Agosto 16, 2021
Do Passa Palavra
162 visualizações


por Antônio Celso

Foi divulgado, no dia 9 de agosto, o mais recente relatório do Painel Intergovernamental da Mudança Climática – o mais alto órgão da ONU responsável pelo assunto. O tom mais incisivo e menos dúbio da publicação chamou a atenção da imprensa, mas a maior manchete foi a constatação de que não há mais como evitar o aumento de temperatura de 1,5° C. Tal inevitabilidade nos leva naturalmente à pergunta de como esse cenário impactará a economia brasileira. E a resposta, nos parece, inclui tanto os impactos do clima mais extremo quanto os das medidas de mitigação climática que, a despeito do nosso negacionista-em-chefe, mais cedo ou mais tarde virão.

Comecemos pelas consequências climáticas em si. Por sua dependência dos regimes de chuva e temperatura, a agricultura será evidentemente a maior atingida. As quebras de safra devido às temperaturas incomumente baixas em 2021 serão antes regra do que exceção. O primeiro efeito, direto, é o de encarecer os alimentos que, justamente com a estagnação da renda do trabalho, levará milhões de brasileiros à situação de insegurança alimentar. Ademais, este é o setor mais dinâmico do país que, se por sua natureza não consegue impulsionar o PIB nem o número de empregos, ainda assim é um dos grandes responsáveis pela superavitária balança comercial. O setor, portanto, é chave para a obtenção de divisas e o equilíbrio cambial – em suma, dele depende a estratégia brasileira de inserção externa.

Estes efeitos sobre a agricultura são redobrados pela outra previsão alarmante que traz o IPCC: as oscilações mais frequentes e extremas de regimes de chuva. Esta, porém, traz consigo uma questão adicional. Pela nossa matriz energética majoritariamente hídrica, as crises energéticas serão recorrentes (pela qual também estamos passando em 2021). Redirecionar a nossa matriz, contudo, traz alguns problemas. O primeiro é que outras opções energéticas são ou caras, ou poluentes, ou os dois. O alto custo monetário e em emissões torna, portanto, a tarefa complexa. O segundo é mais sutil. No contexto da regressão industrial em que estamos desde 1990, uma das apostas do Brasil para obter competitividade internacional foi justamente sua matriz energética barata. Esta foi uma das justificativas por trás de Belo Monte. A insustentabilidade da produção hidrelétrica, justamente com o abandono de incentivos à pesquisa e educação pública de qualidade, deixará o Brasil apenas com uma alternativa para competir nos mercados internacionais – salários baixos e supressão de encargos e direitos trabalhistas (na qual o país caminha desde o governo Temer).

O cenário que se desenha, portanto, engloba pressão inflacionária, aumento da pobreza e crise externa. Ele só é reforçado pelas medidas de mitigação climática – políticas públicas que estão ou deverão ser implementadas pelos países desenvolvidos. A medida mais popular entre os economistas e a que tem sido mais colocada em prática é a taxação de carbono: um imposto adicional específico para produtos altamente poluentes, como combustível fóssil, siderúrgicas e cimento. Esta solução, contudo, acarreta dois problemas graves ao Brasil. O primeiro, a ser sentido imediatamente, é que ele é altamente regressivo – como pobres gastam uma proporção maior de sua renda com esses bens comparado aos ricos, eles são também os mais atingidos. Na realidade brasileira de inflação desafiadora para as camadas baixas, bem como desemprego e queda na renda, esse impacto adicional é particularmente perverso.

Em segundo lugar, setores associados à acumulação de capital são significativamente poluentes. Aço e cimento citados acima são insumos incontornáveis para a construção civil, de habitações até saneamento e infraestrutura de transportes. Se a China dos últimos 20 anos é o exemplo prático disso, o desafio é o mesmo para todas as economias emergentes que ainda precisam percorrer o caminho do desenvolvimento: Brasil, Índia, Vietnam etc. Taxação adicional nestes bens tornarão mais caros os investimentos, causando desaceleração de projetos, obras e, no fim, do próprio crescimento econômico e perpetuando, por tabela, o subdesenvolvimento.

É recorrente, nas elaborações de textos relacionados à mudança climática, incluir ao final alguma mensagem de que ainda há tempo para mudança. Para o Brasil, essa mensagem seria pura ficção. O ano de 2021, tem sido uma mescla de desafios climáticos aos quais, segundo o mais recente IPCC, devemos nos acostumar, com desafios econômicos – inflação, fome e crise cambial – em que temos séculos de experiência. Nossa situação é delicada porque tanto a enfermidade quanto o remédio agem conjuntamente para colocar em xeque o modelo econômico brasileiro – asfixiando igualmente as possíveis alternativas. Olhar para as soluções propostas pelo centro do capitalismo, mais uma vez, será de pouca serventia, mas olhar para o que vem sido discutido em Brasília tampouco tem sido alentador. Fadados a enfrentar os desafios climáticos do século XXI, ainda o Brasil ainda se debate com os obstáculos do XX.




Fonte: Passapalavra.info