Dezembro 4, 2020
Do Agencia De Noticias Anarquistas
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Por Araceli Pulpilo | 18/11/2020

A criação da revista libertária ‘Mujeres Libres’ em 1936 supôs o impulso para o nascimento da Federación Nacional de Mujeres Libres, na qual a educação foi o pilar fundamental. Cerca de 28.000 mulheres fizeram parte da organização que teve 147 delegações.

«É bom esperar a revolução todos os dias; mas melhor ainda é ir em sua busca, forjando-a minuto a minuto nas inteligências e nos corações»

Lucía Sánchez Saornil

Na hora de fazer genealogias do feminismo no Estado espanhol é imprescindível nos aproximarmos do anarquismo e do anarcossindicalismo de finais do século XIX e princípios do XX, movimentos político-sindicais onde se abordou a questão feminina e muitos dos problemas que se referiam à emancipação social, econômica e sexual das mulheres. Desde manchetes como La Revista Blanca ou Estudios iniciaram debates de primeira ordem a propósito de temas tão díspares como a maternidade consciente, o controle da natalidade, a liberdade e a educação sexual, a destruição da família patriarcal e suas hierarquias, os direitos salariais ou o papel e natureza que as mulheres deviam ter na sociedade nova.

Duas tendências percorriam ditos debates. Por um lado, a corrente influenciada por Proudhon, que relegava o papel da mulher a simples “gestante e lactante”, considerando-a inferior ao homem. Por outro lado, e a mais generalizada na Espanha, a influenciada por Bakunin, que reivindicava a plena igualdade de direitos e deveres de mulheres e homens. De fato, no Congresso da CNT celebrado em Zaragoza em maio de 1936 se adotou este critério no conceito Confederal do Comunismo Libertário.

Tal e como assinala Mary Nash, “estas discussões, junto com a […] campanha em prol da educação sexual, deram lugar à progressiva tomada de consciência das mesmas mulheres que, assimilando os princípios anarquistas, os aplicaram a sua própria situação”. O que se traduziu em que, posteriormente, se organizassem numerosas agrupações de mulheres anarquistas em diversos povoados e cidades. Por mencionar algumas, em Casas Viejas em 1932 se criou a Agrupación Amor y Armonía, composta por María e Catalina Silva Cruz, sua prima Catalina, Manolita Lago, Francisca Ortega e Ana Cabezas, que através da leitura compartilhavam inquietudes e promoviam sua própria emancipação como trabalhadoras e como mulheres.

Um projeto mais ambicioso

Outra destas agrupações que se criou em princípios de 1935 foi a Agrupación Cultural Femenina de Barcelona, composta por um grupo de mulheres anarquistas da CNT que acreditavam necessário abordar a questão feminina dentro dos espaços libertários. Pilar Grangel, Áurea Cuadrado, Nicolasa Gutiérrez, Maruja Boadas, María Cerdán, Apolonia de Castro, Felisa de Castro e Conchita Liaño começaram a dar conferências às mulheres sobre a necessidade de assumir responsabilidades e serem mais ativas no espaço orgânico. Eram conscientes de que, apesar do número tão considerável de mulheres afiliadas à CNT e de sua combatividade nas greves dos setores nos quais trabalhavam, fazia falta mais participação. Criaram várias campanhas de distribuição de pasquins e convocaram um comício no teatro Olimpia que teve uma massiva afluência.

Enquanto isso, em 18 de setembro de 1935, o então secretário geral da Confederação Regional Catalã, Mariano R. Vázquez (Marianet), publicou em Solidaridad Obrera o artigo ‘La mujer, factor revolucionario’, no qual instava aos homens da CNT a tomar consciência da importância da incorporação de mais mulheres à organização e da necessidade de que lhes chegasse informação sobre o sindicato. Por sua parte, Lucía Sánchez Saornil, destacada militante anarcossindicalista, implicada na greve da telefônica de 1931 e secretária de redação do diário confederal CNT desde 1933, responderá a Marianet com uma série de cinco artigos intitulados ‘La cuestión femenina en nuestros medios’, nos quais interpelava aos homens a pôr em prática os valores anarquistas em seus próprios lares. Escreverá “propaganda nos sindicatos? Propaganda nos ateneus? Propaganda em casa! É a mais simples e a mais eficaz”, para continuar advertindo: “Vi muitos lares, não já de simples confederados, mas de anarquistas […] regidos pelas mais puras normas feudais. De que servirão, pois, os comícios, as conferências, os cursos, toda a gama de propaganda, se não são vossas companheiras, as mulheres de vossa casa as que irão a eles? A que mulheres se referis então?”. Após um cruzamento de textos, Marianet convidará Lucía Sánchez Saornil a escrever uma seção em Solidaridad Obrera sobre a questão feminina. Ela, no entanto, o tinha muito claro; acabará publicando um último artigo ‘Resumo a margem da questão feminina para o companheiro M.R. Vázquez’ no qual se vislumbrará um propósito muito maior: “Não recebo tua sugestão […] ainda que seja muito interessante, porque minhas ambições vão mais longe; tenho o projeto de criar um órgão independente, para servir exclusivamente aos fins que me propus”.

Assim, fruto da relação da anarcossindicalista com a advogada e pedagoga Mercedes Comaposada e com a doutora Amparo Poch e Gascón, nascerá em Madrid em maio de 1936 a revista Mujeres Libres, uma publicação periódica de cultura e documentação social, cujo propósito era o de “canalizar a ação social da mulher, dando-lhe uma visão nova das coisas”. O primeiro número estreará com textos, não só do Comitê de Redação, mas de militantes anarquistas da estatura de Emma Goldman ou Antonia Maymón.

Será meses mais tarde, após o estouro da guerra contra o fascismo, quando Mercedes Comaposada visite as companheiras de Barcelona para propor-lhes formar uma agrupação de Mujeres Libres como as que já haviam sido criadas em Madrid e em Guadalajara (esta última graças ao trabalho militante de Suceso Portales). Aspiravam a um projeto muito mais ambicioso ainda: a Federación Nacional de Mujeres Libres.

Até a Federação Nacional, até a emancipação total

Com a revista posta em marcha — a qual tinha uma ampla difusão e da qual chegaram a publicar 13 números — e a força enérgica de suas militantes, se propuseram criar uma organização autônoma feminina no seio do movimento libertário, objetivo que as diferenciava do resto de tendências políticas. Tal e como se lê em seu folheto “Cómo organizar una Agrupación Mujeres Libres”, aspiravam a:

1. Emancipar a mulher da tripla escravidão a que geralmente esteve e segue estando submetida: escravidão de ignorância, escravidão de mulher e escravidão de produtora;

2. Fazer de nossa organização uma força feminina consciente e responsável que atue como vanguarda da revolução e

3. Chegar a uma autêntica coincidência entre companheiros e companheiras; conviver, colaborar e não excluir-se; somar energias na obra comum.

A educação foi o pilar fundamental que puseram em marcha para conseguir seus objetivos. Como anarquistas sabiam que através desta se podia capacitar e instruir as mulheres obreiras para romper com suas três escravidões. Em Madrid e Valência criaram os Institutos de Mujeres Libres e em Barcelona o Casal da Dona Treballadora, onde se ministravam aulas gratuitas de diversas matérias como alfabetização básica e cultura geral, história, literatura, matemáticas ou aritmética, e ensinos superiores como contabilidade ou anatomia. Também ministravam formação profissional para que as mulheres optassem por um trabalho que lhes outorgasse receitas e através do qual contribuir na guerra e na revolução; dai as escolas de transporte, eletricidade, redação, enfermagem ou mecanografia. Na zona antifascista também puseram em marcha programas educativos, assim como bibliotecas. E claro, recebiam uma ampla educação sindical.

Através da maternidade consciente e o neomaltusianismo, cujo objetivo era reduzir o número de nascimentos, buscavam uma melhora na qualidade de vida das famílias obreiras. Puseram em marcha programas educativos para que as mães estivessem informadas sobre seus corpos e sua sexualidade, transmitindo também uma informação sanitária básica. Outro dos projetos furam os Liberatórios de Prostituição, que partiam da análise de que eram as mulheres sem recursos e sem capacitação as que se viam forçadas a exercê-la. Sabendo que estas mulheres eram vulneráveis, lhes deram a oportunidade de instruir-se para exercer outros trabalhos, oferecendo-lhes apoio e acompanhamento. Portanto, a sociedade nova devia abolir, também, esta prática.

Conchita Liaño assinala que Mujeres Libres conseguiu agrupar os esforços dos grupos de mulheres isolados que lutavam pelo mesmo ideal em todas as regiões da Espanha. Assim, com um tecido cada vez maior, criaram-se agrupações locais, provinciais e regionais, replicando a estrutura confederal da CNT. Em cada uma se contava com Seção Administrativa do Comitê, formada por uma Secretária, Vice-secretária, Contadora e Tesoureira; Seção de Assistência Social; Seção de Assistência ao Combatente; Seção de Trabalho; Seção de Cultura; e Seção de Propaganda. Cerca de 28.000 mulheres fizeram parte da organização.

Em agosto de 1937 aconteceu em Valência a celebração de seu primeiro Congresso Nacional. Nele se assentaram as bases da organização. Se implantaram, ao menos, 147 delegações distribuídas por toda a zona antifascista: Região Centro Madrid, Guadalajara, Ciudad Libre (nome que adotou a Cuidad Real na guerra), Catalunha, Levante, Aragão, e algumas cidades de Andaluzia. Também criaram-se delegações no estrangeiro, como em Portugal, França, Polônia, Argentina ou Inglaterra, pretendendo conseguir uma organização peninsular e internacional.

Há que ter em conta que sua atividade foi variando dependendo dos momentos que viveram. De fato, após o Congresso mencionado decidiram atuar em duas direções: seguir com a formação revolucionária da mulher e contribuir decididamente para o esforço de guerra. Deste segundo acordo surge a estreita colaboração que Mujeres Libres teve com Solidariedade Internacional Antifascista (S.I.A.), organização de ajuda humanitária pertencente ao movimento libertário.

Arregaçar as mangas e fazer a história

Em 2018 inaugurou-se a exposição ‘Mujeres Libres: precursoras de um mundo novo’, com a curadoria de Sonia Lojo, na qual através de 16 painéis nos aproximamos dos antecedentes, origens, finalidades e práticas desta organização. Um acertado trabalho de investigação e divulgação que se aproxima ao que fazer cotidiano do conjunto da federação. No entanto, é preciso fazer trabalhos locais que resgatem a memória esquecida de muitos de nossos povoados e bairros.

Um destes trabalhos de recuperação é sem dúvida o realizado por Aurore E. Van Echelpoel e Francisco J. Cuevas, que publicaram o livro Mujeres libertarias en Jerez. El Sindicato de Emancipación Femenina (Calumnia Edicions, 2020). Graças a fotografia que aparece no número 2 de Mujeres Libres, seguem a pista das 1500 mulheres que se organizaram em um sindicato exclusivamente feminino e no qual estavam representadas obreiras da agulha, moças do serviço, empregadas do comércio ou de fábricas de selos, entre outros setores. María Luisa Cobo Peña terá muito que ver neste marco. Afiliada à CNT, desde 1931 foi uma militante ativa na localidade, chegando a pronunciar numerosos comícios, participando em greves e mobilizações, ou fazendo parte da luta dos inquilinos contra os desalojos por não pagamento de aluguéis. Durante a guerra participará na Agrupação Mujeres Libres de forma ativa, chegando a corresponder-se com Lucía Sánchez.

Desde logo, fazendo eco das palavras de Nash, são as massas anônimas as que fazem a história. E ainda que esse anonimato seja impossível de revelar em muitas ocasiões, em outras só faz falta arregaçar as mangas para descobrir essas pequenas histórias que compõem a História. É importante que não caiam no esquecimento.

Horizontes prenhes de luz

Mujeres Libres acreditava em um mundo novo, na criação de uma sociedade que rompesse com toda hierarquia. Estavam convencidas de que, através da organização, da solidariedade, do apoio mútuo, da ação direta e do anarcossindicalismo, poderiam consegui-lo. Puseram todo seu empenho em aplicar o golpe final ao capitalismo em todas as suas manifestações. Contribuíram para isso antes da guerra e também nesta. Estiveram na frente e na retaguarda. Fizeram parte das coletividades agrárias e da coletivização das fábricas. Escreveram para gerar consciência frente a um novo porvir. Ademais sensibilizaram sobre sexualidade, amor livre, livre escolha das mulheres para serem quem quisessem ser. Ninguém põe em dúvida que sua contribuição para a revolução social foi indispensável.

Penso que muitos dos coletivos e organizações feministas que lutam cada dia, tanto a escala estatal como internacionalmente, contêm esses raios de luz que elas projetaram para o horizonte. Entender estas experiências do passado pode nos ajudar no presente. E como elas mesmas entoavam em seu hino:

Puño en alto mujeres del mundo
hacia horizontes preñados de luz
por rutas ardientes
los pies en la tierra
la frente en lo azul.

Seguimos.

Fonte: https://www.pikaramagazine.com/2020/11/mujeres-libres/

Tradução > Sol de Abril

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O grito do grilo
serra ao meio
a manhã.

Yeda Prates Bernis




Fonte: Noticiasanarquistas.noblogs.org