Março 10, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
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Publicamos a seguir dois textos divulgados no site autonom.org, mantido por companheiros anarquistas russos, que nos últimos dias tem publicados vários artigos contra a guerra na Ucrânia. Estes dois textos reflectem sobre a participação anarquista neste conflito, quando se sabe que vários libertários ucranianos juntaram-se – e organizaram mesmo algumas destas unidades – aos Destacamentos de Defesa Territorial, recebendo armas distribuídas pelo governo ucraniano. A posição anarquista tradicional tem sido a defesa da paz, não intervindo nas guerras entre as grandes potências, mas existem também experiências de luta autónoma em guerras de libertação e de defesa contra ataques e golpes de Estado reacionários. Os exemplos de Espanha, de Rojava ou mesmo da insurreição zapatista são alguns dos mais conhecidos. Os textos que traduzimos tratam desta questão, tal como um terceiro publicado no site truthout em que são entrevistados alguns companheiros ucranianos cujas opções divergem: uns optam pela recusa em pegar em armas, outros consideram que a resistência à invasão russa é crucial e que se impõe.

Uma análise anarquista sobre os anarquistas ucranianos que se juntaram à resistência contra a invasão russa.

Batur Ozdinc*

Um grupo de anarquistas ucranianos que vive em Kiev declarou que se uniu à resistência popular contra a invasão russa e organizou o seu próprio grupo – levando a muitos debates entre diversos círculos anarquistas. Se não soubéssemos com pormenor as circunstâncias em que isso aconteceu, podia-se pensar que eram basicamente pessoas pró-NATO, anarquistas-nacionalistas confusos ou até mesmo apoiantes neonazis. Na verdade, eles não são nada disso! De acordo com suas declarações antes e durante a guerra, sabem exatamente o que é a NATO, o capitalismo, o nacionalismo e o imperialismo; e são contra todos eles. Para mim, são apenas um grupo de camaradas que se viram no meio de uma guerra e tentam encontrar uma maneira de defenderem as suas próprias vidas e as suas próprias ideias.

Pessoalmente, (talvez como muitos anarquistas) acho que o “estado russo” (para além do Donbass ou de onde quer que seja) não tem nenhum “direito” de invadir a Ucrânia sob a desculpa de se estar a defender da NATO. Nesse sentido, a resistência da população local (civil) na Ucrânia (mas não do exército ucraniano) pode ser vista como um “direito”. Contudo, a guerra tem dois oponentes; ambos são pró-capitalistas, embora um possa parecer mais opressivo e imperialista. Além disso, é o aparelho estatal e capitalista que leva os civis a estarem uns contra os outros e impõe ideias nacionalistas – em alguns casos levando a massacres ou a genocídios; como aconteceu no final do período otomano contra os arménios e na Alemanha nazi contra os judeus e os ciganos. Portanto, embora à primeira vista possa parecer “inocente”, a “resistência civil” pode levar a linchamentos e a massacres contra outras nações e opositores ou acabar com o estabelecimento de um novo estado “nacionalista”.

Apoiar o “lado” ucraniano não é a mesma coisa que os anarquistas fizeram no passado durante a revolução de 1936 na Catalunha (na chamada guerra civil de Espanha) em que as instituições capitalistas, religiosas e estatais foram postas em causa,  nem tem nada a ver com o que está a acontecer em Rojava (Norte da Síria), que é altamente influenciada pelas ideias de Bookchin. A Ucrânia pode ser mais “democrática” e uma sociedade mais aberta no sentido liberal (do que a Rússia), mas ainda é um estado capitalista.

Por outro lado, a atmosfera anti-russa, liderada pelos media ocidentais, está a transformar-se, de algum modo, numa espécie de racismo, numa posição de hostilidade contra o povo e a cultura russa como um todo – não apenas contra Putin, o estado russo ou o imperialismo. Acredito que isso é algo a que – como anarquistas – nos devemos opor, ao mesmo tempo que afirmamos que a NATO é tão prejudicial quanto (talvez em alguns casos até pior que) o imperialismo russo.

Anarquismo e “guerra” são dois conceitos distintos, que divergem totalmente. Muitos de nós ainda usamos o termo “guerra de classes” nalgumas situações, mas o que queremos expressar não é o mesmo do que aqueles que defendem os Estados. Não defendemos a ideia de um grupo de “pessoas armadas permanentemente” e organizadas para defender um país (um exército organizado) , nem (como a maioria dos anarquistas) apoiamos qualquer “exército”. Em geral, apoiamos a luta de guerrilha libertária, que visa a revolução social ou a autodefesa (ou ambas). Nalguns casos, embora cooperemos com diferentes forças (capitalistas, estatistas ou mesmo imperialistas), como disse Durruti “nenhum governo no mundo luta contra o fascismo até a morte”. e sabemos que tal cooperação deve ser temporária e é algo não apreciamos.

Para muitos de nós, é fácil dizer “não à guerra, não à NATO e ao imperialismo russo”. Em turco, dizemos “Davulun sesi uzaktan hos gelir” (“O tambor soa bem à distância” – “A relva parece mais verde do outro lado”). Por outro lado, li muitas coisas sobre a repressão aos anarquistas bielorrussos que foram forçados a fugir (principalmente para a Ucrânia e a Polónia); além disso, posso imaginar o quão difícil é viver e sobreviver num país que é invadido por um estado imperialista como fazem os camaradas ucranianos. Por isso, apenas posso imaginar o quanto eles sofrem com os opressores na Bielorrússia e na Rússia; neste sentido tento entender a sua raiva contra o imperialismo russo.

Em última análise, embora (como anarquistas) as nossas ações e expressões possam diferir dependendo do tempo e do espaço, somos todos contra o Estado, contra o capitalismo e contra o imperialismo. Nestas circunstâncias, embora excepcionalmente possamos cooperar com forças não anarquistas, não devemos esquecer o facto de que quem está a lutar ao nosso lado pode ser nosso inimigo num futuro próximo.  O nosso principal objetivo deve ser desenvolver a solidariedade internacional entre os nossos camaradas e a classe trabalhadora; e continuar a luta anti-guerra.

*Anarquista turco.

9/3/2022

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Sobre a guerra com a Ucrânia

Vladimir Platonenko

Estou a escrever este texto quando estou a perder os meus antigos contactos pela Internet e em que novas ligações estão a ser criadas, por isso desconheço quantas pessoas irão lê-lo. Contudo, quero expressar a minha opinião sobre esta nova fase da guerra russo-ucraniana que começou em fevereiro e sobre aquilo que os habitantes dos países em guerra devem fazer nas condições que atualmente existem.

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Não acho que “a pior república seja melhor do que qualquer monarquia”. Tudo é determinado pelo movimento de base das massas, e não pelas urnas. Mas, neste caso, o povo ucraniano é muito mais autónomo relativamente aos seus dirigentes e influencia-as muito mais do que o povo russo. Putin considera isso uma fraqueza da Ucrânia, mas, na verdade, essa é a sua força. Esta é a principal razão pela qual o exército de um “Estado de pleno direito” não consegue lidar com o exército e com as unidades de autodefesa da Ucrânia: os escravos lutam mal e as pessoas livres, que não querem ser escravas, saem-se bem. Esta é uma das principais razões pelas quais Zelensky é visto na Ucrânia, até mesmo pelos seus opositires, como um mal menor.

O mal menor tem a característica de, ao vencer, se tornar num mal maior, o que torna irracional apoiar-se o mal menor. No entanto, além das Forças Armadas da Ucrânia, existem destacamentos de defesa territorial na Ucrânia, sendo as autoridades ucranianas obrigadas a apoiá-los. Quisesse ou não, o governo distribuiu armas pela população. E agora há uma terceira força na Ucrânia – o povo armado. Além disso, estão a chegar à Ucrânia destacamentos de voluntários estrangeiros, como já fizeram na Espanha republicana. Por último, outros destacamentos de guerrilha podem também aparecer nos territórios ocupados. Mas não idealizemos: o Ku Klux Klan também foi produto da auto-organização de uma parte da população; contudo, um povo armado e auto-organizado é a única força a partir da qual qualquer coisa de concreto pode emergir. Tudo dependerá da autoconsciência – as unidades de autodefesa são tão “boas” ou “ruins” quanto as pessoas que as integram, como um todo. Ao mesmo tempo, são heterogéneas, como o são as próprias populações. De qualquer forma, hoje são a única força que merece apoio. E se me perguntassem para onde deveria ir um qualquer ucraniano que não quisesse ficar sentado a ver, eu responderia: “Se possível, crie o seu próprio destacamento, senão junte-se a um destacamento de autodefesa. Ou de guerrilha”

O governo ucraniano é forçado agora a apoiar estas forças. No entanto, quando a situação mudar, ele tentará  livrar-se das unidades de Defesa Territorial, dos voluntários e de quaisquer outras unidades auto-organizadas. Recordemos o destino do batalhão “Donbass”, que foi deliberadamente deixado sem apoio e numa posição que, obviamente, o condenava. Os combatentes dos destacamentos autónomos não se devem esquecer disto.

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É mais difícil para os habitantes da Federação Russa. Aqui todas as iniciativas de base são esmagadas e, além dos protestos de rua, que também são cruelmente reprimidos, os russos só podem resistir passivamente à guerra: recusa do recrutamento, deserção, rendição voluntária. Talvez no futuro até tumultos de soldados se tornem possíveis, mas até agora sua probabilidade é duvidosa. Embora eu tenha encontrado informações sobre a recusa em massa de soldados em irem para a guerra com a Ucrânia, não sei o quão verdadeira será essa informação.

Se me perguntarem se vale a pena trocar de trincheira, se houver essa oportunidade, responderei: “Somente para unidades independentes”. Compreendo perfeitamente aqueles que desejam ingressar nas Forças Armadas da Ucrânia, mas, no entanto, considero errado esse desejo.

Greves em massa e recusa em pagar impostos seriam uma boa resistência à guerra, mas não acho que com o atual nível de auto-organização na Federação Russa sejam possíveis. No entanto, no futuro, não excluo movimentos sociais em resultado dos  problemas que a guerra trará e já começou a trazer para os russos. Neste último caso, a par e passo com as reivindicações de carácter social, os manifestantes deveriam exigir o fim imediato da guerra.

É claro que essa reivindicação será apoiada pelos liberais, em quem os trabalhadores russos não devem de forma alguma confiar. Foram os liberais e oligarcas que levaram Putin ao poder e o facto de Putin ter escapado ao seu controlo não significa que se tenham tornado diferentes. Eles tentam ainda  culpar pela guerra, e por todos os problemas causados ​​por ela. as pessoas comuns, repetindo a mentira oficial sobre o apoio em massa a Putin por parte do “povo profundo”. Repito, Putin foi levado ao poder pelos oligarcas e liberais, são eles os culpados desta guerra, e não o povo, que está privado de qualquer influência junto do poder e é ele, e não o povo, que deve pagar pela guerra. Portanto, a aliança antiguerra do povo com os liberais, qualquer aliança com os ladrões contra os sanguessugas, só pode ser temporária. Não é bem uma aliança, mas uma trégua enquanto durar a luta contra o inimigo comum, nada mais, e o povo deve perceber isso (os próprios liberais e empresários entendem isso perfeitamente). Que aqueles que começaram esta guerra paguem as reparações e as indemnizações.

Em condições de baixa autoconsciência e de propaganda a longo prazo dos valores burgueses, uma quebra nos padrões de vida pode levar tanto a ações colectivas. De índole social, quanto a tentativas de uns quantos se safarem à custa dos outros (através de roubos, fraudes e desfalques). Devemos estar prontos para que isso aconteça e lutar contra isso. A única alternativa para a guerra de todos contra essas situações reside na guerra entre as classes baixas e as classes altas e na revolução social.

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A Bielorrússia está numa posição intermediária entre a Federação Russa e a Ucrânia. Alguns dos seus cidadãos estão a ir para a Ucrânia para lutarem contra as tropas russas. Ao receberem experiência de combate e organização, podem, mais tarde, continuar a luta armada no território da Bielorrússia. No entanto, tal luta está destinada à derrota se não tiver o apoio da população trabalhadora, se não tiver o apoio daqueles mesmos operários e homens e mulheres do campo que cavam batatas, que foram tratados com tanto desprezo e desdém pelos participantes “progressistas” nos protestos de 2020 (e isso foi uma das principais razões da sua derrota). Por outro lado, uma mudança de poder na Bielorrússia sem levar em conta os interesses dos trabalhadores urbanos e rurais será simplesmente a substituição de sugadores de sangue por ladrões, a substituição de alguns exploradores por outros.

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Para concluir, deixe-me lembrar que a guerra é um dos filhos do capitalismo. Isso não significa que não haja guerras sem capitalismo, significa que não há capitalismo sem guerras. E se, para alguns empresários, esta guerra significa a perda das suas riquezas (ou parte significativa delas), a perda das suas contas bancárias e imóveis, para outros significa novos lucros, novas contas, novos imóveis, novos contratos, numa palavra, um aumento da sua riqueza. Os trabalhadores de qualquer um dos lados beligerantes só perderão, uns mais, outros menos, mas ninguém beneficiará com isso. Os trabalhadores dos diferentes países não têm nada para  dividir entre si, mas são eles que são enviados para a frente de batalha e são ele que pagam as reparações e indemnizações em vez dos empresários e funcionários que ficam sentados na retaguarda.

A única situação em que uma guerra poderá ter um resultado diferente será durante a  revolução social. E, quanto mais a maioria dos trabalhadores de todos os lados assim o entender, maior será a probabilidade de que tal revolução aconteça.

9/3/2022




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com