Federação Anarquista 🏴 Notícias anti-capitalistas e informações anti-fascistas
  en / fr / es / pt / de / it / ca / el

As notícias de 85 coletivos anarquistas são postados automaticamente aqui
Feed de notícias atualizado a cada 5 minutos

Entrevista de Eduardo Nunes ao Instituto de Estudos Libertários


196 visualizações

Março de 2022

  1. QUEM É EDUARDO NUNES?

Um ser humano como outro qualquer que se indigna com a injustiça, a pobreza, o autoritarismo, as ditaduras, a devastação ambiental, com esse mundo em crise. É um ser humano que gosta de amigos, da liberdade, da natureza, das artes, de ser colaborativo, solidário com as pessoas. Embora tenha tido uma educação conservadora na família e nas escolas autoritárias por onde passei, acabei, em minha consciência e prática de vida, na medida do possível, me distanciando desses ensinamentos, me tornando uma pessoa com outra visão de mundo e aprendendo a gostar, a partir da literatura, das artes, da música, principalmente depois com as outras artes, me direcionado, em um determinado momento, ao pensamento anarquista. Nasci em 1955, em Salvador, trabalho como Professor numa universidade pública daqui. Na formação acadêmica, fiz bacharelado e mestrado em ciências sociais na UFBA e o doutorado em geografia na Universidade de Barcelona.

  1. EM QUE CIRCUNSTÂNCIA ENTROU EM CONTATO COM O PENSAMENTO ANARQUISTA?

Foi nos anos 1975, tinha 20 anos, através de um amigo que estava na Faculdade de Filosofia e conheceu algumas pessoas que se reuniam para discutir sobre esse tema. Eu ainda não estava em ciências sociais, já tinha concluído o ensino médio (na época se chamava científico) e me interessava sobre artes, literatura, teatro, cinema e a música dos anos 1960, as bandas de rock e o seu estilo de vida, os festivais e as propostas comunitárias de uma vida alternativa. Fazia teatro amador, conheci um grupo de teatro marxista, cheguei a participar de alguns ensaios, mas não me afinei devido à rigidez que essa ideologia emanava. Nesse ano, esse amigo falou desse grupo e marcamos um encontro para ele me passar um texto, num lugar movimentado. Na rua, passamos um pelo outro, conversamos um pouco. Eu levava um jornal comum e ele me passou a revista. Depois de algumas semanas, participei da primeira reunião com 4 a 5 pessoas. No ano seguinte já estava na universidade e passamos a formar grupos nos cursos em que cada integrante fazia, daí surgiram, inicialmente, grupos em filosofia, ciências sociais, comunicação e economia na UFBA.

  1. VOCÊ SE IDENTIFICA COM ALGUMA LINHA HISTÓRICA DO ANARQUISMO?

Me identifico com as teses centrais do pensamento anarquista: a crítica ao estado, à propriedade privada, e a todas organizações que querem subjugar os indivíduos. Penso que cada época tem suas estratégias de luta para se confrontar com essas questões e o anarquismo, ao longo do tempo, foi sabendo se adaptar às novas circunstâncias. Houve períodos em que as organizações anarcossindicalistas eram a principal forma de luta, mas não era apenas a única. Os anarquistas investiam em escolas, nos bairros, na cultura, mais recentemente, sobretudo a partir dos anos 1960, outros elementos e ações libertárias foram surgindo, o anarquismo foi se reinventando, no campo da ecologia, dos movimentos estudantis, da luta pelos direitos civis, dos movimentos antimanicomiais, do abolicionismo penal, de gênero, contra o racismo e também nas organizações de bairro.

  1. NOS FALE UM POUCO SOBRE SUA EXPERIÊNCIA NO INIMIGO DO REI.

Foi uma aprendizagem fundamental na minha vida. Em 1976, comecei a atuar no Movimento estudantil onde criamos um grupo chamado Fantasma da Liberdade, que surgiu na Faculdade de filosofia, mesmo eu sendo das ciências sociais (que era localizado na mesma unidade de ensino faculdade de filosofia e ciências humanas) e os outros integrantes de outros cursos apoiávamos também as ações na filosofia. Nesse mesmo ano, fomos criando os outros grupos, o Fim de Festa em nosso curso, o Ovelha Negra em comunicação e o Estranho no Ninho em economia, pois tínhamos apenas um lá. Esses grupos foram crescendo, distribuíamos panfletos mimeografados, participávamos e debatíamos nas reuniões do movimento estudantil e suas tendências. Em Filosofia, o grupo concorreu ao diretório e ganhou. No ano seguinte, se recusaram a concorrer novamente. Em função disto, criamos a Federação Livre Estudantil (FLE), a fim de termos uma alternativa ao DCE. Realizamos mostra de filmes, como Malatesta e A Primavera de Praga, seminários e, por fim, a ideia de lançar um jornal. Foram semanas e semanas para encontrar um nome, até o companheiro Tony sugerir o Inimigo do Rei. Participei ativamente nos três primeiros números do jornal, escrevendo uma resenha sobre o livro de Luis Alfredo Galvão Marx & Marx, um artigo sobre Autogestão e uma matéria sobre a FLE, também participando das vendas nas ruas, nas universidades e nas bancas de revista. A partir de 1979, eu e outros integrantes do jornal lançamos a revista Barbárie e o coletivo Barbárie passou a fazer ações em bairros e depois em sindicatos até 1984.

  1. COM QUAIS MILITANTES DE GERAÇÕES ANTERIORES VOCÊ TEVE OPORTUNIDADE DE CONVERSAR?

Na época em que estávamos iniciando o movimento estudantil anarquista em 1976, Ideal e Ester estiveram conosco em uma reunião no bairro de Valéria, no sítio de um dos integrantes e na sede do grupo em Salvador. Ideal também viria outras vezes. Nos anos seguintes, estive duas vezes em São Paulo e Rio de Janeiro. Em São Paulo, o contato foi na loja de sapatos de Jaime Cubero que nos recebeu, eu e Tião, muito amavelmente, convidou para irmos ao sítio no fim de semana. Era o período de carnaval quando não se levantavam muitas suspeitas. Ele indicou uma pessoa que iria nos pegar de carro, o Orsa Morel com um outro companheiro, e nos levaram ao sítio. Uma outra vez contou com a participação de mais dois companheiros de Salvador. Dormimos lá e o sítio estava repleto de companheiros históricos, além de Ideal, Ester e Jaime, estava também Edgar Rodrigues, o irmão de Jaime e vários outros históricos militantes do movimento anarquista de São Paulo. A reunião contou com mais de uma dezena de participantes.

Conheci também o Puig, que era do Rio grande do Sul. Foi nos visitar em Salvador durante um congresso da SBPC e também Maurício Tragtenberg. Luis Alfredo Galvão, na época que lançamos o documento Fantasma da Liberdade, mantinha contato conosco e o convidamos para vir fazer uma palestra em Salvador. Ficou hospedado em minha casa e tivemos boas conversas. No Rio de Janeiro, conheci Roberto das Neves em seu apartamento, onde conversamos sobre sua prisão e outras coisas. Nas duas viagens que fiz expressamente para contatos, viajei de ônibus e, tanto em São Paulo quanto no Rio, comprava livros e recebia doações para divulgar em Salvador. Voltava com a mala cheia de livros e panfletos, e um pouco preocupado, caso houvesse barreiras na estrada. Além desses, tive um contato com o Nelson Abrantes que passou a gerir a editora Mundo Livre.

  1. COMO ERA O ANARQUISMO BRASILEIRO QUE POSSIBILITOU A PUBLICAÇÃO DO JORNAL O INIMIGO DO REI?

O movimento aqui em Salvador cresceu muito de 1976 a 1979 e os contatos com os grupos de outros Estados também. Nesse processo, o papel de Ideal e Ester foi fundamental para poder articular um jornal em âmbito nacional, de forma autogestionária, onde os grupos de cada Estado iriam tendo a responsabilidade de editar um número. Rio e São Paulo sempre se destacaram na presença das lutas sociais anarquistas e tinham muitos militantes com experiência. Em Salvador, tínhamos dois jornalistas e um artista gráfico que trabalhavam em jornais importantes da cidade e, com isso, garantiram inicialmente uma qualidade na edição. Quando começa a ocorrer esse processo em âmbito nacional do IR, eu e outros do grupo, em conjunto com outras pessoas próximas, mas que não militavam no IR, propusemos editar a revista Barbárie, que manteve laços com a revista Autogestão, pois conhecia Lucia Bruno, entre outros, como também mantivemos intercâmbio com várias revistas e grupos de outros países.

  1. VOCÊ SE IDENTIFICAVA COM A MILITÂNCIA ESTUDANTIL? QUAL ERA O SEU CAMPO DE ATUAÇÃO?

Comecei as ações libertárias no movimento estudantil, participando de manifestações, correndo da polícia nas passeatas quando a tensão aumentava, através de nossos grupos libertários estudantis. Num primeiro momento, as ações eram na UFBA, depois foram atraindo jovens da Universidade Católica e nos bairros. Porém, chegou um momento em que só o movimento estudantil não era suficiente. Queria ampliar as ações para os movimentos de bairros e passamos a agir no bairro de Valéria, onde morava um companheiro do grupo, vinte anos mais velho do que eu, o Antônio Fernandes Mendes, cearense e exilado em Salvador, em decorrência de sua militância junto aos trabalhadores rurais do Ceará; em seguida, ampliamos para outros bairros. Em Valéria, realizamos muitas atividades, exibimos filmes para os moradores, editamos um boletim com escritos das pessoas do bairro, organizávamos teatro e colaborávamos na implantação de uma horta para a família de Antônio. Ele também atuava junto aos sindicatos de trabalhadores rurais e, em determinado momento, passou a ser o presidente do sindicato dos trabalhadores rurais de Candeias e São Francisco do Conde, na região metropolitana de Salvador. Nessa época, já estava na Barbárie e fazia parte do coletivo que atuava nos bairros e no sindicato. Visitávamos os pequenos sítios e as fazendas onde os trabalhadores rurais viviam, passávamos informações ecológicas e críticas às condições de trabalho e intervínhamos nas relações trabalhistas junto ao sindicato. Isso até 1984, foi um período de muita intensidade. Desse período em diante, participei de várias ações em bairros populares de Salvador, reconstruindo estratégias e ações libertárias. De 1998 a 2003, foi o período em que morei em Barcelona fazendo o doutorado em geografia na Universidade de Barcelona e estive com o pessoal da CNT, inclusive em uma manifestação de primeiro de maio. Depois ajudamos a criar o Instituto Socioambiental de Valéria de 2004 a 2014 e, em seguida, a Maloca.

  1. E O ANARQUISMO HOJE?

O anarquismo continua vivo, atuante. A idade vai passando e aquela ideia de que tudo poderá mudar de uma hora para outra vai serenando. As mudanças são lentas, mas muitas delas são muito profundas no comportamento e nas ações das pessoas. Temos visto essas transformações desde o surgimento do anarquismo no século XIX, quando as condições de vida eram muito degradantes. Claro que ainda há muita degradação humana e do planeta, mas muitas mudanças libertárias ocorreram. As ações se diversificaram e os grupos estão mais conectados. Quanto mais liberdade mais o anarquismo floresce nas ações da sociedade. Há uma conexão forte e importante em grupos que promovem formas produtivas autônomas, autogestionárias, solidárias. Nas artes, na educação, na saúde, na economia, processos libertadores vão surgindo e vão provocando mudanças substantivas na vida social, formando grupos de afinidades e de solidariedade. Assim é o anarquismo hoje.

  1. SOBRE A CONJUNTURA ATUAL, VOCÊ PODERIA NOS DIZER ALGO?

É um movimento duplo, contrassensual ou não-consensual. A dimensão política autoritária esbarra com a dimensão das lutas sociais libertárias em todo mundo, mas não é apenas um processo de confronto. Há o confronto e há as ações consensuais, solidárias, autogestionárias, nas quais podemos dizer que esse mundo novo existe.É possível criar novas coisas e elas estão sendo criadas e vivenciadas. Vejo as ações da CNT, com todas as suas contradições, apresentar opções alternativas às estruturas sindicais tradicionais, no sentido de velhas e autoritárias. Vejo os movimentos de juventude e suas ações de convivialidade, de amorosidade, de economias solidárias como grandes passos para uma vida igualitária, sem preconceitos, baseadas nos princípios anarquistas do apoio mútuo.

  1. SUAS CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Agradeço a possibilidade de poder dar essa entrevista tentando recordar coisas que se passaram há mais de quarenta anos, a convite do IEL e do Samis em especial, a quem admiro pelas suas contribuições teóricas e de militância no movimento anarquista. Tive a oportunidade de assisti-lo, quando ele esteve em Salvador, apresentando o tema da Comuna de Paris, num seminário organizado pelo companheiro João, na UFBA. Estamos vivos ainda e com a energia de sempre para lutar pela liberdade em todas as suas dimensões. Atualmente, continuo dando aulas, mas moro num sítio, em meio a muitas árvores e muitos seres vivos, como sempre desejei viver. Viva a anarquia!




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
Discuta Este Artigo No Fórum


SIGA-NOS
NO TWITTER
SIGA-NOS
NO MASTODON
SIGA-NOS
NO TUMBLR


Activist T-shirts Coop ★ Free Worldwide Shipping


Resistance
In a time of universal deceit telling the truth is a revolutionary act (George Orwell)
No borders no nations
Barcode Prisonner
Antifa baseball club
Hospitalise Your Local Fascist

Esta plataforma é inteiramente financiada pela Sem Deuses Sem Mestres Cooperativa.
As vendas também contribuir para arrecadar fundos para doações a várias organizações anarquistas e instituições de caridade ativistas.



Anarchist news | Noticias anarquistas | Actualité anarchiste | Anarchistische Nachrichten | Notícias Anarquistas | Notizie anarchiche | Notícies anarquistes | Αναρχική Ομοσπονδία

As opiniões são dos colaboradores e não são necessariamente endossadas por Federacaoanarquista.com.br [aviso Legal]