Abril 12, 2022
Do Passa Palavra
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Por João Bernardo

Publiquei aqui recentemente Oito Teses Sobre o Colapso da Esquerda, procurando mostrar como a deriva da luta de classes para a geopolítica levou uma grande parte da extrema-esquerda — ou daquela a que, por falta de outro nome, continuamos a chamar assim — a apoiar a invasão da Ucrânia pelos exércitos de Putin. «O postulado fundamental do fascismo passou a caracterizar a esquerda após a segunda guerra mundial», destaquei eu na segunda dessas Teses, e entende-se então que aplaudam a expansão imperialista do regime presidido por Putin, em que o fascismo predomina.

Na 3ª versão do Labirintos do Fascismo, difundida em 2018, escrevi que «se recordarmos o ideal de comunismo que lhe deu origem e lhe serviu de legitimação, o maior fracasso do sistema soviético, culminando a série de outros fracassos, foi ter gerado uma sociedade onde os fascismos clássicos e até o racismo de inspiração nacional-socialista, mesmo desprovidos de ligações directas ao passado, encontram condições para ressurgir e prosperar. Aliás, talvez a linha de raciocínio deva ser diferente e possamos usar a difusão do fascismo e da extrema-direita nacionalista na Rússia actual como critério para reavaliar as tendências de evolução do regime soviético». Com uma pequena alteração, mantive esta formulação na 4ª versão da obra, que será publicada em breve por uma editora de São Paulo. Continuo a pensar o mesmo. Tentando manter a lucidez no meio do colapso, procurei mostrar que o empenho na geopolítica leva uma parte considerável da extrema-esquerda a simpatizar com o actual regime russo, directamente inspirado pelo fascismo.

É certo que existem organizações fascistas na Ucrânia, como existem um pouco por todo o mundo, mas a sua expressão eleitoral não é significativa. O antigo primeiro-ministro e ex-presidente da Federação Russa, agora vice-presidente do Conselho de Segurança desse país, Dmitry Medvedev, recordou há dias que o projecto de Putin consiste em «criar uma Eurásia aberta — de Lisboa a Vladivostok». Talvez Putin queira em breve invadir Portugal, um país onde os fascistas do Chega ocupam a terceira maior bancada do parlamento, com 7,18% dos votos, o que não sucede com os fascistas da Ucrânia.

Mas aquelas Oito Teses foram publicadas no dia 8 de Março, já lá vai mais de um mês, e ao longo deste período a operação militar russa não conseguiu um único dos objectivos a que inicialmente se propusera, sem que, no entanto, essa tal extrema-esquerda tivesse deixado de aplaudir a invasão. Pelo contrário, em muitos casos os aplausos tornaram-se mais estridentes.

1. Putin declarou que a Ucrânia tencionava ingressar na NATO, o que representaria para a Rússia um enorme risco, dada a possibilidade de se instalarem armas atómicas junto às suas fronteiras. Mas, além desse desejo do governo ucraniano de ser aceite na NATO se destinar só a efeitos propagandísticos, sobretudo internos, devemos logicamente deduzir que é um perigo ainda maior para a Ucrânia e para outros países europeus fazerem fronteira com a grande potência militar russa, que dispõe de um gigantesco arsenal de armas atómicas.

2. Putin anunciou que queria desmilitarizar a Ucrânia, mas é a própria guerra a deixar esse país cada vez mais militarizado, recebendo um apoio em armas, munições e outro material bélico que nunca obteria se não fosse a invasão russa.

3. Putin pretendeu fazer a NATO recuar, mas em consequência da guerra ressurgiu essa aliança, que estava quase moribunda devido ao declínio económico e político dos Estados Unidos, ao isolacionismo da administração Trump e às propostas no interior da União Europeia para a criação de um exército europeu. Para completar o fiasco, a Finlândia e a Suécia, países tradicionalmente neutrais, anunciaram a possibilidade de entrar na NATO, que por seu lado se mostrou disposta a acolher esses novos membros.

4. Putin conduziu durante anos uma acção persistente tendo em vista minar a União Europeia, e para isso apoiou política ou financeiramente os partidos europeus defensores das soberanias nacionais, tanto à direita como à esquerda do leque político e incluindo movimentos fascistas. Ora, perante a invasão da Ucrânia, a União Europeia passou a mostrar um grau de unidade que já há muito não era visto. Um exemplo eloquente é o do Grupo de Visegrád, que reúne os quatro países mais euro-cépticos, e em que resta agora um único a apoiar Putin (Hungria), enquanto os outros três (Polónia, República Tcheca e Eslováquia) se situam na primeira fila da hostilidade ao regime russo.

5. Putin declarou que os ucranianos eram o mesmo povo que os russos e partilhavam a mesma cultura, sendo por isso indispensável juntá-los à Grande Rússia. Mas depois desta invasão, e durante muitas gerações, os ucranianos hão-de sentir um abismo a separá-los da Rússia e o expansionismo de Putin terá criado uma inimizade profunda entre os dois povos.

6. Putin alegou que muitos ucranianos haviam apoiado a ocupação dos territórios soviéticos pelo Terceiro Reich durante a guerra mundial.

Mas os nacionais-socialistas consideravam os ucranianos Untermenschen, sub-homens, equiparados aos russos, e por isso a Wehrmacht não beneficiou de um apoio que decerto muitos ucranianos lhe desejariam dar, já que haviam sido vítimas da forma como Stalin conduzira a colectivização da agricultura. Em Julho de 1942 Hitler insistiu expressamente que na Ucrânia fosse reduzida ao mínimo a instrução escolar, que não se efectuassem nenhuns melhoramentos nas cidades, que se limitassem estritamente os serviços médicos e sanitários e ficasse proibida aos cidadãos do Reich a residência no interior dos habitats ucranianos. E assim se exterminou boa parte da população culta, reduziu-se o sistema de ensino a um nível elementar, provocou-se artificialmente uma incrível deterioração das condições de subsistência dos autóctones e enviaram-se para trabalhar no Reich, em sistema de escravidão, centenas de milhares de ucranianos, que por estarem subalimentados eram facilmente vítimas de doenças. A impiedosa política racial prosseguida por Hitler e Himmler fez com que os exércitos do Reich não contassem com o apoio da população dos territórios eslavos ocupados.

Neste contexto, convém saber que as autoridades nacional-socialistas remeteram para um campo de concentração o nacionalista ucraniano Stepan Bandera, que pretendia apoiar o Reich na guerra contra os soviéticos em troca da independência do seu país, e em Novembro de 1941 prenderam os outros dirigentes deste movimento, que de então em diante actuou sem o apoio oficial do Reich. Só no Outono de 1944, quando a Ucrânia havia já sido libertada pelo Exército Vermelho, é que Bandera e os restantes dirigentes foram postos em liberdade e autorizados a prosseguir a luta pela independência.

A única excepção foi a Galícia ucraniana, uma província que havia tido tradições militares no império dos Habsburgos, e tanto Himmler como Bormann consideravam que os seus habitantes se distinguiam etnicamente da restante população da Ucrânia. Foi na Galícia, e só ali, que os SS recrutaram ucranianos, mas dos oitenta e dois mil homens que se apresentaram só 1/3 foi aceite e menos ainda foram chamados para o serviço militar. Aliás, parece que na Galícia haviam sido permitidos estabelecimentos de ensino superior e uma estrutura política rudimentar.

7. Putin anunciou que iria libertar os ucranianos de uma alegada hegemonia exercida pelos neo-nazis, contando nesta tarefa com o auxílio do eterno presidente da Bielo-Rússia, Alexandr Lukachenka, o mesmo que em 1995 revelara publicamente a sua admiração por Hitler, e dispondo também da milícia Wagner, fundada por Dmitry Utkin, um ex-militar russo que se enfeitou com tatuagens nazis e de quem se conhece uma fotografia ao lado de Putin, num evento no Kremlin em Dezembro de 2016. Mas o certo é que mais de 1/4 da população ucraniana fugiu dos libertadores e os restantes pegaram massivamente em armas para resistir à invasão.

Em suma, Putin e os seus generais planearam uma campanha rápida, em que os exércitos avançariam entre as ovações da população, mas tudo o que fizeram e anunciam fazer são chacinas e destruições. Como é possível aplaudir isto, já não digo em nome dos valores que deviam ser os de uma extrema-esquerda, mas mesmo da simples inteligência?

Os desenhos são de Roland Topor (1938-1997).




Fonte: Passapalavra.info