Junho 11, 2021
Do Passa Palavra
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Por Alan Fernandes

Dia 31 de maio era confirmada no Brasil a Copa das Américas, evento que havia sido recém-recusado pela Argentina e Colômbia. Em tempo recorde, o Planalto multiplicou forças onde elas não existiam para propagandear o evento. No mesmo dia, o país obtinha mais 874 mortes em consequência da Covid-19, número que se somaria à soma vergonhosa de mais de 400 mil mortes em decorrência da política sanitária do Executivo. Em um passado não tão distante, o Governo Bolsonaro demorou não 3 horas, mas meses, para atender a oferta da Pfizer sobre fornecimento de vacinas. Foram 53 emails confirmados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia que alertavam para a possibilidade de o Brasil ser uma “vitrine de vacinação” na América Latina.

Não podíamos esperar prioridades diferentes. Desde aqueles primórdios de 2020, apesar de um inicial consenso sanitário em interromper a propagação do vírus Sars-CoV-2, o Governo Federal já amenizava, senão subestimava o perigo da pandemia, sendo histórico seu discurso de 24 de março onde quebra esse consenso e acusa de “alarmistas” os governadores e prefeitos que efetuaram políticas de isolamento social, das mais amenas às mais rígidas.

No que pesa a recepção do campeonato, é evidente o mal-estar social que o compromisso com a Conmebol assumiu perante parte da sociedade. De primeira mão, por parte da própria seleção brasileira.

Os jogadores brasileiros por alguns dias foram a esperança de muitos ao alimentar animosidade com a CBF e manifestar críticas à realização do evento. Com episódios desde o escracho do treinador da seleção (favorável ao boicote) a denúncias de assédio sexual por parte do presidente da CBF, o desfecho foi uma seleção tecendo críticas à organização da Copa, mas afirmando em carta-aberta que jogariam no evento. Essa foi, talvez, uma das grandes esperanças em barrar o evento impedindo a escalada autoritária de Bolsonaro e o vexame brasileiro perante a política internacional. Outra manifestação parecida ocorreu no ano passado, nos Estados Unidos, quando jogadores da NBA boicotaram jogos em apoio aos protestos Black Lives Matter que sucederam do assassinato de George Floyd. Fica a reflexão se protesto semelhante não teria potencial para acontecer no Brasil. Mas, ao que parece, a seleção brasileira não se compromete com política da mesma forma que os jogadores da NBA. Na verdade, o deixaram claro em sua carta-aberta, que não fariam o jogo dos “interesses políticos”.

Ainda, na mesma semana em que é confirmada a celebração do evento em discurso oficial do Presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ocorre uma assembleia de forças de oposição ao governo nos movimentos e centrais sindicais para mobilizar um calendário de luta. A assembleia foi convocada para o dia primeiro de junho pela Frente Fora Bolsonaro.

Na reunião, que marcou ato para o dia 19, houve um consenso indiscutível sobre pautas como “Auxílio Emergencial”, “Vacinação em massa” e, é claro, “Fora Bolsonaro”. Companheiros que foram como ouvintes — vale ressaltar, foi uma assembleia transmitida pelo Youtube com forças majoritárias já pré-estabelecidas — relataram que houve uma discordância, se não um boicote, ao “Não vai ter copa”. Ora, barrar a Copa das Américas não estaria no calendário de obstrução da política anti-sanitária de Bolsonaro?

Nos bastidores daquela assembleia foi percebido um rechaço por parte de setores da esquerda tradicional com a associação ao “Não vai ter Copa” de 2014, que deve ter sido o motivo mais evidente para o boicote da pauta. Só que naquele ano a realização do evento teve sinal verde de Dilma Rousseff (Partido dos Trabalhadores), então Presidente da República, para a Copa do Mundo acontecer no Brasil, com direito a obras superfaturadas, remoções violentas, sufocamento de movimentos sociais, entre outras coisas, e por consequência movimentos sociais contra a sua realização, portanto questionando o Governo Federal. Outro fenômeno da época foram os protestos pelo impeachment de Dilma, que disputavam já há um tempo a explosão de contestações que se iniciou em junho de 2013.

Uma narrativa muito forte que existe desde então é a leitura de que as jornadas de junho marcaram as “guerras híbridas” no Brasil, leitura que não entra no mérito da legitimidade dos protestos contra o aumento da passagem. A quem quiser conhecer o surgimento do conceito, vale ler outro artigo publicado neste site sobre o assunto aqui. A nós, no momento, interessa explicar como o conceito se disseminou na esquerda dos círculos petistas. A narrativa que se cria é que aquelas revoltas explosivas e sem capacidade de domesticação por parte das estruturas sindicais serviu de empoderamento involuntário de setores fascistas da sociedade que encontravam na esquerda um inimigo da classe trabalhadora.

Essa mesma abordagem oportunista volta a dividir a esquerda no momento em que mais precisamos da unidade para ver reverter a agenda de morticínio do Governo Federal. Setores do PSOL, das oposições sindicais e sobretudo autonomistas são rechaçados novamente por esses setores ressentidos da esquerda com o desfecho do impeachment de 2016. Editoriais como esse, do Partido da Causa Operária, voltam a defender que o “Não vai ter Copa” é política exclusiva da direita. O artigo foi conseguido através de uma cópia armazenada no Internet Archive. Ou seja, foi excluído pelos seus editores. Mas não as três colunas no site publicadas sobre o assunto (aqui, aqui e aqui). Aliás, vale se perguntar por que escolheram apagar o editorial ao invés de fazer a devida autocrítica (se é que há alguma) e mantiveram um artigo de título “Obrigado, Trump”.

Há quem diga, “Ah, mas o PCO coleciona essas baboseiras. Não dá para levar muito a sério”. Mas também o Brasil247 fez uma matéria no ano passado acusando o Guilherme Boulos e setores do PSOL de contribuírem com o “golpe” em sua luta contra a Copa.

No site do PT, há matérias favoráveis ao ato do dia 19 de junho (por exemplo, aqui), data consensual na assembleia do dia 1º. Apesar disso, silêncio do Partido sobre a Copa América.

Em meio a esse silêncio, ou boicote deliberado, ocorre um chamado para o dia 13 de natureza mais espontânea e “autônoma” no Rio de Janeiro, com a expectativa de protesto no Maracanã. A intenção é que se continue essa agenda de lutas sem para isso deixar a abertura da Copa em branco. Como já foi dito, há setores por parte da esquerda interessados em desarticular essa luta. Na avaliação destes, o caminho para a oposição é abrir o caminho para a derrota eleitoral de Bolsonaro, ainda que suas políticas concretas sejam colocadas sem resistência a curto prazo. Só que a consequência disso são cada vez mais derrotas para todos nós.

Pretendemos com esse ato do dia 13 aglutinar e abrir um espaço para diálogo de outras pautas e outras táticas de luta. No entanto, além do boicote deliberado daqueles setores já mencionados por este artigo, o objetivo da mobilização pode ser frustrado pela intenção de uns e outros em focar nos chamados para os ditos “Blocos Autônomos”, tendência de construção de luta nos meios autonomistas. Se nosso objetivo é agregar e multiplicar forças, cabe a reflexão se faz sentido uma prática sectária que há um bom tempo já tem dividido lutadores independente de suas práticas concretas no cotidiano. Apesar dessas contradições internas ou públicas, podemos e devemos construir uma agenda de articulações visando cobrir o vácuo da esquerda tradicional, sempre com cuidado coletivo e responsabilidade, indo de máscaras PFF2 e assegurando distanciamento físico sempre que possível.

A primeira imagem que ilustra este artigo é de Rafaela Biazi. Em seguida, uma das imagens que remonta ao chamado para a manifestação do dia 13.




Fonte: Passapalavra.info