Junho 9, 2021
Do A Inimiga Da Rainha
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A ESCRITA DE SI

Para localizar-me nesse lugar da escrita de si, começo então a pensar juntamente com Michel Foucault (1983) sobre a escrita como sendo uma “arte de si”, um disparate, um exercício pessoal de leitura da realidade, trabalhada numa relação com o mundo mediante os movimentos interiores de minha alma. Entendo que a princípio haveria na minha escrita um campo de relação com as minhas crenças religiosas, acerca de meus temores e tremores, nesse tocante minha escrita falaria a respeito de alguém que volta-se a uma vida espiritual, percebendo e ordenando o mundo a partir destas lentes, onde ofereço aquilo que penso através de um olhar possível.

De certo modo minha escrita exerce sobre mim quando a leio uma espécie de constrangimento, chega a ser como ouvir minha própria confissão. Lembro novamente de mim sentado na sala de aula de minha infância, encarando os primeiros intempéries da escrita, escrevendo com força na folha de papel sobre como me sentia, sobre o que sentia em relação a uma situação de vergonha, de vermelhidão, um garoto de calça tucandeira, com jeitos e trejeitos afeminados que tinha um cotidiano encontro com olhares e brincadeiras maldosas, estava colocando pela primeira vez aquilo tudo em uma redação, mas após ler aquilo que escrevera eu amassei o papel e disse a professora não ter feito o exercício. É como se de algum modo minha escrita, ainda hoje fizesse isso comigo, revelasse a mim mesmo, assustando algumas sombras interiores, me convocando a desfazer determinadas tramas de um inimigo que todos os dias acabo entrando em conflito: eu mesmo.

Acompanhando esse primeiro movimento existente no meu processo minha escrita se escreve como sendo um exercício de combate interno diário, um exercício do pensamento sobre ele mesmo; um pensamento que mergulha em si para reativar e rememorar o que já sabe, construindo princípios e regras, assimilando-as e levando-as para o real, que nesse encontro se rarefazem, se empoeiram e somem, então volto-me novamente para o papel, para a letra e prossigo o movimento, a poeira das regras e dos princípios está grudado na minha pele pelo suor do exercício, esse processo se acumula até ganhar ritmo e som.

Ao lado de Foucault (idem) continuo a deparar-me com um modo circular desse exercício, chegando a ser uma espiral. Existe algo que precede as notas, os rabiscos da primeira frase que escrevo, existe um momento, um tempo onde vejo-me retido porque ainda não ouvi o ritmo, ainda não alcancei o som, necessito então silenciar, fechar os olhos e buscar pelo coração moinho, preciso alcançar o movimento interno de meu coração para trazê-lo à escrita, fazendo emergir o pensamento como um acorde, como um som que puxa as palavras de dentro para fora, ouço-o e então isso me permite uma releitura da primeira linha, o que revigora o movimento para fazer crescer o ritmo da escrita.

A partir desse ciclo que se inicia, minha escrita começa a gerar um discurso e elaborar o reconhecimento de princípios que a norteiam, como a própria cosmovisão e o toque no mundo primário, que ao se reordenar num mundo secundário desta escrita, constrói uma relação com características morais, revelando hábitos, crenças e costumes, esse processo da escrita de si possibilita a mim localizar-me na cultura na qual eu estou inserido. Possibilita-me enxergar que minha escrita toma nota crítica da realidade.

Continuo ao lado de Michel Foucault (idem), compreendendo a profundidade desse tomar uma nota crítica da realidade, como um disparo interno que busca captar aquilo que já foi dito, experienciado, vivenciado. Sons, ruídos, poesias, manifestos e fragmentos desses caminhares, com a finalidade de construir uma relação de mim para comigo mesmo frente a realidade na qual estou inserido, me fazendo exercitar uma auto formação através desses logos dispersos e fragmentários que são transmitidos pelo ensino, pela escuta, pela troca, pelo encontro e compartilhamento da trajetória. Acredito que todo o conteúdo de uma vida se manifesta, na busca incessante por comunicar-se revelando sentido crítico nesse mergulho em si.

Concebo essa escrita no seu movimento como notas críticas e afetivas sobre a realidade, notas construídas e atravessadas por elementos heterogêneos, provenientes de lugares variados, elementos diferentes e distintos de minha natureza, desde uma relação com uma memória até o sentimento físico de um machucado, minha escrita toma nota não somente de minhas experiências com o mundo primário para concebê-lo num mundo secundário artístico, expondo um modo de confecção de texto, mas entende isso como parte própria do processo que trabalha a partir do pensamento como mola propulsora de interpretação da realidade.

De modo que, acredito me opor até certo ponto ao trabalho e desenvolvimento de uma estética gramatical padrão, que procura para determinado fim conhecer ou aprofundar-se numa obra de referência em sua totalidade para uma proposição conceitual apenas. Acredito que atravesso esse lugar mas não finco-me nele, muito porque como penso ser a escrita um lugar que possibilita rupturas nos modos de pensar estabelecidos como modelos de ordenação e vigilância de procedimentos, acabo endossando o contra significado disso, refletindo que pouco importa se existe uma leitura completa de determinada obra, é questionável para essa escrita se tenho aprendido tudo o que quiseram dizer ou ainda se eu sou capaz de reconstruir um conjunto de argumentação baseado em determinada biografia.

Importa-me antes ouvir narrativas outras, de pensamentos colocados como periféricos, investindo na abertura de caminhos ainda não dimensionados, de sistemas de pensamentos marginalizados e modos que ainda não chegaram a este espaço. Isso porque necessito neste trabalho questionar o processo doutrinal de unificação que os espaços escolares possuem e disseminam desde sempre através de seus modelos de ensino. Processos esses capazes de gerar o aniquilamento de pensamentos em diáspora de toda uma população que têm fome e sede, de pensamentos fugitivos e estrangeiros de si próprios.

Continuando com as proposições de Foucault e ouvindo suas palavras de análise (idem) constituo minha escrita em pelo menos dois outros princípios. O primeiro seria uma série de questionamentos: qual a verdade local daquilo que está sendo dito? Qual a verdade da sentença dada por uma narrativa? Do texto lido, do discurso que o constitui? Qual contexto isso revela? Como aquilo que está sendo comunicado em uma manchete, fala, imagem, gestual é capaz de imprimir e expor uma verdade local, uma narrativa ímpar, uma história própria de si, residente somente ali, capaz de revelar algo ainda não dito, ou trazer a tona a insistência de uma voz ainda não ouvida? E como essa verdade atravessa minha percepção, como chega ao meu coração e como de algum modo isso produz material para minha escrita?

Não pretendo adentrar nos critérios que estabelecem uma verdade, mas imagino que toda forma de ser possui a sua, e que esta necessita ser respeitada. O que não significa que ela não pode questionada, e que sua relevância não deve ser considerada, muito pelo contrário, seu modo de ser e estar são necessários para o fluxo existente da vida dentro do processo de escrita.

E nesse tocante estabeleço então uma outra série curta de questionamentos como princípio: qual seria o valor inegociável dessa narrativa que a escrita produz? O que não pode ser tratado como escambo para esse processo? O que não pode ser dado como moeda de troca pela essência desse movimento que escrita de si possibilita?

O que estou propondo não é uma espécie de nivelamento para o que seria a escrita de si ante a outros conceitos de produção de pensamento, mas a concepção de suas travessias pelas realidades como elas se apresentam, e de como ao convocá-las para o espaço da escrita de si, as ampara e lança-as como um modo de expor-se ao mundo. As narrativas, histórias e falas locais são necessárias de acordo com as circunstâncias em que nos encontramos, são meios pelos quais um indivíduo insere-se num determinado lugar, trazendo sua fala como enunciação de sua existência.

É dentro da escrita como um exercício, que todas essas proposições se apresentam, como partes integrantes do processo pessoal feito por si e para si, é uma arte da verdade interior, uma maneira racional de “combinar a autoridade das coisas já ditas com a singularidade da verdade que nela se afirma e a particularidade das circunstâncias que determinam seu uso.” (FOUCAULT 1983, pág 151)

Acredito que esse disparate possibilitado pela escrita de si não exclui uma unidade, porém essa unidade não é a composição de um conjunto unificado. Antes a unidade se estabelece e encontra lugar naquele que produz a escrita, na sua constituição, no próprio gesto de escrever, de sua leitura e própria cosmovisão, e releitura da realidade a partir dela.

Insistindo em ouvir a voz de Foucault (idem) compreendo juntamente com ele que quando fala-se aqui dessa escrita como notas críticas da realidade constituída a partir de fragmentos heterogêneos é justamente porque essas notas são construídas mediante a subjetivação de quem escreve no exercício pessoal deste ato.

É pensar que o ato da escrita constitui um corpo repleto de seus significados próprios, esse corpo digere a matéria e não a mantém intacta, pelo contrário a escrita de si nesse processo propõe-se a ser um corpo de digestão, um corpo que se une e caminha junto a outros pensamentos, não chama apenas vozes que falem pela escrita, mas as digere numa espécie de ruptura ao modo de referenciação, essa escrita não deseja e não visa estabelecer doutrina. Esse corpo movimentado pela escrita de si transcende suas próprias leituras, se apropria e faz sua própria verdade delas.

A escrita de si ressignifica, transforma, rearranja a coisa vista ou ouvida em forças e em sangue, num movimento único e particular, essa escrita é uma ação e nessa ação aquele que escreve cria sua própria identidade através dessas notas. Observa o mundo e suas problemáticas éticas de semelhança nos modos e padrões de ser e estar frente a diversas questões sociais, existenciais e afetivas. Propondo um olhar não somente poético de si, mas encontrando nesse lugar de si uma afirmação também política e identitária, desenvolvendo uma fidelidade e uma originalidade que deseja escrever sobre os atravessamentos que constituem um humano cheio de falhas e vulnerabilidades, entendendo que nessa vulnerabilidade do corpo físico e da vida, também se estende ao corpo digestivo da escrita e seu processo e que esta estabelece um vínculo de tom religioso com o seu próprio coração, com a sua própria alma que necessita criar enquanto escreve.

Ainda nessa escrita, assim como se percebe que um corpo carrega filiação, que existem traços neste corpo que falam e conectam pertencimentos e histórias, existe de modo desviante uma semelhança, um jeito que sugere, que afirma nessa escrita pronunciando uma filiação de pensamentos que estão gravados na alma, e nesse coração, um modo, uma forma de ver e enxergar a realidade e o mundo, uma cosmovisão que convoca espectros invisíveis da percepção, analisando os conflitos de poder em ordens diaspóricas do sentir, na crença de uma escrita em dispersão, letras estrangeiras de si próprias, numa língua daqui, mas que busca revelar uma cultura e um lugar invisível, para trazer uma boa notícia, como que da morte para a vida. Declarando ao tempo uma existência infinita. Como então faço isso?

O CORPO, A PELE E O LUGAR DA ESCRITA

Me proponho então a partir daqui a não deixar escapar o pensamento enquanto escrevo sobre como escrevo, talvez eu faça isso todas as vezes em que me tomo nota pela escrita, por algum motivo, mesmo que eu não diga, o como se apresenta, isso talvez não seja algo peculiar, talvez façamos isso enquanto escrevemos só não percebemos, enquanto ensaiamos, criamos, e bem, a escrita como já disse para mim é um ato de criação, de ficção, de invenção daquilo que ainda não tem forma, ou talvez tenha, só não há alcancei ainda. Escrever seria então alcançar a forma daquilo que estou pensando, o ritmo, a sonoridade, o balanço, o silêncio, perceber a letra e trazer de dentro para fora esse como que por vezes não se nota, mas que se realiza.

Ou seja, posso então dizer que o como se escreve se revela sempre que escrevo, o modo de escrever fica escrito de algum jeito, por alguma ordem, em algum ponto ou vírgula, a maneira está, não sei bem onde, estou em busca de descobrir, de alcançar. Mas para ler o modo é preciso continuar a escrever, acho que já disse que estou escrevendo agora porque preciso alcançar esse como, essa maneira, mas repito, talvez seja assim que o encontre. Por isso vou começar pelo que envolve o meu ato de escrita, vou me observar enquanto escrevo escrevendo sobre escrever, espero não soar irrelevante para essa parte onde estou em processo, mas se isso ocorrer é também um alcance, um relance, por isso todo traço me alimenta e me apresenta caminhos ao como.

Ao meu lado permanece Sônia Rangel (2006), contando em segredo para mim que o próprio pensamento opera com suas recorrências e originalidades, e mais uma vez me faz mergulhar na investigação desse como a partir das necessidades que emergem de um fluxo do pensamento encarnado, compreendendo de certa forma, a invenção e a recepção, para este artista da sua própria arte, a escrita, no campo das ideias. Deste modo, no processo da escrita o pensamento também é a própria criação, uma construção complexa, desgastante, que exige a presença do olhar único do autor, daquele que escreve. Neste sentido, se faz necessário convocar o sujeito desse olhar e o colocar em processo, mastigando as gasturas das palavras, para compreender um sentido de cosmovisão acompanhando Naugle (2002). É uma espécie de criar-pensar dita por Sônia Rangel (2006) que se desenvolve para além da compreensão cognitiva, perfurando e causando rupturas nessa perspectiva de somente redesenhar, ou cobrir pontos; ideias de outros autores ou ainda de apenas debruçar-se numa contextualização de um e, ou único ponto de vista histórico. Penso como ela, que se trata de escavar e ir mais a fundo no material que está posto, mas não o encarar em sua superfície, mas apostar em sua densidade e trazê-lo ao meu coração moinho da escrita.

Partindo desse ponto, de trazer ao meu coração moinho é que escrevo, meu corpo inteiro sente esse ato, não escrevo somente com as mãos, escrevo com os olhos, pois eles escorrem pela página, pela letra, pelas frases que as letras constroem, frases que preenchem a página de algo que estou em busca de saber ainda. Meus olhos também percorrem por páginas dentro de mim, caminham pela mente e tentam pressentir o minuto mais a frente onde outra parte de mim vai se apresentar. Meus olhos são muitos. Olhos que entendem, eles não só veem, meus olhos alcançam algo dentro da letra, alcançam um movimento interno que se exterioriza pelo ato da escrita. Perguntam-me os olhos – o que é isso que tanto te movimenta a escrever? Porque mesmo quando tens pouco a dizer desejas escrever? Seria porque quando arrisco uma palavra o movimento em mim se encarrega de continuá-la, lendo-me escrevo palavras acerca daquilo que já disse antes reescritas de um modo que ainda não as sugeri.

Escrevo com minhas mãos antes mesmo dos olhos escreverem, elas estão a carregar em si minha digital, meu pronome. Minhas mãos datadas, registradas, pintadas e desenhadas nas paredes da memória que resgatam a infância, mãos que tocam, que estalam os dedos, que possuem calos nos dedos de tanto fazer caligrafia. Dedos que me indicam, me apontam, despontam e sugerem caminhos. Minha mão possui letra, uma letra em especial, a de meu nome. Minha mão tem suas linhas, cortes, rotas e trajetos. Tem seus mapas, suas fugas, seus caminhos, minha mão tem seus quilombos, suas jornadas e suas descobertas, minha mão que toca a história, que se inscreve na história, que pede bença, que segura outra mão para ensinar a letra, minha mão é fio condutor do meu jeito de dar a mão, de estender, de recolher de apertar, minha mão escreve antes de pegar na caneta, de apertar o botão, minha mão é ponte, equilibra meu grito que quer sair por entre as linhas, ela encontra um tom para o grito que fica menos estúpido quando toma forma de palavra.

Escrevo também com a minha pele, agora olhando para minhas mãos olhei também para ela, cevada, escura, preta. Minha pele escreve comigo mesmo antes de eu saber escrever, escreve em outras peles passadas, adestradas, escravizadas, colonizadas, peles libertas, viandantes, transeuntes, peles de minha pele. Tamanho de pele que cabe muita gente, que escreve por muito tempo antes de me ter, que escreve para manter o caminho aberto para o irmão, para o sobrinho. Minha pele também é extensão da minha identidade, do meu pertencimento, desse meu lugar que finco aqui, agora enquanto falo sobre minha pele, pele que me insere no mundo de um modo como a nenhum um outro e porque assim não se configura de outro modo que não este, e porque assim só existe em mim sendo o que é, quero dizer, existe uma particularidade em ser e estar nessa pele, você já esteve na pele de mais alguém além da sua?

Dificilmente, mas como eu disse, minha pele é pele de muita gente e mesmo que eu não quisesse me colocar, ela por si mesma vive se colocando nos lugares, minha pele escreve desse lugar que me supera, dessa amazônia que queima, que sopra, que inunda, que age através de mim de todos os modos bem vindos e de modos expulsos, essa amazônia pele me escreve na extensão de alguns rios, de alguns lugares, do trânsito de outras peles irmãs pela cidade.

Minha escrita pele é também como os sussurros que acompanho no mesmo fôlego de Lygia Clark (2015), ampliando o tecido, para estender o corpo, a pele, por meio daquilo que proponho entre minha escrita e meu processo, pele que escreve sozinha uma história que poderia por si mesma ser a letra que movimenta todo o corpo, poderia ser ela o movimento que percorro, não só no choro mas em tudo que já abrigou.

Minha pele já foi chamada parda, já foi tida como branca, já foi vista como suja, como encardida, estou dizendo, minha pele escreve, escreve tanto que deveria de ter um livro só para ela dizer como se sente, mas não há tempo, não o suficiente, porque essa pele precisa escrever para ultrapassar a si mesma, para buscar outras peles como ela e até as que não são, para vir aqui, na letra, no verbo, escrever por si, porque tem muita pele sozinha, carregando tantas histórias, tantos afetos, tantas mortes e genocídios que chega a não tem pele sozinha que suporte ou aguente esse tempo de silêncio, por isso se movimentam, brotando nas brechas.

Continuo caminhando, agora descalço ainda ao lado de Lygia Clark (2015), penso junto, no mesmo rasgado de garganta que esse gesto de agora pressupõe, esse gesto da pele, dos dedos no papel, nos botões, na tela, os dedos das mãos. Essas mãos do corpo tem uma característica de concentração no momento de oração, estendo minha confissão, meu momento de abraço e perdão. Fusão das polaridades, do meu direito e do meu esquerdo, do que fui e do que estou sendo, dou as mãos a mim mesmo, para escrever com a minha pele sobre as catástrofes do mundo, sobre essa queda do humano, dou as mãos para observar meu corpo nesse sentido que horas cai, horas se levanta: muito prazer em me conhecer, eu estou indo, não tem de quê, obrigado. Este é um momento, só, aceito ser um ser só.

Deve ser por isso, por ser pele e oração que às vezes pareço caminhar junto com a mão, que agora preciso de espaço para ser escrito de um modo mais visível, escrevendo de um modo cansado, mas não desejando parar pelo cansaço que o tempo imprime sobre mim. Só pode ser por isso que a pele está me ocupando tanto tempo, me fazendo compor tantos espaços dentro de mim, dentro da cabeça, dentro deste criar-pensar no corpo que cansado não se cansa de estar apelando como pele que dispela numa nova imersão, numa nova queimadura cicatriz de via cruz, deve ser por isso que meus olhos não param de olhar para ela, tem semelhança com um véu rasgado que só me aproximou desse fluxo encarnado, em mim, por mim, apesar de mim e através de mim. Minhas mãos descrevem o mais rápido possível, o fluxo, a catástrofe, a queda, pele em busca de redenção é parte do como escrevo, tem um lugar, reivindicou em mim quando nasceu, antes mesmo de eu ser uma enunciação para existir como parte integrante desse como faço o que faço.

Por: Matheus Amorim

Sobre o autor: Ator formado pela Escola de Teatro e Dança da UFPA (ETDUFPA). Discente da Licenciatura Plena em Teatro da UFPA. Aluno da Especialização Técnica em Dramaturgia pela ETDUFPA. Educador social no Movimento República de Emaús

REFERÊNCIAS:
RANGEL, Sônia. Processos de Criação: Atividade de fronteira. TFC UFBA, 2006.
CLARK, Lygia. O Breviário do Corpo. Revista Concinnitas, 2015.
FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos: Ética, Sexualidade e Política. Editora Forense Universitária LTDA. 2004.




Fonte: Ainimiga.noblogs.org