Maio 25, 2021
Do Passa Palavra
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Por Aníbal

O debate sobre questões atreladas à ecologia, pouco a pouco, se endossa no âmbito das redes sociais novamente. Na última retomada dessa temática, a maior atenção está voltada à pauta de direitos dos animais, com ênfase à utilização dos mesmos em testes de cosméticos, fármacos e produtos de higiene. O assunto veio à tona após a divulgação de um curta-metragem norte americano [1], lançado mundialmente em abril e que se destinava à discussão de tal temática.

O interesse que persigo nas próximas linhas, todavia, não se emerge à busca de resumir ou resenhar tal produção, tampouco à elaboração de um posicionamento favorável ou desfavorável à utilização de animais em testes. O que tento fazer, aqui, é pensar sobre alguns posicionamentos que — quase inevitavelmente — surgem quando o debate ecológico é proposto.

Os imbróglios atrelados ao debate ecológico iniciam-se num resgate e adaptação pueril da referência mítica ao bom selvagem. Na mesma medida em que as linhas de tal história expressavam um descontentamento em relação à sociedade civil [2], encarregando-lhe de representar o estopim de toda a paupérie que corrompia ao homem bom, harmônico, puro e inocente e lhe guiava rumo à malignidade, as vozes que compõem o refrão aos debates ecológicos apontam a existência de uma natureza que existe em venustidade, imponência, benignidade. Nesse cenário, convivem plantas, animais, e até pedras. Todos em completa elegância, sem qualquer rastro de padecimentos. Todavia, surge a figura do ser humano, imagem diabólica, corrupta e parasitária.

Dos perigos do ecologismo

Essa crença na representação mefistofélica do homem adensa-se ainda mais quando são divulgados dados atrelados a catástrofes ambientais, como o próprio aquecimento global. As estimativas apontam para um colapso por volta de 2050. Segundo alguns pesquisadores que debruçam-se à interpretação das questões ambientais, nos próximos anos, as temperaturas subirão cada vez mais, as chuvas diminuirão em cerca de 10%, e esses processos, unidos, serão responsáveis por uma gradatividade no derretimento do gelo no Ártico. Esse processo, por sua vez, afetaria a Amazônia, que perderia metade de sua área — e, logo, grande parcela de sua variedade animal e vegetal [3].

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Em março de 2019, registrou-se a ocorrência de tiroteios em várias mesquitas na cidade de Christchurch, situada na Nova Zelândia. Nesse dia, estima-se que Brenton Tarrant, o atirador, tenha matado em torno de 51 pessoas — e deixado mais de 40 feridas. Antes da realização do ataque, Tarrant divulgou uma carta com 74 páginas em fóruns virtuais de orientação de extrema-direita. O atirador também enviou o texto à primeira-ministra da Nova Zelândia. O texto fazia menção a autores da extrema-direita e a nomes como Renaud Camus — um romancista francês, membro “National Council of European Resistance”, criador da chamada “Grande Substituição” — teoria que legitima a perseguição a imigrantes — e defensor da supremacia branca. Em um determinado trecho, o atirador põe:

“Eu me considero um ecofascista. Imigração e aquecimento global são dois lados do mesmo problema. O meio ambiente é destruído pela superpopulação, e nós, os europeus, somos os únicos a não contribuir para a superpopulação. Temos que matar os invasores, matar a superpopulação e, assim, salvar o meio ambiente” [4].

Dos perigos do ecologismo

Meses depois, em agosto, decorreu um episódio similar, no Texas. Patrick Crusius abre fogo em um supermercado frequentado, sobretudo, por hispânicos. Crusius matou 22 pessoas nesse dia, e feriu cerca de 26. O atirador, antes do ato, deixou uma carta no mesmo fórum que Tarrant, onde, em certa parte, afirmava:

“O estilo de vida americano está destruindo nosso meio ambiente. Isso cria uma dívida enorme para as gerações futuras. O governo não está fazendo nada porque é prisioneiro dos grandes negócios. As grandes empresas gostam de imigração. Eu gosto das pessoas deste país, mas elas são muito teimosas para mudar seu modo de vida. Portanto, o próximo passo lógico é reduzir o número de pessoas nos EUA que usam nossos recursos. Se nos livrarmos de pessoas suficientes, nosso estilo de vida pode ser mais sustentável”.

Ambos ataques e ambas cartas compartilham de semelhanças, expressas no ódio aos imigrantes — no caso da Nova Zelândia, aos árabes, e, no caso do Texas, aos hispânicos —, numa espécie de reivindicação à mentalidade malthusiana, defensora do extermínio de uma parcela populacional em defesa de uma maior duração de recursos naturais, e, por fim, no resgate da crença na representação gaudéria do homem, como deturpador do meio ambiente, abrindo espaço à necessidade de seu expurgo.

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Dos perigos do ecologismo

Em 2021, mais especificamente no fim de Março, a atriz, cantora, empresária — e, curiosamente, apontada como “filantropa” quando pesquisamos seu nome em sites de busca —, Xuxa Meneghel, em uma live que tratava dos Direitos dos Animais, transmitida pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeira (ALERJ), criticou a utilização de animais em testes de medicamentos, defendendo a utilização da população carcerária para este fim [5]:

“Eu tenho um pensamento que pode parecer desumano. Na minha opinião, acho que existem muitas pessoas que fizeram muitas coisas erradas e estão aí pagando os seus erros para sempre em prisão que poderiam ajudar nesses casos para experimentos […] Aí vai vir o pessoal que é dos direitos humanos e dizer: ‘Não, eles não podem ser usados’. Se são pessoas que já está provado que vão viver 60 anos na cadeia e morrer lá, acho que poderiam usar um pouco da vida deles pelo menos para ajudar algumas pessoas provando remédios, vacinas, provando tudo nessas pessoas para ver se funciona. […] Essa é a minha opinião. Já que vai ter que morrer na cadeia, que pelo menos sirva para ajudar em alguma coisa…” [6].

Não é demandada tanta reflexão para se visualizar a problemática que cerceia as palavras proferidas por Xuxa. Após a repercussão das mesmas, a “filantropa” fez um pedido de desculpas no Twitter. Entretanto, uma grande parcela dos comentários na publicação ou em notícias que se referiam à mesma portavam-se de maneira favorável à utilização da população carcerária para testes de medicamentos e demais produtos.

Dos perigos do ecologismo

Concomitantemente, com o retorno do debate sobre o uso de animais em testes, suscitado pelo curta-metragem supracitado, muitas pessoas se comoveram com a conjunção à qual os mesmos são expostos, propondo “alternativas” que resolvessem tal problemática. Grande parte das mesmas adentrava-se à mesma opinião de Xuxa Meneghel, pleiteando que os testes fossem feitos na população carcerária.

Essa ideia tem semelhanças fortes com aquelas propagadas pelos atiradores da Nova Zelândia e do Texas. Para além de uma “defesa” ao meio ambiente, há uma certa atribuição da pena aos que são considerados verdadeiros culpados pela degradação do mundo: os humanos, mas, sobretudo, aqueles que sejam de grupos socialmente marginalizados. No caso dos atiradores, seriam os imigrantes. No caso de Xuxa — e todos aqueles que se apegam à defesa de testes de produtos na população carcerária — jovens negros, com um recorte etário de 18 a 24 anos, detidos, em sua maioria, por delitos contra o patrimônio, semialfabetizados, e que, antes da detenção, eram desempregados ou subempregados [7].

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Ao mesmo tempo, uma outra nuance desse pensamento é revelada com a própria pandemia da COVID-19. Ainda no início da mesma, em 2020, uma digital influencer holandesa, Doutzen Kroes, em suas redes sociais, publicou “Obrigado, Coronavírus, por nos fazer mais humanos e dar um respiro para a Terra”. Ao mesmo tempo, no Brasil, outra influenciadora, Gabriela Pugliese, publicou: “A epidemia está sendo algo invisível que chegou e colocou tudo no lugar. De repente os combustíveis baixaram, a poluição baixou…”.

Dos perigos do ecologismo

Em cerca de um ano de pandemia, alcançou-se mais de 150 milhões de casos de COVID-19, com mais de 3 milhões de mortes no mundo. Desses mais de 3 milhões de mortes, 400 mil foram no Brasil — desconsiderando, aqui, o número exorbitante de mortes por “síndrome respiratória”, COVID-19 subnotificada. As mortes por COVID-19 também atingem a um padrão de indivíduos, representados por homens pobres, negros, com cerca de 50 anos, residentes de regiões à margem dos centros urbanos, sem escolaridade e de classes sociais desprivilegiadas. Esse perfil integra, também, a maior parcela das subnotificações, posto que são aqueles que também mais morrem por síndrome respiratória [8]. Entretanto, na contramão de entender a gravidade da situação, parte das vozes que se pronunciam a respeito, levam a pandemia à categoria ecológica, como um “detox” à Terra. Na mesma medida, dentro do contexto de pandemia, circulam, virtualmente, diversas artes e frases que entendem “os humanos como o vírus” e “a pandemia como a cura”.

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Essas ideias propagadas por tantas figuras, em diferentes níveis e de distintas maneiras, que foram aqui descritas, obedecem a uma ideologia chamada de “ecofascismo”.

Nenhum pensador realmente sistematizou as ideias ecofascistas em uma obra que inspirasse outras pessoas a lhe seguir. Tampouco houve, na história do mundo, um regime intitulado como “ecofascista”. O que há é a circulação dessas ideias em diferentes contextos — temporais, espaciais ou circunstanciais.

Os primeiros registros são apontados em 1970, a partir de um renascimento dos ideais neomalthusianos, expressos por Paul Ehrlich, biólogo alemão, na obra “The population bomb”, de 1968 [9]. Nessa obra, Ehrlich defendia que a população mundial cresceria exponencialmente, levando à insegurança alimentar. A “solução” proposta pelo autor girava em torno de uma esterilização em massa nos países que enfrentassem a escassez de alimentos.

Dos perigos do ecologismo

Paralelamente, surgiram os defensores do ecologismo profundo, ou deep ecologists, a partir ideia de Arne Naess, que promovia o “biocentrismo’’, teoria que rechaça os seres humanos de uma “posição centralizadora”, substituindo-lhes por todas as outras formas de vida. O surgimento do biocentrismo se concretiza em contraposição ao antropocentrismo. Enquanto o último defendia uma certa responsabilidade que os indivíduos deveriam ter em relação à natureza, os biocentristas defendiam que os humanos têm deveres a serem cumpridos em relação à mesma. Essas ideias foram fonte de inspiração para ideais de preservação de uma natureza ainda intocada a nível extremo, favorecendo a realocação — e até morte — de indivíduos que possam ter contato com a mesma.

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Alicerçado nisso, tem-se que, muito embora os ideais extremos fundamentados num discurso ecológico tenha surgido no século passado, tais ideias continuam existindo e se reverberando de maneira robusta e sob novas faces. O ódio à população carcerária e a visão da pandemia da COVID-19 como algo benevolente são rearticulações de uma ideia que se inicia na utopia de uma convivência plenamente harmônica com o meio ambiente e se desdobra em ações de alusão totalitarista e hostil.

Notas

[1] Save Ralph – A short film by Taika Waititi. Humane Society International, 2021.
[2] BERNARDO, João; GILLIS, William; TAIBO, Carlos. Ecofascismo: uma coletânea. S.l.: Subta, 2019.
[3] RIVERA, Alicia. A Terra, mudanças profundas em 2050. El País, 21 maio 2014.
[4] LE MONDE. L’écofascisme veut « sauver les abeilles, pas les réfugiés ». Le Monde, 4 out. 2019.
[5] PASSA PALAVRA. Veganismo penal. Passa Palavra, 31 mar. 2021.
[6] F5. Xuxa sugere usar presos para testes de remédios: ‘Que sirvam para alguma coisa’. Folha de S.Paulo, 26 mar. 2021.
[7] MONTEIRO, Felipe Mattos; CARDOSO, Gabriela Ribeiro. A seletividade do sistema prisional brasileiro e o perfil da população carcerária: Um debate oportuno. Civitas, v. 13, n. 1, p. 93-117, abr. 2013.
[8] ESCOBAR, Ana Lúcia; RODRIGUEZ, Tomás Daniel Menéndez; MONTEIRO, Janne Cavalcante. Letalidade e características dos óbitos por COVID-19 em Rondônia: estudo observacional. Epidemiologia e Serviços de Saúde [preprint] , 2020.
[9] MANN, Charles C. The book that incited a worldwide fear of overpopulation: ‘The Population Bomb’ made dire predictions—and triggered a wave of repression around the world. Smithsonian Magazine, jan./fev. 2018.

As artes que ilustram o texto são da autoria de Victor Brauner (1903-1966)




Fonte: Passapalavra.info