Fevereiro 1, 2021
Do Passa Palavra
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Por Raquel Azevedo

Em dezembro do ano passado, Paul Krugman publicou uma lismo no The New York Times chamada Learn to stop worrying and love the debt. A referência, como se sabe, é ao título do filme de Stanley Kubrick de 1964, mas, em vez da bomba, seria o caso de deixar de se preocupar e aprender a amar a dívida. No texto, Krugman reclama da já conhecida postura intransigente adotada pelo Partido Republicano em relação à dívida pública sempre que o Partido Democrata está no governo. A queixa de Krugman não é nova, mas dessa vez há nela um apelo a tudo o que os economistas aprenderam sobre o endividamento na última década. Um dos argumentos de Krugman para justificar por que a o crescimento da dívida pública não é esse monstro todo é que as taxas de juros estão muito mais baixas agora do que no passado. A taxa real de juros dos títulos de longo prazo emitidos pelo Tesouro americano era de 4% na década de 1990 e tem sido menor que 1% – e às vezes negativa – na última década. Haveria muito o que se discutir sobre a causa de taxas de juros tão baixas, mas Krugman ressalta apenas que os custos de empréstimo do governo estão muito baixos e devem permanecer assim por muito tempo.

Mais do que a recalcitrância oportunista lá e aqui contra a dívida pública, o aumento expressivo do endividamento durante a pandemia talvez nos coloque uma questão bem mais interessante. Em setembro de 2019, a relação dívida/PIB no Brasil era de 75,8%. Chegou a 90,7% em outubro de 2020. Houve um aumento significativo do endividamento num curto período de tempo em resposta a um estado de emergência. Não importa aqui, por um instante, a luta que foi convencer a equipe econômica do Bolsonaro de que o endividamento era necessário ou, pior, de que se tratava de um estado de emergência. Queria ressaltar apenas o caráter concentrado desse endividamento em oposição a um endividamento mais espaçado no tempo que problemas como a crise climática ou o pagamento permanente de uma renda básica, por exemplo, exigiriam. Os efeitos do aumento da temperatura média do planeta ou das transformações do mercado de trabalho têm uma velocidade diferente da do vírus. O que essa diferença de velocidade nos diz? Trata-se apenas de um problema da teoria econômica, que tem de passar a acomodar uma justificativa para o endividamento de longo prazo?

Não foi apenas o aumento do endividamento que se apresentou de forma concentrada na pandemia. A ausência de um senso de comunidade, ou, como prefiro chamar, de um pensamento da mediação, também se apresentou num só golpe e não de forma dilatada no tempo. O processo de vacinação é um exemplo interessante. Os especialistas nos dizem que pelo menos 70% da população deve ser vacinada para que seja possível reduzir a circulação do vírus. Ou seja, não basta pensar no processo de vacinação enquanto um problema individual, seria preciso cooperar para que todos sejam vacinados, de modo que o indivíduo esteja efetivamente mais seguro contra o vírus e suas variantes. Mas esse esforço comunitário tende a aparecer como um ato da vontade, como uma luta ingrata contra sujeitos egoístas. Não se trata de um problema moral. A questão é que nossa existência comunitária, por assim dizer, é organizada pelo mercado. A nossa interdependência só fica mais claramente marcada no mercado, ou, dito de outra forma, ela só se torna um dado empírico e objetivo (e não um ato da vontade) no mercado. Isso não é um elogio ao mercado, é apenas uma tentativa de entender o que podemos aprender com essa diferença de velocidade em que a ausência de um pensamento da mediação se apresenta na pandemia e quando consideramos as transformações mais espaçadas das relações sociais.

A história das formas de rendimento é um bom informante da velocidade das transformações das relações sociais ao longo do tempo. O ritmo de mudança da renda obviamente não é rápido como aquele que um orçamento de guerra pode oferecer. Poderíamos pensar em vários recortes das velocidades de transformação das formas de renda na história, como o afastamento progressivo entre rendimento e trabalho imediato, ou ainda, diferentes formas de participação na totalidade do excedente produzido em uma sociedade. Meu amigo Gabriel Tupinambá me chamava a atenção para o fato de que, sob o capital, essa participação geralmente é dada por uma média, mas, perguntava ele, seria ela um critério adequado diante das transformações do mercado de trabalho? A pergunta se mantém mesmo que consideremos a ideia de média da termodinâmica, mais especificamente da teoria dos gases, em que nada se sabe sobre o comportamento individual das partículas, apenas sobre o comportamento do conjunto, e é a partir do comportamento do todo que algo pode ser inferido a respeito das moléculas individuais. É interessante pensar a forma de participação em um rendimento como um problema correlato ao que eu chamava acima de uma ausência de senso de comunidade. Talvez a pandemia tenha acelerado o processo de criação de uma forma de rendimento que é a contraparte disso que provisoriamente chamamos aqui de cooperação em ausência[1].

Nota

[1] Essa é uma ideia do Gabriel que pretendo apresentar com mais clareza em textos futuros.




Fonte: Passapalavra.info