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Entrevista de Luiz Ernesto Tavares ao Instituto de Estudos Libertários


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Tavares, militante petroleiro e anarquista

De que forma e quando você teve contato com o anarquismo?

Com a Celinha (Célia era militante petroleira de base) que, depois da minha segunda demissão da Petrobrás, me levou ao CEL no Catete com a orientação de um histórico anarquista Jaime Cuberos e lá estava o Renato.

Você se aproxima de alguma das correntes históricas do anarquismo?

Tudo que é anarquismo me emociona. Mas estou próximo do anarquismo e sindicalismo revolucionário. Gosto da história de Bakunim , Kropotkin, e do exército negro da Ucrânia. Como disse, todas as vertentes do anarquismo me atraem.

Como foi o início da sua luta na Petrobrás?

O começo da militância na Petrobras foi em 1982, quando entrei na empresa. Acontecem as primeiras tragédias na Bacia de Campos, com a queda do helicóptero mão branca, agora com jornalistas. Em 1983, embarco na Plataforma Namorado 1. Acontece a primeira tragédia da Plataforma de Enchova com muitas mortes na embarcação de desembarque da plataforma.

Nesse contexto, eu vou pela primeira vez a uma assembleia sobre o acidente no Sindipetro-RJ, dirigido por um pelego que tinha substituído a intervenção da ditadura na Petrobras. A esquerda havia apoiado a eleição do pelego e permitido a eleição de delegados para o primeiro CONCUT, em São Bernardo. Fui eleito muito em função do acidente em Enchova. Nessa oportunidade, conheço então os cutistas da Petrobrás e formamos a oposição “Surgente” do Sindipetro-RJ. Depois acabamos organizando o levantamento do acidente na baleeira de resgate de Enchova.

Nossa ação foi apoiada pelos sindicatos cutistas dos metroviários e petroleiros de Campinas. Neste momento, participo do chamado 113, que apoia a criação de comissões de base. Nele, arregaço a manga e trabalho para as comissões de base nas plataformas, ajudado por petroleiros experientes e transferidos de outras unidades. Levanta-se a criação de Associação da Bacia de Campos, logo massivamente apoiada pelos petroleiros.

Participo, então, de reuniões com dirigentes petroleiros da CUT que levemente apoiam a criação dela devido à oposição de outras centrais. Continuo o trabalho de organização dos familiares das vítimas que tinham sido culpabilizadas pelo acidente. Mas conseguimos provar que as baleeiras não eram seguras.

Tínhamos, então, representantes da Associação em todas as plataformas. Éramos uma realidade, mas o presidente se aposentou e fiquei como presidente. Estávamos em 1987, plenamente inseridos na CUT. Podemos dizer que esta é a primeira história sobre o movimento na bacia do qual participava também na oposição cutista do Sindipetro-RJ, o “Surgente”.

Em 1988, a polêmica defesa de um militante terminaria por dividir a base. Parte dela ficou com um chefe opressor. Isso me impulsionou a desmascarar o chefe com uma nota no quadro de avisos que gerou uma comissão de disciplina para minha demissão. Recusei-me a prestar qualquer defesa nesta comissão e disse que não reconhecia esta comissão e, então, aconteceu o que queriam: a minha demissão.

O ano de 1988 teve muitos acontecimentos, como a formação da FUP. A Federação propõe uma greve. Eu estava demitido, mas orientei todas as plataformas a pararem a produção, como a FUP propunha. Mas eles, nas suas bases, defendiam a greve de piquetes como sempre fizeram com os trabalhadores confinados, mas trabalhando. Na Bacia de Campos, todas as plataformas pararam a produção.

A repressão não esperou muito e logo atuou demitindo toda a nossa vanguarda e simpatizantes no chamado “voo do camburão”. Mas em pouco tempo a categoria no seu todo fez greve mais radicalizada. E os que restaram na Bacia de Campos, os que não tinham sido demitidos, ameaçaram retornar com a greve de parada de produção.

Resultado, em 2 meses todos os demitidos foram reintegrados. Mas eu fui a exceção.

Ainda em 1988, aconteceu o CONCUT em Belo Horizonte, ocasião na qual a CUT “rifou” a CUT PELA BASE. Eu estava na Convergência Socialista nesse congresso. A CUT PELA BASE foi destroçada e seus membros foram majoritariamente para o antigo 113, que se transformou em Articulação Sindical que existe até hoje centralizada pela social democracia.

Em 1989, saí da Convergência e conheci a Celinha, que era apoio do Miltão e se assumia anarquista. Foi ela que me levou então para o CEL que se reunia no Catete, em uma escola chamada Senador Corrêa. Claro que me identifiquei muito.

Antes da posse de Fernando Collor, a Justiça regional exige a minha reintegração. Quando Collor assume, demite todos os indesejados da Petrobrás, inclusive gays, lésbicas etc.. E ainda o que restava da vanguarda de 1988. Organizamos o fundo Solidariedade.

Depois da queda do Collor, no período Itamar Franco, ocupamos o edifício sede da Petrobrás no Rio de Janeiro, no qual se encontravam diretores da FUP, negociando a campanha salarial daquele ano. Os representantes da Federação tentaram, nas nossas assembleias de ocupantes, desocupar o prédio. Mas não tiveram sucesso.

Na véspera de Natal, os fupistas saíram do prédio e foram perseguidos pelos ocupantes que atiravam neles moedas e mijo. Tínhamos ficado mais de 30 dias no prédio resistindo, mas acabamos expulsos. Esta ocupação foi apoiada pelos anarquistas do CEL.

Antes dessa ocupação, tínhamos feito a proposta da criação do Sindipetro-NF, para atender mais diretamente a Bacia de Campos. Contudo o pleito não foi acolhido pelo Ministério do Trabalho. Então houve a eleição do Sindipetro-RJ e quase todos diretores do não formalizado NF compuseram com o Surgente e ganharam a eleição.

Os que não aceitaram a nova composição organizaram comissões de estrutura de gráfica, mobilização e organizações de luta na região. Eu estava entre eles. Participamos com essa configuração da greve de 1994, comprometidos com as mobilizações e possibilitando um ato de sabotagem que prolongou em alguns dias a parada de produção. Alguns diretores vinculados ao PSTU que estavam no NF foram demitidos.

Ainda no governo Itamar, houve a anistia dos diretores demitidos e dos demitidos por Collor. Continuei demitido. Neste momento, sabia claramente o comprometimento da social democracia com os patrões. Junto fiquei com os companheiros de Minas Gerais que tinham sido acusados de sabotagem.

No final de 1994, fui reintegrado, após a reintegração dos diretores do sindicato. Alguns diretores foram para regiões distantes como o Amazonas. E os companheiros de Minas Gerais acusados de sabotagem foram excluídos. Os negociadores eram da social democracia.

Quando fui reintegrado, propunha sempre a ocupação com controle da produção, mas agora a direção do NF, totalmente social democrata, era do tipo que fazia os sindicatos das refinarias de fora das unidades operacionais sem parada de produção.

Em 1995, aconteceu o Congresso em Cubatão. Partimos eu e Celinha, com a tese apresentada em Macaé, que a direção rejeitou, mas levamos para esse congresso assim mesmo, com apoio dos independentes e de um do PSTU que estava na ocupação do EDISE. Para surpresa nossa, a tese foi capaz de furar o bloqueio da Articulação do PT. Vale dizer que em 95 Cubatão fez a única greve de ocupação de toda a Petrobras e radicalizada como esta no jornal abaixo:

https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/petroleiros-em-greve-ameacaram-explodir-refinaria-de-cubatao-em-maio-de-1995-17984539

O Vicentinho tomou a direção dos petroleiros e negociou o fim da greve. Porém, teve o congresso para decidir o retorno ou aceitar o fim da greve. Eu estava em companhia da Fabíola. E o PSTU tinha a sua direção favorável ao fim. Quando numa reunião com todo o PSTU, a Fabíola deu um tremendo esporro e na votação com toda a plenária ganhamos o retorno a greve. A direção não divulgou o resultado e negociaram o fim da greve. Vincentinho foi o negociador com demissões à vontade em todas as regiões. Nessa oportunidade, fui demitido de novo.

Este papel da social democracia avançou mais na destruição das organizações de base. Com eleição do Lula em 2002, eles queriam apenas readmitir. Deixei claro na FUP que era inadmissível o retorno pela porta de trás, enquanto nossos perseguidores como Paulo Roberto Costa e outros estavam na sobre-estrutura da empresa.

Foi nessa época, em 2003, que fizemos o acampamento na frente do EDISE, com a presença de alguns demitidos e forte apoio dos anarquistas que formariam a FARJ naquele mesmo ano. Criaram, então, comissão para a anistia com cinco membros. Fui anistiado com 5 votos, junto com os demitidos de Minas acusados de sabotagem também.

Mesmo anistiado, fui perseguido com a anuência da social democracia. Mas a exilada política “Guta” estava na comissão dos direitos humanos da empresa e era um muro para evitar males maiores. Voltei à plataforma e devo agradecer no fundo d’alma a meus companheiros em toda a jornada.

Nos fale sobre as comissões de base formadas durante as greves dos petroleiros.

As comissões se formaram a partir da criação da associação dos petroleiros de Macaé, que tinha núcleos decisórios em cada plataforma. Mas nosso núcleo da plataforma de PNA 1, onde começou tudo, depois do acidente da Plataforma de Enchova.

Existe forma eficiente de se enfrentar a burocracia sindical?

A experiência que vivenciei foi pelas comissões de base. Espero que tenham entendido a experiência que tem obstáculos: a burocracia e a estrutura sindical. Mas é prazeroso quando uma vanguarda cresce e aí não é mais vanguarda e sim todos.

Considerações finais:

Aquela canção do Milton: amigos e amigas que moram no meu coração entre tantos da vanguarda.

Vou começar com as supermulheres.

Começo com minha mãe que hoje está com 94 anos que me deu com sua fortaleza, a diretriz com sua experiência de superar um sistema. E as superbatalhadoras do movimento sindical.

Tereza minha protetora em muitas ocasiões. Estava inseguro nas demissões em Macaé, cidade que detestava, mas tinha que continuar lá, e se não fosse ela, teria voltado para minha terra Niterói, com o rabo entre as pernas, mas lá estava ela me fortalecendo. E houve uma vez, já em Niterói, ela com a doença dela e, mesmo assim, me acolheu num dia que estava completamente no ar. Era a minha terceira demissão, pegou-me pelo braço e fomos comprar os remédios que precisava.

Sua força política é reconhecida até hoje não só por mim, mas por todos que a conheceram. Na Bacia de Campos, os pelegos nos agrediam porque éramos uma dupla militante. E ainda hoje, quando ela fala, a escutam atentamente.

Celinha, altamente uma intelectual anarquista, me apresentou ao anarquismo. E juntos ganhamos em Cubatão a tese ocupação com controle da produção, derrotando a Articulação do PT. Em determinado momento a vi querendo o suicídio. Não pude socorrê-la, somente tratar das feridas superficiais. Estava muito fragilizado.

Fabiola até hoje me apoia. Mulher forte que, quando quer, muda. Militante atuante até hoje. Mesmo quando também sofreu forte perseguição aguentou e continuou forte.

Foi na direção do Sindipetro-RJ que batalhou para minha aposentadoria que estava entravada na direção da Peroba em Macaé. Recorreu à direção central e conseguiu liberar.

E agora sim vou enumerar os militantes homens: Rogerio Madureira, Jorginho, Jorjão, Eilton, Silvestre, Mario, Tedesco e Juarez.

Os anarquistas: Renato, Samis e tantos da FARJ, que poderia errar em não dizer alguns não citados e o mesmo das vanguardas do Surgente, da associação e do Sindipetro-NF não oficial. Se puderem me ajudar, agradeço.

Fdps da social democracia que impediram de aumentarmos nosso avanço.




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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