Agosto 2, 2021
Do Passa Palavra
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Por Jorge Luiz

O país que queima na mesma semana Borba Gato e a Cinemateca é um país democrático. É esse país que queremos? A estátua, que sofreu danos superficiais, passa bem, diuturnamente guardada pela polícia tucana. Já não podemos dizer o mesmo da Cinemateca. Triste país onde os incêndios acidentais são os mais bem planejados.

Essa frase de abertura será lida como piada ou, mais seriamente, provocação. Nela respira algo da conjuntura, em meio a tanta fumaça. Comecemos então por este vício de leitura: uma certa esquerda, presa na democracia que ela mesma ajudou a erguer, se recusa a abrir os olhos e sonha sua “Novíssima República”. Restaurado Lula, refeita a democracia: esta mesma onde tudo já queimava. Seu horizonte é limitado. Essa esquerda condena tudo que não é espelho: calça coturno de policiais nos anarquistas e despreza os negros insubmissos; alimenta teorias de conspiração, vendo “o jogo da direita”, o dedo da CIA e “provocação” em tudo. É a esquerda que temos e com ela caminharemos em meio à fumaça. Mas em que direção?

Os que queimaram a estátua, o grupo Revolução Periférica, seguiram quase sozinhos uma linha de pensamento coerente e dela extraíram um gesto. Ao se apresentar voluntariamente à polícia, Paulo Roberto, o Galo, integrante do grupo, explicou sua ação numa breve declaração. Cito: “Àqueles que dizem que tem que fazer pelas vias democráticas a gente buscou fazer isso, abrir o debate para que esse debate ocorra e as pessoas agora possam decidir se elas querem uma estátua de 13 metros de altura que homenageia um genocida e um abusador de mulheres. É isso que a gente sempre quis desde o começo: abrir o debate e nada mais que isso”. Nesse sentido, o incêndio da estátua foi bem-sucedido. Mas como vai o debate aberto?

Para uma certa esquerda, não há debate: há somente acusação. São os bufões do PCO, braço cômico do PT, que batem em tucanos pingados, num ataque de machice ensaiado; enquanto isso, estigmatizam os black blocs e querem colaborar com a polícia contra aqueles a quem chamam de policiais infiltrados. Acima de tudo, essa esquerda não gosta de quem, no dia da sua passeata, lhe rouba a cena. Detestam que um punhado de “desconhecidos” sem crachá nem carteirinha possa lhes fazer sombra. É a esquerda “você sabe com quem está falando?”, esquerda condecorada: pesada de tantas medalhas. Agora somos todos, aos olhos deles, policiais infiltrados. Talvez estejam se vendo mesmo no espelho, com suas bandeiras vermelhas.

Do lado direito, verde e amarelo, outras bandeiras. É preciso reconhecer: os partidários de Borba Gato pensam coerentemente. São herdeiros legítimos dos bandeirantes e dos integralistas. Adoradores de estátuas, encontraram uma estátua viva para chamar de sua: o bandeirante ressurreto feito presidente. Eles sabem o país em que vivem e sabem o país que querem. Borbaminions, adoradores de Borbanaro: são um problema a ser enfrentado.

Dessa não saíremos sozinhos. Caberia à esquerda adoradora de Lula ter mais respeito à pluralidade de táticas, visões e opiniões. Não sei se são capazes disso, mas alguns serão. Não adianta gritar, ad aeternum, “infiltrados! Infiltrados!” ou “identitários! Identitários!”. É verdade que no caldo de cultura da politização brasileira que surge nos anos 2000 há muito empoderamento estético. Que tem seu valor, mas tem limites próprios. O ato da queima da estátua carrega algo disso, mas representa um passo à frente.

Como resultado de um processo marcado pelo empoderamento estético, a queima da estátua é simbólica e espetaculosa. Imagem, foi feita para ser filmada e fotografada. Imagem bem escolhida, toca fundo num nervo histórico e marca o tempo. Pode ser inspiração para tempos mais corajosos. Mas essa imagem é também ação, gesto: ato heróico contra um herói falso. Na realidade depois da imagem, a prisão. Por isso a solidariedade é necessária. Por isso dizer: liberdade para Galo e Géssica! Por isso tornar isso verdade.

A esquerda antiga, que é a que temos, talvez nem reconheça mais um passo a frente. Escolada em dançar o minueto nos salões da burguesia, num dois-pra-lá-dois-pra-cá que não vai nem vem, ela perdeu o pé. Ainda assim, estamos juntos e separados, em meio à fumaça. No dizer de uma suspeita alemã, a queima do bandeirante pode ser a passagem do protesto à resistência: enquanto uma certa esquerda protestava, a Revolução Periférica resistiu. Passagem do bastão? Revezamento da tocha? É cedo para dizer. No mais, não são Jogos Olímpicos e cabe lembrar que aqui ou em Tóquio tudo corre sob estado de sítio.

A democracia, Canudos que o diga, sempre foi isso: uma fogueira só. Iremos, com ou sem Lula, seguir pulando essa fogueira como se de água fosse, ou vamos nos limpar com outro fogo? É isso que a gente sempre quis desde o começo.




Fonte: Passapalavra.info