Março 1, 2022
Do Uniao Popular Anarquista
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Nova guerra fria, caracterização de um conflito interimperialista, os papéis dos Estados envolvidas e as iniciativas de resistência a invasão

Comunicado n° 77 da União Popular Anarquista – UNIPA, 01/03/2022

O Estado moderno, por sua essência e pelos objetivos que se fixa, é por força um Estado militar, e um Estado militar está condenado, não menos obrigatoriamente, a se tornar um Estado conquistador; se ele próprio não se lançar a conquista, será conquistado, pela simples razão de que por toda parte onde a força existe, é preciso que ela se mostre ou aja.

BAKUNIN, Estatismo e Anarquia, 2003, p. 36.

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Os povos do mundo ainda sofrem com os terríveis efeitos da peste – a pandemia da Covid-19, que espalhou a morte, são mais de 6 milhões de vítimas fatais em todo mundo, a miséria e a fome, enquanto uma nova ameaça avança: a guerra.

No último dia 24 de fevereiro a Ucrânia foi invadida pelas tropas russas comandadas por Vladimir Putin, do partido ultraconservador Rússia Unida. Na semana anterior o governo russo reconheceu a “independência” das províncias ucranianas de Donetsk e Lugansk, em Donbass, região leste do país, quebrando os acordos assinados em Minsk nos anos de 2014 e 2015, que tinham estabelecido o cessar-fogo na região conflagrada. Putin está repedindo a estratégia que usou em 2008 ao ocupar militarmente a Geórgia, ex-republica da antiga União Soviética, localizada na regão do Cáucaso.

Para entender a escalada dos conflitos militares entre Rússia e Ucrânia, é necessário compreender que a atual geopolítca global é determinada pela “Nova Guerra Fria”1 e pelo momento de transição no sistema-mundo capitalista, marcado onde o declínio da hegemonia norte-americana e ascensão de um novo bloco imperialista, Moscou-Pequim, que rivaliza com o bloco EUA-UE-Inglaterra.

1. A expansão da OTAN no Leste Europeu e a construção da Rússia imperialista

Fundada em 1949, a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), aliança militar transatlântica do bolco capitalista durante a Guerra Fria, não foi extinta com o desmantelamento da URSS, em 1991, pelo contrário, a OTAN se expandiu com a adesão de novos do Leste Europeu, antigos membros do Pacto de Varsóvia, acordo militar de 1955 estabelecido entre os países do então bloco socialista.

Em 1999, a OTAN incorporou Hungria, Polônia e República Checa. Em 2004, Bulgária, Romênia, Eslováquia, Estônia, Letônia, Lituânia e Eslovênia, os quatro últimos fizeram parte da antiga União Soviética. A Albânia e a Croácia aderiram em 2009, Montenegro em 2017, e Macedônia do Norte em 2020, elevando o número total de países-membros para 30.

É importante destacar que, no mesmo período, a União Europeia (UE) também se expandiu incorporando países do Leste Europeu e antigas repúblicas soviéticas. Ocorreu uma verdadeira ofensiva política, militar e econômica para integrar ao bloco imperialista hegemônico, EUA-EU-Inglaterra, os países que fizeram parte do extinto bloco socialista e, consequentemente, isolar a Rússia numa tentativa de impossibilitar a ascensão de um poder contra-hegemônico na Europa/Ásia.

Por sua vez, Putin se dedicou em converter a Rússia, herdeira do arsenal bélico-nuclear da ex-URSS, numa potência imperialista. Sua primeira ação foi ainda no cargo de primeiro-ministro do então presidente Boris Iéltsin (1991-1999), ao massacrar os separatistas chechenos, que haviam lutado entre 1994 e 1996 pela independência da Chechênia, região do Cáucaso. Após a renúncia de Iéltsin, Putin vence as eleições presidenciais e continuou com sua escalada militarista.

Em 2002, Putin consolidou a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), iniciativa de aliança militar estabelecida em 1992, mas que só foi efetivada dez anos depois. Os atuais membros da OTSC são Rússia, Cazaquistão, Bielorrússia, Armênia, Tajiquistão e Quirguistão.

Em 2008 as tropas de Putin invadiram a Geórgia, com a justificativa de garantir a “independência” das províncias da Ossétia do Sul e de Abecásia, que contavam com a ação de separatistas pró-Rússia. Após cinco dias de guerra, foi assinado um acordo de cessar-fogo.

No plano econômico, o governo de Putin assinou dois importantes acordos com o governo alemão de cooperação energética: os gasoduto Nord Stream, concluído em 2012 para transportar gás natural da estatal russa Gazprom pelo Mar Báltico, saindo da cidade russa de Vyborg até a cidade alemã de Greifswald, e Nord Stream 2, concluído em setembro de 2021, mas ainda não está funcionamento, transportando gás da cidade russa de Narva até a cidade alemã de Lubmin. Projeto foi financiado por transnacionais europeias do setor de energético: OMS, Engie, Wintershall Dea, Uniper e Shell.

Atualmente o gás russo é transportado pelo gasoduto que passa pela Ucrânia, com o Nord Stream 2 em funcionamento, o gás irá chegar diretamente na Alemanha e nos demais países da UE. Isso significaria um grande prejuízo econômico para Ucrânia, que recebe o pedágio pelo gasoduto que corta seu território.

Entretanto, a principal aliança de Putin é com o governo chinês, pois a formação do bloco imperialista emergente Moscou-Pequim possibilita redesenhar a ordem mundial. Isso ficou explícito no início de fevereiro, durante as olimpíadas de Inverno na China, quando Putin e o mandatário chinês, Xi Jiping, fizeram uma declaração conjunta onde anunciam uma “nova ordem mundial”:

Hoje, o mundo está passando por mudanças importantes e a humanidade está entrando em uma nova era de rápido desenvolvimento e profunda transformação. Vê o desenvolvimento de processos e fenômenos como multipolaridade, globalização econômica, advento da sociedade da informação, diversidade cultural, transformação da arquitetura de governança global e ordem mundial; há crescente inter-relação e interdependência entre os Estados; surgiu uma tendência à redistribuição do poder no mundo; e a comunidade internacional mostra uma demanda crescente por lideranças visando um desenvolvimento pacífico e gradual. (Declaração Conjunta, China-Rússia, 4 de fevereiro de 2022).

A declaração sino-russa aponta para o esforço da consolidação do bloco imperialista emergente, Moscou-Pequim, em oposição ao bloco imperialista hegemônico, Washington-UE-Londres, numa demarcação dos polos em conflito na Nova Guerra Fria. Para além dos acordos de cooperação sino-russa, em especial nos interesses econômicos chineses na Nova Rota da Seda2 e em medidas para não mais usar o dólar nas suas transações bilaterais, Putin e Xi Jiping podem avançar para as alianças militares.

2. A Ucrânia como palco dos conflitos da Nova Guerra Fria

O avanço das tropas do Putin sobre o território ucraniano pode ser considerado o primeiro conflito militar da Nova Guerra Fria que explicitamente coloca em oposição os diferentes interesses dos blocos imperialistas que disputam a hegemonia na nova ordem do sistema-mundo. Desde a dissolução da URSS que a Ucrânia tem sido palco de disputas entre grupos internos pró-Europa/OTAN e pró-Rússia.

No ano de 2004 eclodiram na capital Kiev uma série de protestos que ficaram conhecidos como “Revolução Laranja”, uma vez que os manifestantes levavam cartazes na cor laranja. Os protestos ocorreram porque os partidários de Viktor Yushchenko, da coalizão neoliberal pró-Europa Nasha Ukrayina (Nossa Ucrânia), acusaram fraude as eleições vencidas por Viktor Yanukovych, do partido russófono Partido das Regiões. Com apoio da UE e dos EUA, uma nova eleição foi realizada e Yushchenko venceu o pelito. Esse resultado contrariou os interesses de Putin, mas os grupos pró-Rússia reverteram a situação com a vitória de Yanukovych nas eleições de 2009.

Quase uma década depois da “Revolução Laranja”, em 2013, novos protestos em massa foram desencadeados pelos espancamentos de manifestantes estudantis pela Berkut (forças especiais da polícia). Os estudantes eram contrários a recusa do então presidente Viktor Yanukovych em assinar o acordo de associação com a UE. Esses espancamentos funcionaram como um chamado à ação para muitos segmentos da sociedade que ocuparam as ruas em oposição ao governo de Yanukovych, que acabou sofrendo um impeachment. Os protestos ficaram conhecidos como Euromaidan, “euro” porque foram protestos pró-Europa e “maidan” poque os manifestantes se concentravam na Praça Maidan Nezalejnosti, em Kiev.

Nos protestos os manifestantes eram uma multidão heterogênea: ativistas de extrema-direita com seus símbolos, líderes liberais falando sobre valores europeus e integração europeia, ucranianos comuns que saíram contra o governo e alguns esquerdistas. Protestos contra o sistema politico do país. Oligarcas anti Yanukovych financiaram o protesto como chance de salvar seus negócios. Havia uma insatisfação generalizada, dado as condições socioeconômicas do país que se deterioraram ao longo do tempo, provocando o aumento da pobreza e da miséria entre os trabalhadores e trabalhadoras.

Aproveitando-se da situação, as forças políticas da extrema direita interferiram ativamente no movimento. Rapidamente se alinharam e se tornaram uma força organizadora, graças ao fato de terem criado os primeiros destacamentos de combate e convidado todos a se juntarem a eles, treinando-os e dirigindo-os.

A extrema direita financiada pelo bloco EUA-EU-Inglaterra formou o Batalhão de Azov, que combateram em Donbass e que posteriormente foi incorporado a estrutura de Estado ucraniano. Também financiaram outras formações militares fascistas, como a Unidade Voluntária Ucraniana “Setor Direito” [Pravyi Sektor] e a Organização dos Nacionalistas Ucranianos. Do lado “separatista” financiado pela Rússia para guerrear em Donbass, temos a milícia neonazista Viking Battalion, o grupo “Storm Group Rusich” e a União Nacional Russa, entre outras iniciativas do tipo reacionárias. O que expõe que a leitura do conflito como sendo uma guerra onde a Ucrânia representa o nazismo e a Rússia o antifascismo, só existe para a esquerda pequeno-burguesa e não corresponde a realidade da composição social e ideológica das tropas e milícias envolvidas no conflito.

Foi nesse contexto da Euromaidan que Putin ordenou a anexação militar da Crimeia à Rússia e que aos acordos de Minsk foram assinados.

A ascensão da extrema-direita se deve ao fato de que ela se organizou melhor em situações críticas e foi capaz de sugerir métodos eficazes de combate a outros rebeldes. O atual presidente Vladimir Alexandrovitch Zelenski foi eleito em 2019 dentro do mesmo contexto de descrédito da população com o sistema político-econômico ucraniano. Representando as elites conservadoras e neoliberais pró-Europa, Zelenski aprovou mudanças na constituição ucraniana que impõe a adesão à UE e à OTAN, mais uma vez, contrariando os interesses de Moscou.

3. A caracterização do conflito interimperialista da Nova Guerra Fria

Não há dúvidas de que Ucrânia está servindo de palco para um conflito interimperialista que opõe o bloco hegemônico Washington-UE-Londres e o bloco emergente Moscou-Pequim. Mas para o melhor entendimento desse conflito é necessário a melhor caracterização das disputas interimperialistas no contexto da Nova Guerra Fria.

A perspectiva bakuninista define o imperialismo contemporâneo da seguinte forma:

o imperialismo é o processo e a política pelos quais determinadas sociedades estatais subordinam e englobam outras sociedades e territórios, constituindo assim os Impérios, como o topo de uma hierarquia regional ou mundial. O imperialismo é gerado pela tendência dos Estados a lutarem entre si e constituírem uma relação e sistema de poder assimétrica. (VII CONUNIPA – 2019)

Esse sistema de poder assimétrica não são apenas econômicos, mais uma combinação de hierarquias: 1) políticas, 2) econômicas e 3) sociais e simbólico-culturais. Portanto, a invasão russa deve ser vista dentro desse contexto entre potências em declínio e a ascensão de novas potências estatais que estão desafiando o poder hegemônico dos Estados Unidos. Esse movimento não se faz sem a subordinação e processo de colonização que envolve a ocupação territorial com vista a 1) controlar os governos e grupos nos territórios ocupados, 2) concentrar recursos econômicos e explora e subordinar ainda mais os trabalhadores e 3) promover uma identidade sobre as populações locais a partir da visão das forças de invasão. O pronunciamento de Putin foi esclarecedor sobre esse último aspecto, pois ele explicita sua compreensão de que o povo ucraniano não tem uma identidade separada do Estado russo, sendo a Ucrânia uma construção “artificial” dos bolcheviques de 1917.

Assim, diferente do que imaginam as abordagens reformistas social-democratas e comunistas, o fato da Putin não estar no mesmo bloco de poder internacional que os EUA-UE-Inglaterra não o impede de implementar uma política imperialista a partir do poderio bélico-nuclear e econômico do Estado russo. O que vemos hoje é que o bloco sino-russo apresenta, em alguns momentos, uma política contra-hegemônica ao imperialismo estadunidense e seus aliados europeus. Essa oposição é, na verdade, um conflito político-militar entre dois blocos imperialistas que disputam a hegemonia no atual sistema-mundo.

Portanto, a invasão russa é uma resposta a velha ordem imperialista demonstrando toda sua capacidade de subordinar e colonizar um Estado-Nação a partir única e exclusivamente de seus interesses geopolíticos, econômicos e sócio-culturais. A Ucrânia está de vitrine dessa demonstração de força do Estado russo. Garantir o controle do governo de Kiev, assegurar o fornecimento de gás para Europa e manter sobre controle russo as oligarquias burguesas e expandir o nacionalismo conservador russo.

Assim, os Estados menores e mais fracos estão condenados a ser subordinar a uma potência imperialista caso não queiram que suas fronteiras sejam invadidas e anexadas ao sabor dos Estados Imperialista e dos interesses de suas classes dominantes.

4. Resistência

Longe de um futuro melhor para o nosso povo, a invasão da Ucrânia inaugura uma nova intensificação das disputas interimperialistas. Isso significa o aprofundamento do desemprego, da miséria, da superexploração, das desigualdades, da destruição da natureza, da expropriação em massa de camponeses e povos originários. As crises do capital e insurgências populares, tais como o levante zapatista de 1994, a Revolução de Rojava, no Curdistão, de 2012 e a revolta no Iraque de 2019, serão forças sociais-populares fundamentais que poderão acelerar, atrasar ou mesmo frustrar os interesses imperiais-coloniais em jogo na Nova Guerra Fria.

No campo anarquista das organizações conhecidas que estavam se preparando para tais eventos, havia a Confederação Revolucionária de Anarco-Sindicalistas Makhno (RCAS Makhno), mas acabou se dissolvendo durante os conflitos. Entretanto, com a invasão russa setores anarquistas têm chamado a organização e resistência armada. Em Kiev foi formado o Comitê de Resistência de Kiev que é um centro de coordenação de anarquistas e antifascistas atuando tanto na parte de mídia, ajuda mútua e resistência nas zonas de conflito. Nesse sentido, atuam para defender os trabalhadores e trabalhadoras da invasão e avançar a política anarquista entre o povo, apresentando o programa anarquista como real alternativa para a Revolução Social.

Um dos limites para a ação dos anarquistas é a ausência de uma articulação internacional, o que chamamos de Rede Anarquista Internacional, com capacidade de, por exemplo, coordenar boicotes internacionais para combater os Estados e capitalistas que exploram e massacram os povos do mundo.

A posição dos anarquistas revolucionários deve ser boicote a guerra fortalecendo o internacionalismo da classe trabalhadora, suas posições antimilitaristas e anti-imperalista, entendendo a luta contra o imperialismo como parte da luta contra o Estatismo. A ocupação Russa deve ser combatida e denunciada e a guerra imperialista deve ser boicotada pelos trabalhadores a transformando em uma guerra de classes fazendo um chamado a classe trabalhadora de todo mundo pela GREVE GERAL CONTRA A GUERRA IMPERIALISTA! A partir da luta contra invasão russa transformar numa guerra de classe3 para organização da Revolução Social. O único meio de salvação do povo ucraniano.

Coletivos e militantes anarquistas protestando na Alemanha contra a guerra.

Contra a tomada de territórios sob qualquer pretexto, contra o envio do exército russo ao Donbass, contra a militarização.

Contra à guerra!

Pelo fim da OTAN!

Pela Revolução Social!

1 A dissolução da URSS e do “bloco socialista”, nos anos 1990, faz parte das novas relações de poder instituídas pelo neoimperialismo. Naquele momento a hegemonia norte-americana alcançou o seu auge, garantindo uma década de poder unilateral, sob o signo imperial-colonial da “Pax Americana”. Esse período, no entanto, começará a modificar-se, evoluindo para o que caracterizamos como uma Nova Guerra Fria, expressa na polarização EUA-U.E x Rússia-China, acirrada pela nova onda mundial de colonização. Em que pese o hábito de analisar ideologicamente a atual guerra fria (com anacronismos que reproduzem “capitalismo x socialismo”), ela não tem essa característica. Representa a disputa de dois modelos distintos de desenvolvimento do capitalismo e poder imperial. (VII CONUNIPA)

2 A Nova Rota da Seda foi idealizada pelo governo chinês em 2013 e consiste em diversos investimentos, sobretudo nas áreas de transporte e infraestrutura, visando a conexão comercial entre Europa, Oriente Médio, Ásia e África, tanto por terra, formando um cinturão, quanto por rotas marítimas, passando pelo Oceano Pacífico, atravessando o Oceano Índico e alcançando o mar Mediterrâneo.

3 Bakunin defendeu que a guerra imperialista deveria ser transformada em guerra civil, como a única forma de defender a França Popular e vencer os Impérios. Tal política mais tarde ficaria célebre nas frases de Lenin, que guiaram a revolução russa, “Transformar a guerra imperialista em guerra civil”, e se refere claramente à política da Comuna, que tinha sido elaborada politicamente por Bakunin antes, mesmo do levante communard, no documento “Cartas a um Francês” (1870). (UNIPA, https://uniaoanarquista.wordpress.com/2021/05/27/150-anos-da-comuna/).




Fonte: Uniaoanarquista.wordpress.com