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Anseios realistas de liberdade: o manifesto de Ventotene

O Fascismo tinha operado grandes transformações em Itália: na política (“santificando” a violência nas ruas, impondo um Estado policial e agitando grandezas imperiais), mas também na economia e na vida social. Aqui, compactuou com o Vaticano, mobilizou a juventude, e entreteve o povo com o dopo lavoro (modelo da nossa FNAT), o desporto e as novas técnicas do cinema e da rádio.

Perseguiu sem piedade os oposicionistas, fossem eles democratas, republicanos, socialistas, comunistas ou anarquistas, que se exilaram, resistiram na clandestinidade (pouco, até cerca de 1943) ou foram despejados para il confino, nas ilhas do sul da península. Aqui, com as maiores dificuldades, houve sempre quem mantivesse acesa a chama da liberdade e os sonhos de uma sociedade mais justa. Alguns claramente utopistas, outros mais realistas e ainda uns tantos que se situavam a-meio-caminho, como foi o caso do libertário Carlo Rosseli (vide Socialismo Liberali, de 1930).

Mas hoje queremos aqui recordar o “Manifesto de Ventotene”, escrito em 1941 na ilha do mesmo nome por Altiero Spinelle e outros companheiros sob o título de Per un’Europa Libera e Unita: Progetto d’un Manifesto.

Uma Europa Federal e um Federalismo Mundial eram aí apresentados como a solução de futuro que poderia evitar novas hecatombes guerreiras e desastres sociais como aqueles que o mundo estava então a experimentar, apenas vinte anos depois da carnificina da Iª Guerra Mundial.

Segundo a Wikipedia (2.Dez.2020), a sua declaração mais significativa terá sido a seguinte (n/ trad. livre):

“A linha divisória entre partidos progressistas e partidos reaccionários nem sempre coincide com a diferenciação entre mais ou menos democracia, ou mais ou menos socialismo, a serem postos em prática. Em vez disso, a divisão cai ao longo dessa linha, de maneira rápida e substancial, separando os membros partidários em dois grupos. O primeiro é composto por aqueles que concebem o essencial dos seus objectivos de luta à maneira antiga, isto é, pela conquista do poder político nacional – mais aqueles que, ainda que involuntariamente, manipulam as forças reaccionárias, guiando a lava incandescente das paixões populares para novos moldes, e renovando velhas absurdidades, uma e outra vez. O segundo grupo, formam-no os que vêm na criação de um Estado internacional o objectivo principal; impulsionam as forças populares com este propósito e, tendo acedido ao poder nacional, usam-no, antes e acima de tudo, como um instrumento para obter uma unidade internacional.”

Isto não é anarquismo, longe disso; e, ainda menos, algo de parecido com o socialismo-de-estado que fascinou expressivas minorias nas quatro partidas do mundo. Mas, no auge de tragédia (1941, com um nazi-fascismo triunfante), ter a percepção clara de que seria indispensável superar os velhos Estados nacionais em favor de soluções federalistas, a começar por uma Europa libertada das forças-do-mal e prosseguindo para o plano mais amplo das relações internacionais, eis um avanço no campo das ideias políticas que não pode ser menosprezado e não deve ser esquecido.

JF/ Jan.2022




Fonte: Aideiablog.wordpress.com