Fevereiro 16, 2021
Do El Coyote
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Por Lateef MacLeod, Originalmente publicado em Harbinger: a Journal of Social Ecology

Tradução por Pedro Espindola

Este artigo irá explorar as comunalidades entre a ecologia social e o anticapacitismo em suas respectivas visões para a libertação. Com foco nos componentes compartilhados da crítica anticapitalista, do apoio mútuo ou interdependência, e da sustentabilidade ecológica. Eu ilustrarei como estes dois movimentos podem se alinhar para construir um mundo mais justo, igualitário e ecologicamente equilibrado. Eu defendo que a ecologia social e o anticapacitismo compartilham uma variedade de valores e objetivos que os fazem companheiros naturais na luta por libertação coletiva.

As bases do anticapacitismo emergiram no início dos anos 2000, o movimento foi liderado por pessoas de corii, ativistas com deficiência que observaram que o movimento por direitos para pessoas com deficiência até aquele momento era principalmente liderado por pessoas com deficiência brancas de classe média. A abordagem anticapacitista surgiu da busca destes ativistas pela construção de um movimento que fosse muito mais interseccional em seu escopo, abarcando as questões de raça, classe, sexualidade e ecológica. A posição anticapacitista inclui dez princípios centrais que defendem uma sociedade mais justa e sustentável para pessoas com deficiência: interseccionalidade, liderança das pessoas mais impactadas, uma política anticapitalista, solidariedade entre movimentos sociais, reconhecimento da totalidade, sustentabilidade, comprometimento com a solidariedade entre pessoas com diferentes tipos de deficiência, interdependência, acesso coletivo e libertação coletiva. Estes princípios do anticapacitismo se articulam muito bem com os princípios de não-hierarquia e dominação, apoio mútuo e sustentabilidade ecológica.

Em relação aos aspectos da ecologia social que eu foco neste artigo, ressalto os efeitos do capitalismo de devastação do equilíbrio ecológico do planeta, fazendo referência ao artigo de Brian Tokar publicado pelo Instituto de Estudos Anarquistas (Institute for Anarchist Studies) intitulado “Movimentos pela Ação Climática: Em direção à Utopia ou ao Apocalipse?”. Eu também cito o artigo “O que é Ecologia Social” de Murray Bookchin, em seu livro Ecologia Social e Comunalismo, no qual ele descreve como nossos desafios ecológicos e sociais precisam ser resolvidos conjuntamente para um mundo mais justo e sustentável. Bookchin argumenta que ao invés de nos organizarmos pela competição, como no capitalismo, as sociedades humanas deveriam ser organizadas pelas bases através do princípio do apoio mútuo: o valor humano do apoio e dependência entre cada um dos membros como em uma comunidade.

A Ecologia Social e o anticapacitismo têm sua intersecção em seus valores compartilhados de uma variedade de formas. O princípio do apoio mútuo da ecologia social é muito similar ao princípio anticapacitista da interdependência. Este oitavo princípio reconhece que todos nós dependemos e nos apoiamos uns aos outros para sobreviver. É especialmente assim para pessoas com deficiência, pois a interdependência tem sido uma tática importante que permitiu que muitos de nós nos engajássemos em nossas comunidades. Pessoas com deficiência reconhecem que a verdadeira liberdade não vem através do isolamento, pela tentativa de ser completamente autossuficientes e independentes, mas sim através da livre associação entre pessoas que estão mutuamente lutando pela sobrevivência coletiva. O anticapacitismo também afirma, “nós enxergamos a libertação de todos os sistemas viventes e da terra como um integrante necessário para a libertação das nossas comunidades, pois nós compartilhamos um planeta” (Berne, 2016, p. 18). Emaranhado ao princípio anticapacitista de interdependência está a afirmação de que todos nós fazemos parte dos ecossistemas viventes neste planeta e devemos fazer nossa parte para proteger o equilíbrio. Isto reflete outro princípio fundamental do anticapacitismo que se intersecciona com a ecologia social: sustentabilidade. O anticapacitismo defende que as pessoas, especialmente aquelas com deficiência, precisam viver em sociedades nas quais elas têm liberdade para decidir o ritmo de suas próprias vidas enquanto às conduzem e de não se sentirem pressionadas à performar em um nível capitalista de produção. Indivíduos com deficiência necessitam a possibilidade de descanso no local de trabalho, ou de terem a opção de parar de trabalhar como um todo, para manutenção da saúde pessoal. Enquanto a produção capitalista e o lucro forem colocados à cima de todo o restante, percebemos cada vez mais e mais que a produção constante danifica não apenas nossos ecossistemas, mas também nossos corpos.

É crucial para a ecologia social que ela incorpore a crítica anticapacitista em sua filosofia, e para o anticapacitismo que incorpore as contribuições da ecologia social. Primeiro, ecologistas sociais precisam perceber que com a crise climática antecipada, as comunidades vulnerabilizadas serão as mais afetadas, em especial a comunidade das pessoas com deficiência. Se a devastação climática causar um colapso social, a comunidade de pessoas com deficiência estará entre as mais vulneráveis e necessitadas de apoio mútuo. Para ecologistas sociais se solidarizarem com a nossa comunidade, eles precisam levar em conta os princípios do anticapacitismo para qualquer transição do capitalismo. Ecologistas sociais e outros setores da esquerda também precisam incluir a comunidade de pessoas com deficiência em suas estratégias organizacionais e fazer mudanças para garantir que este objetivo seja alcançado. Em um nível básico, isso requer estar mais atento às necessidades específicas para acessibilidade que as pessoas podem requerer no seu grupo. Isto reflete o nono princípio do anticapacitismo: acesso coletivo. Isso pode significar verificar se os espaços são acessíveis para pessoas em cadeira de rodas, verificar se há um espaço “livre de cheiros” para pessoas alérgicas às fragrâncias, ou a presença de um intérprete de linguagem de sinais para aquelas pessoas que são surdas e com capacidade auditiva reduzida. Poderia ser tão simples quanto esperar para alguém com uma necessidade de comunicação complexa compor algo para falar em seu dispositivo gerador de voziii. Garantir o atendimento das necessidades de acessibilidade das pessoas ajuda nossos grupos a se tornarem mais inclusivos para uma comunidade mais abrangente que inclui pessoas com deficiência.

A Ecologia Social também precisa se responsabilizar pela marginalização capacitista que se difunde na sociedade dominante. O capacitismo é experienciado por pessoas com deficiência porque elas não podem cumprir com as expectativas e estilo de vida do corpo sem deficiência. Mesmo que o capacitismo tenha uma longa história nas sociedades humanas, com a ascensão do capitalismo as sociedades encontraram uma nova razão para marginalizar pessoas com deficiência – as encarando como pessoas menos economicamente produtivas que o resto da população. Como resultado, pessoas com deficiência foram internadas em massa e barradas da vida americana no século dezenove e início do século vinte. Cidades americanas passaram uma série de leis chamadas as “leis feias (ugly laws)” que tornaram ilegal para pessoas com deficiência serem avistadas em público.

A história influenciou nossa cultura de forma que os problemas das pessoas com deficiência são quase sempre invisibilizados e negligenciados, mesmo nas políticas de esquerda. Questões da deficiência estão normalmente construídos como problemas médicos individuais e não são reconhecidos pela sua importância política mais abrangente. Até os anos setenta e oitenta pessoas com deficiências significativasiv eram comumente isoladas em instituições, ausentes da esfera pública e, portanto, excluídas da possibilidade de se organizarem dentro da esquerda. Como resultado, ecologistas sociais têm a oportunidade real de se organizarem lado a lado dos ativistas com deficiência em torno de objetivos comuns. Há um segmento da população de pessoas com deficiência cujos impedimentos foram causados pela destruição do nosso ambiente antes vivo, forjando um ponto de conexão entre a ecologia social e o ativismo anticapacitista. Nós também compartilhamos o objetivo de criar uma sociedade igualitária, ecologicamente sustentável e acessível.

Eu também gostaria de destacar outro efeito do capacitismo difundido na sociedade dominante: pessoas com deficiência, especialmente pessoas com deficiências significativa, são isoladas de suas comunidades devido às diferenças corporais, cognitivas ou psicológicas. Este isolamento, além de seus efeitos psicológicos e emocionais, também torna pessoas com deficiência mais vulneráveis ao abuso de membros da família, cuidadores e o crescente movimento fascista. Como nós sabemos, fascistas historicamente visaram os mais vulneráveis como suas primeiras vítimas de violência e perseguição. Está nas mãos da comunidade de ecologistas sociais e outras comunidades na esquerda ajudar a garantir que eles não sejam vítimas imediatas da atual ascensão do fascismo neste país.

Estas são algumas razões porque a ecologia social e outros movimentos de esquerda precisam incorporar o anticapacitismo em sua práxis organizacional. Nós devemos trabalhar juntos para construir uma sociedade que é sustentável, igualitária e baseada na interdependência. Existem inúmeros ativistas com deficiência que estão dispostos e aguardando para auxiliarem outros movimentos a atingirem estes objetivos.

SOBRE O AUTOR: Lateef McLeod é um escritor e pesquisador; ele está trabalhando em um PhD no programa de Antropologia e Mudança Social no Instituto Califórina para Estudos Integrais (California Institute for Integral Studies). Em seu primeiro livro de poesia, “A Declaration Of A Body Of Love” (tradução livre para o português: Uma Afirmação De Um Corpo de Amor), apresenta crônicas da vida como um homem negro com deficiência e se deparando com temas como família, namoro, religião, espiritualidade, sua herança nacional e sexualidade. Atualmente ele escreve um romance intitulado “The Third Eye Is Crying” (em português: O Terceiro Olho Está Chorando) e também outro livro de poesia chamado “Whispers of Kripi Love, Shouts of Krip Revolution” (Sussurros de amor Krip, Gritos da Revolução Krip).

i Krip é uma gíria derivada da palavra ‘cripple’ que é direcionada às pessoas com deficiência nos EUA com conotação ofensiva e negativa. Trata-se, portanto, de uma ressignificação e afirmação positiva da expressão.

i A expressão original é ‘disability justice’. O emprego de ‘anticapacitismo’ foi uma decisão estilística para a tradução, tendo em vista que não encontrei alguma expressão com correspondência direta, em língua portuguesa. Espero ter cumprido com o objetivo de manter o sentido do texto fiel ao original. Se trata de uma decisão arbitrária e provisória.

ii People of colour, comumente abreviado para PoC, é uma expressão usada nos estados unidos para se referir às pessoas que não sejam brancas, incluindo pessoas negras, indígenas, marrons e amarelas de diversos pertencimentos étnicos.

iii Conhecido no Brasil como dispositivo de comunicação aumentativa ou alternativa, ou dispositivo de CAA.

iv Tradução de ‘significant disabilities’. Leva o sentido de ‘deficiências facilmente identificáveis’ quando comparadas às pessoas com deficiências menos aparentes com marcadores sociais da diferença menos identificáveis pelo olhar do capacitista.

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Fonte: Elcoyote.org