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Entrevista de Aden Assunção Lamounier ao Instituto de Estudos Libertários


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Fevereiro de 2022

  1. Quem é Aden Assunção Lamounier?

Sou mineiro, nascido em 09 de maio de 1985 no município de Campina Verde, mas criado em São Francisco de Sales-MG. Filho mais novo de Oswaldo Lamounier dos Passos (em memória) e Maria de Fátima Assunção, ambos professores, respectivamente, de Geografia e História, e funcionários públicos. Tenho dois irmãos, o mais velho, Alex Assunção Lamounier, é professor no curso de Arquitetura da Universidade Federal Fluminense (UFF); o do meio, Alan Assunção Lamounier, é contador na rede privada do Rio de Janeiro. Sou tio e padrinho de três lindas crianças: João Pedro, Maria Flor e Francisco. Enteado do grande amigo Reinaldo Felix de Lima e companheiro de Dayane Nunes Faria. Estes e estas, incluindo tio, tias, sobretudo a tia Gislaine, e meus avós maternos Hilda Barbosa Assunção e João Faria de Assunção, são os principais responsáveis por ser quem sou hoje: Anarquista e Professor Doutor em História.

  1. Nos fale um pouco sobre a sua trajetória de vida.

Por sermos uma família que sempre batalhou contra dificuldades financeiras, minha mãe e meu pai desde muito cedo nos incentivaram a buscar na formação educacional uma saída para amenizar as questões impostas por esta condição. Logo, verteram seus esforços para garantir que alcançássemos e concluíssemos o ensino superior. No entanto, na conjuntura de fins da década de 1990 e início dos anos 2000, sabíamos que pagar uma faculdade estava para além das nossas possibilidades. Deixar a pequena cidade em que nos criamos para concluir o ensino médio com uma qualidade que possibilitasse o acesso a universidades públicas se mostrava como única saída.

Então, assim como meus irmãos, saí de casa com 15 anos incompletos, partindo pra Goiânia onde morei durante um ano na casa da Tia Gilka. No final daquele ano, com a morte do meu pai e o agravamento das nossas dificuldades, me mudei para Londrina, para morar com meu irmão Alex. Anos depois o Alan se juntaria a nós. Ali concluí o ensino médio, graduei em História e me tornei mestre em História Social, ambos os cursos superiores concluídos na Universidade Estadual de Londrina (UEL).

No Paraná, comecei a exercer a profissão que escolhi como minha, ainda como professor contratado do Estado. Em 2012, junto aos meus irmãos mudamos para a capital paulista. Naquele momento, havia sido aprovado no concurso do Estado para professor do ensino fundamental e médio. Em São Paulo, fiquei por três anos, onde, além de dar aulas em instituições estatais, atuei em um cursinho gratuito voltado aos jovens da periferia.

O cursinho, o qual ajudei a fundar em 2013, funcionava no prédio da Escola Estadual Sítio Conceição, onde eu estava como professor efetivo de História, localizada na Cidade Tiradentes, extremo leste da cidade. Em conjunto com meu amigo Fábio “Brisa”, buscamos promover, por meio desta iniciativa, desenvolver entre alunos e alunas o interesse pela formação acadêmica. Acreditávamos que com isso abriríamos novas perspectivas solucionadoras do cotidiano opressivo e injusto comum à comunidade. Como as aulas tomavam todo o sábado, a alimentação era garantida pelo apoio vindo de algumas padarias locais, de nossos salários e contribuições enviadas pela minha mãe e irmãos. O cursinho teve duração de um ano, sendo interrompido pelas nossas transferências, quando fui dar aula no bairro do Belém.

Em 2015, buscando fazer doutorado em História, me mudei para Niterói, onde já residia o Alex. O Alan se juntaria a nós anos mais tarde. Entretanto, não consegui a aprovação no Programa de Pós-Graduação em História-UFF, o que resultou na volta para São Francisco de Sales, retornando à casa da minha mãe e dando aulas em uma universidade privada, em Jales, no interior do Estado de São Paulo. Neste ano de 2016, publiquei meu primeiro e ainda único livro, intitulado José Oiticica: Itinerários de um Militante Anarquista. Esta obra é produto da minha dissertação de mestrado. Na “casa da mamãe”, consegui a tranquilidade necessária para ser aprovado no PPGH-UFF, iniciando o curso em 2017.

Durante os anos de pós-graduação, por meio das afinidades ideológicas e de pesquisas, conheci e construí uma relação de amizade, comprometimento, troca de experiências e conhecimentos com Alexandre Samis, Amanda Calábria, Carlos Addor, Eduardo Lamela, Henrique Amaral e Mariana Nepumuceno, resultando, destas relações, em 2018, na reorganização do Grupo de Estudos do Anarquismo (GEA), sediado atualmente no Núcleo de Estudos Contemporâneos da UFF (NEC-UFF). Em torno deste grupo, reuniria ainda os companheiros Alex Brito, Giovanni Stiffoni, Luciano Guimarães, Luiz Sanz, João Henrique e Hamilton Santos.

Desta união, surgiu a publicação do terceiro volume da História do Anarquismo no Brasil, produzido e distribuído pela editora Entremares. Ainda em 2017, iniciei a participação, a convite de Samis, junto a vários outros companheiros, na produção do documentário da história de vida e militância de Domingos Passos, negro, operário da construção civil e importante ativista anarquista.

Das relações construídas a partir destes núcleos, surgiu o convite, enviado por Ângela Roberti, à participação junto ao Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Anarquismo e Cultura Libertária (NEPAN), no qual participo desde fins 2020.

Por fim, em junho de 2021, defendi minha tese de doutorado intitulada “José Oiticica e as tentativas de desenvolvimento e preservação da Ideologia Anarquista: a resistência libertária, da Primeira República ao fim do Estado Novo.” Voltando, então, a residir em São Francisco de Sales e trabalhando na serralheria do Reinaldo, enquanto estudava para concursos.

  1. Quando se deu o encontro com o anarquismo?

Foi durante a faculdade de História! Naquele momento, a convite de dois companheiros de curso, Wagner José da Silva e Odilon Caldeira Neto, comecei a participar, junto a um grupo de punks e membros de uma igreja protestante, da feitura e distribuição de sopas aos moradores de rua de Londrina. E foi ali, conversando sobre as injustiças sociais e funções do Estado, expressando as angústias que paulatinamente foram aumentando na medida em meu mundo ia ficando cada vez maior, ou seja, desde quando saí da minha pequena cidade, que me indicaram algumas leituras anarquistas.

Entre fanzines e obras de formação ideológica que passei a ter contato, lembro que quando li “A Conquista do Pão”, de Piotr Kropotkin, o sentimento de identificação com suas considerações sobre apoio mútuo, cooperação voluntária e as críticas ao sistema capitalista foi instantâneo. A partir de então, passei a pesquisar sobre os movimentos anarquistas e seus filósofos, o que acabou resultando no meu Trabalho de Conclusão de Curso, que teve como tema a organização operária e anarquista de São Paulo durante a Primeira República.

  1. Quando apareceu o interesse pela biografia de José Oiticica?

O interesse pela biografia de José Oiticica surgiu quando estava tentando entrar no Programa de mestrado da Universidade Estadual de Londrina. Inicialmente tinha como projeto de pesquisa a continuidade dos estudos iniciados durante o TCC, mas o professor Paulo Alves, já falecido, e que tem obras relacionadas ao anarquismo, me aconselhou a buscar um tema que ainda não tivesse sido tão estudado, visto que o Programa pedia estudos com ares de novidade. Assim, este mesmo professor me presenteou com alguns rascunhos sobre Oiticica, indicando que poderia elaborar uma proposta voltada a construção da análise biográfica deste personagem. Desde então venho investigando sua militância, sendo esta tema do mestrado e do doutorado, o qual concluí recentemente.

  1. A sua pesquisa sobre Oiticica mudou a sua perspectiva do anarquismo?

Com certeza! Como disse anteriormente, meu contato com as ideias anarquistas veio já durante o período como estudante universitário e, a partir disso, iniciei e aprofundei meus estudos sobre esta corrente de ação e pensamento. Antes disso, prejudicado pela quase nula abordagem do anarquismo nos livros didáticos e também pelos vieses marxistas que ainda se impõem nos meios acadêmicos, tinha uma visão muito superficial do que de fato é o anarquismo, ou seja, suas práticas e ideologias. Sendo assim, ao verter maior fôlego sobre as histórias de seus personagens e ativismos, necessariamente fui tendo outro olhar acerca desta forma de militância e seus objetivos. Inclusive, a pesquisa sobre José Oiticica, muito contribuiu para tanto, visto que este personagem, durante toda sua trajetória anarquista, pautou a necessidade da organização do movimento anarquista em benefício da revolução social libertária.

  1. Como se dava a relação de Oiticica com a questão da organização anarquista?

José Oiticica foi um aficionado pela corrente organizacionista. Como Malatesta, defendeu a necessidade de construir núcleos de ação especificamente reunidos a partir das prédicas anarquistas. Logo, entendendo que o movimento operário era um meio e, portanto, não podendo ser visto como fim revolucionário, devido ao perigo economicista presentes nas bandeiras estritamente laborais, Oiticica, ainda com poucos anos de militância libertária, buscou sistematizar o pensamento anarquista para que melhor servisse à formação das mentalidades revolucionárias denunciando os perigos inseridos na forma de produção capitalista.

Sua primeira tentativa data de 1914, no artigo “O desperdício da energia feminina”, publicado pela Revista A Vida, dois anos após se declarar anarquista. Em 1915, no contexto da Primeira Guerra Mundial, participou da elaboração do Congresso Anarquista Sul-Americano, que pretendia pautar questões sobre a organização de movimentos especificamente anarquistas. Antes da virada da década, em 1918 e 1919, respectivamente, por meio das participações na Aliança Anarquista e no Partido Comunista Brasileiro, este de viés libertário, novamente externaria sua opção pela corrente organizacionista. Neste momento, antes mesmo dos europeus, Oiticica escreve um programa organizacional revolucionário apresentando as motivações que levavam à necessidade da derrubada do capitalismo, assim como estruturava as bases da sociedade anarquista que surgira sobre os escombros do velho sistema.

Posteriormente, as análises expostas neste “Catecismo Anarquista”, serviram ainda como pedra fundamental do livro que Oiticica escreveria, “A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos”, onde novamente externa seu apreço pelas bases organizacionistas, o que se evidenciaria também quando integrou o grupo de afinidade ideológica, ainda em 1920, Os Emancipados. Em todos estes momentos, Oiticica procurou demonstrar a importância das organizações especificamente anarquistas e, consequentemente, da construção de uma confederação aglutinadora destes grupos enquanto forças revolucionárias.

Isso o levou, em 1923, a escrever uma justa e enfática autocrítica nas páginas do jornal A Pátria, sob o título “Meu Diário”, afirmando que os problemas enfrentados pelo movimento anarquista daquela conjuntura muito se deviam pela falta de organização e não priorização da reunião em torno de grupos especificamente libertários. Esta concepção acerca da necessidade da organização anarquista atravessaria toda sua vida militante, se mostrando muito acertada quando o sindicalismo revolucionário desapareceu em meio a correntes cooperativistas, comunistas e nacional-estatistas, contribuindo com descrédito em que foi caindo o anarquismo enquanto mecanismo de transformação.

  1. Sobre o anarquismo hoje, o que você teria a dizer?

Acredito que o anarquismo continua sendo o único modelo de ação e organização social que poderia solucionar o estado de desigualdade, injustiça e exploração a que somos submetidos cotidianamente pelo sistema capitalista e seus governos. Logo, concordo com Edgar Rodrigues quando afirma que “Todos os sistemas políticos falharam. Resta o anarquismo: Estudai-o!” e, adiciono, praticai-o.

Entretanto, penso que ainda carecemos de uma organização eficiente que conectasse os inúmeros grupos libertários que atuam localmente. Mesmo quase cem anos após as críticas de Oiticica serem publicadas no jornal A Pátria, me parece que a falta de agrupamentos federalizados e associados a um órgão voltado à construção de uma frente libertária, reivindicativa e revolucionária acaba resultando na pulverização das ações anarquistas em associações ideologicamente plurais. O que, em certa medida, impossibilita a elaboração e objetivação de um programa especificamente de características ácratas.

Outro problema imposto a estas condições é o risco que corremos de fortalecer pautas que acabam sendo incoerentes com nossas próprias propostas, como tem acontecido nas últimas grandes manifestações populares que tomam as ruas do país, as quais, sem uma organização de base voltada à elaboração e execução de um programa de gestão horizontal e popular, acabam auxiliando apenas as trocas de políticos, servindo, então, à manutenção do mesmo sistema repressor e hierárquico em que estamos inseridos.

Em tempo, acredito que estamos vivendo um grande momento para promoção das ideias anarquistas, visto que o Estado, por meio do aumento da repressão e da paulatina retirada das garantias conquistadas pelos setores oprimidos, externa, sem escrúpulo algum, sua face elitista e capitalista. De tal forma, somente a luta enviesada por um programa que busca a destruição total desta forma de organização política, social e econômica poderia cessar com as variadas formas de exploração a que estamos submetidos. Este programa só poderia ser elaborado por uma corrente que percebesse em toda e qualquer forma de manutenção de poder uma ameaça à liberdade e à igualdade social, ou seja, o anarquismo. Mas, para construir uma força libertária que realmente fizesse frente ao sistema vigente, deveríamos verter mais forças à construção de organizações anarquistas fortes.

  1. Suas considerações finais.

Gostaria de agradecer o convite e a oportunidade de apresentar um pouco da minha trajetória e também a de José Oiticica, este importante personagem da História do anarquismo e das lutas sociais. Defendendo a horizontalidade, a paz, a igualdade e a solidariedade, Oiticica encontrou, pelas bases da corrente anarquista organizacionista, uma forma de lutar contra todas as formas de poder e autoritarismo, sendo elas de “esquerda” ou de “direita”. Logo, e concluindo, acredito que voltar nossos olhares a estes personagens muito nos será válido no combate às medidas repressoras e opressivas implantadas pelo governo Bolsonaro, assim como encontrar saídas alternativas aos “socialismos de gabinetes” defendidos por políticos profissionais.

Para baixar a tese José Oiticica e as tentativas de desenvolvimento e preservação da Ideologia Anarquista: a resistência libertária, da Primeira República ao fim do Estado Novo, clique no link abaixo:




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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