Fevereiro 14, 2021
Do Passa Palavra
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Por Jorge Luiz

É possível fazer, com razoável segurança, algumas previsões sobre o carnaval:

  • Alguns governadores vão manter restrições a aglomerações, outros, pressionados por empresários e “cidadãos de bem”, vão voltar atrás e outros ainda não vão nem tentar.
  • Em muitas cidades as restrições não vão existir ou vão ser solenemente ignoradas. Essas cidades vão fazer propaganda ativa para juntar o maior número de pessoas que queiram ali curtir o carnaval.
  • O Presidente Jair Bolsonaro vai fazer sua aparição pública em uma dessas cidades, de forma bastante espetaculosa, chocando alguns e deleitando outros. Não declarará nada, ou dirá que “o povo é livre”.
  • Duas semanas depois, algumas dessas cidades se encontrarão em uma emergência sanitária, com falta de leitos e de insumos médicos — uma situação que será veiculada na imprensa de modo dramático e comovente, causando indignação em uma parcela do público.

A nossa situação é tão previsível que soa repetitivo escrever sobre o carnaval depois de um texto sobre o fim de ano. O que foi dito sobre o Reveillon vale para o Carnaval, para a Festa Junina e — a julgar pela lentidão da vacinação e o tamanho da base parlamentar de Bolsonaro — poderá valer para o próximo Final de Ano.

O que precisamos não é um texto sobre o carnaval, mas uma campanha capaz de juntar a indignação e a revolta dispersos e tornar possível imaginar a derrubada desse governo como algo realizável. As forças políticas organizadas que supostamente poderiam dar direção a uma campanha assim fracassaram até o momento, ou não estão suficientemente interessadas. Marcar manifestações pontuais respondendo a ocorrências midiáticas — um ato no Largo da Batata aqui, depois das manifestações nos Estados Unidos pós-morte de George Floyd, uma carreata acolá, quando a situação em Manaus fica intoleravelmente trágica — isso não é nem será suficiente.

Não culpo a população pelo que está acontecendo. Há uma cadeia de responsabilidade e nela o governo tem precedência. Quem quis culpar a população, foi o vice-presidente Hamilton Mourão: depois do desastre em Manaus, Mourão disse candidamente que o povo brasileiro é indisciplinado. Nas palavras dele:

“Você tem que entender, vamos dizer assim, a característica do nosso povo. O nosso povo não tem, vamos dizer assim, essa imposição de disciplina em cima do brasileiro não funciona muito. Então a gente tem que saber lidar com essas características e buscar informar a população no sentido de que ela se proteja” [1].

Essas palavras têm o tom autoritário de alguém que, infantilizando a população, pode melhor se colocar no papel de patriarca — a liderança necessária àqueles que carecem de disciplina. Brecht dizia que “onde existe opressão, a palavra disciplina deve ser substituída pela palavra ‘obediência’, porque a disciplina também é possível sem o déspota e, consequentemente, tem o significado mais nobre que obediência” [2].

Espero que, em 2021, provemos que Mourão está errado: sejamos desobedientes e disciplinados.

Notas

[1] https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/01/15/governo-faz-alem-do-que-pode-diz-mourao-sobre-colapso-no-sistema-de-saude-em-manaus.ghtml
[2] https://dazibao.cc/textos/cinco-dificuldades-no-escrever-a-verdade/




Fonte: Passapalavra.info