Janeiro 31, 2022
Do Passa Palavra
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Por M. Major

O leitor desta coluna do Passa Palavra, ao receber sua edição diária de um jornal de grande circulação no dia 3 de fevereiro, irá se deparar com a notícia de que o Copom decidiu novamente aumentar a taxa básica de juros (Selic). Desta vez deverá superar os 10% ao ano, coisa que não se via desde 2017. Ao folhear o jornal em busca de explicação, encontrará uma série de especialistas felicitando o órgão pela decisão e prevendo num futuro próximo que isso controlará a inflação.

Nesse momento a memória lhe resgatará a notícia de que os juros nos Estados Unidos também devem subir para conter a inflação. Dessa forma, o leitor talvez fique satisfeito com a comparação entre países, e tranquilo com a justificativa de que quando a inflação sobe, subir a taxa de juros é o remédio correto para controlá-la.

Você então larga seus jornais e abre o Passa Palavra. Encontra nele, para o seu horror, o presente artigo lhe dizendo que nada do que você leu anteriormente explica a alta da inflação doméstica corretamente, como tampouco te informa sobre o fato de que o Brasil está prestes a mergulhar novamente na saudosa aventura rentista.

Primeiro, precisamos entender a relação entre juros e a inflação. A taxa básica de juros na maior parte dos países ocidentais é controlada pelos seus Bancos Centrais, que a utilizam como ferramenta para intervir na quantidade de moeda que circula na economia. A oferta de moeda, por sua vez, influencia nas decisões de consumo. Quanto mais recursos disponíveis, mais as pessoas gastam e os preços inflacionam.

Então você se pergunta: mas por que inflacionam, se a decisão do Banco Central de subir a taxa básica não influencia diretamente as taxas do mercado e muito menos os preços dos produtos? Mesmo que os bancos comuns possam definir suas taxas livremente, a taxa básica (Selic) corresponde aos juros das operações entre o Banco Central (BC) e os outros bancos, sejam empréstimos do BC para instituições privadas ou o contrário.

Portanto, quando a taxa básica sobe, fica mais caro para os demais bancos acessarem recursos do Banco Central, de modo que o seu banco irá cobrar mais caro para te fornecer dinheiro. Isso significa que menos pessoas serão capazes de arcar com empréstimos. O resultado é menos dinheiro circulando na economia e menos consumo, deflacionando os preços.

Essa lógica simples e elegante é a base da política monetária. Entretanto, subir os juros acarreta outras consequências para a economia, e talvez não seja a maneira mais eficiente para conter a recente inflação brasileira. Leitor crítico que você é, agora indaga-se: mas se funciona para os EUA, por que seria diferente para nós?

No caso estadunidense, o governo injetou na economia trilhões de dólares entre 2019 e 2021, em pacotes de estímulos para conter a crise gerada pela pandemia. Essa política fiscal foi o motor da recuperação da economia dos EUA: a taxa de emprego caiu, o consumo retornou e a atividade voltou a crescer (PIB com alta de 5,7% em 2021).

Com a alta do consumo, a inflação retornou. Esta tem relação direta com a recuperação da atividade econômica do país. A alta dos juros, seguindo a teoria clássica, seria a solução. Ainda assim, o Banco Central deles foi muito cauteloso ao anunciar o ciclo de altas dos juros, que deve se iniciar somente em março, também criticado pelo presidente Biden, pois a atividade sofrerá com a medida.

EUA Brasil
Pacote Fiscal (US$)* 7.2 trilhões 0.2 trilhões
Pacote Fiscal (% PIB 2020) 35% 15%
Taxa desemprego jun/20 11.0% 11.6%
Taxa desemprego dez/21 3,90% 11.6%
Inflação jan/2020 2,50% 4,19%
Inflação dez/21 7,00% 10,06%
Taxa básica de juros jan/20 1,0% – 1,25% 4,50%
Taxa básica de juros dez/21 0,0% – 0,25% 9,25%
* Estímulos para combater efeitos da pandemia de 2019 a 2021

No Brasil, o cenário é completamente diferente (ver tabela abaixo). Desde a saída do PT do governo, em 2015, o discurso sobre o controle dos gastos do governo retornou de tal forma que, mesmo com a pandemia, o tamanho dos pacotes de incentivo foram singelos.

O efeito positivo desses pacotes não bastaram para tirar a economia do buraco. O desemprego é recorde, a fome cresce e a economia deve crescer novamente em torno de 1,2% em 2021, mostrando uma das piores recuperação do mundo. Apesar da economia estagnada, o IPCA, principal medidor da inflação brasileira, encerrou 2021 com taxa de 10,06%, patamar que não era visto desde 2015.

Agora eu te pergunto leitor: se a economia não se recuperou e não estamos consumindo mais, o que explica a inflação?

Sem recuperação econômica, a inflação sobe por causas externas ao mercado doméstico. Os principais fatores são a desvalorização do real (moeda que mais perdeu valor em relação ao dólar em 2020) e alta dos preços das commodities no mercado internacional.

A desvalorização do real acarreta duas consequências: (i) produtos importados mais caros, inclusive os insumos das fábricas nacionais, que inflacionam seus preços; (ii) os produtos internos barateiam lá fora, e levam o produtor a exportar, reduzindo a oferta interna e pressionando os custos.

Segundo dados do IBGE, há ainda outras causas como (a) valorização das commodities agrícolas, que inflacionou os alimentos; (b) a valorização do petróleo e gás no mercado internacional, que inflacionou os combustíveis por aqui; e (c) a crise hídrica, que inflacionou o custo da energia elétrica.

Considerando as causas inflacionárias acima, qual será o efeito de subir a taxa de juros? Dificultar o acesso ao dinheiro, reduzirá o consumo. Entretanto, menos consumo não interferirá nos preços internacionais de commodities, ou na decisão da Petrobras de ajustar o valor dos combustíveis; muito menos trará chuva para amenizar o custo da energia.

Qual a aposta por trás do aumento da taxa? Ela é simples, e talvez simplória: a redução do consumo reduzirá o preço de outros produtos, e isso pode compensar a inflação dos produtos que listamos acima. A dúvida que nos resta é se esse controle inflacionário é um mal necessário para a retomada da economia ou o pior caminho de recuperá-la.

E digo pior caminho porque o subir o juros também dificulta o consumo. Brasileiros sentirão a alta nas taxas dos financiamentos, das compras parceladas, do cheque especial, do rotativo do cartão de crédito. Vamos supor você seja assalariado, ganhe o equivalente à renda média brasileira, e considere em financiar um imóvel de R$ 200 mil em 20 anos:

Taxa de juros 2% 10%
Valor do financiamento (R$) 200 mil 200 mil
Valor final pago (R$) 243 mil 463 mil
Parcela mensal paga 1.011 1.930
Parcela (% renda média brasileira)* 41% 79%
* Renda média mensal Brasileira em 2021 é de R$ 2449,00 (IBGE)
** simulação de um financiamento de 20 anos, sem considerar taxas administrativas e ajustes de inflação

Com a Selic em 2%, você terá que pagar parcelas mensais equivalentes a 41% do seu salário e ao final desembolsaria cerca de 20% a mais do que o valor financiado. No cenário de juros de 10%, as parcelas do financiamento consumirão quase 80% da sua renda mensal e o valor total gasto seria mais do que o dobro que o saldo inicial.

Outro efeito da alta de juros é a redução do investimento privado. Com recursos mais caros, empresas terão menos acesso a empréstimos e, portanto, farão menores investimentos. Para empresas fragilizadas pela crise que precisam de crédito para manter seu funcionamento, a alta pode significar a falência. Menos empresas, menos emprego.

Há ainda outras pressões para o aumento da taxa de juros. Uma delas é o próprio aumento da taxa estadunidense, que explicarei num próximo artigo, e a outra é o ano eleitoral brasileiro. A incerteza sobre a implementação das reformas liberais no Brasil costuma deixar o mercado financeiro apreensivo, de modo que os investidores exijam maior retorno pelo dinheiro investido. A expectativa de maior risco, portanto, faz com que as taxas de juros de mercado subam.

Vale fazermos uma comparação entre o financiamento de uma casa de 200 mil e o investimento de 200 mil reais com a nova taxa de juros:

Taxa de juros 10%
Valor Investido (R$) 200 mil
Valor final (R$) 1.345 milhões
Rendimento mensal médio (R$)* 9.542
Rendimento (% renda média brasileira)** 390%
*Valor total de rendimentos dividido pelos meses do período do investimento
** Renda média mensal Brasileira em 2021 é de R$ 2449,00 (IBGE)

Você já deve ter percebido meu ponto. Enquanto a maioria da população enfrentará a alta da taxa de juros como um obstáculo ao consumo e à melhora na qualidade de vida, uma minoria a verá como oportunidade de rentabilizar seu dinheiro com investimentos de baixo risco. Assim, o que parece somente uma política de controle inflacionário, se torna uma janela para o aumento da desigualdade.

Nada disso é novo por aqui, inclusive sempre chamamos esse estado de coisas de rentismo. Em um país que a taxa básica nos últimos 20 anos esteve acima de 10% a.a. em 12 deles, estamos só voltando para uma normalidade. Resta saber se este jargão voltará ao centro do debate econômico neste ano eleitoral.




Fonte: Passapalavra.info