Março 25, 2021
Do Jornal Mapa
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Do espírito maligno da mineração em terra, está-se a libertar o demónio das minas no mar! 1

Uma das mais previsíveis indústrias a ocupar o primeiro lugar com impacto no meio ambiente para o século XXI será a nova solução tecnocrata da indústria da energia, mineração e transporte através do Deep Sea Mining, sobre o qual escrevemos o artigo «Turvar as águas», na edição n.º 17 do MAPA, que se completou com uma segunda parte disponível na internet. Indústria essa que manterá a sua longa tradição de exploração branqueando e verdejando o seu real impacto no ecossistema e no equilíbrio social humano.

O Japão, através da empresa JOGMEC, propriedade do Ministério da Economia, Comércio e Indústria, iniciou o primeiro teste mundial com extração de crosta do fundo do mar rica em cobalto 2, depois de estudos efetuados terem calculado uma grande área rica em cobalto e níquel, imprescindíveis para a construção de baterias e para a futura economia nacional japonesa e mundial.

Uma crosta de cobalto define-se como uma crosta de dióxido de manganés, com uma altura que varia de alguns milímetros a mais de 10 cm, que cobre as rochas no fundo do mar, a uma profundidade entre os 800 e os 2400 metros, ricas em cobalto, níquel, cobre e platina.

A JOGMEC foi também a primeira a realizar operações de Deep Sea Mining em larga escala em depósitos hidrotermais em 2017, numa área conhecida como Okinawa Trough 3. Já em 2013, o Japão extraiu gás de depósitos de hidrato de metano a 300 metros de profundidade, conhecido como «gelo combustível» , uma alternativa ao gás natural e ao petróleo. Este tipo de gás contém pelo menos o dobro da quantidade de carbono de todas as outras energias fósseis na terra, tornando a indústria lucrativa na venda do gás, como também bastante lucrativa no mercado dos créditos de carbono. O metano vai ser o gás com mais impacto nas alterações climáticas no futuro, estando-se a estudar um novo mercado, no qual o metano será a moeda de troca, em nome da sustentabilidade.

Na última década, países como a China, a Índia, a Coreia do Sul, o Japão e o Canadá renovaram o interesse nos metais do fundo do mar

A história do Deep Sea Mining é iniciada com a publicação do livro Mineral Resources of the Sea, de J. L. Meros, que defendia a existência de infinitas quantidades de cobalto, níquel e outros metais no fundo dos oceanos. Países como os EUA, a França e a Alemanha enviaram barcos de estudo, mas os 650 milhões gastos entre 1964 e 1984, a depressão nos preços dos metais e a facilidade com que se podia extrair noutro país e importar levou ao abandono dos avanços tecnológicos para possibilitar a mineração no fundo do oceano. Na última década, países como a China, a Índia, a Coreia do Sul, o Japão e o Canadá renovaram o interesse nos metais do fundo do mar para acompanharem as necessidades da nova indústria de energia e transporte verde.

As reservas mundiais de cobalto, estimadas pela United States Geological Survey, serão de 7,100,000 toneladas. Nos dias de hoje o maior produtor, com 63% do mercado, é a República Democrática do Congo e a demanda futura deste mineral e de outros pode ser quase 50 vezes superior ao que era em 2017, segundo a Bloomberg New Energy Finance. A corrida ao cobalto foi iniciada depois do acalmar das intensas guerras dos anos 1990 no Congo, possibilitando a assinatura do Mining Code, criado pela ISA (International Seabed Authority) através do código de leis do UNCLOS 4. Em 2016 foram utilizadas 116 000 toneladas de cobalto em ligas metálicas, baterias renováveis e na crescente indústria dos veículos elétricos. O Lithium Cobalt Oxide é utilizado nas baterias de ião lítio que tinha em 2015 um mercado avaliado em 30 mil milhões de dólares com um aumento para 75 mil milhões em 2025.

Até 2018 grande parte do cobalto nas baterias era utilizado para aparelhos móveis (telemóveis, computadores, máquinas fotográficas, etc…) e mais recentemente nas baterias de carros elétricos, com um aumento de 80% em 2018, atingindo 7200 toneladas na primeira metade de 2019, para baterias de 46.3 GWh de capacidade, mostrando notoriamente a interdependência de ambas as indústrias.


Ilustração [em destaque] de Catarina Leal


Artigo publicado no Jornal MAPA, edição #29, Dezembro 2020 | Fevereiro 2021.




Fonte: Jornalmapa.pt