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Fazer o bem pela força por Errico Malatesta


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Queridos companheiros do L’Idée[1],

Ao publicar o meu artigo “Devoir d’aujourd’hui” no seu número de 15 de setembro de 1894, vocês fizeram, além de outras poucas mudanças sobre as quais não devo enveredar já que não possuem importância, um ao qual devo discordar com o fundamento que distorce completamente o meu pensamento e, de fato, me parece uma negação da própria ideia de anarquismo, como eu o entendo a qualquer custo.[2]

Onde digo que “nossas ideias nos obrigam a por todas as nossas esperanças nas massas, pois não acreditamos na possibilidade de impor o bem pela força”, vocês acrescentaram “pelo menos por enquanto”. Querendo dizer que, mais pra frente, uma vez que sejamos os mais fortes, imporemos o Bem. . .ou o que for que acreditamos que seja tal, pela força.

Qual, nesse caso, é a diferença entre nós e os partidos autoritários?

Nós somos anarquistas porque sustentamos que ninguém é dono da verdade absoluta, e ninguém está abençoado pela infalibilidade; porque acreditamos que o tipo arranjo social que há de responder melhor às necessidades e sentimentos de todos, só pode ser resultado – o sempre ajustável resultado – do livre jogo de todas as partes interessadas; e porque acreditamos que a força embrutece tanto o usuário quanto o objetivo, enquanto que só por meio da liberdade e da responsabilidade que deriva dela podem as pessoas aprimorar moral e intelectualmente a si mesmas ao ponto em que já não podem mais tolerar governos.

Além do mais, se, como vocês parecem reconhecer, virá um dia no qual nós também possamos e imponhamos nossas ideias pela força, quais, precisamente, são as ideias que serão impostas? As minhas, digamos, ou as ideias do companheiro A ou do companheiro B!. . .Pois concordarão que não há quatro anarquistas que se vejam completamente cara a cara; o que é muito natural, a propósito, e um sinal da vitalidade do partido.

Pensei que o ponto essencial sobre o qual concordávamos todos e que nos tornava anarquistas era este princípio: sem imposição e sem força outra que a força do argumento e do exemplo. Se me equivoca aqui, não vejo que tenha muito mais no anarquismo.

Agora, se – talvez por alguma falta de clareza da minha parte – vocês pensaram que me referia à força como meio necessário para evitar a força do governo, e para por todos os meios de produção atualmente monopolizados por uns poucos na ponta da baioneta a disposição de todos e abrir o caminho à evolução social livre com a contribuição de todos, então novamente me oponho à frase “pelo menos por enquanto”, que me atribuíram. Não foi minha intenção no artigo ir até a questão do apelo às armas; e pode muito bem ser que eu seja da opinião de que, em certos países e em certas circunstâncias, neste momento poderia ser o momento correto para se proteger da violência com a violência.

Confio, queridos companheiros, em seu sentido de justiça e seu amor à verdade na publicação desta carta. Como eu, pensarão vocês que a melhor maneira de nos familiarizarmos e alcançarmos a maior medida possível de acordo entre nós, é deixar a cada pessoa a liberdade de articular seus pensamentos tal como são, sem nenhum tipo de censura.

Os melhores votos para vocês e para a causa.

Tradução: Inaê Diana Ashokasundari Shravya (IEL)


[1]     Originalmente publicado como “Le bien par le force”, L’Idée (Saint-Josse-ten-Noode, Bélgica), no 7(15 de outubro de 1894). A tradução para o inglês foi feita a partir da reimpressão do texto original em Le Réveil Anarchiste (Gêneva) 27 [recte 37], no 972 (1 de maio de 1937).

[2]     O artigo em questão é uma tradução francesa de “The Duties of the Present Hour” [Os deveres da hora presente], incluído no livro editado Davide Turcato, que conta com traduções de Paul Sharkey, de onde este texto foi extraído. [N.T.]




Fonte: Ielibertarios.wordpress.com
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