Setembro 2, 2021
Do Passa Palavra
252 visualizações


Por João Bernardo

1.

Há um ano e meio publiquei o breve artigo «A autodisciplina no combate à pandemia». «A cultura brasileira é 1) indisciplinada, 2) festiva e 3) aprecia o contacto físico», escrevi nesse artigo, para perguntar em seguida: «Será que os duzentos e dez milhões de brasileiros conseguirão, da noite para o dia, deixar de frequentar lanchonetes e cervejarias, deixar de organizar festas, de se encostarem uns aos outros e será que conseguirão fazer filas mantendo um metro e meio de distância entre as pessoas?». E respondi: «Duvido».

Em seguida, conhecendo o que estava a ser publicado por organizações de extrema-esquerda em diversos países, previ o que iria suceder no Brasil. «Nos meios libertários e anarquistas, inevitavelmente circularão textos atacando o “autoritarismo clínico” e defendendo o “direito à liberdade” numa situação de pandemia». E acrescentei que «com este tipo de atitudes, que eu encontro em vários textos, provenientes de vários países, esses meios libertários e anarquistas reflectem aquilo que no fundo os caracteriza — o individualismo».

O que eu fui dizer!

De um lado, os amantes das identidades acusaram-me de ser colonialista, eurocêntrico, não conhecer o Brasil, ser ignorante, preconceituoso e reproduzir lugares-comuns. Isto como se eu não tivesse vivido e dado aulas durante trinta anos no Brasil e como se não tivesse sido a cultura da convivialidade um dos motivos que me atraiu e ali me enraizou. Do outro lado, os leitores de pendor social acusaram-me de ignorar a miséria de grande parte da população brasileira, que a impediria de tomar os cuidados necessários para evitar a propagação do vírus. Isto precisamente na ocasião em que estavam a surgir movimentos com o objectivo de mobilizar os trabalhadores e os habitantes das favelas e periferias e organizá-los para os cuidados sanitários elementares, como sucedeu com os funcionários de call centers e como fez Deivison Nkosi e fizeram outros, por exemplo a Central Única das Favelas, CUFA.

Quanto aos anarquistas, são gente de pele muito fina, que não suporta qualquer beliscão, e ficaram escandalizados com as minhas observações, chegando a dizer que falo como um verdadeiro stalinista-leninista. Isto quando eu recebia quase diariamente publicações anarquistas de vários países bramando contra o distanciamento social, o confinamento e outras restrições à mobilidade. Basta um exemplo, que vale por todos. «Comparativamente, a gripe sazonal é muito mais mortífera», afirmou no dia 3 de Março de 2020 o órgão da Federação Anarquista francesa, considerando também «as medidas tomadas para limitar a propagação da covid-19» como «decisões liberticidas».

Houve ainda algumas pessoas que me acusaram repetidamente de defender a suspensão das lutas sociais enquanto durasse a covid-19. E isto quando eu concluíra assim o artigo: «Na situação actual precisamos de um esforço de auto-organização que nos leve, por nós próprios e sem esperarmos as imposições governamentais e as fiscalizações policiais, a respeitar e difundir as normas de segurança indicadas pelos cientistas e pelos profissionais da saúde. Se a autogestão da sociedade é preparada pela autogestão das lutas, agora ela é preparada também pela nossa capacidade de autodisciplina no combate à pandemia. Trata-se de ser solidário com os outros, de evitar que os contaminemos. E a solidariedade parece-me ser a base de qualquer luta anticapitalista». Aos caluniadores, porém, e aos que inventam só para caluniar, cabe um único lugar — o lixo.

2.

Mas deve-se a um motivo muito mais profundo o facto de a indignação daqueles leitores ter sido injustificada. É que há uma verdade óbvia que a esquerda se esforça por não ver ou, quando é obrigada a enfrentá-la, se esforça por não extrair dela as devidas conclusões:

Jair Bolsonaro não foi colocado na presidência da República por nenhum golpe militar feito nas costas da população. Ele foi eleito por 55,13% dos votos expressos, correspondentes a quase 57,8 milhões de brasileiros.

Isto significa que existia uma amplíssima base social disposta a apoiar o governo quando este subestimava o risco da covid-19 e apelava para a continuação de tudo como antes. O comportamento festivo e convivial, que é uma faceta indiscutível da cultura brasileira, predispunha para esta convergência política, ampliando os efeitos do descaso governamental.

De resto, ocorreu uma curiosa simetria entre, por um lado, o presidente Bolsonaro a dizer que não devia haver confinamentos nem distanciamento social porque a economia tinha de funcionar e os pobres precisavam de trabalhar e, por outro lado, os meus críticos a dizerem que as condições em que vive a população pobre a impediam de praticar o confinamento e o distanciamento social. Os resultados práticos foram os mesmos.

Ora, esta convergência, à primeira vista improvável, entre os dois extremos do espectro político tem-se reproduzido noutros planos não só no Brasil, mas no mundo em geral. É que — duas coisas que os brasileiros frequentemente esquecem — o Brasil está no mundo, mas o mundo não se reduz ao Brasil, e desde cedo que na Europa e nos Estados Unidos têm ocorrido manifestações de rua, por vezes mobilizando vários milhares de pessoas oriundas tanto da extrema-esquerda como da direita extrema, em protesto não só contra a imposição governamental de medidas sanitárias, mas até contra a própria noção de que a covid-19 seja uma doença grave ou sequer exista e, portanto, que se tornem necessários cuidados especiais para a debelar. A recente generalização da imposição dos certificados de vacinação na União Europeia tem sido mais um pretexto para esta convergência, servindo agora de tema nas manifestações de rua.

Não importa aqui que a grande maioria da população em todos esses países apoie as medidas sanitárias e restritivas e que as minorias, apesar de estridentes, não deixem por isso de ser minorias, por vezes muito reduzidas. O que me interessa sublinhar é o facto de nestas minorias se encontrarem pessoas oriundas da extrema-esquerda e outras da extrema-direita. É esta confluência que nos deve alertar, porque penso ter abundantemente mostrado que o fascismo não surge em nenhum dos extremos do leque político, mas na convergência ou, talvez melhor, no cruzamento prático e ideológico entre eles.

3.

O cruzamento de um certa extrema-esquerda com alguma extrema-direita na recusa activa e militante das normas sanitárias não se tem limitado à participação conjunta em manifestações de rua e gerou uma esfera ideológica comum, em que se destacam dois grandes temas.

Um desses temas engloba as teorias de conspiração. Para o marxismo os rumos da História são ditados por forças supra-individuais definidas no plano económico, entendido quer nas suas infra-estruturas materiais quer nas relações sociais de produção. Pelo contrário, as teorias de conspiração pretendem detectar os rumos da História em decisões tomadas secretamente por um pequeno número de figuras sombrias. De um lado aceita-se a existência de um mecanismo situado além das vontades individuais, do outro lado acredita-se na vontade incondicionada dos participantes num conluio. Por isso as interpretações marxistas da História têm como sujeitos únicos as classes ou grupos sociais, enquanto as teorias de conspiração admitem a livre vontade de uma elite e supõem a dicotomia entre elite e massa, considerando a massa não como agente da História, mas como matéria inerte e manipulável.

Apresentadas nestes termos, dir-se-ia que as teorias de conspiração nunca poderiam cortar o cordão umbilical que as une à direita. E, no entanto, tem sucedido com certa frequência que também a extrema-esquerda interprete as contradições sociais como manobras de corredor. Qualquer de nós pode verificar isso no dia-a-dia, quando fala com os amigos ou escuta as conversas na mesa ao lado. Mas o problema é grave quando se generaliza em momentos históricos cruciais. Limito-me a um exemplo. Na França de entre as duas guerras mundiais o mito das deux cent familles, as duzentas famílias que conspirariam para dominar a economia e a República, criado pela extrema-direita, serviu igualmente para mobilizar a esquerda do Front Populaire. Sem isto não se entenderia a rápida aquisição de uma tão ampla base proletária por alguns partidos fascistas franceses dessa época, especialmente o Parti Populaire Français, que beneficiou de uma significativa migração de dirigentes e militantes provenientes do Partido Comunista. Afinal, estava a confundir-se a plutocracia (uma noção usada exclusivamente pelos fascistas) com os capitalistas (uma noção usada pelos marxistas) numa comum aversão às elites. Já não se tratava de remodelar o sistema económico, mas apenas de mudar a elite.

O mesmo se reproduz hoje no populismo, que procura mobilizar a população contra as elites, definidas independentemente da classe social em que se inserem. É este ou aquele, um nome na moda e conhecido por todos, que serve para esquecer a teia formada pelas classes sociais e o sistema económico que as sustenta. E para as odiadas elites são remetidos também intelectuais e cientistas quando exprimem opiniões antipáticas, independentemente do facto de não terem fortuna nem poder.

Um fascista de impecável lucidez, Maurice Bardèche, notou em Qu’est-ce que le fascisme?, obra que deve ser lida por quem quiser saber o que é o fascismo, «a impossibilidade de o fascismo se desenvolver fora dos períodos de crise». E depois de observar que o fascismo «não tem um princípio fundamental» e «não tem uma clientela natural», Bardèche proclamou que ele «é uma solução heróica», para afinal concluir: «É o partido da nação em cólera». E, insistiu Bardèche, «essa cólera da nação é indispensável ao fascismo». Desta forma, as classes dissolvem-se na massa, a luta entre classes converte-se no ressentimento, e aquilo que originariamente era o programa da extrema-esquerda, projectando uma reestruturação do sistema económico, fica transformado numa simples renovação das elites. É este o caminho marcado hoje pelas teorias de conspiração.

O outro dos grandes temas em destaque no cruzamento entre a extrema-direita e a extrema-esquerda opostas às medidas sanitárias é o da decadência civilizacional. Desde o início do século XIX, na verdade desde a Revolução Francesa, a extrema-direita introduziu nas reflexões políticas o tema da decadência, quer com implicações estritamente civilizacionais quer com implicações raciais. No final desse século o tema foi adoptado por uma parte da extrema-esquerda, que passou a apresentar o capitalismo não como um regime de exploração da força de trabalho, mas como um factor de decadência. Na sequência de alguns precursores, como Benoît Malon, foram Georges Sorel e os sindicalistas revolucionários seus discípulos, nomeadamente em Itália, quem primeiro começou a considerar sistematicamente o capitalismo como um declínio civilizacional, capaz de arrastar consigo a própria classe operária. Foi esta a via que mais directamente conduziu ao fascismo. «Sorel é para mim o grande mestre», diria muito mais tarde um velho fascista radical português, Rolão Preto, entrevistado por João Medina. «Foi ele que fez talvez tudo». Nesta perspectiva, posso definir o fascismo como uma tentativa de mobilização da classe trabalhadora para impedir que o capitalismo conduza à anunciada decadência.

Ora, naquela época em que, aos olhos de muitos, o darwinismo convidava a conceber a civilização em termos biológicos, a distância era curta entre as noções de decadência civilizacional e de decadência racial. Isto que explica que figuras originariamente marxistas, como Karl Pearson na Grã-Bretanha, Georges Vacher de Lapouge em França ou Ludwig Woltmann na Alemanha, tivessem aderido à eugenia e interpretado a luta de classes como um conflito racial. Do mesmo modo a eugenia progrediu no meio anarquista, e as práticas, que hoje nos parecem inofensivas, do vegetarianismo e do nudismo eram consideradas então como instrumentos de redenção biológica tanto entre os anarquistas como entre os incipientes movimentos fascistas, os Wandervögel na Alemanha, por exemplo.

Enquanto uns concebiam o ataque ao capitalismo como o último recurso para salvar a civilização ou, em termos spenglerianos, a cultura, outros pretendiam ir mais fundo e salvar a própria raça humana. Estes labirintos ideológicos, que se teceram e emaranharam desde os finais do século XIX até ao termo da segunda guerra mundial, ressurgiram recentemente naquelas correntes de esquerda agora em moda nos campi universitários, para quem o capitalismo gera o seu próprio colapso, independentemente de quaisquer lutas da classe trabalhadora, a qual seria arrastada, junto com o capitalismo, na mesma catástrofe civilizacional. O terreno estava já preparado pelos pós-modernistas e pelos seus afilhados identitários com a recusa da noção de progresso.

O fascismo surge quando na direita soa o eco de alguns desejos e anseios, ou de alguns pavores, da esquerda, enquanto na esquerda se reproduzem alguns mitos correntes na direita. É o que está a suceder durante esta pandemia, fundindo-se os apocalípticos de um lado e do outro num ressurgimento, ou melhor, numa reelaboração do fascismo, tanto na rua como nas ideias.

À primeira vista, pode parecer estranho que a pandemia, uma conjuntura tão peculiar e exterior à política, tivesse sido usada neste novo processo de politização. Mas os pressupostos estavam já criados pelo movimento ecológico.

4.

A atitude negacionista perante a covid-19, as medidas sanitárias e as vacinas é do mesmo tipo, com os mesmos discursos e argumentos, que o negacionismo do movimento ecológico perante os avanços da ciência e as experiências laboratoriais.

Mas as raízes do problema descem mais fundo e, para o entendermos, é necessário destacar que não são as relações sociais de trabalho que preocupam o movimento ecológico, interessado unicamente pelo ponto de vista do consumidor. Tudo o que o movimento ecológico procura é promover produtos ou ambientes rurais e urbanos que ele mesmo apresenta como saudáveis, sem se interrogar minimamente sobre as condições de trabalho exigidas. E assim a esquerda, convertida à ecologia, abandonou aquilo que a caracterizara, uma perspectiva de classe assente no processo de produção, e restringiu-se à esfera do consumo, perspectiva tradicional do liberalismo e do reformismo de direita.

Num artigo publicado há já trinta e quatro anos na Revista de Administração de Empresas, Rita Delgado e eu chegámos à conclusão, analisando o caso português entre 1979 e 1984, que «3/4 dos acidentes de trabalho mortais verificados nesta amostragem devem-se a tecnologias primitivas ou à utilização arcaica de tecnologias mais evoluídas», o que nos levou a criticar a ecologia, quando «apela para a utilização de tecnologias antiquadas e para o regresso a um sistema de pequenas empresas de tipo familiar, que teriam como consequência travar o desenvolvimento das forças produtivas». «As comunidades marginais dos ecológicos são uma ilusão e uma demagogia», escrevemos nós naquele artigo. «O que resta, na prática, das propostas dos ecológicos não é a diminuição dos ritmos de trabalho, mas apenas o emprego de tecnologias antiquadas. E devemos então analisar quais as consequências da utilização dessas tecnologias antiquadas no contexto geral do sistema capitalista».

No Brasil os resultados deste prevalecimento da perspectiva do consumo sobre a perspectiva das relações de trabalho são especialmente flagrantes entre os agroecológicos, como demonstra a posição que adoptam perante a agricultura familiar. Recordo que numa entrevista publicada no site do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST, o economista Jean Mar Von Der Weid, coordenador de Políticas Públicas da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia e membro da Articulação Nacional de Agroecologia, depois de considerar que a agroecologia «não é um sistema que opere bem com mão de obra assalariada, pois esta só funciona com tarefas simples», afirmou: «Se você vai pedir uma tarefa extremamente complexa ele [o assalariado] não tem interesse, porque vai ganhar igual por hora de trabalho». Este economista reconheceu, portanto, que a luta dos assalariados rurais contra a exploração é um factor que inviabiliza a agroecologia, por isso concluiu que «há uma simbiose perfeita entre a agroecologia levada a seu limite máximo e a agricultura familiar» e que «no futuro precisa de muito mais agricultura familiar do que você tem hoje».

Com efeito, qualquer economista sabe que o grau de exploração nas empresas familiares, sejam elas oficinas ou empreendimentos agrícolas, é muito elevado porque os membros da família não consideram o seu próprio trabalho como um custo e, por isso, estão dispostos a trabalhar muito mais horas do que um assalariado exterior. Ora, no Brasil, segundo o Censo Agropecuário de 2006, do total de pessoas ocupadas na agricultura familiar, 89,4% tinham laços de parentesco com o cabeça de exploração. Este facto é cinicamente aproveitado pelo MST e por todos os agroecológicos. Um dos aspectos mais flagrantes dessa busca de mais-valia absoluta é o recurso ao trabalho infantil, pois o referido Censo revela que 7,4% da força de trabalho ocupada nos estabelecimentos familiares era composta por crianças e adolescentes, enquanto nos estabelecimentos não familiares essa percentagem se reduzia a 3,6%.

Esta aparente digressão teve como objectivo mostrar, através de exemplos eloquentes, algumas consequências práticas da perspectiva centrada no consumo e alheada das relações sociais de trabalho. Mas o problema é mais vasto e atinge o âmago do movimento ecológico, porque quando recorre a uma noção mítica da natureza para evocar um não menos mítico esgotamento dos recursos naturais e justificar um rebaixamento do nível de vida, esse movimento está a usar o argumento do consumo para deteriorar as relações de trabalho. E a actual pandemia é mais uma oportunidade para os ecológicos nos tentarem convencer de que estamos a consumir demais e que é necessário adoptar formas de vida ascéticas, um apelo tanto mais audível quanto em ambos os extremos do espectro político surgiram alucinados que atribuem a uma sociedade de abundância a culpa pela covid-19.

Não resisto a destacar de novo uma irónica convergência que já mencionei noutro artigo. «A imprudência desse superconsumo teve um papel importante na degradação ambiental», escreveu David Harvey, coqueluche da esquerda marxista, concluindo que «na medida em que o gosto pelo consumo excessivo imprudente e sem sentido é refreado, pode haver alguns benefícios a longo prazo». Ao mesmo tempo, o bispo de Setúbal, situado na franja esquerda do episcopado português, pretendeu que «este vírus veio mostrar que se pode viver decentemente e muito mais feliz com menos — com menos desgaste de recursos, que são para todos e não só para alguns». Não falta quem diga o mesmo.

Quando eu defini o movimento ecológico como um dos componentes do fascismo pós-fascista estava já a anunciar o horizonte em que as teorias de conspiração, o populismo antielitista e a obsessão da decadência e da catástrofe haveriam de se fundir na amálgama ideológica que considera a covid-19 e as vacinas como uma manipulação das elites empresariais e a exigência de medidas sanitárias como uma manipulação das elites políticas.

Tenho mostrado, com abundantes provas, a filiação da ecologia nos regimes fascistas, e nomeadamente a filiação da agroecologia no nacional-socialismo germânico. Mais exactamente, na sua modalidade originária, enquanto agricultura biodinâmica, ela deve-se a Rudolf Steiner, o fundador da antroposofia. Walther Darré, que além de ministro dos Abastecimentos e da Agricultura do Reich era Führer dos Camponeses do Reich e chefiava o Departamento Central de Raça e Colonização dos SS, com a patente de Obergruppenführer, o segundo mais alto escalão dos SS, acolheu no seu Ministério numerosos discípulos de Steiner. Mas, para iludir a rivalidade ou mesmo hostilidade que alguns sectores do nacional-socialismo nutriam pela antroposofia, Darré procedeu a uma mudança vocabular e a agricultura biodinâmica passou a denominar-se agricultura orgânica, ficando convertida numa doutrina oficial do Terceiro Reich. Depois de 1945 a ecologia foi remetida ao mesmo esquecimento que atingiu o resto da ideologia fascista, mas com a derrota das esperanças geradas pelos movimentos autonomistas da década de 1960, especialmente com a dissolução do mítico Maio de 68, a esquerda em desespero ressuscitou a ecologia, e com ela a agroecologia.

Convém nunca esquecer esta filiação, porque ajuda a entender o negacionismo sanitário que caracteriza a mais recente reencarnação do fascismo pós-fascista. O mesmo mito da natureza entendida como um organismo e da necessidade de fusão do ser humano nesse organismo, que fundamenta as doutrinas ecológicas, permeia também os delírios daquela gente que atribui a covid-19 a um desequilíbrio da natureza provocado pelos humanos. De igual modo, a atitude do movimento ecológico perante a ciência e os laboratórios é idêntica à atitude do movimento antivacinas. As críticas que uns fazem ao que denominam agrotóxicos são as mesmas que os outros fazem às vacinas, a desconfiança que uns têm relativamente à Pfizer ou à Johnson não difere da que outros sentem perante a Monsanto ou a Syngenta.

Aliás, não resisto a abrir aqui um parêntese para observar que a Syngenta foi adquirida em 2016-2017 por uma empresa estatal chinesa, a ChemChina, o que não impede o MST, apesar do seu proselitismo agroecológico e da sua hostilidade ao que denomina agrotóxicos, de ter assumido as funções de porta-voz das maravilhas do regime chinês. Ou será que foi o MST S.A. a descobrir qualquer benefício nessa função?

O certo é que a desconfiança do movimento ecológico perante a ciência e as descobertas laboratoriais abriu o caminho para o recrudescimento da actividade do movimento antivacinas. E assim o irracionalismo que há um século se gerou no âmbito do fascismo clássico ressurge agora, propiciando do mesmo modo a confluência de temas originados na extrema-direita e na extrema-esquerda.

Este artigo está ilustrado com imagens daqueles horrores com que os videogames ocupam os ócios de muita gente.




Fonte: Passapalavra.info