Março 11, 2021
Do Anarkio
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Emma morava com os pais em São Petersburgo, Rússia, e se dedicava bastante aos estudos. De família judia, o pai queria que ela largasse os estudos para se casar, mas ela relutou. Em 1881, o czar Alexandre II é assassinado e uma grande turbulência toma conta da cidade de São Petersburgo, e então os Goldman fogem para outra cidade. Nessa época, a repressão atinge duramente os judeus. E nesse clima de opressão, nasce o anarquismo russo, fruto da revolta de estudantes, operários e camponeses contra o despotismo dos czares.

As leituras colocaram Emma em contato com o pensamento niilista e os personagens de Turgueniev, em Pais e Filhos, e de Tchernichevski em Que fazer?, mas ela teve que parar os estudos para começar a trabalhar como costureira, ajudando nas despesas familiares. E quando a irmã Helena decidiu juntar-se a outra irmã nos Estados Unidos, Emma foi junto com ela, em dezembro de 1885. Foi lá que ela começou a envolver-se com o anarquismo. Em Rochester, acompanhou as lutas operárias de reivindicação das oito horas de trabalho, que resultaram no enforcamento de quatro anarquistas em Chicago.

Teve contato também com Joana Grei, J. Most e Voltairine de Cleyre. Ao se mudar para Nova York, é apresentada ao anarquista russo Alexandre Berkman (Sacha), que será seu companheiro de ações e no amor. Emma já vivia o ideal de uma sociedade natural não limitada pelas leis dos homens, defendia um anarquismo sem regras e que para a revolução não havia receituário. Ela fez uma excursão por alguns países com outro anarquista, Johan Most, e quando volta para os EUA assiste a explosão de uma greve nas fábricas de confecções. Tenta convencer as companheiras a participarem na greve e passa a organizar comícios, concertos e bailes.

Ao lado de Berkman, Fedya e as irmãs Mink, que a hospedaram quando ela chegou à Nova Iorque, formou uma comunidade e montou uma cooperativa de costura. Mas a cooperativa se desfez, Emma e Sacha voltam para Nova Iorque e juntam-se ao grupo Die Autonomie. Berkman, Emma e Fedya ainda tentam um novo”empreendimento” – um estúdio de fotografias em Massachusets – que também não dá resultado. Emma passa a trabalhar como garçonete, sendo seus lucros destinados a financiar a volta de Sacha à Rússia. Mas, em maio de 1892, perto de Pittisburg, explode um conflito entre os operários e o magnata do aço Andrew Carneggie, que se recusava a aceitar as reivindicações dos operários e colocou na direção de sua empresa um especialista em repressão, Henry Frick. Sacha e Emma ficam sabendo disso e se organizam para realizar um atentado contra Frick.

Emma chegou a se prostituir para conseguir dinheiro para comprar as armas, porém o atentado não deu certo. Frick sobreviveu, Sacha foi preso e condenado a 22 anos de prisão. Emma não foi formalmente envolvida no processo do atentado, mas passou a ser vigiada. Em 1893, foi acusada de incitar a desordem durante um movimento grevista, sendo presa e condenada a um ano de prisão em Blackwells Island. Libertada, conheceu o revolucionário austríaco Ed Brady, com quem passa a morar, mas Sacha continua sendo o centro de suas preocupações. Emma Goldman foi presa diversas vezes e teve que viver no anonimato, adotando o pseudônimo de Miss E. G. Smith. Depois de solta, ela começa a trabalhar como enfermeira, se aperfeiçoando em Viena, e quando de lá volta, passa a exercera profissão de parteira, entrando em casas miseráveis e vendo de perto a submissão das mulheres na família, de parando-se com a tragédia da gravidez forçada. O feminismo de Emma é bem atual na medida em que rejeita a armadilha de restringir a opressão das mulheres a uma questão de Estado, e ataca seus fundamentos nas práticas da sociedade, na sexualidade – “a principal arma da sociedade contra as mulheres” – na divisão do trabalho e na reprodução familiar.

Emma decidiu-se por não ser mãe,preferia dedicar-se integralmente à luta anarquista, pois observava que os homens poderiam ser pais sem renunciar à revolução e a liberdade,mas a situação para as mulheres era bem diferente. Em 1900, de passagem por Paris, assistiu ao primeiro congresso neomalthusiano e tratou de informar-se sobre métodos contraceptivos.

A partir daí, ela passa a realizar algumas conferências sobre este tema, entre elas, estão “O controle da natalidade” e “O direito da criança a não nascer”. Em 1906, ela realiza um velho sonho, a produção da revista Mother Earth. Um ano depois, Berkman foi solto e passa a assumir a direção da revista. Aconteciam crises sociais em 1907-08 e dela resultaram greves, agitações operárias, organização de trabalhadores em sindicatos, e Emma e Sacha procuravam se envolver em todas estas atividades.

Em uma das conferências que fez, Emma conheceu o médico Ben Reitman, com quem se envolveu amorosamente. Emma era uma defensora do amor livre, mas com Reitman, ela não conseguiu ter um relacionamento aberto, chegando até a segui-lo quando o viu conversando com outra mulher. Viveram juntos por quase 10 anos, até que a relação se desgastou devido a uma série de fatores que envolveram a mãe de Reitman, os ciúmes de Emma e os amigos dela, que não gostavam dele.

Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, em 1917, foi desencadeada uma onda patriótica e militarista no país, e Emma e Berkman participaram então do movimento contra o alistamento militar. Foram presos, julgados e libertados sob fiança, para em seguida – já que havia uma perseguição por parte do FBI contra as pessoas anarquistas e socialistas que lutavam contra o militarismo e a violência do Estado – serem deportadas, na madrugada de 21 de dezembro de 1919, para a Rússia.

Ao chegar à Rússia, depararam-se com a Revolução Russa, mas, pouco a pouco, foram descobrindo as grandezas e misérias da grande revolução. A Tcheca (polícia política), sob ordens do governo bolchevique, assassinava aquelas que não concordavam com as medidas que eram decididas de forma centralizadora por Lênin e as pessoas comandadas, em nome da ditadura do proletariado.

Muitas pessoas anarquistas e socialistas revolucionárias foram presas. Emma e Sacha viajaram por quase toda a Rússia, trabalhando como interpretes para visitantes estrangeiros, organizaram uma caravana para coletar documentos para o Museu da Revolução, e Emma ofereceu-se para prestar também seus serviços como enfermeira. Mas a destruição da cidade de Kronstadt pelo governo bolchevique foio ponto de ruptura de Emma e Sacha, e de todas as pessoas anarquistas que apoiaram a revolução.

Emma chegou a conversar com Lenin sobre as impressões que tinha de como estava sendo conduzida a revolução -repressão aos dissidentes, desigualdades na NEP, autoritarismo, centralização, uma “luta mortal” pela consolidação da ditadura do proletariado, e assim, as solicitações das pessoas anarquistas não foram atendidas. O governo bolchevique decidiu extraditar algumas pessoas presas anarquistas, Emma e Sacha solicitaram passaportes, viajaram para Riga e em seguida para Estocolmo.

Ela chegou a dizer sobre a Revolução Russa: “minha idéia sobre a revolução não é a de um extermínio contínuo das dissidências políticas… a vida de cada indivíduo é importante e não pode ser aviltada e degradada como se fora um autômato. Essa é a minha contradição principal com o Estado comunista”.

Os anos que se seguiram, um interminável exílio, foram marcados pelas dificuldades com as autoridades de vários países, problemas financeiros e isolamento cada vez que tentava transmitir as angústias de sua experiência na Rússia. Em 1935, completou 65 anos, vivendo-os na ilha de SaintTropez, na França, onde escreveu suas memórias, que foram revisadas por Sacha, que pouco depois se suicidou, pois não suportava as dores das duas operações que sofreu. Após a morte de Sacha, Emma seguiu para a Espanha,apoiando a Confederação Nacional do Trabalho (CNT) e a Federação Anarquista Ibérica (FAI), envolveu-se na luta das pessoas anarquistas espanholas, mas fez algumas críticas as pessoas anarquistas na Revolução espanhola, mostrando os efeitos negativos da participação no aparelho de governo (caso de Federica Montseny) e da aliança com os comunistas. De volta a Inglaterra, passa a divulgar a CNT e a FAI por lá. Em 17 de fevereiro de 1940, a incansável e guerreira Emma Goldman sofreu um derrame, falecendo dois meses depois, no mesmo ano.

“O direito a voto, a igualdade civil, podem ser reivindicações justas, mas a emancipação real não começa nem nas urnas nem nos tribunais. Começa na alma de cada mulher.”

“Os 3 fantasmas que acorrentam as pessoas: a religião que nos domina a mente, a propriedade privada que nos faz escravas e o governo que nos oprime”.

(Do material Mulheres Anarquistas nº01, clique aqui para acessar)

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Fonte: Anarkio.net