Maio 3, 2021
Do Passa Palavra
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Por Z1010010

Já é comum na esquerda encontrar quem use e-mails do Riseup. Ninguém sabe exatamente por quê, mas são e-mails “seguros”. Infelizmente, é apenas o e-mail do Riseup o serviço mais conhecido, porque o Riseup também tem bate-papo (sim, você pode usar o Riseup para “correr por fora” do Whatsapp), ferramentas de colaboração em grupo, um bloco de notas, listas de e-mail, uma ferramenta de compartilhamento de arquivos pesados, uma VPN gratuita para computadores e celulares… O coletivo Riseup oferece um verdadeiro “canivete suíço” de ferramentas para ativistas. Mesmo se fosse apenas o e-mail, o Riseup serve para explicar o que é um servidor ativista. Esse artigo pretende explicar o que é um servidor ativista, como é possível montar um deles, quais os cuidados necessários, por que sua organização deve montar seu próprio servidor (ou juntar-se a outras para montarem uma infraestrutura comum); além disso, será apresentada uma quantidade de outros servidores ativistas, e também as tentativas de formar uma espécie de “rede” de servidores ativistas.

Comecemos pelo básico: o que é um servidor? É um programa, ou um computador, que fornece serviços a uma rede de computadores — chamados clientes — que deles se beneficiam. Você usa servidores e clientes todos os dias, mas talvez nunca tenha chamado as coisas pelos seus nomes técnicos. Alguns exemplos ajudarão a entender.

Digamos que, para ler este artigo, você primeiro tenha acessado diretamente o site do Passa Palavra pelo link https://passapalavra.info. Ao fazê-lo, você desencadeia em poucos segundos uma operação bastante complexa, tão rápida que nem percebe o que houve.

Primeiro, você pediu a seu computador (ou celular) que localizasse, entre milhões de outras máquinas conectadas à internet, aquela associada a este endereço. É como sair de um endereço a outro numa cidade: entre milhões de casas, prédios, lojas etc., só interessa aquela onde você quer chegar, então você dá um jeito e vai até lá. Até esse momento, estamos falando apenas da conexão de uma máquina à outra. Mas as máquinas que hospedam o site do Passa Palavra têm uma função especial: guardar todos os arquivos — fotos, páginas, fontes tipográficas, desenhos, bancos de dados etc. — usados para dar ao site a “cara” e o “conteúdo” que ele tem. As máquinas que você acessou para ler o Passa Palavra são servidores web, responsáveis pelo armazenamento de páginas de um determinado site, requisitados pelos clientes (como seu computador ou celular) por meio de navegadores. Vamos continuar, então.

Logo em seguida, ao acessar a página principal do Passa Palavra, você “pediu” ao computador que hospeda os arquivos para “pegar” todos os arquivos que dão à página principal a cara que ela tem e organizá-los na forma que você viu ao abrir a página principal. Tudo isso acontece em poucos segundos num “diálogo” entre seu computador (ou celular) e os computadores que hospedam os arquivos que formam o site do Passa Palavra, em que suas máquinas funcionam como clientes e essas últimas funcionam como servidores.

Quando você, ao abrir a página principal do Passa Palavra, se interessou por este artigo que agora está lendo e clicou no link para lê-lo, iniciou novamente o processo, desta vez pedindo ao servidor web para “pegar” os arquivos que dão a este artigo a “cara” e o “conteúdo” que ele tem e apresentá-los a você de forma organizada.

Agora, digamos que você tenha gostado desse artigo, depois de lê-lo até o fim, e tenha resolvido compartilhá-lo pelo Whatsapp. Ele funciona com base numa versão modificada do protocolo XMPP, que já foi explicado com bastante detalhes no Passa Palavra. Novamente, são usados servidores para intermediar a comunicação entre celulares que funcionam como clientes (leia o artigo indicado para entender melhor). Mas digamos que você seja uma pessoa para quem o e-mail ainda serve para disseminar notícias e promover debates, e tenha decidido encaminhar este artigo a seus contatos; descontados os detalhes técnicos que mudam (protocolos SMTP, POP3, IMAP etc.), ao acessar seu e-mail, aparece mais uma vez uma relação entre cliente (seu computador ou celular) e servidor (as máquinas que hospedam e fazem funcionar o e-mail). Para terminar os exemplos, digamos que você tenha resolvido imprimir algumas cópias deste artigo na impressora compartilhada do trabalho, para depois discuti-lo com camaradas; se a impressora é compartilhada, em algum lugar no seu trabalho existe um servidor de impressão, que usa protocolos técnicos específicos (IPP, LPD, , etc.) para conectar todos os computadores desse lugar com a impressora.

Servidores, deste modo, são programas ou computadores que fornecem serviços a uma rede de computadores — chamados clientes — que deles se beneficiam. Qualquer computador pode funcionar como servidor; tanto assim que está hoje na moda o chamado self-hosting (“auto-hospedagem”, ou “hospedagem por conta própria”): é o uso de computadores pessoais ou de pequenas máquinas dedicadas (Raspberry Pi, por exemplo) para funcionar como uma espécie de “nuvem” pessoal de arquivos, ou como servidor multimídia doméstico. Mas cuidado: o self-hosting não é algo que se faça instalando programas e deixando funcionar, somente. É preciso alguma dedicação para garantir a segurança e a integridade do servidor. Nada disso se faz sem os conhecimentos técnicos adequados: configurar a abertura de portas para acesso público; ajustar adequadamente as permissões de pastas e arquivos mais críticos; instalar, gerir e manter atualizado o software na máquina; lidar com eventuais falhas do software ou do hardware; entre outras medidas.

E o que é um servidor ativista?

O básico: é um servidor, ou um conjunto de servidores, mantido por ativistas. Estes servidores, como qualquer servidor, fornecem serviços a outros computadores; mas o fato de serem mantidos por ativistas faz desses servidores algo diferente dos servidores comerciais, ou dos servidores “gratuitos” que garimpam e vendem seus dados. (Aliás, recentemente a Autorità Garante della Concorrenza e del Mercato, autoridade italiana com atribuições similares às que no Brasil têm a Secretaria Nacional do Consumidor — SNC e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica — CADE, multou o Facebook em € 7 milhões por não informar adequadamente aos usuários que os custos com os serviços prestados são cobertos por meio da venda de dados pessoais. Esta decisão, e suas consequências, merecerão comentário num artigo futuro.)

Servidores ativistas costumam fornecer serviços usando softwares já bastante conhecidos, como estes:

A escolha do software por cada coletivo ativista que monta um servidor responde às necessidades de seu ativismo. Além disso, há nos servidores ativistas a possibilidade de reduzir cada vez mais o uso de ferramentas comerciais pretensamente “gratuitas” fornecidas pelos GAFAM (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft), que, além de usá-las para manter enorme vigilância privada e recolher informações pessoais nossas (hábitos, gostos, preferências, localização, rotinas etc.) para vendê-las depois, colaboram ativamente com programas governamentais de vigilância.

A simples mudança para um servidor ativista reduz enormemente nossa sujeição à vigilância dos GAFAM, mas, mesmo com a preferência dos servidores ativistas por software e por configurações técnicas que garantam ao máximo a privacidade e a segurança de dados — como criptografia no disco, política zero knowledge etc. — nenhum deles faz milagres. Ainda está sob a responsabilidade dos usuários empregar medidas básicas como senhas fortes e criptografia. Da mesma forma, a equipe responsável pela manutenção deve ter bom conhecimento técnico em segurança de redes para evitar, entre outras coisas, invasões.

Por isso, há coletivos ativistas de tecnologia que dedicam-se a fornecer gratuitamente (ou por meio de contribuição voluntária, campanhas de arrecadação de fundos etc.) serviços como aqueles listados acima. O Riseup é o mais conhecido de todos, mas há uma “rede” de coletivos ativistas de tecnologia que vale a pena conhecer:

A lista é enorme! E com razão. Não é objetivo dos servidores ativistas “centralizar” nada. Pelo contrário: há entre eles uma “filosofia” difusa, não sistematizada, mas eficaz, de que quanto mais servidores ativistas houver em funcionamento, atendendo às necessidades específicas dos grupos ativistas que lhe são próximos, mais difícil será para organismos de vigilância e repressão derrubar o funcionamento dessa “rede”, e mais difícil ainda será consolidar informações de modo centralizado sobre ativistas.

Se você é um ativista ainda sem participação em organizações, será interessante navegar pelos coletivos dessa lista para conhecer os serviços de software que fornecem, quais as condições para seu uso, qual sua política de privacidade, como solicitar uma conta (nos serviços que precisem)…

Mas se você é um ativista participando em alguma organização, poderá ser interessante avaliar se as necessidades de comunicação ou informática de sua organização estão sendo supridas por software dos GAFAM (como Facebook, GMail, Outlook, Whatsapp, Meet, Instagram, Google Drive, Messenger etc.) ou de empresas com perfil similar (Twitter, Dropbox, Zoom, , , Telegram etc.), e se não seria melhor planejar uma migração em massa para serviços prestados por coletivos ativistas.

Mas atenção: pode ser estratégico para sua organização manter a presença em redes sociais mantidas pelos GAFAM e similares para intervir em certos debates. A migração em massa, em vez de “radicalizar” propondo a migração total, deve levar em conta este cenário, estabelecendo explicitamente qual conteúdo pode circular nos meios controlados pelos GAFAM e similares, e quais não deverão, de modo algum, circular por lá. Essa “compartimentação de informação”, muito comum, é o primeiro passo para um uso consciente das ferramentas informáticas de comunicação disponíveis.

Caso sua organização tenha mais recursos, pode ser inclusive o caso de planejar para o futuro a criação de um servidor próprio, ou de compartilhar um servidor com outras organizações. Pode-se pactuar, por exemplo, quais necessidades devem ser atendidas por esse servidor, qual software será usado para atendê-las, qual a política de privacidade e as condições para o uso dele e de seus serviços, o que “pode” e o que “não pode” ser feito com ele, onde hospedá-lo, como compartilhar os custos com sua manutenção, quem ficará responsável pela gestão, como lidar com incidentes de segurança… Quanto mais servidores estiverem à disposição de ativistas, e quanto maior for o tipo de serviços oferecidos, maiores serão as possibilidades de tirar do alcance das GAFAM pessoas e organizações que, pelo tipo de ativismo que fazem, tornam-se muito visadas na internet.

Um servidor ativista pode, inclusive, ajudar a construir a chamada comunicação distribuída, muito mais eficaz para garantir a privacidade e a segurança de ativistas que a comunicação centralizada. Como este artigo já ficou bastante longo, o assunto será tratado num artigo seguinte.




Fonte: Passapalavra.info