Abril 26, 2022
Do Passa Palavra
250 visualizações

Por Passa Palavra

Na última quarta-feira (20/04/2022), a justiça britânica autorizou a extradição de Julian Assange. A ordem para extraditá-lo foi enviada à ministra britânica do Interior, Priti Patel, que acredita-se ser favorável a tal ação. O prazo, entretanto, para que ela se manifeste a respeito do caso é de 28 dias.

Caso a extradição realmente se cumpra, o provável é que Assange seja condenado a cerca de 175 anos de prisão nos Estados Unidos, devido às acusações pela divulgação de registros militares e governamentais, além de outros documentos de ordem confidencial.

Em 2021, quando a Suprema Corte manifestou-se no sentido de admitir a apelação do governo dos Estados Unidos em oposição à decisão de rejeição à extradição de Julian Assange, escrevemos que a perseguição promovida contra ele manifestava-se enquanto um cerco ao ativismo [1].

A afirmação acima se comprova no sentido de que a perseguição promovida contra Julian Assange articula-se não apenas a partir da criminalização de suas ações ao longo dos anos, como também por meio da tomada de sua figura enquanto um exemplo a demais militantes que tentem se organizar no espaço digital (ou fora deste). Há, assim, um esforço contínuo pela marginalização e penalização constante de tais figuras.

Esse esforço de criminalização e isolamento de Assange se demonstra enquanto um simultâneo esforço pelo controle da difusão das informações, doravante da percepção pública acerca da realidade. Seu caso, embora atue no sentido de manifestar-se enquanto uma repressão que se esforça pela provocação de medo e recuo a demais ativistas, não é o único no viés de censura no âmbito digital. A vigilância promovida acerca das trocas de informações, a coleta de dados ou bloqueios como aquele promovido contra o Tor na Rússia [2] são apenas alguns exemplos.

Ainda que existam previsões a respeito da posição que pode vir a ser tomada por Patel a respeito da extradição de Julian Assange, pouco se pode prever a respeito do futuro do mesmo. Muito embora — e conforme frisávamos no texto supracitado de 2021 que tratava de sua extradição — não exista a previsão de mantê-lo em condições de incomunicação ou privado de serviços voltados à saúde psicológica (ainda no ano passado seus familiares alegavam que, devido à forte carga de stress promovida pela prisão de segurança máxima onde se encontrava, Assange passou por um episódio de derrame), a partir do momento em que possa ser submetido às mãos do governo norte-americano, as condições designadas a Assange são incertas.

O que é certo, nesse momento, é a necessidade de opor-se à extradição de Assange. Manifestar-se contra tal medida é sinônimo de manifestar-se de maneira contrária ao ataque e repressão à sua imagem e, simultaneamente, ao cerco estabelecido ao longo dos anos contra o ativismo, sobretudo aquele estabelecido no âmbito digital.

São inegáveis as contribuições de Assange no que diz respeito ao ciberativismo e, ao mesmo tempo, ao desenrolo de uma ampla teia de espionagem, atentados e ações militares em todo o mundo, mais especialmente no Afeganistão e no Iraque. Ademais, pode-se considerar que a atuação do WikiLeaks serviu de inspiração para o surgimento de diversos outros grupos ativistas, que utilizam as redes para articular ações do mundo real e virtual.

Nesse sentido, a extradição de Assange não aflinge somente sua família e amigos, mas também a todos os que lutam por justiça social, por uma nova forma de organização da sociedade. É incerto o futuro de Assange, mas é claro que sua perseguição e condenação afetam significativamente a todos os ativistas. Aliás, ele mesmo refletiu acerca dessa transformação da internet, de um espaço civil em espaço militarizado:

Atualmente tenho visto uma militarização do ciberespaço, no sentido de uma ocupação militar. Quando nos comunicamos por internet ou telefonia celular, que agora está imbuída na internet, nossas comunicações são interceptadas por organizações militares de inteligência. É como ter um tanque de guerra dentro do quarto. É como ter um soldado entre você e a sua mulher enquanto vocês estão trocando mensagens de texto. Todos nós vivemos sob uma lei marcial no que diz respeito às nossas comunicações, só não conseguimos enxergar os tanques — mas eles estão lá. Nesse sentido, a internet, que deveria ser um espaço civil, se transformou em um espaço militarizado. Mas ela é um espaço nosso, porque todos nós a utilizamos para nos comunicar uns com os outros, com nossa família, com o núcleo mais íntimo de nossa vida privada. Então, na prática, nossa vida privada entrou em uma zona militarizada. É como ter um soldado embaixo da cama. É uma militarização da vida civil [3].

A condição à qual Assange está submetido representa, antes de mais nada, uma intensificação da perseguição aos militantes. Antes, sob a ótima do uso da internet para o ativismo, agora como forma de “dar exemplo”, “mandar o recado”. Certamente as informações divulgadas por Assange levaram ao estabelecimento de ações que visam coibir novas ações de ciberativistas.

Por isso, a extradição de Assange representa mais um capítulo dessa perseguição aos militantes e ativistas de todo o mundo. Estendemos aqui nossa raiva às injustiças e à perseguição que estão sendo impostas à Assange. Além disso, reafirmamos a importância da solidariedade na luta, seja na rua ou na internet.

Notas

[1] Extradição de Assange: cerco ao ativismo, publicado em Dezembro de 2021.
[2] Respondendo à censura ao Tor na Rússia, publicado em Dezembro de 2021.
[3] ASSANGE, Julian. Cypherpunks – Liberdade e o futuro da internet. São Paulo: Boitempo, 2015, p. 44.




Fonte: Passapalavra.info