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Existe uma espécie de união, aparentemente com alguma relevância, e que segue uma estratégia calculada de multiplicação nas redes sociais, que se chama Frente Obrero (Frente Obreira), famosa por ter feito algum escrache ou outro contra os chefes do Podemos (partido político espanhol). Como eles mesmos dizem, não é uma organização estritamente comunista, mas parece sem dúvida ligada a um certo partido marxista-leninista, o enésimo que conhecemos neste abençoado país. Eles não são pessoas para se tomar como piada, já que talvez seu discurso não tenha uma longa jornada intelectual, mas são muito claros sobre a propaganda a ser feita num contexto de crise e se consideram destinados a ocupar o espaço de uma formação do Podemos em franco declínio, o que não parece rebuscado dado o panorama político pré-escolar que estamos sofrendo. De fato, a agressividade e o ressentimento, em relação ao Podemos da chamada Frente Obrero (FO) é tal que muitas vezes eles compartilharam o espaço de debate com os grupos mais reacionários, razão pela qual vieram associá-los à extrema direita e ao fascismo. Este não é o meu caso, já que estes tipos peculiares não escondem de modo algum, não sua ideologia leninista, mas a vindicação do próprio Stalin. Naturalmente, os milhões de mortos produzidos pela URSS viriam a ser propaganda capitalista e, precisamente, o comunismo entrou em declínio para eles com o processo de desestatização nos anos 50, após a morte do ditador. O líder da FO, e acho que também o líder do partido adjunto, é um cara chamado Roberto Vaquero, com alguma lábia e carisma, acho que longe da limitação violenta que certos meios de comunicação quiseram construir.

Vaquero foi, aparentemente, um estudante do próprio Pablo Iglesias, e compartilhou lutas com outros membros proeminentes do Podemos, que hoje ele critica abertamente como vendido ao sistema. Não tenho interesse, é claro, em fazer propaganda para essas pessoas, mas estou interessado no ambiente ideológico no qual grupos como este adquirem alguma relevância. A capacidade dos marxistas de se reinventarem nunca deixou de me surpreender e, precisamente, eu pensei que sua enésima tentativa de voltar a conduzir a história para o lado certo envolvia necessariamente colocar de lado aquele erro genocida que foi Iosif Stalin. Bem, não, estamos agora falando de comunistas que, com duas bolas santas, reivindicam a Rússia estalinista como modelo a seguir, embora seja verdade que repetem como papagaios certos lugares comuns e, é claro, negar a repressão e os crimes como produto de um “paradigma anticomunista”, que não merece nuances. Por outro lado, a aceitação acrítica das teses mais elementares disso, por outro lado, o grande pensador Marx os leva a, naturalmente, continuar confiando cegamente que as condições materiais e o desenvolvimento das forças produtivas farão o capitalismo cair vítima de suas próprias contradições para nos conduzir, impeditivamente, ao paraíso socialista. O mesmo de sempre, já que esse manifesto foi publicado há quase dois séculos, vamos lá.

Não é trivial que esses marxistas-leninistas, capazes de fazer uma pirueta dogmática com salto duplo e voltar atrás, reivindiquem apenas a URSS até os anos 50 e, creio, seu único herdeiro que foi a Albânia de Enver Hoxha (não, ele também não era um ditador e outro homem honesto pró-socialista capaz de romper com a URSS quando ela abandonou o bom caminho). Ou seja, eles abominam todo marxismo heterodoxo e toda práxis supostamente comunista (China, Cuba, Venezuela…), que eles veem apenas como reformismo e capitalismo de estado, o que eu acho que desarma e deixa perplexos os habituais anti-comunistas, que também são bastante grotescos e irritantes. Não, a FO não é nada original, eles simplesmente se colocaram há várias décadas quando o PCE já sofreu cisões com argumentos semelhantes de apoio à Albânia e críticas à URSS e aos países satélites, bem como ao trotskismo, maoísmo e outros ismos “desviantes”. A verdadeira luta, para esses leninistas stalinistas, é claro, a luta de classes, dogma que conduz a história em direção à igualdade social, e eles desprezam todos os outros, que eles genericamente e de certa forma vagamente englobam sob o nome de “pós-modernismo”: feminismo, queerismo, animalismo… Embora duvide que estes ativistas saibam a fundo o que implica o pós-modernismo, é justo dizer que merece outra crítica profunda e minuciosa certa fragmentação da luta pela mudança social, mas longe deve ser deixado para abraçar teses autoritárias já periclitantes. Não vou mencionar a quantidade de estupidezes que Vaquero e seus companheiros mencionam sobre os anarquistas; de fato, neste tipo de recuperação da práxis leninista mais miserável e criminosa, a terminologia em torno da anarquia é usada com profusão e intenções ávidas para rotular tudo o que eles consideram negativo. Eu acho que eles não dão um ponto sem nó.

Dito isto, cuidado com estes elementos, talvez muitos de seus jovens militantes estejam cheios de boas intenções, mas as numerosas crises que o capitalismo implica são terreno fértil para todo tipo de dogmatismo e autoritarismo (de estilo novo ou antigo).

Juan Cáspar

Fonte: https://acracia.org/frente-estalinista/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Não tenho certeza,
mas acho que os grilos gostam
da minha janela.

Humberto del Maestro




Fonte: Noticiasanarquistas.noblogs.org