Março 3, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
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Grupo de combate do Exército Negro de Nestor Makhno no sul da Ucrânia (1918)
Grupo anarquista de defesa de Kiev (2022)

Hoje a quase esmagadora maioria dos Estados que rodeiam a Rússia e que, em grande parte, integraram a União Soviética são essencialmente anti-comunistas (na sua versão marxista-leninista) e, em muitos casos, claramente orientados para a direita do espectro político. Depois de anos de anexação e guerra imperial por parte da Rússia dos czares, o braço de ferro soviético não foi menos opressor, totalitário e imperialista, o que pode explicar o actual anti-comunismo visceral em muitos destes países, para quem a mudança de regime do czarismo para o bolchevismo pouco significou: a ocupação dos territórios por uma classe dirigente essencialmente russa, a sua subordinação aos interesse e à estratégia de Moscovo, a aculturação de muitas das especificidades próprias destes países mantiveram-se ao longo de praticamente todo o século XX.

Há muito que os anarquistas denunciam  o carácter totalitário e imperialista do poder construído pelos bolcheviques sobre a generalidade da população. Logo em 1921 as prisões soviéticas albergaram milhares de presos anarquistas que contestavam e se opunham ao poder autoritário dos bolcheviques, não só sobre os povos da Rússia, mas também dos países vizinhos, como é o caso da Ucrânia onde o exército de camponeses de Machkno teve que enfrentar os exércitos brancos da reacção e o exército vermelho liderado por Trotsky. O movimento insurrecional ucraniano foi esmagado nos últimos meses de 1920, de que resultaram milhares de mortos e presos; seguiu-se a revolta dos marinheiros de Cronstadt que lutavam por sovietes livres do controlo dos bolcheviques, em Março de 1921. Antes, em Moscovo e  nas grandes cidades, milhares de anarquistas já tinham sido presos e mortos por desafiarem o poder bolchevique.

A tragédia do que seria o “comunismo real” era já bem evidente por esta altura, como o tinha sido antes para Bakunin e para os seus companheiros da 1ª Internacional críticos de Marx, a quem acusavam de, com a sua ideologia totalitária e sectária, de partido único e “ditadura do proletariado”, estar a criar as condições para que a almejada “libertação dos trabalhadores” se transformasse numa tragédia sem fim, de que as purgas stalinistas, a invasão da Hungria (1956) e da Checoslováquia (1968) pela União Soviética ou o regime comunista de Pol Pot no Camboja, a “revolução Cultural” na China, e alguns regimes inspirados pelo marxismo em África são apenas alguns momentos do terror. Um terror criado por uma ideologia que, praticamente desde o início, fez sua a teoria de que os fins justificam os meios e que para os atingir tudo é permitido, mesmo a mais brutal violação de todos os direitos e da própria integridade do ser humano.

Sabemos que outros regimes, de outras cores políticas, por todo o mundo, praticaram crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O nazismo e o fascismo foram, também no século passado, regimes totalitários, criminosos – como o são hoje algumas ditaduras apoiadas pelos Estados Unidos e pelo mundo ocidental para quem o mais relevante é o controlo dos recursos naturais. Antes a Inglaterra, a França, a Bélgica, Portugal, Espanha, entre outros, também desenvolveram políticas imperialistas, criminosas, com recurso ao saque dos recursos naturais, à redução dos indivíduos a simples objetos transacionáveis e utilizáveis conforme os interesses dos Estados e das suas estratégias comerciais.

Mas nada desculpa os crimes do chamado “mundo comunista” que destruiu, talvez para sempre, a esperança e a utopia criadoras que, para as gerações anteriores à nossa, significava a palavra socialismo: uma terra sem amos, sem guerras, sem messias, deuses, chefes supremos, a Internacional sonhada por milhões de trabalhadores em todo o mundo e cuja letra foi escrita por um anarquista, Eugène Pottier. Uma palavra e um sonho despedaçados sob a bota militar de Lenin, Trotsky e seus seguidores.

Hoje a Rússia não é comunista – os crimes do comunismo afastaram também os russos da ideologia bolchevique -, mas o imperialismo que sempre a caracterizou mantém-se intacto, fazendo que os países à sua volta continuem a temer o braço de ferro do “irmão russo” que tantas vezes os violentou ao longo da história e, contra natura, a pretenderem aderir à NATO – uma força beligerante, militarista e que se comporta como o braço armado dos Estados Unidos, outra potência imperialista – para se defenderem desse abraço de urso de Moscovo.

A Ucrânia é um destes países e a invasão russa veio-lhe dar razão. A agressão de Moscovo, seja qual o ponto de vista que se queira usar – mesmo que tenha havido provocações anteriores, nomeadamente contra as minorias russas, poderia ter justificado uma presença militar russa nos territórios ocupados pelos separatistas, mas nunca este crime de guerra contra um povo com uma capacidade militar muito inferior mas que, como se tem visto, tem sabido defender a sua terra, as suas casas, a sua cultura contra o invasor, como antes já o tinham feito Makhno e os seus companheiros face aos exércitos de Lenin e de Trotsky. Com coragem e determinação.

L. B.




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com