Março 23, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
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Até agora o grupo de mídia anarquista assembly.org.ua, sedeado na linha da frente em Kharkiv, está a cobrir a guerra na Ucrânia a partir de territórios controlados pelo governo. Hoje vamos dar uma vista de olhos ao que tem estado a acontecer, por estes dias, no lado oposto da frente, por exemplo, numa das maiores cidades do Donbass, controlada pelos separatistas russos de extrema-direita da chamada “República Popular de Donetsk”, desde a primavera de 2014. Um funcionário de uma das empresas da cidade chamado Maxim deu-nos conta disso. A foto com símbolo redecorado do militarismo Putler* é dos camaradas siberianos.

Podes-nos nos contar o que está a acontecer na sua cidade desde meados de fevereiro,  em geral? A guerra posicional continua como nos últimos 8 anos ou há mudanças significativas?

Antes do reconhecimento da “independência” do DPR por Putin, estava tudo bastante calmo na minha cidade. Após o reconhecimento, muitos moradores tinham a esperança de que a Federação Russa trouxesse tropas de “manutenção da paz” para o território das “repúblicas” e que a guerra parasse. Em vez disso, os habitantes de Gorlovka foram mobilizados, por isso uma parte significativa da população masculina de Gorlovka acabou nas fileiras da “Milícia Popular da RPD”. Os serviços públicos mobilizaram pelo menos 50% de todos os homens, e alguns mobilizaram 100%. Em  resultado disso, simplesmente não há ninguém para reparar muitas infraestruturas. Como afirmaram a 13 de março os funcionários da concessionária de água da cidade: “Só restam alguns dias de água na cidade, após os quais estaremos todos na merda”.

Em geral, o clima de medo na cidade é muito mais forte do que em 2014. Mas ainda há bastante comida e outros bens nas prateleiras das lojas.

Quanto às operações militares na área de Gorlovka, não há mudanças na linha de frente e, parece-me, não haverá no futuro próximo. Mas a artilharia começou a ouvir-se com mais intensidade.

Isso afetou-te e ao teu círculo mais próximo de alguma forma? Tanto em termos de bombardeamentos, quanto em termos de mobilização.

O meu pai e eu ficamos quase o tempo todo em casa sem sair para não sermos intimados na rua. Os nossos familiares do sexo feminino, é claro, estão muito preocupados com todo este trucidador de carne.

Quanto aos bombardeamentos, eu e os meus familiares,  moramos no centro , que (comparado com outras áreas da minha cidade) sofreu pouco com as consequências dos bombardeamentos durante a guerra. Mas os arredores da cidade e os seus habitantes sempre sofreram muito mais. Por isso tive alguma sorte, porque minha situação é muito melhor do que a de muitos moradores de Gorlovka.

Nas redes sociais, no último mês, podemos ler muitas vezes que os guardas brancos estão a controlar todos os que andam na rua, e apanham quem podem alcançar para os forçarem a ir, como se fossem carne de canhão, para a frente do exército regular de Putler ( como os militares alemães que entraram pela Ucrânia, na primavera de 1918,  às vezes, usavam os haidamaks **). Não há provas fotográficas nem de vídeo disso. Até que ponto devemos acreditar nesses rumores? Sabes alguma coisa disto?

As intimações são realmente feitas na rua, também já aconteceu que houve pessoas que foram colocadas em carros,  grupos inteiros, e levadas para o escritório de recrutamento militar. Conheço casos em que pessoas com “passe branco”” foram mobilizadas. Embora haja uma oportunidade de evitar de forma legal ser mobilizado: se uma pessoa acaba por ir para o serviço militar, pode exigir um exame médico completo para si própria. Dura vários dias, e se tiver problemas de saúde suficientemente sérios, poderá ficar fora. Um meu vizinho, doente oncológico, conseguiu evitar ser mobilizado. Eu acho que mesmo que não haja problemas de saúde, os exames médicos vai dar uma pausa de alguns dias, que essa pessoa pode aproveitar para se escondes nalgum lugar seguro.

Quanto aos que foram mobilizados, o seu destino é diferente; alguns são enviados para a linha de frente, outros servem na retaguarda. Também conheço casos em que os mobilizados foram enviados para as regiões de Kharkiv e Kherson, para guardar os territórios capturados. Um desses infelizes está agora na região de Kherson, num “pátio de triagem”. Carrega camiões com os cadáveres dos soldados russos mortos, que são depois levados para a Crimeia. Como ele mesmo disse: “Preferia ter passado cinco anos na prisão do que ver todo este horror”.

Entre os mobilizados já há mortos e feridos, e em grande número. Também se sabe que há mobilizados que foram capturados pelos ucranianos. Os mobilizados que se recusam a ir para a linha de frente são ameaçados com responsabilidade criminal e prisão.

Se aqueles que têm oportunidade de se evadirem ainda marcham para o matadouro, isso significa que o espírito de combate das massas ainda é alto, ou estão apenas com medo de serem punidos por evasão?

Quando a mobilização estava a começar, a promessa era de que permaneceriam simplesmente no quartel durante alguns dias, após o que seriam mandadas para casa. É por isso que muita gente foi aos locais de alistamento militar. Além disso, as pessoas tinham medo de eventuais problemas no trabalho, em caso de não se apresentarem à mobilização. Deste modo, não há nenhum alto espírito de luta, e nunca houve. Os patriotas vibrantes da “DPR” que conheço não desejam juntar-se à “Milícia do Povo” nem participar na guerra.

Existe a opinião de que o clima social no Donbass é marcado por reformados paternalistas. Ao mesmo tempo, as condições de vida e de trabalho, lado a lado, nas minas deviam ter dado origem a laços comunitários muito mais fortes do que, por exemplo, no comércio e serviços de Kharkiv. Como está a auto-organização de base? Existe pelo menos a atividade social humanitária que nós temos aqui?

Desde que me lembro, os meus conterrâneos sempre se distinguiram pela passividade e pelo desejo de uma “mão firme”. O auge da luta de classes no Donbass teve a ver com  as greves dos mineiros dos anos 90 e início dos anos 2000, mas assim que a economia ucraniana se estabilizou e os mineiros começaram a receber salários mais ou menos decentes, toda a sua atividade e vontade de lutar pelos seus direitos desapareceu definitivamente.

Eu não poria toda a culpa no clima social gerado pelos reformados paternalistas. A juventude do Donbass é mais culpada ainda (não todos, é claro, mas a sua maioria), porque não está interessada absolutamente nada que diga respeito aos problemas de classe.

Quanto aos jovens que se envolveram com algum tipo de ativismo, a sua militância na maioria dos casos não durou muito – um ano ou dois. Depois disso, “jogando com cautela”, tornaram-se cidadãos comuns. E após a formação do DPR fascista, mesmo esses focos quase imperceptíveis de ativismo acabaram.

Na minha cidade, nos primeiros anos da guerra, havia um grupo de voluntários apolíticos que ajudavam moradores que não conseguiam cuidar de si mesmos. Mas há muito tempo que não ouço nada sobre esses voluntários. Portanto, não há aqui, nem de perto, qualquer auto-organização de base.

E, por fim, diz-nos alguma coisa sobre a tua experiência de participação no movimento anarquista e também o que gostarias de dizer aqueles que lerem esta entrevista  noutras partes do mundo?

A experiência da minha militancia não foi extraordinária. Eu era militante da já desaparecida Confederação Revolucionária dos Anarco-Sindicalistas (RKAS), participei algumas vezes no Primeiro de Maio anarquista em Donetsk. Colei cartazes de propaganda nas paredes das casas e nos postes de luz, coloquei o jornal Anarchy nas caixas de correio, e estive no acampamento da  RKAS na região de Kharkiv, no verão de 2012.

Não tenho muito mais para dizer. Mas desconfio que muitos anarquistas nem sequer têm uma experiência mínima como esta. E é triste, de verdade. Por isso espero estar errado.

E o que posso dizer aos leitores desta entrevista noutras partes do mundo… Nunca desanime, nunca seja cobarde e defenda sempre os seus princípios. Não acho que tenha o direito moral de dar recomendações específicas sobre o que devem fazer os companheiros doutras zonas. Qualquer um, segundo as suas circunstâncias, saberá ver o que deve fazer.

21/3/2022

*Junção dos nomes de Putin e Hitler. A forma como o regime militarista russo é conhecido na Ucrânia e no seio da oposição russa.

** Unidades paramilitares ucranianas históricas constituídas por plebeus (camponeses e artesãos) e nobres empobrecidos.

Em russo originalmente aqui: https://avtonom.org/freenews/v-prifrontovoy-monarhicheskoy-kvazirespublike-intervyu-s-anarhistom-iz-gorlovki

inglês: https://libcom.org/article/life-monarchist-quasi-republic-interview-anarchist-gorlovka

castelhano: http://alasbarricadas.org/noticias/node/47972




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com