Maio 11, 2021
Do Passa Palavra
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Por Raúl Zibechi

Em 28 de abril houve uma greve geral convocada pelas centrais sindicais contra a reforma tributária, que pretendia arrecadar 6,5 bilhões de dólares em tributos dos setores populares e classes médias através do IVA [Imposto sobre Valor Agregado] e outros impostos sobre o consumo.

A convocatória abriu uma brecha pela qual foi escoando a gigantesca raiva acumulada por uma juventude que vem sofrendo todas as frustrações imagináveis, desde a precarização do trabalho, a pobreza e a falta de perspectivas até o assédio permanente das polícias aos seus modos de vida nas grandes cidades.

Em poucas horas, os sindicatos e os dirigentes de esquerda foram deslocados por uma massa de jovens que extrapolava qualquer possibilidade de canalizar o protesto pelas vias institucionais. O resto foi proporcionado pelo Esquadrão Móvel Antidistúrbios (Esmad), o mais odiado órgão repressivo encarregado de reprimir reuniões e manifestações tanto nas cidades como nas regiões rurais.

Nos sete primeiros dias de greve e passeatas, houve em torno de 40 mortos pela polícia, mais de 1.400 feridos, uma dezena de mulheres estupradas, uns mil detidos e mais de 400 desaparecidos, jovens que saíram para protestar e nunca voltaram para suas casas. A cada dia as cifras que chegam às organizações de direitos humanos, cujos ativistas são também objeto da prepotência policial, crescem e se convertem em dados difíceis de comprovar pela atitude mesquinha das autoridades.

A greve que começou contra a reforma impositiva continuou com a denúncia da repressão mas, na medida em que passavam os dias, a demanda central passava a ser o fim do uribismo (regime ultradireitista inspirado no presidente Álvaro Uribe), setor a que pertence o presidente Iván Duque. Na Colômbia, quem diz uribismo está dizendo neoliberalismo repressivo ao estilo Bolsonaro.

A repressão e a militarização da sociedade é a marca do uribismo. Desde a assinatura dos acordos de paz em 2016, o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz) denunciou o assassinato de 1.140 lideranças sociais por grupos armados ilegais que contam com a proteção do Governo e das forças armadas e policiais. A violência tem minado a governabilidade, quando todos os setores da sociedade podem contemplar a impunidade dos assassinos que sempre atacam os movimentos sociais.

A péssima gestão da pandemia tem sido a gota d’água para os jovens colombianos. Até agora conseguiu-se vacinar apenas 10% da população, enquanto a ocupação das unidades de terapia intensiva supera 90%, chegando a 99% em Medellín, 94% em Bogotá e 92% em Cali (https://lasillavacia.com/).

Depois de fracassar em sua tentativa de impor a militarização, já que os prefeitos das três principais cidades que somam 40% da população rechaçaram a medida, o governo de Duque intensificou a repressão, enquanto fazia um chamado ao “diálogo” com todos os atores políticos e sociais. Nos próximos dias, serão arquitetados o fim da greve e dos protestos e uma saída política para esta inédita oposição popular a uma das elites mais reacionárias do continente.

Apesar disso, o movimento atual tem antecedentes na última década. Em outubro de 2009 realizou-se a Marcha de Resistência Social e Comunitária, proposta pelo Conselho Regional Indígena de Cauca (CRIC), a principal organização indígena que aglutina nove povos originários do sul do país. A Marcha chegou a Bogotá depois de percorrer o Vale de Cauca recebendo o apoio dos cortadores de cana, quase todos afrocolombianos pobres que estavam em greve por salário e condições de trabalho.

A Marcha deu corpo a um dos principais movimentos político-sociais do país, com a criação do Congresso dos Povos na Universidade Nacional de Bogotá, onde confluíram povos indígenas e negros, estudantes, camponeses e trabalhadores.

Em 2013 realizou-se uma impressionante greve no campo contra as consequências do TLC [Tratado de Livre Comércio] com os Estados Unidos, durante o governo de Juan Manuel Santos, com a criação das “dignidades” camponesas que foram um golpe muito duro para a hegemonia do latifúndio nas zonas rurais. Em 2019 ante uma paralisação convocada em novembro, produziu-se a primeira grande revolta da juventude pela base, sendo a primeira ocasião em que os jovens tomam a iniciativa política através de sua participação massiva na rua.

Em 8 de setembro de 2020, em plena pandemia que havia forçado um recuo do movimento de protesto, produziu-se uma enorme reação da juventude ao assassinato do advogado Javier Ordónez pela polícia em Bogotá. Milhares de jovens atacaram e queimaram dezenas de Comandos de Ação Imediata, instalações policiais nas favelas, mas a polícia matou 20 pessoas e deixou feridas mais de 400.

A enorme mobilização atual representa o ponto mais alto de um ciclo de protestos que pode ter começado em fins de 2019, coincidindo com as mobilizações no Chile e no Equador. A Colômbia se encontra em um momento decisivo de sua história, que pode desembocar em uma ditadura ou uma guerra civil declarada, ou levar à queda da dominação oligárquica.

Neste ponto, devemos recordar que à diferença da Argentina (onde a oligarquia agrária foi derrubada pelo levante operário de 17 de outubro de 1945) ou do Brasil (onde essa classe foi domesticada pelos governos de Getúlio Vargas), na Colômbia nunca foi possível promover mudanças, nem de cima nem por baixo.

Em 9 de abril de 1948 foi assassinado o dirigente liberal Jorge Eliécer Gaitán, que liderava um amplo movimento popular antioligárquico, dando início a uma longa guerra (conhecida como La Violencia), que nunca terminou em que pesem os diversos pactos e acordos de paz.

Em 1972, a mesma oligarquia agrária boicotou a tímida reforma agrária do presidente Alfonso López Michelsen, nos marcos da Aliança para o Progresso. Ante as investidas reformistas embaladas por um movimento camponês impulsionado inicialmente pela presidência, os grandes latifundiários firmaram o Pacto de Chicoral, que obstruiu inclusive as mudanças mais moderadas que se possa imaginar.

O aspecto mais positivo da atual conjuntura é que as centenas de milhares de jovens nas ruas não respondem a nenhuma estrutura burocrática, rechaçam a direção das vanguardas e lutam segundo seus próprios critérios. A única referência que aceitam é a do mundo nasa/misak de Cauca, que tem marcado presença em Cali, por exemplo, através da Guarda Indígena que apoia, protege e acompanha as mobilizações com sua vasta experiência e forte organização comunitária.

As obras que ilustram este artigo são de Oscar Murillo (1986-).

O artigo foi traduzido do espanhol pelo Passa Palavra: leia o original aqui (El artículo fue traducido del español por Passa Palavra: lea el original aquí).




Fonte: Passapalavra.info