte, balas e prisões. A autodefesa e a sabotagem contra a invasão são legítimas.

POR TERRITÓRIO E AUTONOMIA PARA A NAÇÃO MAPUCHE!!!

FORA EMPRESAS FLORESTAIS, HIDRELÉTRICAS E DEMAIS INVESTIMENTOS CAPITALISTAS DO WALLMAPU!!!

LIBERDADE A DANIEL CANIO E A TODOS OS PRESOS POLÍTICOS MAPUCHE!!!

AMULEPE TAIÑ WEICHAN WEWAIÑ- MARRICHIWEU!!!

NÃO SOMOS OS INDÍGENAS DO CHILE, SOMOS MAPUCHE!!! (Matías Catrileo).

COORDENAÇÃO ARAUCO MALLECO.”




Fonte: Uniaoanarquista.wordpress.com