Outubro 8, 2021
Do Agencia De Noticias Anarquistas
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Por Miguel A. Fernández

A fotografia foi tirada em algum lugar de Bizkaia em princípios de 1937. Se não fosse pelos acessórios e as graduações militares que aparecem aqui e ali, poderíamos pensar que se trata de uma quadrilha basca que busca captar para a posteridade uma reunião festiva. O ambiente é, até certo ponto, divertido, assim o expressam seus semblantes: se excetuamos a figura central, quase todos os demais sorriem e os gestos são tranquilos. Mas, ainda que não o pareça, o instantâneo da oficialidade do batalhão ‘Isaac Puente’, foi feito pouco tempo depois da sangrenta batalha de Villarreal, com a qual as forças leais à República tentaram, sem sucesso, chegar a Vitoria, e ao mesmo tempo aliviar a pressão franquista sobre Madrid, e na qual os milicianos se bateram sofrendo numerosas baixas [1].

Entre os presentes, ao lado de Enrique Araujo, personagem central e comandante da unidade, se destaca um tenente negro. Sorri, como o resto de seus companheiros, alheio ao fato de que poucos meses depois será feito prisioneiro pelas tropas italianas na emboscada de Santoña [2].

Uma presença singular, mas que não deveria surpreender-nos, pois nas unidades confederais bascas é habitual ver estrangeiros e inclusive comandos de origem latino-americana: Julio Martínez Sánchez, capitão da 1.ª companhia do batalhão Bakunin é natural de Havana; Manuel Azurmendi Embeitia, tenente do batalhão Malatesta é de Montevidéu. Por sua parte, Manuel de la Mata Ibeas, comandante do Isaac Puente, é cubano e o capitão ajudante, Argentino Eizaguirre Fernández, portenho, tal e como denota seu nome. Tudo isso, sem contar os numerosos milicianos rasos de origem estrangeira. De fato, é tal o contingente de voluntários estrangeiros presentes em Euskadi, que em dezembro de 1936 a CNT inicia a organização de um Batalhão Internacional para agrupar os “companheiros de todas as nacionalidades residentes no Norte”, seguindo o exemplo das Brigadas Internacionais, e em princípios de janeiro, anuncia a formação do “Batalhão Internacional do Norte”, que será o 7.º da CNT e 65.º de Euzkadi e que trataria de agrupar todos os voluntários estrangeiros em geral e os anarquistas em particular. Em todo caso, a unidade não chegará a constituir-se como batalhão de combate e sua atividade se reduzirá a atuar como unidade de reserva e recuperação, para desaparecer ao ordenar-se a supressão das incompletas, e passar seus integrantes a outras unidades [3].

Em todo caso, Antonio Salón Cubano, que é como se chama o miliciano que nos ocupa, não veio de além de nossas fronteiras: de fato, nasceu em Santurce e no começo da guerra, momento no qual se incorpora às milícias confederais, é morador de Bilbao. A sentença que, uma vez capturado, o condenará a 15 anos de reclusão por sua atuação na guerra, evidencia um discurso cheio de preconceitos: “ainda que pertencente à raça negra, de nacionalidade espanhola , carente em absoluto de conhecimento e dotes culturais”… [4].

Desconhecemos a capacidade intelectual de Antonio, mas estamos convencidos do contexto racista das afirmações contidas na sentença, pois precisamente o que evidencia sua história pessoal é que desde bem jovem teve indubitável conhecimento da causa, a das lutas e aspirações da classe obreira e libertária a qual pertencia. De fato, o santurtziarra começou logo a trabalhar nos Altos Fornos, filiando-se à CNT, e iniciada a guerra, não duvidaria tampouco em somar-se a seus companheiros de ideal no batalhão Isaac Puente, onde se destacaria por seu arrojo na sangrenta batalha de Villarreal, o que o levaria a ser promovido a tenente. Da mesma forma, participaria na ofensiva contra Oviedo, onde ocorreria um fato que nos faz ver que tampouco carecia de senso de humor e boa diversão: nas escaramuças pela infrutífera conquista da capital asturiana, um dos companheiros de batalhão está a ponto de disparar ao confundi-lo com um integrante das tropas mouras que se encontram guerreando como mercenários para o bando nacional. Antonio, inteirado do acontecido, jurará jocoso pintar as orelhas de vermelho e refletir assim, em sua cara, as cores confederais para não voltar a ser confundido com o inimigo. O fato foi colhido pela repórter Cecilia G. Guilarte – outra injustamente esquecida – em CNT do Norte, jornal para o qual se encontra cobrindo a guerra na frente de Oviedo [5].

Após continuar o combate contra o fascismo em Bizkaia e Santander, será capturado e recluso nos presídios de Bilbao e Astorga, cidade na qual se estabeleceria após sua liberação (e muito próximo da Bañeza, onde faleceria pouco depois de enfermidade).

Recuperar pequenas histórias como a de Antonio Salón ajudam a ir ampliando o desconhecido mosaico das minorias racializadas no seio do Movimento Libertário. Algo no qual já abriram caminho os recentes trabalhos sobre Mariano Rodríguez Vázquez, “Marianet”, que chegaria a ser secretário geral da CNT, Helios Gómez Rodríguez, o “artista da gravata vermelha” com viagens de ida e volta ao anarquismo, ou a incombustível miliciana donostiarra Casilda Hernáez Vargas, todas elas, pessoas de etnia cigana.

Notas

1. Há várias cópias da imagem expostas nas redes sociais, mas o original faz parte do impressionante Arquivo fotográfico da guerra civil espanhola da Fundação Anselmo Lorenzo.

2. Outros dados afirmam que foi capturado em Bilbao, pego pelas forças nacionais.

3. “Voluntarios internacionales y asesores extranjeros en Euzkadi (1936-1937)”. Francisco Manuel Vargas Alonso. Historia contemporánea nº 34, pp. 323-362 (2007).

4. https://nabarralde.eus/salon-cubano-antonio/

5. “Nuestra reporter en los frentes de Oviedo”. CNT do Norte, 26 de fevereiro de 1937. https://elgrancapitan.org/foro/viewtopic.php?t=26175&start=180

Fonte: https://serhistorico.net/2021/10/02/antonio-salon-miliciano-con-conocimiento-de-causa-miguel-a-fernandez/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Já é primavera —
Uma colina sem nome
Sob a névoa da manhã.

Bashô



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Fonte: Noticiasanarquistas.noblogs.org