Junho 8, 2022
Do Passa Palavra
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Por João Bernardo

Sobram-me dedos numa mão se enumerar o que escrevi ou expus oralmente sobre metodologia da história. Prefiro praticá-la. Abri uma excepção quando proferi uma conferência no II Simpósio Internacional de História da Universidade Federal de Goiás, em Outubro de 2005, depois publicada como artigo («Propostas para uma Metodologia da História», História Revista, vol. 11, nº 2, Julho-Dezembro de 2006). Retomei essa abordagem, num sentido convergente, embora com algumas diferenças de concepção, num artigo que publiquei aqui no mês passado, na verdade um breve manifesto, intitulado Para uma historiografia do Não, onde defendi que a complexidade dos contextos históricos, sustentando diferentes perspectivas temporais e conjugando um elevadíssimo número de factores, impede qualquer causalidade linear.

Apresentei o Para uma historiografia do Não como um programa, mas podia também tê-lo apresentado como um balanço da minha actividade. É o que faço agora, e aproveito para esclarecer algumas questões colocadas nos comentários.

O tempo e os tempos

Antes de mais, a complexidade dos contextos históricos resulta de uma dualidade de perspectivas temporais, pois se cada presente conjuga memórias do passado e antecipações do futuro, pode conceber-se também que não exista um tempo presente, mas só um dinamismo de processos de desenvolvimento ligando directamente passados e futuros.

A perspectiva de que a história lide apenas com uma sucessão de tempos presentes tem a sua génese em Agostinho de Hippo, mais conhecido como Santo Agostinho. «Ainda que coisas passadas sejam narradas como verdadeiras, elas são extraídas da memória — não as próprias coisas, que já se foram, mas as palavras, que as imagens dessas coisas geraram na mente, tal como pegadas, na sua passagem através dos sentidos», escreveu Agostinho de Hippo. «Quando […] se diz que são vistas coisas futuras, não são as próprias coisas — que são futuras e, portanto, ainda não existem — mas as suas causas talvez, ou os seus sinais, que já existem. Assim, para aqueles que já os contemplam eles não são futuro, mas presente, e é a partir deles que coisas futuras são concebidas na mente e pressagiadas». E Agostinho de Hippo resumiu: «[…] não existem coisas futuras nem passadas. Nem é correcto dizer que “há três tempos, passado, presente e futuro”. Talvez seja preferível dizer que “há três tempos: um presente de coisas passadas, um presente de coisas presentes e um presente de coisas futuras”. Porque, com efeito, estes três tempos existem na mente, senão eu não os veria. O presente de coisas passadas é a memória; o presente de coisas presentes é a visão; o presente de coisas futuras é a expectativa» (traduzi estas citações a partir de St Augustine, Confessions, Londres: The Folio Society, 1993, versão baseada na tradução de J. G. Pilkington).

Porém, se deslocarmos a visão poderemos observar que existem passados a tal ponto duráveis que se confundem com o nosso futuro, enquanto alguns futuros são meramente episódicos e de uma brevidade tal que, mal acabaram de surgir, ficam projectados no passado. Os factores da história obedecem a ritmos diferentes e sustentam, por isso, tempos diferentes. Não existe nenhum relógio absoluto a marcar o tempo da história. Pelo contrário, a história, em cada momento, conjuga tempos diferentes. Nesta perspectiva deveríamos anular a noção de presente e conceber apenas múltiplos passados e múltiplos futuros, cada um com ritmos específicos e, por isso, articulados com desfasamentos que não permitiriam qualquer corte horizontal possível de definir como um só tempo presente. O presente seria ilusório.

Não creio que possamos optar exclusivamente por uma ou outra destas duas perspectivas temporais. A actividade do historiador deve sempre ter em conta a complementaridade dessas perspectivas, tal como fiz no Poder e Dinheiro. Do Poder Pessoal ao Estado Impessoal no Regime Senhorial, Séculos V-XV (Porto: Afrontamento, 1995, 1997, 2002). Nesta obra alternei a visão sincrónica e a diacrónica, definindo a sincronia como um quadro em que o tempo está presente mas as suas operações são mantidas em suspenso, ou seja, em que se enunciam as contradições e os antagonismos sem abordar directamente os conflitos sociais. Por contraste, a diacronia acompanha o funcionamento contraditório da sociedade, centrando-se no motor dessas contradições, os conflitos sociais, que fornecem um eixo ao tempo. «Quando se tornam patentes as tensões que antes estavam apenas implícitas, passa-se da análise sincrónica à diacrónica, do estudo de uma estrutura ao estudo dos conflitos», escrevi no começo do segundo volume. «Os conflitos são a manifestação sensível das contradições. Materializam o tempo e são, por isso, o fundamento da história».

Naquela obra, depois de analisar na forma de sincronia a Estrutura Económica e Social do Século VI ao Século IX (vol. I), adoptei a diacronia para expor os Conflitos Sociais do Século V ao Século XIV (vol. II). Basta a diferença entre as duas dimensões cronológicas para indicar que a função da diacronia consistiu em projectar no tempo o funcionamento do sistema de contradições anterior ao século IX e abrir assim o novo sistema de contradições iniciado no século XI. Pude então regressar à sincronia para expor Família, Dinheiro e Estado do Século XI ao Século XIV (vol. III, págs. 13-577). Em seguida retomei a complementaridade entre as duas perspectivas, ao esboçar diacronicamente a Crise dos Séculos XIV e XV (vol. III, págs. 579-623). Nesta segunda diacronia, para acentuar o seu carácter de decurso temporal, deixei em suspenso a última frase. «Mas em Abril de 1421 as tropas da maioria radical de Tabor, comandadas por Žižka, começaram a perseguir e a cercar os extremistas, e —». A obra termina a meio da narrativa, para deixar bem claro que é o historiador quem pára, não o processo histórico.

Os Não

A complexidade dos contextos históricos não resulta apenas da complementaridade entre sincronia e diacronia, porque o historiador pesquisa e escreve a posteriori, mas os personagens da história vivem a priori e deparam com um número ilimitado de possibilidades práticas, que por serem possibilidades atingem um nível de realidade. Foi este o tema em que mais insisti no Para uma historiografia do Não, e para isso retomei, como fizera no Simpósio Internacional da Universidade Federal de Goiás, uma perspectiva aberta por Leibniz, para quem toda a possibilidade, enquanto possibilidade, tem um grau de realidade, porque é já uma «pretensão à existência». Então o historiador, que escrevendo a posteriori considera uma linha de acontecimentos única, deve lembrar-se de que para os actores da história se abria a priori um número ilimitado de linhas de acontecimentos possíveis. E o facto de serem possíveis e serem tratadas como possibilidades, dando origem a ideias e instituições, discursos e práticas, fez com que as possibilidades fossem reais, mesmo que, no final, não tivessem conseguido sustentar esta realidade. A compreensão da única possibilidade que teve êxito requer, na perspectiva que defendo, a comparação com as possibilidades que fracassaram. É a este método que chamo uma historiografia do Não.

Em 2005 encerrei as «Propostas para uma Metodologia da História» com uma afirmação taxativa: «A história só poderá ser científica quando conseguir explicar o que não aconteceu e por que não aconteceu». Já o dissera na primeira versão do Labirintos do Fascismo. Na Encruzilhada da Ordem e da Revolta (Porto: Afrontamento, 2003, pág. 425). «Em história, o que sucede é uma ínfima porção de tudo aquilo que poderia ter sucedido. No interior de dadas determinantes há uma infinidade de modos de realização, e por que razão devemos privilegiar os factos acontecidos relativamente aos factos possíveis? A história só alcançará um estatuto científico no dia em que conseguir não apenas desvendar os caminhos que levaram a um certo acontecimento, mas explicar igualmente as condições que fizeram com que todas as outras potencialidades não se efectivassem. Enquanto tal momento não chegar — e não chegará nunca — o que nos impede de incluir na história, junto com os episódios passados, aqueles que só o aparente acaso condenou à inexistência? Não se trata de fantasiar, mas de criar, o que é muito diferente. Na história não cabem invenções. Mas se, partindo de um sistema de determinações perfeitamente confirmado, e sem fugirmos a este quadro estrito, deduzirmos rigorosamente factos, tal como a física moderna procede a experiências num plano meramente conceptual, então por que critério vamos recusar a tais factos o estatuto definitivo que atribuímos aos factos reais?».

Mantive esta formulação na segunda versão do Labirintos do Fascismo (colocada na internet em 2015, pág. 610), exceptuando duas substituições de palavras com efeito mais estilístico do que semântico. E se ignorar a mudança de um termo, inspirada apenas por critérios formais, a terceira versão (colocada na internet em 2018, págs. 609-610) segue o texto da versão anterior; impus-me só uma maior prudência quando, em vez de assegurar que «não chegará nunca» o dia em que a história, além de desvendar os caminhos que levaram a um dado acontecimento, conseguir também explicar as condições que impediram as outras potencialidades de se efectivarem, preferi escrever que esse dia «talvez não chegue nunca». E com outra pequena alteração terminológica, apenas de estilo, esse texto da terceira versão é o mesmo que se encontra agora na quarta versão (São Paulo: Hedra, 2022, vol. III, pág. 156).

Esta metodologia sustenta em boa medida todo o Labirintos do Fascismo, tal como preveni logo no começo da última versão. «Se, com Leibniz, admitirmos que o possível tem uma pretensão à existência e por isso é já uma realidade, teremos de explicar o motivo por que, de cada vez, só uma possibilidade, entre todas, se efectivou como real. Uma história do sim terá de ser completada por uma história do não, e nesta obra preocupei-me tanto em explicar por que certos caminhos chegaram ao objectivo como em explicar por que houve becos a permanecer sem saída» (Hedra, vol. I, pág. 12).

Assim, por exemplo, antecipando-me à revolução dos conselhos na Alemanha, com Laufenberg e Wolffheim em Hamburgo, eu apresentei o nacional-bolchevismo como possibilidade histórica no movimento que preparou a frustrada revolução independentista irlandesa da Páscoa de 1916.

Num âmbito sem dúvida mais significativo, mostrei como fora possível conceber que o Terceiro Reich e o comunismo soviético confluíssem num metacapitalismo assente no escravismo de Estado, uma evolução aparentemente confirmada pela assinatura do pacto germano-soviético em Agosto de 1939. «O “com-fascismo”, cuja existência Volodia Smirnov havia detectado teoricamente, evidenciava-se na prática e a convergência dos dois regimes acelerava o novo modo de produção. Depois de derrotado o movimento operário e vedada a alternativa socialista, iniciara-se uma nova barbárie; e o capitalismo, que não morrera às mãos dos trabalhadores, ia ser metodicamente liquidado pelos gestores. Os obscuros teóricos que haviam antecipado tudo isto estavam à beira de ver confirmados os seus argumentos. Mas não viram», escrevi eu no capítulo do Labirintos do Fascismo dedicado ao nacional-socialismo como metacapitalismo. A invasão da União Soviética pelas tropas do Reich em Junho de 1941 inverteu as alianças, e após a morte de Stalin os dirigentes soviéticos adoptaram um conjunto de reformas que pôs fim à dependência em que a economia se encontrava relativamente ao trabalho escravo. «Num último balanço», concluí, «aqueles teóricos que haviam previsto a convergência do fascismo e do comunismo soviético num mesmo escravismo de Estado, sob a égide de uma classe de gestores, enganaram-se quanto ao futuro e por isso são hoje postos de lado. São relegados sem razão, e embora iludindo-se nas previsões, não erraram na caracterização da época em que viveram. O escravismo de Estado, se deixou de existir, não perdeu a realidade histórica pelo facto de Hitler e Himmler se terem suicidado e os campos de trabalho soviéticos se terem esvaziado. A questão permanece inteiramente por resolver». Copiei estas passagens da quarta versão (Hedra, vol. II, págs. 245-246), mas as alterações são pouco significativas relativamente às três versões anteriores. O fundamental é que o metacapitalismo germano-soviético não foi uma mera hipótese e a sua «pretensão à existência», para empregar a expressão de Leibniz, conheceu uma efectivação que não deve ser esquecida.

Fui ainda mais além, porque no Labirintos do Fascismo a metodologia das possibilidades, tal como a expus em Para uma historiografia do Não, serviu-me para estruturar o capítulo sobre a guerra civil de Espanha em torno da questão de saber por que motivo os republicanos não expandiram a guerrilha em território nacionalista enquanto durou o confronto militar, e só tarde demais a desencadearam, quando as tropas de Franco estavam já vitoriosas em todo o país. Repeti a interrogação em formulações sucessivas, e de cada vez a resposta me pareceu insuficiente, desdobrando-se ali o Não em várias facetas.

A minha preocupação com o Não em história precede o Labirintos do Fascismo. Vinte e oito anos antes da primeira edição daquele livro eu escrevera no Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista (Porto: Afrontamento, 1975, pág. 74, sub. orig.): «A classe operária desenvolve uma forma de luta constante, inseparável da sua existência de assalariada, e que, em si, não só não ultrapassa os limites do capitalismo como se insere neles: é a luta no mercado da força de trabalho por uma elevação do salário. […] Mas uma coisa são os objectivos da luta num dado momento e outra, muito diferente, é o processo prático da luta, ou seja, o facto de elementos operários lutarem materialmente contra os capitalistas. É a partir desse processo de luta prático, material, que a classe operária pode ultrapassar os limites estreitos de uma luta económica que se insere no mercado capitalista e desenvolver a luta contra o próprio capitalismo como sistema de exploração». Esta possibilidade, que sublinhei no texto enquanto possibilidade, serve de base social ao que nesse livro denominei Lei do Institucional, ou seja, a lei oposta à Lei do Valor e que deve reger o Modo de Produção Comunista. Não é pelo facto de a história dessa luta prática consistir em processos sucessivamente derrotados, num longo rasto de Não, que eu deixo de a considerar como o único fundamento de um novo possível, fundamento material e ideológico. Tal como escrevi (págs. 76-77), «é este carácter da luta anticapitalista do proletariado, a qual, no processo do seu desenvolvimento, vai já constituindo embrionariamente a sociedade futura, que permite a produção, durante a vigência do capitalismo, da concepção teórica do modo de produção comunista».

Leio por vezes, em alguns autores, que o Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista exprimiria o processo revolucionário português de 1974-1975, mas não é exacto. O manuscrito que serviu de base ao livro está datado de Julho-Setembro de 1973 e fora já entregue à editora Afrontamento antes do golpe militar de 25 de Abril de 1974. Ora, na época do fascismo uma obra política, para conseguir a aprovação da censura e ser publicada legalmente, tinha de ser escrita numa mescla de linguagem rebuscada e estilo metafórico, um verdadeiro gongorismo. O título, por exemplo, era Nova Institucional, numa vénia à obra de Preobrazhensky, cuja tradução francesa eu lera poucos meses antes, La Nouvelle économique (Paris: Études et Documentation Internationales, 1966). Depois do 25 de Abril, com o fim da censura, limitei-me a reescrever o texto, para lhe retirar as obscuridades antes indispensáveis. O que o livro reflecte não é o processo revolucionário português, mas as discussões internas ocorridas nos Comités Comunistas Revolucionários (marxistas-leninistas), uma organização clandestina a cuja direcção eu pertencia. A evolução da Revolução Cultural e da política externa chinesa levara-me, a mim e a uma meia dúzia de camaradas, a prolongar a crítica ao maoismo numa crítica ao leninismo. A argumentação de Lenin para justificar o modelo bolchevista de partido tinha como ponto fundamental a noção de que os trabalhadores não conseguiriam por si mesmos chegar ao socialismo e que, portanto, as ideias socialistas teriam de ser levadas para o movimento operário a partir do exterior. Mas, debatíamos nós contra a maioria da direcção e dos membros dos Comités Comunistas Revolucionários, onde nascem essas ideias? Se, para o marxismo, as ideias exprimem relações sociais, então o ideário socialista só pode ser gerado por relações sociais não capitalistas. Surgiu-nos assim — como decerto a muitos outros revolucionários em diferentes lugares e épocas —a noção de relações sociais novas, constituídas na luta contra o capitalismo. Foi esse debate, e não o ulterior processo revolucionário português, que esteve na base do Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista. Nesta perspectiva, se as ideias socialistas exprimem relações sociais de luta e se estas relações têm sido sucessivamente derrotadas, então as ideias socialistas são a expressão de um Não — um Não que continua a reafirmar a sua «pretensão à existência».

Os Não e os Sim

Escrevi o Economia dos Conflitos Sociais (1ª ed. São Paulo: Cortez, 1991; 2ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009) como um remake do Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista. Por um lado, libertei-me do espartilho althusseriano e da proliferação de classificações e nomenclaturas que se arriscava a transformar os estudos sociais numa espécie de botânica, mas a abordagem prática e as preocupações centrais mantiveram-se as mesmas. Por outro lado, desenvolvi a dinâmica interna e procurei desenhar melhor a relação entre certas possibilidades com uma «pretensão à existência» e as realizações efectivas que viram a sua pretensão triunfar, ou seja, a relação entre os Não e os Sim. Encontrei na mais-valia relativa o quadro dessa dialéctica.

As lutas dos trabalhadores não se limitam a anunciar o não-ainda de um futuro desejado. Essas lutas são recuperadas pelos capitalistas mediante o aumento da produtividade. Ora, a produtividade é o mecanismo motor do actual sistema económico, a tal ponto que muitas vezes eu ironizava perante os alunos, quando ministrava cursos sobre estas questões, dizendo que se os trabalhadores quisessem pôr fim ao capitalismo nada mais teriam a fazer senão deixar de lutar, porque eliminariam assim o esporão que faz o capitalismo avançar.

Se os trabalhadores conseguem impor salários superiores e uma redução do horário, em contrapartida os capitalistas desencadeiam um duplo processo. Por um lado,  desenvolvem novas técnicas e novas qualificações da força de trabalho que, aumentando o volume da produção por hora, diminuem o tempo de trabalho incorporado em cada bem ou serviço produzido. Simultaneamente, essas novas técnicas e qualificações aumentam a intensidade e a complexidade do trabalho, multiplicando o tempo real de trabalho no interior das mesmas horas marcadas no relógio, ou seja, como que aprofundando o tempo, o que igualmente reduz o valor incorporado em cada bem ou serviço. Por outro lado, estes bens e serviços produzidos com maior produtividade, cada um deles incorporando, portanto, um menor valor, ao serem consumidos pelos trabalhadores representam uma incorporação de menos valor na força de trabalho. É neste duplo processo que se geram os sucessivos ciclos da mais-valia relativa, em que a força de trabalho que, por um lado, produz mais valor incorpora, por outro lado, menos valor.

Nem sequer deve pensar-se que estes ciclos ocorrem só quando os trabalhadores se limitam a reivindicações imediatas, porque, na perspectiva das possibilidades com «pretensão à existência», o fundamental não é o conteúdo da reivindicação, mas a forma prática como os trabalhadores se organizam para prosseguir as reivindicações, e que necessariamente saem do previsto pelo organograma da empresa. Eram estas formas práticas que eu tomava como quadro da Lei do Institucional no Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista e que desde o Economia dos Conflitos Sociais apresento mais amplamente como base de um modelo social alternativo do capitalismo e podendo desenvolver-se num novo modo de produção. A ruptura parece abissal — e de certo modo é — entre a disciplina capitalista imposta à força de trabalho e a solidariedade social desenvolvida na luta. Apesar disso, o capitalismo demonstrou aqui também a capacidade de recuperação e assimilação que sustenta a mais-valia relativa, porque as formas de luta que de um lado fundaram os sindicatos geraram do outro lado o fordismo, tal como, décadas mais tarde, as lutas autónomas e a autogestão serviram de base à ampliação do toyotismo e ainda como, nos nossos dias, a busca de independência pessoal e de iniciativa está a ser recuperada pela teia de uberização que se espalha pela sociedade. Assim, aos ciclos curtos da mais-valia relativa, movidos pelas reivindicações quotidianas, sobrepõem-se ciclos longos, pluri-decenais, em que as grandes remodelações estruturais do capitalismo são estimuladas pelas remodelações estruturais das formas de organização dos trabalhadores em luta.

O quadro é, então, bastante complexo, porque não se trata apenas de uma sucessão de possibilidades frustradas na sua «pretensão à existência», mas de uma série de Não que de algum modo definiram o Sim. Afinal, em todos os ciclos da mais-valia relativa a derrota, para os trabalhadores, importa menos do que a maneira como se é derrotado. Os ciclos não se reproduzem de modo idêntico, num eterno retorno, mas constituem-se numa espiral, e cada patamar da espiral é definido pelas formas de luta que o proporcionaram. Ora, se o Não de uma possibilidade frustrada condiciona o Sim da possibilidade realizada, então devemos admitir que exista no Sim um pouco de Não. É impossível explicar o que sucedeu sem estudar o que não sucedeu.

Convidaram-me a ministrar vários cursos em torno desta problemática e, aliás, foi durante alguns deles, no ping-pong entre a exposição e o debate, que aperfeiçoei o modelo de uma economia dos conflitos sociais. Lembro-me de que na Unicamp, numa das vezes em que abordei o tema, aproveitando o facto de existir em Campinas o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, eu disse que assim como num acelerador de partículas se consegue atingir estados da matéria de duração infinitesimal, mas cujo conhecimento, apesar disso, é indispensável para a ciência, também o facto de os novos sistemas sociais gerados pelas relações de luta serem breves, ou mesmo muito breves, não impede que possam ser indispensáveis para a compreensão do capitalismo. Foi nesta perspectiva que a partir do Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista e do Economia dos Conflitos Sociais elaborei uma constelação de outros trabalhos, tanto livros e artigos como cursos ministrados em universidades e na CUT.

Ora, não creio que esta problemática se restrinja aos ciclos da mais-valia e considero-a como um quadro geral da dinâmica histórica. Se a afirmação de um Sim se opera sempre mediante a eliminação dos Não, então as características que o Sim assume foram ditadas pelas formas como os Não se viram impossibilitados de se efectivar. Uma vez mais, para explicar o Sim é indispensável que o historiador estude os Não.

A imaginação

A dialéctica dos Não e dos Sim é ainda mais subtil, porque certas possibilidades têm uma «pretensão à existência» não no plano material, mas na ficção. Assim, a realidade do possível implica a função da imaginação em história.

Distingo imaginar e inventar. Se, como escrevi no Para uma historiografia do Não, «os limites do possível são determinados», o que significa que «pode definir-se exactamente o impossível, podendo portanto definir-se os contornos do possível», então chamo inventar a supor impossibilidades. O domínio da imaginação é outro. Imaginar é criar possibilidades verosímeis, porque contidas no limite fixado pelas demais possibilidades, mas cuja «pretensão à existência» não é imediatamente prática.

Escrevi na primeira versão do Labirintos do Fascismo (pág. 425): «Parece-me indesmentível que a história social da América Latina e a história do desenvolvimento das empresas enquanto órgãos de soberania ficarão incompletas se não incluírem os acontecimentos que levaram à secessão de Costaguana e à formação da República Ocidental. As determinações históricas que presidiram à criação do Nostromo não são menos imperativas nem menos exactas do que aquelas que condicionaram o mapa do continente, e não vejo por que motivo deveríamos recusar a Joseph Conrad o lugar de criador da realidade que conferimos a Bolívar e a San Martín». Mantive exactamente a mesma formulação nas duas versões posteriores e é ela ainda que se encontra, quase vinte anos depois, na versão publicada agora pela Hedra (vol. III, pág. 157). É desde há muito, portanto, que atribuo à imaginação um papel indispensável na história. Como afirmou George Dangerfield: «A história social, tal como a própria história, combina o gosto, a imaginação, a ciência e a erudição. Ela reconcilia o que é incompatível, equilibra probabilidades, para atingir finalmente a realidade da ficção, que é a forma mais elevada de realidade» (The Strange Death of Liberal England, Nova Iorque: Capricorn, 1961, pág. 393).

Balzac pensava o mesmo quando proclamou em 1842, no Avant-propos a La Comédie humaine, que «a Sociedade francesa ia ser o historiador, eu devia apenas ser o secretário». Secretário apenas? «Fiz melhor do que o historiador, sou mais livre», vangloriou-se ele (La Comédie humaine, Paris: Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, 1976, vol. I, págs. 11 e 15). É porque o ficcionista se sente «mais livre» que a ficção nos transporta à «forma mais elevada de realidade».

No que me diz respeito, levei Balzac à letra, e foi enquanto obra historiográfica que estudei longamente La Comédie humaine em A Sociedade Burguesa de Um e Outro Lado do Espelho (Belo Horizonte: Editora UEMG, 2018). Não se trata de uma análise literária, mas de um livro de história, por isso discuti por vezes a verosimilhança de alguns factos no contexto de outros factos da Comédie e pude não só estabelecer a influência exercida por pessoas reais sobre personagens de romance, o que seria natural, mas ainda a influência que certos personagens teriam sobre pessoas a quem atribuímos uma existência real. Mas o que foi ali a realidade? Todo aquele meu livro é um ensaio sobre a realidade do possível. Imaginar, então, é transformar a «pretensão à existência» numa fictícia existência real. Fictícia? Ou antecipada? «Criando uma realidade tão real como a outra», escrevi eu a encerrar A Sociedade Burguesa de Um e Outro Lado do Espelho, «Balzac antecipou a história, e muito iludidas estavam as pessoas de carne e osso ao se julgarem desbravadoras de caminhos que haviam já sido percorridos pelas figuras de La Comédie humaine».

Afinal, a enorme obra romanesca de Balzac foi um Não que se assumiu como Sim. E a imaginação serve para nos confrontar com os limites, tanto os limites do Sim como os do Não.

As fotografias que ilustram este artigo são de Eduardo Soteras Jalil (1975-       ).




Fonte: Passapalavra.info