Novembro 19, 2020
Do Contra A Civilização
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Um ensaio sobre a natureza das interações mediadas pelas redes informacionais.


A interação social mediada pela tecnologia tem um papel de relevância crescente. São os meios tecnológicos que conectam o mundo numa só rede, servindo de suporte para a globalização. O processo de colonização cultural que produz a cultura global também produz a dependência das redes. Esta dependência não se dissipa no momento em que os colonizados se tornam capazes de produzir seus próprios suportes tecnológicos, assim como a dependência cultural não acaba só porque um país começa a produzir seus próprios filmes que concorrem ao Oscar junto com os filmes de Hollywood. Não há soberania nem autonomia tecnológica enquanto os imperativos da cultura global permanecem regendo sobre a produção cultural.

A cultura global une indivíduos temporariamente, e fragmenta identidades permanentemente. A fragmentação ocorre porque interagir nas redes altera o próprio modo de interação, e é na interação que se formam as identidades. A interação virtual é uma socialização simulada. A simulação de interação não é uma interação real na medida em que as consequências de uma interação real são reduzidas ou evitáveis.

A interação mediada pelas redes é uma troca de mensagens que supera a proximidade física. A primeira forma de comunicação sem proximidade física foi o ritual religioso, como a confissão católica. A crença cristã de que falar com Deus, mesmo sem receber resposta nítida, é suficiente para uma relação pessoal e íntima permitiu a crença de que trocar mensagens é uma forma de relação pessoal. Para outras culturas, a simples troca de palavras não poderia ser considerada como “interação”, ou como “pessoal”. A pessoa não está nas suas palavras como não está na sua imagem. A interação nessas culturas ocorre somente no encontro entre corpos, e a necessidade de falar é somente uma consequência dessa interação. A comunicação é falha e depende sempre de presença para fazer sentido. Confundir a presença com a troca de palavras é também algo típico de uma cultura que parte da separação entre mente e corpo.

A distinção pode ser percebida no cotidiano. Por exemplo, quando duas pessoas passam a morar juntas e somente então passam a se conhecer melhor. Nenhuma quantidade de conversa poderia levar a esse conhecimento. Quando interagimos pelas redes, quanto dessa interação é realmente “pessoal”, e quanto dela é “maquinal”? Nem tudo que uma pessoa é pode ser traduzido em linguagem de máquina, portanto nem tudo sobre o outro pode ser acessado por meio de máquinas.

Além disso, as regras da interação simulada, assim como do jogo da sedução, são diferentes das regras da interação cotidiana. Na simulação é fácil maquiar a realidade para conseguir aprovação, já que um pequeno detalhe pode determinar a diferença entre a conexão e a desconexão. Já que se trata de falar e não de fazer, a realidade pode ser relativizada.

A crise de identidade na modernidade tardia está relacionada ao fato de que a interação pessoal que dava suporte à identidade foi substituída pela simulação mediada pelas redes. As garantias das interações mediadas pela proximidade física foram substituídas pelas estimativas de risco com base numa análise de sinais facilmente manipuláveis. Os fatos concretos que estabeleciam uma relação, como dar as mãos para provar que está desarmado, são substituídos por atos simbólicos. Quanto mais dependemos do virtual para conhecer o real, mais alienados nos tornamos. Se o que está ou não conectado na rede vai nos dizer o que supostamente está conectado ou não na vida real, os conceitos de realidade e verdade se perdem.

O indivíduo nascido e criado nas redes está centrado em suas próprias realizações e habilidades, valoriza a flexibilidade e a facilidade de conexão em redes transitórias. Aquele que não cumpre as expectativas do mercado será descartado. Mesmo a autenticidade se torna uma fachada, uma atuação. Quando “ser você mesmo” não apresenta resultados satisfatórios, o indivíduo se sente pressionado a aderir a um ethos global como única possibilidade de sobrevivência social. A autenticidade só produz reconhecimento social se resultar em sucesso no jogo social. O que realmente importa é compreender e seguir as regras ocultas desse jogo. Se não fossem ocultas seriam consideradas opressivas. Mas sendo um segredo público, evitando falar sobre elas, elas se tornam imunes às críticas. Trata-se de uma servidão voluntária.

A nova geração parece nascer sabendo lidar com tecnologia não porque é mais inteligente, mas porque a pressão para se adequar a ela é maior. As novas gerações precisam se adaptar rapidamente às tecnologias atuais, sob a pena de ostracismo e exclusão. Se esta sociedade não tivesse se tornado dependente das redes, computadores talvez tivessem permanecido como ferramentas de trabalho desinteressantes para a maioria das pessoas. É a pressão da dependência tecnológica que nos força a aprender a nos comunicar por meio de máquinas e nos inserir em redes o mais rápido possível. As crianças precisam se adaptar a esse mundo antes de terem a oportunidade de julgá-lo, passando a naturalizar essa dependência.

Ao mesmo tempo em que as crianças se conformam ao sistema tecnológico, elas também se conformam ao sistema de crenças da globalização. Pessoas que se negam a consumir determinados produtos, ou que não possuem condições de consumi-los, são marginalizadas. Isso inclui produtos culturais, discursos e crenças. Contanto que se compre o produto cultural que a globalização está vendendo, você é livre para fazer qualquer coisa.

A valorização da flexibilidade está mais relacionada a uma necessidade de sobrevivência social num mundo em processo de instabilização sistêmica do que à valorização da liberdade. O modo de vida que surgiu na sociedade organizada em redes é produto de uma ética voltada à competência individual, o que exige flexibilidade. Valorizar a competência individual não significa que o indivíduo será recompensado de acordo com sua competência, mas que esta competência depende unicamente da facilidade com que o indivíduo se adapta a um meio em constante mutação. O que você aprendeu ontem talvez não tenha nenhum valor de mercado hoje. Ser dinâmico e flexível significa provar que você é capaz de acompanhar o fluxo imprevisível do mercado, o que a rigor é impossível por muito tempo.

No mercado de bolsas de valores, as ações não são valorizadas pelo que realmente valem. Elas são valorizadas pelo que elas parecem valer num dado momento. Isso é determinado pelo grau de confiabilidade, que pode variar em segundos, e que depende quase que unicamente de discursos, verdadeiros ou falsos, espalhados pela rede de informações. Em nossa cultura, todos os valores tendem a flutuar de modo semelhante à flutuação da bolsa de valores, por isso passamos a falar de relações humanas em termos de investimento e risco.

A autonomia capitalista significa dedicar-se completamente à produção de si mesmo, sem garantias de parcerias e de lugares seguros onde se pode buscar apoio quando tudo dá errado. A ética da produtividade transforma tudo que não é produtivo em perda de tempo, incluindo o tempo dedicado à manutenção de laços afetivos.

A flexibilização determina que o indivíduo seja agora encarregado de administrar os riscos por conta própria. Viver pelo risco é nunca saber o que vai acontecer no futuro. Isso pode ser excitante quando estamos numa simulação, mas na vida real se torna gradualmente estressante. Jovens tem mais facilidade de lidar com isso porque se sentem invulneráveis. Na medida em que as consequências das ações se tornam cada vez mais permanentes, as pessoas buscam mais segurança e estabilidade.

Nas relações simuladas que visam produtividade, o comprometimento de um jogador com seu parceiro é sujeito ao comprometimento de ambos com a vitória. Se um dos jogadores não está certo de que jogar sequer faz sentido, ou se fica em dúvida de que a competição é necessária, ele pode vir a ser descartado ou até mesmo a se tornar um inimigo. Quando se trata de uma atividade lúdica, isso é desprezível. Mas quando se trata da vida real, as perdas são irreparáveis. Quase sempre, os jogadores recalcitrantes do jogo da vida estão inseguros quanto ao sentido da vida ou os fundamentos da sociedade. Podemos convencê-los, anima-los e motiva-los a simplesmente continuar jogando, na esperança que a emoção da aventura supere a intuição de que há alguma coisa errada com este modo de vida. Aqueles que experimentam certas perdas permanentes, porém, não podem ser convencidos tão facilmente.

Enquanto uma relação humana é produto da experiência e formada lenta e gradualmente no processo de interação, as relações em rede dependem de conveniências e podem mudar rapidamente. O valor das realizações humanas é agora atribuído pelo mercado. A exigência de tecer sua própria rede e se mover nela é um aspecto da dependência das redes. O conceito de Networking é dependente de uma mentalidade segundo a qual agentes autônomos se interligam formando um único sistema integrado. A importância de um componente passa a depender do número de componentes com os quais este se interliga. O conceito de processamento inteligente torna o sistema menos dependente de uma unidade de processamento central, e faz do processamento uma atividade emergente e distribuída, colocando o foco não sobre a capacidade de processamento seriado, mas sim a capacidade de processamento paralelo, o que por sua vez aumenta a quantidade de conflitos internos. Chamamos essa organização de “orgânica” porque ela parece complexa o suficiente para simular o movimento errático de uma colmeia e ainda assim manter a ordenação funcional de uma teia de aranha. Mas ela ainda é apenas uma simulação de vida.

A democracia global é caracterizada pela contradição da autonomia dependente. É a autonomia de gerenciar a prisão, mas não de sair dela. A dependência das redes é um dos aspectos desse sistema de controle. A dependência de interações mediadas pela rede nos afasta do real e produz uma riqueza cultural simulada, que desmorona tão rápido se esgotem os recursos para manter a atuação, sejam eles materiais ou simbólicos.

As redes são inerentemente simulações. O que se produz nelas são potencialidades que não podem ser atualizadas porque não podem se tornar realizações permanentes ou sequer duradouras. São imagens que formam um mundo ideal, mental, nunca materialmente realizado.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2004.

CASTELLS, Manuel. Sociedade em Rede. Volume 1. 8ª Edição. São Paulo: Paz e Terra, 2005.

DOMINGUES, José M. “Reflexividade, individualismo e modernidade”. In: Ensaios de sociologia. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. P. 85-110.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 9ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

ROSENFIELD, C. L. Quadros Superiores de TICs: Mobilidade ou fragilização?. In: 33º Encontro Anual da ANPOCS, 2009, Caxambu – MG. 33º Encontro Anual da ANPOCS, 2009.

RÜDIGER, Francisco Ricardo. Introdução às teorias da Cibercultura: perspectiva do pensamento tecnológico contemporâneo. Porto Alegre: Sulinas, 2007.

SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de janeiro: Record, 1999.



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Fonte: Contraciv.noblogs.org