Novembro 10, 2020
Do Anarcopunk
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INTRODUÇÃO – Inaê Diana Ashokasundari Shravya

O texto a seguir aborda o pensamento dum outro Bakunin, um tanto desconhecido para muitas e muitos anarquistas. Enquanto se tenta empurrá-lo para a sociologia, ou até mesmo para a história – talvez por estas duas serem consideradas como “áreas revolucionárias”, o que é um ledo engano, além de fruto dum delírio metafísico profundamente idealista-, a verdade é que o grandalhão russo era um filósofo, mas duma filosofia menor, duma filosofia que afirma a vida em suas mais variadas formas, que constaria perfeitamente no que Michel Onfray chamou de contra-história da filosofia. Suas obras, que, como o próprio diz, são fragmentos, estão sempre em diálogo com outros filósofos da época, além de serem obras escritas a partir da mescla entre o sangue e a tinta, isto é, sem se desvincular da vida – talvez por isso suas obras sejam fragmentos, pois a vida mesma é um arranjo ruidoso de descontinuidades, rupturas, ranhuras e cisões -, o que nos leva inclusive a questionar o motivo de o seu nome não constar entre os de importantes filósofos do século XIX.

O texto a seguir é um dos capítulos do livro “Mikhail Bakunin: The Philosophical Basis of his Anarchism”, de autoria de Paul McLaughlin.

A DIALÉTICA NEGATIVA

Paul Mclaughlin

Algumas conclusões gerais são necessárias. A preocupação de Bakunin n’A Reação é examinar o conflito entre o princípio reacionário, i.e., o princípio Positivo de não-liberdade (a tese), e o princípio revolucionário, i.e., o princípio Negativo de liberdade (a antítese), e consequentemente examinar também o princípio essencialmente afirmativo de liberdade ou democracia que finalmente emerge da “mediação” destes dois princípios antitéticos.

Esta “mediação”, por assim dizer, é distintamente não-hegeliana na medida em que dá primazia ao Negativo, ela simplesmente expressa o Negativo totalmente. O terceiro princípio, liberdade, está portanto realmente presente na, ou existe enquanto, antítese, de modo que de fato há apenas dois princípios e nenhum terceiro mediado superior. Daí Lehning escreve: “não há dúvida aqui da tricotomia hegeliana”.[1] O terceiro superior, por assim dizer, está implícito na tese Negativa: democracia está implícita no princípio negativo ou revolucionário. O princípio revolucionário é, portanto, o princípio democrático como parece. O conflito só pode ser completamente resolvido, pois, de acordo com Bakunin, na aniquilação total de um princípio, o Positivo, pelo outro, o Negativo, através da autoexpressão do Negativo, i.e., a revolução.

Negação, para Bakunin, é também afirmação – do outro (o próprio Negativo). Nesta afirmação, ambos lados cessam de existir já que nesta afirmação, ambos os lados deixam de existir, pois o Negativo qua enquanto outro obviamente existe em sua qualidade de outro; com sua afirmação, na derrota total de sua contraparte dialética, ele deixa de ser um outro, e tanto ele quanto o que ele negou desaparecem. O Negativo inicialmente então existe “apenas como a negação do Positivo, e portanto, ele também deve ser destruído junto com o Positivo”; mas o Negativo enquanto mera negação, “neste estado infortúnio”, engendrando nada e ao qual “a plenitude total da vida é necessariamente externa”, pode e deve sofrer uma transformação qualitativa, de modo que “de seu terreno livre ele possa brotar novamente num estado de recém-nascido, como sua própria plenitude viva” – como democracia [20/40]

Através da revolução, noutras palavras, a liberdade ou a democracia substitui a não-liberdade, mas ao substitui ela deixa de existir como um princípio inteiramente negativo – isso é, enquanto revolução. Mas a democracia não é meramente negativa; ela também é afirmativa. Ela não apenas destrói o velho, como também, através duma transformação qualitativa, cria o novo; o que quer dizer, ela também realiza a sua essência. O princípio antitético é, mesmo assim, negativo – o oposto contido dentro do próprio Positivo. Democracia, como uma força revolucionária, pode assim ser entendida apenas pela referência negativa à não-liberdade, e só pode concretizar a si mesma, de novo em “sua própria plenitude viva” pela negação da não-liberdade.

Tal processo dialético não é caracterizado pela suprassunção (Aufhebung). Suprassunção, embora seja apenas semi-preservativa, representa, pra Bakunin, uma preponderância do positivo – tanto na forma hegeliana quanto na marxiana (bem como na forma comteana). É o elemento da suprassunção nele que causa a dialética, a qual é um momento negativo por definição, para dar lugar ao especulativo, que é positivo. Mas o que é assim postulado não é a plenitude do negativo mas aquilo que era para ter sido negado; noutras palavras, o positivo original é postulado de nova maneira, numa (como Bakunin veria) forma mediada. Mais importante, entretanto, o próprio negativo, o elemento vital, é ajustado – isso é, suprimido. (Por esta razão, para citar o caso mais famosos, o conflito entre Ser e Nada de tal Ser é resolvido,  segundo Hegel, pelo Devir, que é tanto a preservação desse Ser vazio quanto a sua negação – a qual, totalmente expressa, transformaria, segundo Bakunin, tal Ser no que está faltando nele.) Nas palavras de Hegel, então:

Quando a dialética tem o negativo como seu resultado [uma vez que é negativamente racional], aí, precisamente enquanto um resultado, este negativo é ao mesmo tempo positivo [aquela negação necessária], pois ela contém o que resulta do suprassumido dentro de si, e não pode ser [na sua forma suprassumida] sem isto. Isto, contudo, é a determinação básica da terceira forma da Lógica, nomeadamente, a especulativa ou positivamente racional.[2]

Suprassunção, portanto, envolve uma negação do Negativo em sua totalidade (ou uma negação da negação), e furta a dialética da sua negatividade e vitalidade essenciais. Ela compromete a dialética. Para conceber a dialética em termos de suprassunção é, para Bakunin, subestimar a sua força. Em consequência, ele se compromete a desenvolver uma radicalização “fiel” da dialética n’A Reação, e assumir o seu lugar na tradição hegeliana de esquerda, como um  pensador mais hegeliano do que o próprio Hegel. (Hans-Martin Sass argumenta que despir a dialética da suprassunção é – “ao menos num entendimento hegeliano” – criar uma “antitética”[3]. Este é um termo útil para para se ter em mente. Contudo, Bakunin, como seus companheiros hegelianos de esquerda, gostaria que acreditemos que ele está uma interpretação superior, mais consistente, da dialética de Hegel – uma radicalização dela que ainda é de alguma forma fiel à original – sem substituí-la com algo distinto. Portanto, eu me refiro ao pensamento “dialético” de Bakunin) Neste contexto, V.V. Zenkovsky escreve que Bakunin formulou uma “filosofia da negação… Ele não apenas aceitou a tese de Hegel relativa ao valor dialético e à inevitabilidade interior da negação, como começou a dar prioridade à negação como a única portadora do princípio criativo do Espírito”. (Isso é, ele chegou à conclusão de que “a criação do futuro [em todo o seu potencial, em sua realidade (Wirklichkeit)] demanda a destruição da realidade existente (Realität) [em sua própria contingência]”[4]) Zenkovsky conclui que “o hegelianismo era o elemento definidor no virada de Bakunin ao revolucionarismo; pela afiação da doutrina de Hegel e pela interpretação unilateral, ele passou a ver a força criativa apenas na negação”.[5]

Em termos hegelianos, embora ele contestasse, o pensamento de Bakunin pode ser considerado unilateral ou parcial, portanto falso. Ele pode ser acusado de “se agarrar a uma determinação pela força, um esforço em obscurecer e remover a consciência do outro que está contido nela”. Ou, para ser preciso, ele pode ser acusado de ceticismo, pois Hegel escreve: “A dialética, tomada separadamente por conta própria pelo entendimento, constitui ceticismo… Ceticismo contém a mera negação que resulta da dialética”[6]. Quer dizer, Bakunin pode ser acusado de assumir uma posição cética sobre tudo que é positivo pela recusa em reconhecer a positividade que é preservada na suprassunção positiva – pela recusa em reconhecer a suprassunção de qualquer modo, e com ela, a especulação.

A dialética ou o próprio momento negativo, contudo, momentaneamente de fato, por assim dizer, afirma o outro (o Negativo), como um vencedor dialético, o qual de alguma forma contém o seu outro (o Positivo) em virtude da sua alteridade original – pela simples razão que um “nada [o negativo] é especificamente o nada [ou outro] daquilo do qual resulta [o positivo]”[7] – antes, isso é, tanto o Positivo quanto o Negativo, como meramente negativo, deixa de existir. Mas, para Bakunin, esta afirmação momentânea, carrega consigo obrigação alguma de preservar esse outro em sua positividade. Daí de filosofia negativa de Bakunin ser mais complexa do que parece ser à primeira vista.

A filosofia de Bakunin, como uma herdeira da filosofia de Hegel, não é, nem poderia ser, puramente negativa; ela não é um “cadinho de negação total” no sentido niilista que Albert Camus tem em mente[8]. Todavia, o momento negativo a define como, obviamente, uma filosofia negativa, e por conseguinte, no contexto histórico, como uma filosofia revolucionária e, de fato, uma filosofia da práxis revolucionária. (o próprio Bakunin mais tarde se refere a A Reação como “um artigo filosoficamente revolucionário”[9]) Bakunin, assim como August von Cieszkowski [em seu Prolegomena zur Historiosophie (Prolegômeno à Historiosofia) (1838)], vê este desenvolvimento como necessário ao projeto do próprio Hegel. Ele argumenta que Hegel se situa no cume do entendimento teórico e, enquanto tal, “foi acima da teoria”, já que o fim da teoria é ao mesmo tempo o início de alguma outra coisa, i.e., sua antítese. Desta maneira, Hegel “postulou um mundo novo e prático que de modo algum se conduzirá à conclusão por meio duma aplicação formal e difusão de teorias já elaboradas [contra Cieszkowski, e mais tarde Marx e Comte], mas apenas por meio  dum ato original do Espírito autônomo prático” -isso é, o espírito prático-revolucionário [32/47].[10]

Bakunin, consistente com a sua dialética (e mais tarde o seu naturalismo), já está se movendo além da síntese cieszkowskiana no intuito de subjugar o teórico ao prático, de modo que o teórico se torne prático em essência: em seu conhecimento (de onde vem, se quiser, que, se prático, pode ser apenas o positivo, ou realidade) e suas motivações (em direção ao que é direcionado, se quiser, que, se prático, pode ser apenas o negativo, ou liberdade). Inversamente, Bakunin rejeita a subjugação do prático ao teórico (implícito mesmo no compromisso sintético de Cieszkowski), o qual implica a regra da especulação positiva, ou, em geral, “o governamento da ciência”; e a este ponto ele apregoa “a revolta da vida contra a ciência”[11] (um tema predominante em seus escritos posteriores).[12]

Tradução: Inaê Diana Ashokasundari Shravya

Notas

[1]“Laßt uns also dem ewigen Geiste vertrauen, der nur deshalb zerstört und vernichtet, weil er der unergründliche und ewig schaffende Quell alles Lebens ist. — Die Lust der Zerstörung ist zugleich eine  schaffende Lust!”
[2] The Encyclopaedia Logic, p. 131 (addition to §81). Ênfase adicionada à palavra “suprassumida”.

[3] “The ‘Transition’ From Feuerbach to Marx: A Reinterpretation”, Studies in Soviet Thought,  XXVI (1983), p. 127.
[4]    Andrzej Walicki, A History of Russian Thought: From the Enlightenment to Marx, trans. Hilda Andrews-Rusiecka (Oxford: Clarendon Press, 1988), p. 120. Ênfase adicionada.
[5]A History of Russian Philosophy, I, trans. George L. Kline (New York: Columbia University Press, 1953), pp. 252, 257. Ênfase adicionada.
[6]The Encyclopaedia Logic, pp. 145, 128 (§§89, 81).
[7]    Phenomenology of Spirit, p. 51 (§79).
[8]    The Rebel (1951), trans. Anthony Bower (Harmondsworth: Penguin Books, 1971), p. 128
[9]The Confession of Mikhail Bakunin, p. 36. Emphasis added.
[10]  “. . . als diese Spitze ist er schon über die Theorie, — freilich zunächst noch innerhalb der Theorie selbst —, hinausgegangen und hat eine neue praktische Welt postuliert, — eine Welt, welche keineswegs durch eine formale Anwendung und Verbreitung von fertigen Theorien, sondern nur durch eine ursprüngliche Tat des praktischen autonomischen Geistes sich erst vollbringen wird”.
[11]A revolta da vida contra a ciência em Bakunin não corresponde a uma negação da ciência, mas sim, a uma crítica ao confinamento da ciência em laboratórios, os quais, devido ao seu distanciamento da vida cotidiana, tende a fazer afirmações que não condizem com a realidade, ou melhor, com o que se sucede na prática. Podemos dizer, em alguma medida, que essa crítica de Bakunin ao confinamento da ciência, à sua teleologização (de “ciência” a “Ciência”, bem como de “ciências” a “ciência”), é também uma crítica à própria modernidade, o que, por não negá-la – além de outras observações que o filósofo faz em vida, como a assimetria entre as culturas, seguidas de determinadas afirmações, como a proposta de simetria entre as culturas presente na sua concepção de internacionalidade -, poderia muito bem aproximá-lo daquilo que Enrique Dussel chama de transmodernidade. [N.T.]
[12] L’Empire knouto-germanique (Seconde livraison), p. 125. Ênfase no original.




Fonte: Anarcopunk.org