Outubro 31, 2020
Do Midia Independente
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No Ouro Negro, cinema-teatro de 8 lugares que construiu num mutirão numa parte do escritório na sua casa, seu Petrolino estava assistindo o filme que escreveu no trenzinho caipira. Embarcando novamente em cada palavra, escreveu novas imagens que há muito tempo estavam nas entrelinhas do seu filme. Escrevia pra multidões, mas era um poeta de diário íntimo. O Ouro Negro é o Theatro Municipal da sua imaginação e a caneta tinteira carregada de petróleo é a batuta com a qual rege o seu próprio coração. O alto-falante é a voz do povão.

Na página-tela, imaginou ecos de outros filmes. Um palanque prometendo que o pré-sal seria o passaporte pro povo feliz. O mais belo poema é o pão na mesa onde a fome já foi o prato de todo dia. Mas o palanque não é o povo. Promessa de Eldorado. Sonho com eco de pesadelo. Terra em transe.

Chuvisco de TV na tela. Bangue-bangue entre a visão crítica e o inconsciente colonizado pelo Western. A tela como espetáculo é a imagem sem palavra. Imagem que trai a própria imagem. Ou a deciframos ou continuaremos sendo devorados. E só a palavra decifra, seja ela feita com letras ou com imagens. Ideogramas. Sempre caligrafia.

Imaginação. Seu Petrolino segura a caneta como uma chave. Tenta abrir as portas da percepção social. Seu Petrolino escreve imagens com as palavras do povão. Imagens que possam derrotar o chuvisco que escraviza a imagem. Cinemato-grafia.

O sol é a luz do seu cinema. Na tela, a imensidão do mar. O anti-chuvisco. Iemanjá (in)visível em cada quadro. O petróleo só vale a pena se for pra descolonizar. O Brasil não é ocidental, mas o Brazil o coloniza. O Brasil é o sol; o Brazil o chuvisco (de TV). No Ouro Negro, o filme é o povo em movimento sorrindo sol.

Lá o filme brasileiro é trilha sonora. Mesmo quando mudo, é sempre canção. Coral-procissão de imagens escritas com letra de sol. Vamos cantar um pouquinho: “[…] Esperar só as graças de Deus/ Já não dá, já não dá, já não dá/ É farinha com água demais, seu doutor/ Pra apenas alguns, caviar/ Viola de encanto, de canto e de pranto/ Não quer mais apenas chorar/ Viola de intriga, de estrada e poesia/ Insiste em me acompanhar […]”. “Andá com fé eu vou que a fé não costuma faiá”, cantam juntas as 8 pessoas no Ouro Negro, ao mesmo tempo em que entram no filme. Chegam mais 8. E mais 8, mais 8, mais 8… O povo no filme vai projetando seus sonhos e o sonho coletivo feito de muitos sonhos. Pra quem ainda não acredita, puseram até legenda em ingrês: we have a dream. Em cartaz nos seus corações, o filme sai da tela. (En)canta nos (com)passos de 8 e mais 8 e mais 8…

Mas isso está longe de ser suficiente. O chuvisco está sempre à espreita. E costuma ser muito eficiente. Por isso, o filme também é escrito com chuvisco, pra causar interferência no colonizador chuvisco. Duelo de chuviscos. Cenas brechtianas explicando à luz do sol a luta de classes no imaginário e sua influência no mais concreto dos palcos. Cine-teatro na praça hackeando o chuvisco pra que, pelo avesso, mostre o que o chuvisco esconde. Chuvisco descolonizante x chuvisco colonizador. Um QR Code do cinema do sol (se) abrindo nos códigos do anti-cinema do chuvisco.

Seu Petrolino continua escrevendo com sua caneta tinteira de petróleo. Ouve o filme enquanto costura imagens. Com cada 8 infinitos companheiros no Ouro Negro, recorda um dos fios condutores do filme: Paratodos que se dedicam à revolução brasileira. “Nessas tortuosas trilhas/ A viola me redime/ Creia, ilustre cavalheiro/ Contra fel, moléstia, crime/ Use Dorival Caymmi/ Vá de Jackson do Pandeiro […]”.

A câmera da sua escrita faz um travelling nos trilhos do trenzinho caipira e de outros trens do povão. O olho mágico volta ao sertão. Mais sol. Mais chuvisco. Corisco x chuvisco. Todas as imagens do filme se misturam nesse momento, formando uma nova imagem. Sertão. Western e anti-Western ao mesmo tempo. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Deus e o Diabo na Terra do Pré-Sal: “Se entrega, Corisco/ Eu não me entrego, não/ Eu não sou passarinho pra viver lá na prisão/ Se entrega, Corisco/ Eu não me entrego, não/ Não me entrego ao tenente/ Não me entrego ao capitão/ Eu me entrego só na morte/ De parabelo na mão/ Se entrega, Corisco/ Eu não me entrego, não/ Aaaaaaaahhhhhhhh […] Mais fortes são os poderes do povo!”. “Tá contada a minha estória/ Verdade e imaginação/ Espero que o sinhô/ Tenha tirado uma lição/ Que assim mal dividido/ Esse mundo anda errado/ Que a terra é do homem/ Num é de Deus nem do Diabo”… Mataram Corisco. Mas o sertão vai virar mar e o mar virar sertão.

O sertão vai virar mar e o mar virar sertão.

! … ! … ! … ! … ! … ! … ! … ! …

Mais fortes são os poderes do povo!

O tempo e o vento relembram: “[…] Esperar só as graças de Deus/ Já não dá, já não dá, já não dá/ É farinha com água demais, seu doutor/ Pra apenas alguns, caviar/ O meu nome é José Brasileiro/ O meu pai é Joaquim do Brasil/ Minha mãe é Maria Nação/ Nunca vi coração pra ser tão varonil”.

O vento do tempo sopra no Ouro Negro. Sussurra e grita que o petróleo só vale a pena se for pra descolonizar. Só vale a pena se servir o pão na mesa do povão. Só vale se for sol nas nossas mãos. Por isso, escrevamos, com nossa (imagin)ação, uma Petrobrás do povo, pro povo e com o povo! A tecnocracia privatista enforca o violão; cabe ao povão tocar a viola da socialização.

Antony Devalle é trabalhador da Petrobrás e integrante do grupo autônomo de trabalhadores petroleiros Inimigos do Rei. É um dos fundadores e editores do Portal Autônomo de Ciências.




Fonte: Midiaindependente.org