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Espiritualidade Libertária e Revolução por Milton Tavares


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Quando há trinta anos Caetano Veloso disse “alguma coisa está fora da ordem da ordem mundial”, seu sucesso foi imediato. Ele teve a capacidade de dizer o que as pessoas minimamente sensatas percebiam, mesmo não se dando conta. É incrível nossa capacidade de adaptação a situações absurdas, bem como toda gama de explorações que nos são impostas e absorvidas como naturais. O grau de sofisticação das estruturas de poder que organizam e controlam a sociedade atingia então; lembremos que a música foi lançada dois anos após a queda do muro de Berlim; uma autoridade e eficácia aterradoras.

                Hoje, na entrada da terceira década do terceiro milênio, essa letra não encontra mais a mesma reverberação, não porque tenhamos resolvidos os problemas, muito pelo contrário em razão da desordem não estar mais em “alguma coisa”, e sim em “quase tudo”. O capitalismo conseguiu acumular vitórias que, creio, nenhuma esquerda há cem ou cento e cinquenta anos ousaria imaginar. Em contrapartida, acumulamos uma experiência igualmente gigantesca e uma massa crítica de pessoas em todo o mundo que o percebem de “cabeça para baixo”. Como acredito estarmos nos aproximando do início de um grande processo revolucionário, penso que uma reflexão teórica se faz necessária.

                Talvez a religião se constitua no maior instrumento de manipulação ideológica do poder capitalista e os movimentos de esquerda sabem disso. Mas não o compreendem por inteiro, acreditando que negar e se opor às religiões possam resolver o problema. Ledo engano! A dependência a uma religião é muito forte. Quando os professores Danah Zohar (Física e Filosofia) e Ian Marshall (Psicologia e Filosofia) da Universidade de Harvard publicaram no ano 2000 o livro “SQ: Connecting With Our Spiritual Intelligence”, no qual apresentam o conceito de Inteligência Espiritual, medida através do QS (Quotient Spiritual), eles roubaram do QI e do QE (Inteligências lógica e emocional) a hegemonia da cognição humana, e ainda apontaram o local físico do cérebro que responde a essa função. O QS é uma medida da capacidade que um indivíduo tem de dar significado existencial e propósito à sua vida, relacionada atualmente ao SELF, função cerebral que transcende o EGO. A Espiritualidade iniciava então uma carreira científica autônoma e independente das religiões.

                E por que isso não é plenamente difundido pelos meios de comunicação? Diversas descobertas científicas que aproximam ciência e espiritualidade (referências no final do texto) são boicotadas para que o “saber oficial” humano nos mantenha presos a velhos paradigmas de dominação. Se entendimentos da espiritualidade deixam de ser Ato de Fé para se tornarem Fatos Científicos as religiões começam a perder sentido. Também está comprovado que um aumento da Inteligência Espiritual amplia nossa capacidade de perceber, compreender e dedicar atenção ao outro – essa é a Fraternidade da Revolução Francesa, que nunca pediu licença a nenhuma Igreja ou liderança espiritual.

                Os ideais anarquistas estão todos construídos em cima das liberdades individuais, do respeito às comunidades e rejeição às autoridades. Diferente das religiões, a Espiritualidade também se constrói em cima desses mesmos princípios. Uma pessoa espiritualizada entende que precisa cuidar do Espírito, pois é o que continuará sendo após a morte do corpo físico. Então ela procura desenvolver solidariedade, respeito e atenção para com o próximo, não porque Deus quer (claro que quer!), mas porque sua inteligência assim pensa. Podemos almejar um uma revolução anarquista sem esses valores? Acredito que não. E por que não incluir a espiritualidade (sem religião) entre as metas da luta anarquista? Se não por princípios teóricos, ao menos como estratégia de luta!

                Uma Espiritualidade consistente vai mais longe: pode retirar do indivíduo o medo do enfrentamento ao “sistema” ou à “polícia”, por que não teme à morte, aumentando assim o número de militantes dispostos a construção das lutas. A história dos Celtas ilustra bem essa questão: há 2500 anos os Celtas constituíam um povo muito espiritualizado que ocupava parte da antiga Gália (onde hoje temos a França e a Grã-Bretanha) com um estilo de vida bem anarquista (nos termos atuais), tanto que não constituíram um estado forte em virtude da grande autonomia que cada uma das suas pequenas tribos desfrutava. Os sacerdotes Druidas, cuja formação consumia 20 anos de estudo e que estava livremente disponível para qualquer jovem que desejasse o posto, assumiam as nobres tarefas de guia espiritual, médico, juiz e filósofo; quase sempre era a mediunidade que os inspirava e conduzia à tarefa. Por entenderem que a vida é espiritual e a existência na Terra passageira através das reencarnações, não temiam a morte e formaram bravos e temidos guerreiros que deram muito trabalho aos romanos. No ano de 52 a.C. César conseguiu derrotá-los, mas não sozinho – foi preciso uma aliança paga com os germanos. E não foi apenas uma derrota, foi um massacre; a ordem era de extermínio com a destruição de absolutamente tudo o que encontrassem. Diversos filósofos gregos, entre eles Arquimedes e Platão estudaram com os Druidas, o que mostra o peso de sua sabedoria, mas a imagem que ficou na “mídia” foi a de bárbaros e pagãos (embora aceitassem um Deus único).

                Os poucos Celtas que conseguiram escapar, com a nobre tarefa de difundir um pouco que fosse sua cultura, deram origem ao País de Gales, a Irlanda e à Escócia, além de deixarem marcas até hoje na região da Bretanha ao noroeste da França. Mas a difusão do eixo central de sua sabedoria foi atacada pela Igreja Católica ROMANA no ano de 553 d.C. através do Segundo Concílio de Constantinopla (atual Istambul) que tornou crime de heresia, punido com a morte, qualquer manifestação de aprovação à reencarnação. No lugar da oportunidade de aprendizagem e desenvolvimento através de novas oportunidades em outras vidas ficava a crença “imposta” de um inferno a queimar por toda a eternidade os pecadores (leia-se qualquer opção existencial fora da igreja). E ainda por cima aceitar que tal projeto pertence a um Deus bom e justo é difícil de engolir. Está mais do que na hora de separar o joio do trigo!

                Outra questão que no meu entender precisa de destaque é a questão ambiental, cujos problemas são bem maiores do que se divulga ao senso comum. A Teoria de Gaia é um excelente ponto de debate para uma visão bem abrangente e progressista. O pesquisador inglês James Lovelock desenvolveu em 1972 a ideia de que a Terra não é apenas o local de habitação dos seres vivos, mas sim de que ela toda é um grande ser vivo ao qual deu o nome de Gaia. Essa hipótese, muito na contramão da Biologia tradicional, ganhou adeptos e se transformou numa teoria respeitada, embora, como era de se esperar, não seja de aceitação global. Cá entre nós, a ideia de um planeta vivo, no qual os seres devem se harmonizar, buscando a manutenção do bem-estar de todos não combina nada com os propósitos “humanos destoantes” de exploração predatória, destruição e guerras.

                A Teoria Gaia traz em seu conteúdo conceitos como respeito a individualidade dos seres vivos e cooperação entres os mesmos, visando à harmonia entre todos para a conquista do bem-estar de cada indivíduo, bem como de cada comunidade. Mas não é para isso que nós, libertários, lutamos? E a vertente moderna que trata do Espírito inteligente de Gaia consegue pérolas como explicar as ações de defesa da vida com ataques aos inimigos (leia-se seres humanos) que podem nos trazer problemas drásticos. Atualmente acredita-se que Gaia está “abrindo” o seu quarto “chacra” (do amor) para a construção de uma nova etapa de sua história e quem não estiver em condições de acompanhar o processo poderá ser eliminado. Todos esses conhecimentos lidam com paradigmas bastante consistentes, muitos deles presentes em nossa ancestralidade histórica, mas que incomodam muito às autoridades capitalistas, políticas e religiosas. Não podemos encontrar aí razões para incorporar essa bandeira às lutas libertárias, sem a qual talvez sequer tenhamos em breve futuro um planeta para viver?

                Encerro esse artigo com a posição mais humilde que possa encontrar com respeito à tradição do movimento anarquista, afirmando que é muito difícil lidar com ideias contrárias ao saber hegemônico que afeta inclusive as verdades da comunidade científica, como a História vai demonstrar com o tempo. Tenho dedicado 50 anos de estudos nessas áreas em total concordância com cerca de 40 anos de militância política no setor sindical. Meu objetivo é única e exclusivamente contribuir com uma nova visão de mundo que considero urgente e necessária.

Para os que quiserem se aprofundar no tema de Gaia e de uma nova Biologia indico o livro “a canção da terra – Uma Visão de Mundo Científica e Espiritual” dos organizadores Maddy Harland e Willian Keepin da roça nova EDITORAGaiaeducation. Lançado agora em 2019, contém artigos de grandes pesquisadores(as) acadêmicos(as) da “linha de frente” de um pensamento renovador e revolucionário, bem como outras referências bibliográficas.

Sobre novas concepções da neurociência sugiro, do brilhante cientista português Antônio Damásio, laureado com diversos prêmios internacionais e que integra há anos o Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa, os livros “O Erro de Descartes: Emoção, Razão e Cérebro humano” (1994), “O Sentimento de Si: Corpo, Emoção e Consciência” (2000) e “Ao Encontro de Espinosa: As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir” (2003). Os livros têm em torno de duas décadas, mas ele foi o grande desbravador dessa área.

Sobre religião e movimento social sugiro os livros “Cristianismo Revolucionário” (1984) e “Anarquia e Cristianismo” (1988) do filósofo, sociólogo e teólogo francês Jacques Ellul e os livros “O Socialismo e as Igrejas: o Comunismo primitivo dos Primeiros Cristãos” (1905) e “A Sociedade Comunista Primitiva e sua Dissolução” (1916) da filósofa, feminista e militante comunista polonesa e alemã “Rosa Luxemburgo”.

E para mais informações sobre os Celtas, os Druidas e sua espiritualidade recomendo os livros “Eco dos Druidas” (2019) de Yuri Levy/Nolando, “O Gênio Céltico e o Mundo Invisível” (1927) de Léon Dennis e “Uma Luz Sobre Avallon – Celtas e Druidas” (1994) de Maria Nazareth Alvin de Barros. E para um passeio sobre a cultura celta através de um livro que utiliza sua própria linguagem, marcada pela poesia e pelo ritmo da contação de histórias, ricamente ilustrado com símbolos e desenhos de inspiração celta, a belíssima obra “O LIVRO CELTA DA VIDA E DA MORTE – Deuses, Heróis, Druidas, Fadas, Terras Misteriosas e a Sabedoria dos Povos Celtas – UM GUIA ILUSTRATIVO” (2011 no Brasil pela Pensamento) da historiadora britânica Juliette Wood, uma das maiores autoridades mundiais sobre história, cultura, folclore e literatura dos Celtas.




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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