Março 31, 2021
Do Federacao Anarquista Gaucha
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Leituras e hipótese das “crises civil-militares” que envolvem o 31 de março de 2021

Foto: Alass Derivas (Instagram: @alassderivas)

Essa não é mais uma grande “tese” de intelectuais de esquerda e nem pretende explicar e esgotar a análise da conjuntura. Se existe uma certeza nessa quadra histórica que nos toca viver e enfrentar é que a realidade tal como tem se apresentado é movediça, rápida, implacável, o que nos exige constante atualização. Mas algumas recorrências e repetições nos auxiliam na leitura dos acontecimentos e na desafiadora tarefa de não sermos tragados pelo turbilhão (proposital?) dos acontecimentos (especialmente aqueles midiatizados), tiroteio de informações e pancada nos direitos.

O conceito de “guerra híbrida” tem sido muito utilizado para explicar as novas modalidades (não convencionais) de “intervenção” militar (ou não) na política. Um problema é o esgarçamento desse conceito via “domínio do espectro total”, que praticamente inviabiliza qualquer forma de resistir e intervir no rumo dos acontecimentos. Porém, ainda que problematizando o conceito, acreditamos que há algumas variáveis importantes para serem observadas e aproveitadas. Uma delas diz respeito às “OpPsi” (Operações Psicológicas), que parecem estar em franco uso político nos dias que antecipam e sucedem esse 31/03/2021. 

Assim como vem ocorrendo desde pelo menos 2016, em diferentes “momentos chave” da vida política no Brasil, militares (da “reserva” ou da “ativa”, entre aspas para dar ênfase que essa diferença é apenas de perspectiva no que se refere ao impacto público que geram ou que pretendem gerar) assumem o papel ativo de atores políticos na cena, seja via “homenagens a torturadores”, “twitters de advertência” para as Instituições (das quais são parte integrante e se dizem principais pilares e guardiões), palestras ameaçadoras em “lojas maçônicas”, investidas na educação, saudosismos à ditadura civil-militar (1964-1985) das mais variadas matizes e intensidades…

Importante salientar que aqui estamos partindo do entendimento que o evento “golpe de 2016” (nos moldes históricos) foi efetivado naquele ano via processo fraudulento decorrido de um acordo político (parlamentar – jurídico – midiático) que vinha sendo gestado desde pelo menos 2009/2010 por amplos setores de Estado, especialmente e sobretudo, pelas Forças Armadas. Desse “evento” do golpe de 2016, houve uma “transição de modelo” via “projeto ‘Ponte para o Futuro’”, construído publicamente pelo “insuspeito” Michel Temer e seu PMDB. Processo “operado” de perto por militares como Eduardo Villas-Boas e Sérgio Etchegoyen e suas “Operações de Garantia da Lei e da Ordem” (ensaios de “OpPsi”?) que levaram confusão, medo e tensão para a ordem do dia e para o “evento” “Eleição de 2018”, do qual o resultado está aí “para o vivo ver”.  

Não precisa muito para ir montando um cenário, basta olhar para trás (da eleição de 2018 para cá) e observar os movimentos desse governo: trabalho ideológico permanente; troca troca de ministros;  ameaças de “fechamento do regime”, “rupturas autoritárias” (todas “operadas” de tempos em tempos e estrategicamente frente aos acontecimentos); brigas políticas produzidas (“crise ministros da educação”, crise “general Santos Cruz”, “crise reunião ministerial”, “crise Sérgio Moro”, “crise com governadores”, etc, CRISE PERMANENTE, CRISE COMO MODELO DE GOVERNO!). Tudo azeitado por medidas de governo via MP (Medidas Provisórias), penetração (sutil ou escancarada) em todo aparelho de estado, milhares de cargos ocupados por militares “da reserva” e “da ativa”, benefícios e privilégios em escala descomunal e absurda até para padrões de “repúblicas fardadas”, acordos, “centrão”, “crises”, “empresários descontentes”, “milícia verde-amarelo nas ruas”, “crises”, “ameaças de ruptura”, notícias bombásticas na imprensa…Todo dia uma “crise”, uma “ameaça”. Aí está uma receita. Uma receita que vem dando resultado, basta observar o “desengano” e o atordoamento “geral e irrestrito”.

E os militares? Bem, obrigado! Operando, do conforto da picanha regada a leite condensado e uísque 12 anos, o golpe sem tanque e ainda figurando como “defensores da constituição e das instituições democráticas”. E os demais setores das elites forjando essa narrativa e preparando o terreno pra seguir o baile do espólio da vida. Inclusive a mídia. O q não da pra perder de vista é que eles (milicos) SÃO as instituições.

Outro elemento a se considerar também é a contribuição da esquerda eleitoral (ou, para ampliar, um setor dito “progressista”, vá lá). Essa esquerda não age na conjuntura a não ser para defender a institucionalidade, fã ardorosa que é das falsas eleições, notas de repúdio e judicialização da vida. Fica ainda mais fácil entrar nessa confusão e endossar o discurso de que as instituições estão funcionando.

Existem evidências para afirmar que esses movimentos que antecedem e devem suceder o 31/03/2021 são pensados, planejados e executados de modo a colocar a “crise na rua”, desviar o foco da pandemia e dos mais de 300 mil mortos. Ao mesmo tempo, opera um “para-te quieto” nos descontentamentos dos empresários da elite financeira que lançaram recentemente uma carta/manifesto achando que iriam emparedar o governo. Coloca o “centrão” sob tensão (com medo da ruptura e suas consequências) no passo que “limpa a barra” (desviando o foco) da responsabilidade de um militar “da ativa” (Eduardo Pazuello) na “gestão” da (mais uma) “crise da pandemia” (apenas uma coincidência a pandemia continuar sendo alimentada e avançar ferozmente para a pior crise sanitária/humanitária da história do país). A “OpPsi” faz de seus “operadores” excelentes criadores e manejadores de “moinhos de vento”. Na mesma via, competentes operadores da “opinião pública” (publicada!?). Por isso a importância de observar o cenário mais amplo (para além das “obviedades produzidas”) e não só os fatos do imediato que são operados via “OpPsi” e outras ‘ferramentas” de “guerra híbrida”.

Assim como na “gestão da pandemia”, existe nesses acontecimentos de 31/03/2021 um tipo de método de “gestão via crise permanente” em franca operação. Assim que os agentes do “golpe de 2016” vem operando via governo, pela “crise total” e o “domínio das instituições” das quais são parte. A cada dia uma “bomba” (semi-ótica!?). Evidente que há um nível de surpresa nos efeitos que cada uma vai gerar na medida que as peças se movem no “tabuleiro da conjuntura”, mas é preciso um estado permanente de tensão, confusão, guerra informacional e esvaziamento do sentido da palavra.

Para ter uma ideia dos efeitos diretos e indiretos desse “modelo”, desse “método” de tensão permanente, basta observar com certo distanciamento as mensagens que circularam nos últimos dias em manchetes dos “jornalões”, nos portais “de esquerda e de direita”, nos “grupos de whats”, nas análises de “intelectuais renomados”, entre militantes honestos e/ou abnegados… Agora imaginem na população em geral. Existe projeto, existe método. E ele, entre outras coisas, operada via tensão permanente, medo, confusão.

Nesse sentido, é importante alargar um pouco a nossa ideia de golpe, que não pode ficar restrita à imagem de tanques nas ruas e mudança abrupta de regime. Para sabermos agir nesse cenário, cabe explorar um pouco melhor os diferentes elementos que compõem a elite empresarial, política e militar desse país. Observar o andar de cima a partir de nossa chave de interpretação, que vivemos sob um Estado Policial de Ajuste, não como um conceito fechado em si, mas como ferramenta para entender o processo permanente de recrudescimento da violência de Estado em todos os níveis. A conjuntura é movediça e pede atualização de análise o tempo todo, mas entender o processo, como buscamos fazer aqui, é tarefa necessária para não ficarmos à mercê de quem domina e homogeniza o discurso na mídia, evitando que sejamos reféns desse tiroteio de informação e ataques aos nossos direitos.

Nunca é demais afirmar: Ditadura nunca mais! Não esquecemos e nem perdoamos!

Por Malvina, militante faguista




Fonte: Federacaoanarquistagaucha.wordpress.com