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Entrevista de Júlio Dória ao Instituto de Estudos Libertários


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Março de 2022

1) Quem é Júlio Dória?
Júlio Dória é professor de História e Sociologia, anarquista diretamente inserido na luta antirracista e quilombola, com ênfase nas ações da educação popular, luta pelo direito à terra e moradia a partir dos princípios da auto-organização comunitária e do apoio mútuo.

2) Como se deu a sua aproximação com o anarquismo?
Por ser filho de militante sindical e membro ativo do Partido dos Trabalhadores no início dos anos 80 e 90, cresci em um ambiente anticapitalista com aspirações revolucionárias. Porém, a limitação social e a perspectiva centralizadora das ideias socialistas que ouvia e lia em casa não se encaixavam com a minha perspectiva libertária sobre a necessidade basal de desenvolvimento integral de qualquer sociedade. Nesse sentido, no início dos anos 2002/2003, comecei a me afastar cada vez mais daquele campo ideológico, sem contudo encontrar alguma orientação teórica ou organização política em que me encaixasse. Em um primeiro momento, a aproximação se deu através de leituras de livros de história embasados em uma perspectiva marxista heterodoxa, como Thompson até Polanyi, chegar de fato nos autores anarquistas, propriamente ditos.
Mas foi, sobretudo, a partir das aproximações realizadas pelo meu irmão Renato, e a sua consequente inserção em duas organizações políticas que tinham anarquistas atuando diretamente que me fizeram aproximar fisicamente do campo anarquista.

3) Hoje você se encontra militando com os anarquistas da Eslovênia. Como se deu essa aproximação?
Dentro da tradição internacionalista e de solidariedade entre os povos comum ao movimento anarquista, recebi alguns companheiros e algumas companheiras anarquistas de outros países em minha casa, no Rio de Janeiro. Neste sentido, estabelecemos relações de confiança entre nós, bem como a troca de experiências. No ano de 2019, fui convidado para representar o anarquismo no Brasil junto com um companheiro de São Paulo, o Johnny, em um congresso internacional a ocorrer na cidade de Ljubljana, a capital da Eslovênia.
A conexão entre as práticas e ideias entre os anarquistas da APL – Iniciativa Anarquista de Ljubljana – e a Tendência Política da qual faço parte no Rio de Janeiro foi crucial para o estreitamento dos laços de afinidade entre nós. Ao mesmo tempo, recebi um convite para realizar estudos e pesquisas históricas em nível pós-doutoral na Universidade de Ljubljana, fato este que me possibilitou pensar em regressar à Eslovênia dois anos após o Congresso da Federação Anarquista Internacional.

4) Nos fale um pouco do trabalho político e social dos anarquista eslovenos.
Os trabalhos políticos e sociais são bastante amplos e vão desde o apoio à refugiados oriundos de países africanos e árabes à organização de hortas e fazendas coletivas. O movimento anarcofeminista é muito forte e tem um protagonismo muito forte para além das questões específicas de gênero, atuando principalmente na crítica anticapitalista e contra as remoções no país. Outa frente importante desenvolvida pelos anarquistas eslovenos é o combate ao nacionalismo, a xenofobia e a defesa do fim das fronteiras.
Por fim, existem muitos coletivos culturais, desde o teatro de bonecos, grupos de punk-rock e hip-hop, graffiti, artes marciais e etc., que atuam dentro dos princípios organizacionais anarquistas e difundem a doutrina de maneira geral.

5) Como os anarquistas do Leste estão compreendendo a ocupação da Ucrânia pelos russos?
Existe o entendimento de que a historicidade do conflito desempenha um fator muitíssimo relevante, tendo em vista que o conflito, de maneira geral, remonta até mesmo 2008. Desde então, as ações do Estado ucraniano contra as populações das regiões separatistas têm sido marcadas por forte repressão e violência, com relatos de assassinatos, estupros e mesmo a existência de batalhões nazifascistas. Por outro lado, o governo russo se coloca na condição de garantir as condições sociais daquelas populações, inclusive pagando pensões e aposentadorias para a grande maioria.
Entretanto, a vulnerabilidade da segurança do Estado nacional russo se coloca também como um ponto central nesta guerra, pois, com a iminente possibilidade de adesão Ucraniana à Otan, a Rússia não somente perderia sua influência militar e controle da região, mas ficaria vulnerável às pressões políticas exercidas pelos países membros da Otan, em específico os EUA, a Inglaterra e a França.
Por fim, a questão econômica das reservas minerais e de gás daquela região bem como o controle das rotas marítimas do Mar da Crimeia se encaixam neste espectro de controle e soberania russa sobre aquela parte do leste europeu.
O governo ucraniano tende a se afastar da zona de influência política e econômica russa apostando em uma política igualmente autoritária, nacionalista e que agrega, em suas forças armadas, conhecidos batalhões autointitulados de batalhões nazistas. Os interesses econômicos das potências econômicas que fazem parte da Otan foram parte fundamental na fomentação deste conflito que preferiu tensionar as relações ao invés de pacificá-la.

6) Existe alguma relação orgânica entre libertários eslovenos, ucranianos e russos?
Existe uma relação de solidariedade e apoio mútuo entre os anarquistas e as federações destes territórios, mas não se dá de forma orgânica.

7) Quais as ações dos anarquistas diante desse quadro político na região?
Não existe um consenso de ação entre os anarquistas do leste europeu de maneira geral em relação ao conflito; contudo, estas podem ser identificada em três princípios:

  1. organização de protestos e difusão de panfletos/documentos defendendo a total condenação à guerra, fornecendo alimentos, dinheiro, asilo aos refugiados e apoio para a retirada de pessoas das zonas de conflito;
  2. organização de locais de refúgio dentro das zonas de conflito oferecendo apoio às pessoas que não podem ou não querem deixar a região;
  3. formação de batalhões anarquistas ou antifascistas como estratégia de resistência para se manterem em seus territórios e, ao mesmo tempo, se apresentar como uma alternativa aos batalhões e grupos nazifascistas que têm, sobretudo, alcançado picos de crescimento nestes momentos de conflito contra a Rússia.

8) O perigo da extrema-direita é uma realidade na Eslovênia?
Não, acredito que existem outros países onde este processo está bem mais avançado. Na Eslovênia ainda predomina uma grande aversão ao fascismo e ao nazismo entre a população de uma maneira geral.

9) Sobre a experiência de autogestão na antiga Iugoslávia, o que dizem os anarquistas de hoje?
A despeito das práticas políticas autoritárias do Estado Iugoslavo, as experiências autogestionárias como as Zadrugas – cooperativas rurais – e fábricas gestadas pelos trabalhadores legaram um acúmulo inegável para militantes organizarem seus espaços e ações. Muitos anarquistas relatam estes fatos como situações pontuais positivas para a sociedade, mas que, de forma alguma, superam os problemas advindos do governo centralizador de Belgrado.

10) Suas considerações finais.
Como anarquista entendo que o internacionalismo na luta anticapitalista, antiautoritária e contra o Estado – enquanto promotor e mantenedor tanto das desigualdades sociais como da opressão social – é fundamental para o êxito de nosso método organizacional. Isto porque a dimensão global tanto do capitalismo como do Estado nacional deita seus mecanismos de exploração em forma de redes que se ramificam a partir das conexões entre as bolsas de valores internacionais sediadas em cada país. Submetidos aos interesses do capital financeiro, empresas e Estados desfraldam a bandeira do liberalismo protegido por políticas governamentais autoritárias. Se o problema é internacional, a luta assim também deve ser! Através dessa perspectiva é possível estabelecermos relações com pessoas, grupos e organizações que, para além de compartilharem situações sociais similares, também defendem os mesmos princípios para que possamos alcançar uma sociedade igualitária em oportunidades, direitos e condições econômicas, onde prevaleça a solidariedade entre as pessoas, sem patrões, chefes ou qualquer forma de hierarquia que provoque a desigualdade entre as pessoas e, para isso, é necessário pensarmos no apoio mútuo e na autogestão de nossos territórios. O internacionalismo deve sobretudo potencializar as trocas de experiências e recursos, para que as diversas formas de luta contra a opressão e a desigualdade em todas as suas dimensões sejam combatidas em cada território, dentro de suas especificidades locais.




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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