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Por Marc Caellas | 23/04/2021

Como acontece às vezes com qualquer escritora, Ursula K. Le Guin, renasceu no planeta literário de nosso país. Um documentário sobre sua figura, disponível em Filmin, novas edições de seus livros em castelhano e catalão, mais os elogios de críticos e leitores contemporâneos puseram de novo em evidência uma autora que não só tratou de temas como o feminismo, o anarquismo ou as identidades de gênero há mais de cinquenta anos, mas o fez dentro de um gênero a parte, a ficção científica, em que é pouco comum brilhantismos estilísticos como os seus.

Seus livros se originam em sua vida, mas Ursula K. Le Guin não escrevia para “expressar-se”. Sua ficção era vivencial (ou experiencial), mas não confessional. Assim, em “Los desposeídos” (Raig Verd, 2018), K. Le Guin inventa uma sociedade anarquista na qual seus fundadores criam uma nova língua porque se dão conta de que não podem instaurar uma nova sociedade com uma linguagem antiga. Ainda que baseada na língua anterior, a nova é substancialmente diferente. O personagem Shevek transmite nessa nova linguagem a experiência intelectual que sua criadora sentia, embora em sua vida “real” fosse quase todo o tempo uma dona de casa convencional cuja principal preocupação fosse a educação de seus filhos.

“Los desposeídos” é considerada a primeira novela utópica anarquista. Seu protagonista é um físico que quer compartilhar suas descobertas com colegas de outros planetas, mas se depara com muros reais e mentais dos que veem sua atitude como uma ameaça à sociedade aparentemente livre que seus compatriotas conseguiram desenvolver durante cento e sessenta anos. É um livro fundacional, imprescindível para qualquer ativista social que se prese. O livro trata dessas interrogações que alguns de nós estamos a muito nos propondo, se é possível viver sem pátria, religião e polícia, por exemplo, e fazendo leituras atentas de pensadores como Kropotkin (de quem se comemora em 2021 o primeiro centenário de morte), que expõe que os homens viveram muitos anos em sociedades sem estado e que este foi criado para impedir a associação direta entre os homens, para obstaculizar o desenvolvimento da iniciativa individual e local, para esmagar as liberdades existentes, para impedir seu novo florescimento, e tudo para submeter as massas à vontade de umas minorias.

Ursula K. Le Guin pensava que o anarquismo era uma forma de pensar profundamente radical, muito frutífera e propositiva. Ao ler numerosos livros sobre anarquismo, se deu conta que era a única grande teoria política sobre a qual não havia sido escrita uma novela utópica. Mas a utopia de “Los desposeídos” é imperfeita, e a novela inclui sua própria traição aos postulados que defende. Outra novela mítica escrita faz mais de cinquenta anos, mas reeditada recentemente (Minotauro em castelhano, Raig Verd em catalão), é “La mano izquierda de la oscuridad”. Nela K. Le Guin esboça um planeta cujos habitantes tem uma particularidade que os faz únicos: são hermafroditas. Os “guedenianos” adotam um ou outro sexo exclusivamente na época do cio, na semana denominada “kémmer”. Durante as outras três semanas do mês seu gênero é neutro, e não tem características nem comportamentos de homem ou mulher. Dependendo dos níveis de feromônios emitidos, se transformam em macho ou fêmea, e assim podem procriar. Um mesmo individuo é homem em um mês e mulher no seguinte.

“La mano izquierda de la oscuridad” é uma história filosófica que trata sobre o diálogo entre diferentes. Aqui não há batalhas interestelares nem perseguições entre constelações planetárias mas uma trama amena e profunda que reflete sobre a alteridade e os preconceitos para com o diferente. Em “Conversaciones sobre la escritura” (Alpha Decay), livro fundamental para quem queira aprender ferramentas chave para escrever, Ursula K. Le Guin insiste na importância do som da linguagem, no quão fundamental é ouvir-se quando se escreve. A autora considera a linguagem um objeto físico e lamenta que em seu ensino se esqueça “e assim temos prosa que soa pom, pom, pom e não sabemos onde está falhando”.

Ursula K. Le Guin também deplora a crescente mercantilização da escrita que dá mais poder aos departamentos de vendas do que aos editores. As modas passam e a boa literatura, como a sua, fica. Suas reflexões sobre a conveniência de usar o passado ou o presente são de um brilhantismo e concisão admiráveis, produto de toda uma vida exercendo uma arte como se fosse um ofício, com um nível de auto exigência elevado e umas certezas aprendidas inclusive com erros, como o cometido com o pronome neutro em “La mano izquierda de la oscuridad”, que K. Le Guin explica, que não se justifica, pela época, 1968. O escritor David Naimon pergunta com inteligência e as respostas de K. Le Guin iluminam debates atuais sobre o uso da linguagem inclusiva e nos aproximam de uma autora sobre a qual seguiremos falando no futuro.

Fonte: https://www.diaridetarragona.com/cultura-vida/Una-escritora-anarquista-20210423-0071.html

Tradução > Sol de Abril

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Fonte: Noticiasanarquistas.noblogs.org