Agosto 31, 2021
Do Passa Palavra
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Por Nicolas Lorca

Ao contrário do que comentei nas últimas semanas, principalmente após a prisão de apoiadores do presidente, os atos programados para o dia 7 de setembro não foram antecipados. No entanto, se algo permanece em minha análise é justamente uma radicalização do movimento bolsonarista. Sob uma ótica de crescente criminalização desse movimento, sobretudo após a prisão de notáveis apoiadores do governo, parece-me evidente que estamos caminhando para uma nova fase do bolsonarismo.

Os atos que pediam o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e o retorno dos militares ao poder, conclamando Bolsonaro como paladino da verdade e da luta anticomunista, acentuaram-se de maneira clara. O 7 de Setembro aparece para esse grupo não mais como um apoio ao Voto Impresso, mas um último grito contra a corrupção das instituições políticas pelo dito comunismo petista-chinês.

Além disso, é importante observar a existência de uma perspectiva que compreende que as instituições políticas-democráticas foram corrompidas e que o Estado democrático foi tomado pelos comunistas, principalmente, por causa de uma noção de Liberdade de Expressão irrestrita, ou pelas ações dos poderes políticos e regulatórios contra os conservadores. Outrossim, é fundamental considerar que para os bolsonaristas ocorre atualmente uma ditadura contra os conservadores, liderada pelo STF, pela China, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), entre outros. Por causa disso, é necessário radicalizar suas ações de modo a retomar o poder, retomar os valores e costumes da sociedade brasileira, que estão sendo corrompidos pelos comunistas.

Dito isso, este texto busca observar como tem sido construído o 7 de Setembro nos grupos bolsonaristas, não apenas do ponto de vista da propaganda, mas chamando atenção para um acirramento da crise política e social no Brasil. Ao mesmo tempo, busca-se destacar uma nova página do fascismo, para onde aparentemente temos caminhado.

Antes de tudo, é preciso esclarecer de maneira breve quem são os bolsonaristas e de que forma estes interagem no contexto político conservador. Em primeiro lugar, parte significativa dos bolsonaristas é composta por religiosos e evoca Israel como um espaço máximo de santidade. Por consequência disso, esse grupo partilha de uma moral religiosa bastante específica, sendo, por exemplo, fundamentalista no sentido familiar, nas relações cotidianas e moderado em aspectos como a economia. Para esse grupo, os anos do governo do Partido dos Trabalhadores representariam o estabelecimento de medidas que “denegriram” a família, a religião e a sociedade brasileira como um todo. As políticas sociais deixariam a população preguiçosa e os empresários seriam largamente afetados nesse contexto. Ainda, parte desse grupo compreende a existência de uma aliança global pelo comunismo, que necessitaria de uma intervenção direta dos que lutam pela liberdade. Essa aliança comunista interfere em diversos setores sociais, o que exige uma ação mais direta dos conservadores. Por fim, de maneira breve, esse grupo compreende que a Lava Jato foi fundamental para a história recente, dando elementos para eleger Bolsonaro — aquele que representaria fidedignamente os ideais de Liberdade, Família, Deus e Pátria.

A prisão de Roberto Jefferson certamente não foi o ponto de partida para uma radicalização dos bolsonaristas, mas concretamente ela foi o estopim. O ato do dia 7 de setembro foi marcado inicialmente para pressionar o Congresso Nacional pela aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 135 de 2019, que buscava estabelecer um novo modelo de contagem e auditoria da Urna Eletrônica.

A crise político-institucional instaurada pelo Governo Bolsonaro o fez recorrer à pressão pelo impresso, dando uma perspectiva de que ainda –– mesmo aliado ao Centrão –– estava preocupado com as pautas que o levaram à presidência, sendo o voto impresso uma delas.

As declarações de Bolsonaro e seus apoiadores mais célebres acirraram uma crise política que se instaurou desde os primeiros dias de seu mandato. No entanto, parece-me que os limites da conciliação têm sido apresentados, sobretudo pelo encerramento do diálogo entre o Poder Judiciário e o Poder Executivo.

A prisão de seus apoiadores e a recente decisão de desmonetizar canais bolsonaristas inflamou os ânimos, fazendo com que o voto impresso deixasse de ser a pauta primeira desses movimentos e dando lugar a um resgate do poder “popular”, isto é, uma luta contra a ditadura instaurada pelo STF a partir do PT e da China.

Esse caudilho conspiracionista deu origem a uma narrativa de que a ruptura com a democracia já teria ocorrido, sendo evidenciada pela prisão e perseguição dos conservadores. Estes fatos contribuem, por sua vez, para uma radicalização dos bolsonaristas. Por efeito disso, os grupos mudaram o tom, e acentuaram o que já estava sendo programado.

Após a prisão de Roberto Jefferson e o pedido de desmonetização de Canais do YouTube ligados a Bolsonaro, em mensagem postada no dia 17 de agosto, um membro do grupo comenta:

“Repita em voz alta. Não existe mudança democrática no Brasil. Só existe mudança democrática no Brasil com violência para cima do Estado”.

No decorrer do dia 17, esse debate se intensifica, formando uma perspectiva de ação violenta contra o Estado. Comentando uma notícia sobre a (então) possível prisão do cantor Sérgio Reis, um outro membro comenta:

“Morre aos 33 anos de forma trágica a Constituição da República Federativa do Brasil. Nascida no dia 5 de outubro de 1988, tentou de todas as formas imprimir uma democracia no Brasil, mas o seu guardião, o STF, deu duros golpes em sua cabeça, degolando todas as suas leis e decapitando todas as suas vias. Foi estrangulada de forma covarde por onze homens vestidos de preto. #VouPraGuerraComBolsonaro LUTO”.

Essas mensagens representam o tom que foi adotado nos grupos bolsonaristas. Antes, a busca pela volta dos militares se limitava ao discurso de que deveria haver condições para a manutenção do governo Bolsonaro, para que este conseguisse expurgar o comunismo e o domínio da esquerda. Além disso, havia também uma perspectiva fragmentada sobre o período militar, o que foi endossado por uma série de discursos pretendendo que durante a ditadura os valores e a moral da família brasileira teriam prevalecido e não teria havido corrupção.

No entanto, agora, o que aparece é que as ações dos outros poderes na tentativa de limitar as ações de Bolsonaro — e este sendo compreendido como um representante de Deus e da Família — foram solapadas e as medidas tomadas pelos chefes do Poder Judiciário instauraram uma ditadura que tem como alvo os conservadores.

Nessa nova vertente da ideia de “ditadura da esquerda” não se discute mais o papel da pressão política institucional, mas uma ação de rua mais radical, uma resistência a essa perseguição e ameaça política aos conservadores. A síntese é simples: ocorre no Brasil uma ditadura de esquerda, encabeçada pela China, o PT e o STF e que tem como alvo os conservadores. Para resistir a esse processo precisamos recorrer à violência, trazendo o maior número de forças políticas e sociais para enfrentar esse processo.

Com isso, dois grupos tornam-se importantes e representam essa ótica de guerra contra o comunismo. Em primeiro lugar, a aliança de Bolsonaro com o Centrão, que, ao contrário do que afirmou Mourão, não afetou de maneira significativa os bolsonaristas, mas foi compreendida como uma ação estratégica frente à guerra.

Entre as diversas mensagens que ilustram esse processo, uma chama a atenção e reproduzo abaixo:

“Até entendo o seu desapontamento patriota mas não podemos esquecer que Bolsonaro está em uma guerra, isso não é “aquela” política inocente que nos ensinaram. Você deve estar acompanhando e deve ter notado que o voto impresso está quase derrotado, essa derrota significa a vitória e a volta da esquerda e GAME OVER para o Brasil… Na minha opinião o Ciro Nogueira pode nos fornecer a arma infalível que Bolsonaro precisa para se manter vivo nessa guerra, se esse for o preço a se pagar, então concordo plenamente com o Mito…”

Outro grupo importante e notadamente verificável é o dos militares, que tiram suspiros dos bolsonaristas. Não me delongarei neste grupo, mas é importante mencionar que há um certo receio quanto à ação dos militares, isto é, embora parte significativa dos bolsonaristas compreenda que o exército possui capacidade para enfrentar essa suposta perseguição aos conservadores, outra parte compreende que eles não o farão.

Com isso, é possível considerar, pelo menos, um certo estranhamento entre os militares e o governo, sendo ampliado pelo crescente distanciamento entre Bolsonaro e Mourão. De um lado, encontram-se aqueles que endossam a noção de enfrentamento às ações do Supremo por meio da intervenção, por outro, do lado de Mourão, encontram-se aqueles que se opõem aos usos que Bolsonaro tem dado às Forças Armadas.

Claro, de maneira profunda ocorrem outras relações e dinâmicas no papel das Forças Armadas no governo Bolsonaro. No entanto, o fato é que agora os bolsonaristas não compreendem mais os militares como os únicos capazes de frear a dominação comunista, mas entendem que esse é o momento de radicalizar suas ações, se armar, se organizar e de fato intervir no aparelho político-institucional brasileiro.

Não é possível afirmar concretamente como se dará essa intervenção, mas o que se apresenta nesses grupos e fora deles é um tensionamento constante em prol de uma ação mais direta contra essas instituições. Além disso, considerar o papel do Bolsonaro é considerar que ele é retratado como um indivíduo que conseguiu aglutinar as perspectivas do seu grupo político, fazendo com que uma defesa a Bolsonaro seja, ao mesmo tempo, uma defesa de seus valores, da sua moral religiosa e da suposta verdade corrompida pela esquerda.

Entendam “NÃO TEREMOS OUTRA OPORTUNIDADE! É agora ou nunca! Esta será a manifestação mais importante de todos os tempos. Não à toa, o ministro Alexandre de Moraes está perseguindo e prendendo alguns dos principais entusiastas deste movimento. Estamos com o pé no comunismo! Já vivemos uma ditadura do judiciário há muito tempo. Mas ainda podemos evitar o pior! Dia 7 de Setembro, VÃO ÀS RUAS! O presidente precisa entender o nosso recado para agir. Chegou a hora de sairmos das “telinhas” e protagonizarmos o início da INDEPENDÊNCIA DO BRASIL. É pela nossa pátria! É pelas nossas famílias! É pela nossa liberdade! É pelo NOSSO DEUS. Nós é que somos a verdadeira resistência! Paz e Bem! 🙏🏼❤️🇧🇷

O 7 de Setembro certamente será um marco político no Brasil recente, principalmente pelas tensões que têm permeado os últimos meses. Os bolsonaristas entendem que a escalada do conflito pode desencadear em uma perseguição mais ampla. Isto é, se prenderam e censuraram os supostos jornalistas e líderes conservadores, é só uma questão de tempo para que essas medidas sejam tomadas contra a base.

Ao mesmo tempo, o 7 de Setembro tem sido construído como um prólogo do que virá, em que as condições do conflito levarão a uma ação violenta por parte dos “cidadãos de bem”. Por efeito disso, é importante destacar o papel da mídia e de organizações de conservadores e de extrema-direita, sobretudo no exterior.

O que pude observar nesses grupos é a intensa relação com organizações pró-Trump, que também participaram da invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Os estadunidenses que estão nesses grupos bolsonaristas chamam a atenção para uma defesa contra as ações tomadas em desfavor dos conservadores. Ademais, esses grupos exercem um papel muito importante no fortalecimento de uma perspectiva em prol de uma guerra civil contra o comunismo.

Nesse sentido, essa relação e cooperação entre organizações conservadoras e de extrema-direita, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, serve como troca de experiências, reflexões políticas e chamados para uma intervenção mais concreta nas instituições. Concretamente, o 7 de setembro não será apenas uma manifestação isolada dos bolsonaristas, ela tem sido construída de maneira diferente dos atos que a precederam. A priori, o grosso do debate irradia para uma radicalização das ações e atos em prol do governo e do que suas ideias representam para esse grupo.

O bolsonarismo não assume materialidade somente por causa da figura de Bolsonaro; pelo contrário, são as ideologias e perspectivas que circundam o bolsonarismo que dão sentido às ações de Bolsonaro. Nesse sentido, a tensão política instaurada por Bolsonaro nas instituições políticas são balizadas pelos bolsonaristas.

Em outra mensagem, que reproduzo abaixo, é possível ver como é compreendida a manifestação de 7 de setembro:

E fica cada vez forte e importante, o dia 7 de setembro. A censura, a arbitrariedade, a ditadura da toga aos moldes do gordinho da Coreia, está implementada no Brasil. Querem prender os líderes de movimentos, como se o povo precisasse de líderes para ir às ruas no dia 7 de setembro. Cada cidadão é líder de si! Líder de suas ideias, de seus ideais e de sua vontade. Trovão, Sérgio Reis e mais inúmeros líderes de movimentos, deram apenas o ponta-pé inicial para algo de extrema necessidade no Brasil! Ainda que todos esses patriotas sejam presos hoje, amanhã, ou em qualquer dia antes do dia 7, a manifestação tem e vai acontecer de qualquer maneira. Com ou sem a presença deles. Cada cidadão pode e deve ser um LÍDER e liderar seus amigos, vizinhos, familiares… Com ou sem grandes líderes em caminhões no dia 7, todo brasileiro deve ir para as ruas em suas cidades, senão puder ir a Brasília ou São Paulo. Precisamos de TODOS nas ruas, ou veremos todos os nossos direitos, nossa liberdade de ir e vir, de se pronunciar, de poder decidir o que é melhor para si, de escolher nossos representantes pelo voto…, serem definitivamente rasgados e jogados no lixo. E você aí patriota, aceitará calado, sem resistência, que os Lideres do mal, te liderem? Como está acontecendo no Afeganistão? Nosso Líder Bolsonaro pediu que cada brasileiro, no dia 7, mostre ser Líder de sua vontade e que apoie o governo. Apoiem as Lideranças que estão dando a cara à tapa, por cada brasileiro. Não há como prender toda a população que for às ruas. Não tem cadeia nem para 10 milhões de brasileiros, que dirá, 50, 60, 80, 150 milhões de brasileiros. Vamos ajudar o país se libertar dessas amarras, que são os tentáculos dos governos esquerdistas, enraizados no Governo Bolsonaro e de todos aqueles que atrapalham a democracia, pois não aceitam sua eleição. Vamos ajudar a fazer a limpa no país! Vamos dar um novo grito de Independência! Vamos juntos gritar que autorizamos o nosso Líder, o PRESIDENTE BOLSONARO, a agir pelo bem do país. Seja Líder de seu grupo, ou seja seu próprio Líder. O importante é você estar nas rua no Dia 7 de setembro. #Dia7VaiSerGigante

Enquanto se preparam para a manifestação, novas noções de resistência vêm sendo construídas pelos bolsonaristas. Com isso, não apenas tem se endossado o debate sobre a necessidade de uma intervenção de rua, mas uma ação violenta sobre as instituições, seus representantes e membros. O que se desenha é que na defesa dos valores conservadores, contra a China e o esquerdismo, é necessária a reconstrução das instituições políticas brasileiras. Esse processo é compreendido, por sua vez, como uma derrubada desse modelo e o estabelecimento de outro, tendo Bolsonaro como líder.

Certamente, o fim da atual crise política está distante e o que aparece agora é que ocorre uma intensificação do conflito. A manifestação do dia 7 de setembro não será apenas mais uma demonstração da força política bolsonarista, mas parece apontar para uma radicalização das ações desse movimento. Pensar o bolsonarismo é pensar também nos aspectos que o circundam e as relações que se constroem internamente e externamente. Ao mesmo tempo, é observar que o Brasil não está no Brasil e que as relações que se desenvolvem aqui também ocorrem em outros lugares.




Fonte: Passapalavra.info