Abril 20, 2021
Do Jornal Mapa
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Avasîn e Lina encontram-se em Rojava e são jovens rostos dos Diários de Resistência que, desde o início de abril, podemos acompanhar no YouTube

Quando falamos de Rojava, falamos do Curdistão Sírio que é, desde 2012, no contexto da guerra civil síria, uma região autónoma na zona norte-nordeste da Síria. Atualmente conhecida como Administração Autónoma do Norte e Este da Síria, e embora não seja reconhecida oficialmente pelo governo sírio ou por qualquer Estado nacional, é de facto uma república autónoma formada por cantões auto-governados com base nos princípios do Confederalismo Democrático. Um sistema de auto-organização democrática que o movimento Curdo, pese o cenário de guerra, tem levado à prática na região, propondo-o como a solução política para a questão da autonomia curda num território de convivência étnico-religiosa diversificada.

Como outras jovens mulheres e homens de vários pontos da Europa e do mundo, Avasîn e Lina chegaram a Rojava como “internacionalistas”, integrando a Comuna Internacionalista. No texto de apresentação dos Diários de Resistência que fizeram chegar ao Jornal MAPA, contam como, chegadas a Rojava, começaram «a compreender o significado da guerra e de quantos e diferentes níveis, mas sempre interligados, é feita a guerra contra o povo. É algo mais do que apenas o confronto armado; a guerra invade cada parte da vida. Mesmo que os métodos sejam diferentes de acordo com o tempo e o lugar, a guerra está em todo o lado, visando a estabilização do sistema dominante».

Decidiram, assim, retomar a ideia, já antes posta em prática, dos Diários de Resistência. «No passado, houve amigos que já utilizaram este conceito para relatar os ataques e a resistência do povo em tempos de ofensivas em larga escala. Afinal, os ataques e a resistência contra tudo isto fazem parte da realidade quotidiana do povo em Rojava e, por causa disso também, em tempos de guerra de baixa intensidade, queremos partilhar convosco as nossas experiências relativamente à resistência na revolução». Para «mostrar ao mundo estas diferentes formas de resistência e partilhar a beleza que nelas reside, nós, como comuna internacionalista, juntamente com a Ocaxa Ciwanên Rojnameger [organização dos media da juventude], reiniciamos o projeto dos Diários de Resistência.»

Viver em constante ameaça

Para Avasîn e Lina «a opressão e o controlo da sociedade não se limita ao nível físico e à violência direta, a influência psicológica sobre as pessoas sob a forma de normas estabelecidas também tem de ser entendida como uma forma de guerra. Como esta forma afeta os pensamentos e sentimentos e a sua influência não é tão visível, a maioria das pessoas não reconhece este tipo de guerra e as próprias partes sistémicas são negadas. O controlo da sociedade nos países ocidentais baseia-se principalmente em normas e verdades propagadas, pelo que o uso maciço da força e da violência se torna supérfluo. No entanto, vemos os/as nossos/as companheiros/as e companheiros/as presos/as e assassinados/as para que sirvam de exemplo a quem ousar questionar o sistema opressivo e estiver disposto a procurar novas respostas. Porque o capitalismo é essencialmente sustentado pela ausência de alternativas, cada busca e cada solução encontrada são consideradas como algo perigoso para o Estado. Em qualquer parte do planeta onde as pessoas lutam por um mundo e uma sociedade livres, os Estados imperialistas utilizam todos os meios e estratégias de guerra de que dispõem para quebrar a nossa resistência».

Os distintos momentos de guerra que assolam a região demonstram, para as promotoras dos Diários de Resistência, como «a diversidade da guerra se vê muito claramente no Curdistão. A guerra contra a população curda e a revolução é um estado contínuo que varia apenas na sua intensidade. Nos períodos em que não está a ser realizada nenhuma ofensiva em larga escala, os ataques continuam em grande parte a nível psicológico, mas também a nível físico esporádico».

A influência psicológica sobre as pessoas sob a forma de normas estabelecidas também tem de ser entendida como uma forma de guerra

Ain Issa – zona de controle vital para a região, alvo de ataques turcos repelidos pelas forças curdas e pelo papel contraditório das forças russas, sírias e americanas – é dada como um exemplo deste estado de contínuo alerta e medo. «Os bombardeamentos não pararam durante meses e os ataques com drones às pessoas ou a infraestruturas essenciais continuam. O que isto causa é um medo constante e toda uma população que está constantemente em estado de alerta. Tudo isto é ainda mais intensificado pelas ameaças regularmente repetidas de se iniciar uma grande ofensiva».

Para Avasîn e Lina «a inexistência desta ofensiva afeta não só a população, mas também o movimento de solidariedade. Nem a população nem o movimento de solidariedade levam, por agora, as ameaças tão a sério como deveriam, o que torna difícil uma profunda preparação psicológica e física para uma situação de guerra concreta. Ignorar os avisos e alertas de Rojava causa o isolamento da população da região do resto do mundo, o que cumpre outro dos objetivos dos Estados imperialistas. O isolamento de Rojava é uma estratégia para enfraquecer e destruir o Movimento Curdo pela Liberdade». Para além do isolamento de Öcalan do movimento que mesmo em prisão permanece como líder carismático, a proibição Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e da propaganda agressiva que visa o isolamento ideológico do movimento, «o embargo corta fisicamente as pessoas do fornecimento para as infraestruturas necessárias».

Arrancar oliveiras e secar rios

Todo este processo demonstra, conforme relatam, que «com isto, as forças imperialistas pretendem destruir o modo de vida da população, o que também se expressa na queima de campos de trigo e oliveiras por grupos jihadistas aliados do Estado turco e no corte do fluxo natural de água do Eufrates em território ocupado pelo Estado fascista turco. A destruição das oliveiras em Efrîn, em particular, tem um efeito psicológico sobre a população, que sente uma profunda ligação à natureza».

Apesar de tudo isso, as internacionalistas são claras ao afirmar que «todos estes ataques contra o povo curdo e a própria revolução não conseguem suprimir a vontade de liberdade do povo curdo. Ao longo da história, tem-se tentado oprimir e erradicar a cultura curda, mas as pessoas continuam a resistir a todos os níveis. Mesmo que haja períodos na história em que a resistência foi feita de forma bastante silenciosa, em que as mães tiveram de ensinar os seus filhos a língua curda em segredo por causa da repressão, ou em que os festivais foram celebrados em segredo, as forças imperialistas e o Estado turco não conseguiram quebrar a vontade do povo curdo. Este povo ainda se rebela contra os seus opressores e ocupantes, reconstruindo o que foi destruído e defendendo a terra livre criada pela revolução.» Para elas o grito é em curdo: «Berxwedan Jiyan e! – Resistência é Vida!»




Fonte: Jornalmapa.pt