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Por Maria Helena Dolan | 08/04/2021

Uma nativa de Massachusetts, Dr. Marie Equi nasceu em uma casa ítalo-irlandesa. Ela passou muito dos seus primeiros anos na Itália. Com 21 anos, ela se mudou com sua esposa “Boston Marriage[1]”, Bess Holcomb, para Dalles no Oregon em 1893.

A Bess foi oferecido um trabalho como professora por lá. De acordo com os relatos posteriores dos jornais, o empregador de Holcomb – o reverendo Orson D. Taylor – se recusou a pagar o prometido salário de cem dólares. Em uma confrontação barulhenta e raivosa, Marie ameaçou publicamente bater nele com um chicote de cavalo. E ela cumpriu sua ameaça.

Infelizmente, Bess não recebeu seus dólares prometidos, mas a comunidade local deu bastante apoio a essa ação, e então o chicote foi rifado. Com isso, Marie e Bess receberam uma quantia que excediam os cem dólares…

O casal se mudou para San Francisco, na Califórnia, mas Marie foi para Portland, no Oregon, onde se graduou na faculdade de medicina e então iniciou sua atividade médica em 1903. Ela se tornou uma das pouquíssimas doutoras que faziam abortos abertamente, e ela fazia isso para mulheres de qualquer classe, raça ou etnia, incluindo imigrantes que não falavam inglês.

No terremoto de San Francisco de 1906, Marie organizou um grupo de doutores e enfermeiras de Portland para prover ajuda humanitária à cidade devastada, em uma ação que a fez ganhar a Comenda Especial do exército estadunidense.

Logo depois, ela conhece Harriet Speckart, que começou a trabalhar como assistente de Marie. As duas começaram uma relação de 20 anos, dividindo casas em San Francisco e várias outras residências em Portland.

Harriet era uma das herdeiras do Olympia Brewing Company[2]. Mas sua família ameaçou deixar ela de fora da herança, caso ela não abandonasse Marie. Harriet se recusou a abandonar sua amada. As duas eventualmente adotaram uma menina e criaram ela juntas.

Em 1913, Marie se uniu a uma ação grevista organizada pelo Industrial Workers of the World[3], em apoio à luta das trabalhadoras femininas contra as terríveis condições de trabalho do Oregon Packing Company. A polícia a agrediu ferozmente enquanto dava socorro a uma grevista que tinha sido espancada até o chão. A sistemática brutalidade empregada para por fim a greve provou ser o que faltava para Marie denunciar o capitalismo, se tornar anarquista e se unir ao IWW.

Ela foi uma forte defensora do direito das mulheres terem controle sobre o próprio corpo, Marie ajudou Margaret Sanger escrevendo panfletos em defesa do controle de natalidade e, depois disso elas se tornaram amigas de longa data. Em 1916, elas foram presas juntas quando promoviam uma campanha nacional em favor do uso de aparelhos contraceptivos.

Com a esperada adesão dos Estados Unidos à primeira grande guerra que estava se aproximando na Europa, Marie se aliou a American Union Against Militarism (União Americana Contra o Militarismo). Durante um protesto antiguerra no centro de Portland em 1916, ela desenrolou uma faixa onde se lia:

“PREPAREM-SE PARA MORRER, TRABALHADORES.

J.P. MORGAN & CO QUEREM ESTAR PREPARADO PARA O LUCRO”

O seguinte protesto, ainda que menor, fez ela ser presa. Em dezembro de 1918, ela foi processada sob a nova revisão do Espionage Act[4] por estar contra a guerra. “O verão vermelho[5]” aconteceu meses depois. Durante esse período terrível, o conflito racial e a histeria “anticomunista” ferveu e reinou descontroladamente em grande parte dos Estados Unidos. O governo varreu dezenas de milhares, muitas foram presos, e outros milhares foram deportados como “antiamericanos”.

Durante esse calunioso e desavergonhado processo, o agente especial William Byron do Dep. de Justiça foi testemunhar. Ele deu detalhados relatórios obtidos através da sua implacável perseguição e investigação. No seu depoimento, ele denunciou Marie como uma: “anarquista, degenerada e abortista”.

Ela foi – sem surpresa – condenada por conspiração. Seus advogados tentaram anular a condenação sem obter sucesso. Em outubro de 1920, ela iniciou sua sentença de três anos na prisão de San Quentin (logo depois sua sentença foi reduzida a um ano e meio).

Por todos os relatos, ela era uma prisioneira extremamente difícil e não cooperativa. Mas enquanto esteve encarcerada, ela tentou amenizar a horrível condição de vida das mulheres aprisionadas. No natal, ela implorou aos amigos que enviassem presentes a 20 mulheres que a deixou particularmente sensibilizada, pois viviam em condição de extrema privação.

Em 1921, o então diretor do gabinete de investigação J. Edgar Hoover[6] acusou Marie de estar associada a Elizabeth Gurley Flynn, Anita Whitney e Emma Goldman… e também de ser uma profissional do aborto.

De 1928 à 1936, a já conhecida agitadora e comunista do IWW Elizabeth Gurley Flynn foi morar com Marie. Poucos anos antes, ela tinha tratado Flynn, trazendo a sua saúde de volta, após um ataque cardíaco ocorrido durante a turnê na costa oeste dos EUA em favor de Nicola Sacco e Bartolomeu Vanzetti.

Com a chegada da idade, Marie aparecia menos aos olhos públicos. Mas um amigo de infância do seu neto visitou a casa de Marie muitas vezes durante sua velhice. Ele descreveu Marie décadas depois como um “terror sagrado”. Ela morreu na cidade de Portland com 74 anos.

Fonte: https://thegavoice.com/outspoken/dr-marie-equi-medical-doctor-abortionist-feminist-lesbian-anarchist-labor-and-prison-activist/

Tradução > Ligeirinho

Notas do tradutor:

[1] Segundo a Wikipédia, “casamento Boston”é termo antigo que define a coabitação de duas mulheres ricas, sem depender financeiramente de nenhum homem.

[2] A companhia de cerveja Olympiaque ainda está em atividade.

[3] O “IWW”, Trabalhadores Industriais do Mundo, associação sindical que continua em atividade até hoje.

[4] Lei estadunidense antiespionagem.

[5] Conflito civil pós-primeira grande guerra que culminou com a morte de centenas de negros por grupos supremacistas brancos com o apoio das autoridades.

[6] Ele depois se tornaria o primeiro diretor do FBI.

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