Novembro 3, 2020
Do Agencia De Noticias Anarquistas
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Por Araceli Pulpillo | 07/10/2020

La Revista Blanca, de tiragem quinzenal e de conteúdo anarquista individualista fundamentalmente, nasceu em 1898. Em suas duas etapas em suas páginas puderam ser lidos textos de escritoras anarquistas e de obreiras.

A revolução cultural posta em marcha no final do século XIX e princípios do XX pelo movimento libertário espanhol é um claro exemplo da força que tem a classe obreira para reverter a ordem estabelecida em prol de uma sociedade mais justa e igualitária. Tal e como assinala Alejandro Civantos, em um capítulo do livro Cultura(s) obrera(s) en España, “em um período de apenas cinquenta anos […] o anarquismo espanhol promoveu a mais importante transformação cultural de toda a história contemporânea”. No entanto a historiografia dominante se encarregou de que este relato fique como mera nota marginal. Mas em quê consistiu esta revolução?

Para responder a esta questão há que dar uma pincelada breve de História. Após fundar-se a delegação espanhola da Associação Internacional de Trabalhadores (AIT) em 1870, que culminará com a criação da Federação Regional Espanhola da AIT, se estabeleceram novos canais culturais no Estado espanhol onde se denunciavam as estruturas sociais e políticas desde os postulados anarquistas. Para o anarquismo da época, a cultura e a educação eram pilares fundamentais que deviam estar ao alcance das classes populares, assim é como estas poderiam alcançar sua própria emancipação: graças ao próprio conhecimento de sua condição de exploradas. Com uma população cujo índice de analfabetismo era alarmante, desde o anarquismo se soube ver na cultura e na literatura uma chamada à ação direta. O objetivo era claro, tirar da ignorância as mulheres e homens que punham sua força de trabalho a serviço dos poderosos através de um projeto de liberação integral. Ateneus, bibliotecas, obras e representações teatrais, mas, sobretudo, numerosos jornais anarquistas, floresceram em toda parte.

Disseminada por cidades e povos, a imprensa libertária chegou a todos os rincões do Estado espanhol. Desde grandes cidades até pequenos povoados de escassos habitantes. Mais de cem cabeçalhos desde os quais se podiam ler os problemas reais dos trabalhadores e onde, frente à imprensa burguesa ou socialista, se apostou porque os trabalhadores e trabalhadoras, desde as fábricas ou dos matadouros, escreveram sem censura suas próprias problemáticas. Por exemplo, Teresa Claramunt, pioneira anarcofeminista, escreveria em cabeçalhos como La Tramontana, Los Desheredados ou El Productor sobre as péssimas condições das mulheres obreiras e a necessidade da cultura e da organização destas em sindicatos.

A oferta foi se estendendo e apareceram outros tipos de publicações, como as revistas sociológicas, nas quais o proletariado começou a conhecer autores como Darwin, Galileu ou Copérnico. A ciência, de fato, era um tema muito importante para o anarquismo, já que nela havia uma forma de explicar o universo frente às explicações religiosas. Cabeçalhos como Acracia ou La Revista Blanca foram verdadeiras enciclopédias para obreiras e obreiros.

La Revista Blanca: arte, ciências, literatura e sociologia

Nesta ocasião, e devido aos debates em torno da questão feminina que publicaram em suas páginas, gostaria de me centrar em La Revista Blanca, esse semanário que já advertia em sua capa “Leitor, o que aqui vejas contrário a tuas opiniões, aqui mesmo podes refutá-lo”, e matizava “Seja qual for, leitor, tua condição e sexo, não deixes de ler esta revista”.

Nascida como ponte de solidariedade para ajudar as vítimas dos processos de Montjuic, acabará publicando 556 números (168 em sua primeira época e 388 na segunda). De tiragem quinzenal e de conteúdo anarquista individualista fundamentalmente, será em julho de 1898 quando se põe em marcha sua primeira etapa, estando detrás dos anarquistas de primeira ordem da época, Teresa Mañé e Juan Montseny, talvez mais conhecidos por seus pseudônimos: Soledad Gustavo e Federico Urales. Após uma parada de 18 anos, a revista volta em 1923 com a incorporação de uma jovem Federica Montseny, filha do casal, do qual desde muito pequena absorveu os ideais do anarquismo pela mão de seus progenitores.

Antonio Prado estudou em profundidade as contribuições na revista que tiveram três mulheres intelectuais de referência. Nos referimos a Soledad Gustavo, Federica Montseny e Antonia Maymón, que serão prolíficas escritoras nas páginas do semanário, embora também escrevessem em outros meios libertários. Suas contribuições são importantes para conhecer a história do feminismo obreiro no Estado espanhol. Contribuições graças às quais se foi ganhando terreno e se avançou em melhoras sociais. Mulheres que criaram debates que ainda hoje seguem, ao menos boa parte deles, vigentes em nossas próprias assembleias.

Soledad Gustavo era professora racionalista. Com 21 anos abre a primeira escola laica em Vilanova para depois transladar-se a Reus. Em seu pensamento encontramos uma crítica sem fissuras ao capitalismo e ao patriarcado, que concebia como duas faces de uma mesma moeda, entendendo que não se podia ignorar nenhum destes dois sistemas de opressão; de fato, atacou tanto burguesas como socialistas por não abordá-los politicamente em seu conjunto. Para ela a questão das mulheres transcendia as classes sociais e advogava pela independência econômica das mulheres através da liberação do trabalho doméstico; no entanto entendia que a mulher obreira levava a pior parte já que era escrava por ser mulher e por ser trabalhadora. Criticou duramente o código civil e o matrimônio. A questão do amor livre se encontra ao longo de muitos dos textos que escreveu, de fato ganhou o Segundo Certame Socialista por seu trabalho El amor libre. Entendia que para a liberação sexual era necessária uma transformação das estruturas de classe. Há uma frase de Gustavo que diz “já o sabe o homem: ou nos eleva e marchamos juntos pelo caminho da liberdade ou nos precipitamos ambos ao abismo”, que bem me recorda à contemporânea bell hooks em Entendiendo el patriarcado.

A figura de Federica Montseny foi uma das mais estudadas e é das mais conhecidas do anarquismo espanhol. Como já assinalávamos mais acima, se criou em uma família anarquista. Foi uma escritora cuja produção literária é abundante. Durante parte da guerra civil esteve a frente do Ministério da Saúde e Assistência Social, no qual pôs em marcha, entre outras medidas, o primeiro projeto de decreto onde se autorizava o aborto na Espanha; isto, há que assinalar, foi também graças ao trabalho inquestionável da médica anarquista Amparo Poch e Gascón, sua conselheira em Assistência Social. Montseny lançará em La Revista Blanca propostas inovadoras “de relações intersubjetivas onde a transformação do código doméstico da mulher em uma nova sexualidade feminina era chave para a transformação social”.

Escreverá em La falta de idealidad del feminismo: “Feminismo, palavra só aplicável às mulheres ricas, porque as pobres nunca foram feministas, nem as deixariam sê-lo!”, já que sustentava que o feminismo da época, enquanto buscava a igualdade da mulher, não questionava as instituições existentes. De fato, hoje seguem os debates entre os diversos feminismos. Lançava Pastora Filigrana a ideia: Se pode ser feminista sem questionar a ordem social e econômica existente que oprime a umas mulheres frente a outras, a uns corpos frente a outros?

Por sua parte Maymón também era professora racionalista e foi presidenta da Agrupación Femenina La Ilustración da Mujer — que contava com uma centena de filiadas e era aderente da CNT —. É uma das principais representantes do anarconaturismo. Neste sentido ela advogava pela regeneração da humanidade com vistas a produzir uma nova ordem baseada nos preceitos do são, o natural e a bondade. Uma vida na qual a natureza esteja no centro, onde habitar o ar livre e romper com o ar tóxico das cidades e das fábricas; romper com as enfermidades relacionadas com a pobreza da classe obreira e as enfermidades mentais produzidas pelo capitalismo. A Maymón a podemos enquadrar em um anarcoecofeminismo muito necessário hoje, através do qual lutamos para não acabar com os recursos limitados do planeta.

É certo que o pensamento destas três mulheres é muito mais amplo e poderíamos nos estender muito. Quando nos aproximamos de seus textos encontramos fortes abordagens materialistas mescladas com profundas reflexões idealistas que, às vezes, podem sugerir certas contradições entre suas próprias abordagens; no entanto, quando alguém se aproxima delas percebe que, ainda hoje, seguimos pensando(nos) em termos muito similares e com debates nada longe dos seus.

A novela revolucionária de quiosque

Antes mencionamos outra das grandes colaborações que contribuíram com essa revolução cultural que o anarquismo pôs em marcha. É importante relatar que a apropriação que se fez desde o anarquismo do gênero folhetinesco ou novela em série, aproximou a literatura muito mais do proletariado, criando-se um novo gênero: a novela revolucionária de quiosque.

Desde La Revista Blanca foram publicadas nas coleções La Novela Ideal La Novela Libre, obras de trabalhadoras e trabalhadores que em seus momentos livres escreviam pequenos contos proletários. Não há um grande refinamento literário nas obras, no entanto, tal e como assinala Lily Litvak, era uma literatura autenticamente popular. “Queremos novelas otimistas, que encham de esperança a alma”, pediam desde o seminário para as futuras colaborações. Lidas massivamente, se aproximavam de um público cada vez mais heterogêneo.

Prado resgata seis autoras das 17 que se localizaram na coleção do Instituto Internacional de História Social de Amsterdam, Margarita Amador, María Solá, Ángela Graupera, Regina Opisso e, claro, Federica Montseny e Antonia Maymón. O eixo central destas novelas escritas por mulheres obreiras é a da liberação da mulher através do amor, um amor livre sem a intervenção de estruturas patriarcais: Estado, Igreja e família tradicional. O gênero da novela rosa anarquista foi o gênero do sujeito feminino por excelência, pois em ditas novelas se demandava amor, desejo e gozo para a mulher. Ademais em todas elas se dá uma inversão aos sujeitos protagonistas, os representantes do status quo serão os maus e os revolucionários os bons que querem mudar as condições materiais péssimas provocadas por um sistema corrupto.

Através de suas narrações denunciavam a ordem social, tanto o Estado e suas políticas perversas como a moral da Igreja que oprimia o povo. Contra, elas ofereciam alternativas que aspiraram a um sistema novo, mais harmônico. Acreditavam na nova mulher, mais liberada tanto da família como da carga materna, e também na nova família baseada em um amor verdadeiro e na qual se indagavam formas alternativas frente à tradicional: família adotiva e famílias monomarentais.

O certo é que há poucos trabalhos que valorizem a produção literária destas mulheres e seria necessário produzir estudos mais profundos destas obras e de suas implicações. Novamente a invisibilização de processos históricos que aspiravam a grandes mudanças por parte da classe obreira se faz patente ao nos aproximarmos destas mulheres; escritoras que merecem ser resgatadas do esquecimento e serem posicionadas no lugar que merecem. Mulheres que apesar das dificuldades que padeceram deram um passo adiante para contribuir com a construção de um sistema social mais justo e livre, um sistema que valha a pena ser vivido, como ainda pedimos.

Fonte: https://www.pikaramagazine.com/2020/10/anarcofeministas-en-los-albores-del-siglo-xx-la-revista-blanca/?fbclid=IwAR12pYyGwG8XqoBJDhry0d7_NWMFlT64H-wr1uhR9aRZNJYkc5RpWQpm704

Tradução > Sol de Abril

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Jandira Mingarelli




Fonte: Noticiasanarquistas.noblogs.org