Outubro 2, 2021
Do Jornal Mapa
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O massacre de Tiananmen, o Casino Estoril, os alguidares de plástico, a EDP e os seguros Fidelidade

Há acontecimentos, coisas, factos, que, em toda inocência, parecem não ter relação nenhuma entre eles e que finalmente fazem parte de um mesmo problema, cada um deles revelando um aspecto particular de uma situação, de uma evolução global. Andava a ruminar esta questão quando me chegaram às mãos dois livros sobre o massacre de Tiananmen de 1989, cujo triste aniversário acaba de passar uma vez mais sem que se lhe atribua a sua verdadeira dimensão, o de uma data essencial da época contemporânea 1.

No livro Le grand massacre de Tian’ amen, abro ao acaso na página 46, no «caso 6» e leio: «Liu Fenggen, sexo masculino, 40 anos, operário na fábrica de ferramentas de extracção, dependente do ministério da Geologia. Na noite de 3 de Junho de 1989, por volta das 22 horas, movido pelo sentido do dever, sai de casa para socorrer os feridos. Vítima de um intenso tiroteio, é abatido por três balas, nas costas, no pescoço e no coração. Morre no Hospital da rua Erlong.» Mais adiante, página 86, há o «caso 175» onde leio: «Xang Junjing, sexo masculino, 30 anos, técnico na fábrica dependente da Direção dos Contadores de Pequim, que se encontra junto ao Templo da Torre Branca. No dia 5 de Junho de 1989, por volta das 10 horas da manhã, quando se desloca para o seu local de trabalho, depara-se com os soldados encarregados de aplicar a lei marcial; um tiro de bala explosiva destrói-lhe um rim e o coração. Levado para as urgências do hospital Xiehe, morre sem que o possam socorrer. Quando a sua família vem identificar o corpo, mais de 40 cadáveres acumulam-se no hospital.» São assim reportados no livro duzentos e dois «casos» de homens e de mulheres, de crianças e de idosos, assassinados pelas tropas do governo chinês, duzentos mil homens e tanques, chamados a Pequim no dia 4 de Junho de 1989, para aplicar a Lei Marcial e pôr fim ao movimento democrático da praça Tiananmen.

Tiananmen

A lista foi elaborada, por iniciativa da Sr.ª Ding Zilin, por mulheres de Pequim que tiveram familiares entre as vítimas e que constituíram em seguida o grupo informal das «mães de Tiananmen» retomando a referência das «mães da praça de Maio» em Buenos Aires. Como se pode facilmente imaginar, trata-se de uma lista não exaustiva; as pressões e a repressão do Estado totalitário chinês pesam sobre a liberdade de expressão. Os números divergem: 10 000, 3400, 2700 mortos… O número exato nunca será conhecido e tem pouca importância para o significado do acontecimento, um massacre de Estado. A lista foi recentemente transmitida ao escritor dissidente Liao Yiwu, que saiu da China em 2010 para se refugiar em Berlim. No seu livro Des balles et de l’opium, Liao reuniu uma dezena de entrevistas com sobreviventes. Textos intensos onde o humor e o sarcasmo se misturam com a coragem e a dignidade de vítimas do massacre, gente que percorreu durante anos o longo caminho da prisão, das torturas e das perseguições, gente que, mesmo assim, aceitou falar, contar. São, na sua grande maioria, «arruaceiros» de Tiananmen, tal como foram catalogados todos os revoltosos que não integravam a casta elitista estudantil. «Os arruaceiros eram simples habitantes de Pequim, (…) os quais, animados por uma legítima indignação, tinham tido a ousadia de lutar contra a injustiça.» 2. Na curta introdução ao Le grand massacre du 4 Juin, o tradutor Hervé Denès 3 situa os acontecimentos numa perspectiva histórica e dá-lhes a sua verdadeira dimensão. Escreve: «O dia 4 de junho fica como uma data chave na história da China. Antes, havia ainda uma débil esperança de democratização do regime. [O massacre] é o toque de finados de toda esperança de flexibilidade. O poder absoluto de Xi Jinping — o imperador actual — e o projecto declaradamente totalitário e belicista do Estado chinês são os frutos tóxicos desta tragédia.»

Para Liao Yiwu: «O Grande Massacre do 4 de Junho traçou uma fronteira. Antes, toda a gente, como um enxame de abelhas, zumbia à volta do patriotismo; a partir desse momento, todos, em filas cerradas, se aglutinaram à volta do dinheiro.» 4 Esta ideia de Liao é o eixo da sua análise da evolução recente da China. Para ele, o massacre de Tiananmen foi o acontecimento que inaugurou a rápida transformação do capitalismo de Estado numa forma híbrida de capitalismo selvagem privado num quadro jurídico de totalitarismo de Estado. Foi este massacre que legitimou todas as sucessivas fases de repressão necessárias ao funcionamento desta forma nova de capitalismo. E que submeteu as forças capitalistas mundiais ao Estado chinês. «[…] A economia chinesa conhece um desenvolvimento prodigioso. Segundo uma opinião que está na moda na cena internacional, o desenvolvimento económico acabara por provocar uma reforma política que permitia às ditaduras orientarem-se para a democracia. Ao mesmo tempo, cada um dos países ocidentais que sancionaram a China depois do massacre do 4 de Junho agita-se para fazer negócios com os carrascos, embora estes continuem a prender e a torturar gente. As novas manchas de sangue encobrem as antigas. (…) os carrascos triunfam; o país, que eles pilham e destroem com gosto, tornou-se o seu escravo.» 5

A lista das mães de Tiananmen, reproduzida em Le Grand massacre du 4 juin, poderia ser uma leitura macabra, mas, pelo contrário, é um texto intenso e, embora perturbador, rico de informações e instrutivo. O seu aspecto sociológico, especificando a composição social das vítimas, permite sublinhar a natureza de classe da revolta que respondeu à intervenção militar e que terminou no massacre. Sem diminuir a importância e o sentido do movimento essencialmente estudantil que animava a ocupação da praça, o documento confirma o que já se sabia. Foi a insurreição dos bairros populares de Pequim e o empenho progressivo dos trabalhadores da capital na revolta democrática contra o regime da burocracia vermelha que marcou uma reviravolta e obrigou o poder a optar pela repressão sangrenta. Da mesma maneira que o Maio 68 não foi só um movimento estudantil, o movimento à volta da ocupação de Tiananmen foi muito mais que uma simples mobilização estudantil. Liao Yiwu lembra que a máquina da comunicação social ocidental insistiu sempre em apresentar os estudantes como «os heróis de Tiananmen», esquecendo assim a real composição de classe da revolta. E lembra também que os estudantes, que se consideravam como uma elite de classe, tentaram, desde as primeiras horas, utilizar os trabalhadores que acorreram à praça como seus servidores, atribuindo-lhes funções de polícia e de protecção dos chefes estudantis, indo mesmo ao ponto de tentar opor esta «guarda pretoriana» ao povo revoltado e enraivecido 6. Foi manifesto o fraco entusiasmo dos trabalhadores para desempenhar este papel de mercenários dos chefes estudantis, e alguns destes jovens trabalhadores revoltados iriam constituir os «arruaceiros» que Liao Yiwu vai conhecer e entrevistar na prisão, sobreviventes do selvagem massacre dos dias 3 e 4 de Junho e dos dias e meses seguintes. Na sua introdução, Hervé Denès chama a atenção para o facto de que se assistiu na praça Tiananmen a uma tentativa de auto-organização operária, apesar da arrogância e do desprezo de classe que a grande maioria dos estudantes democratas formados na escola maoista das elites exprimia relativamente aos trabalhadores e ao povo em geral. A tentativa de criação de «Uniões Operárias Autónomas» constituiu um desenvolvimento inquietante para o poder comunista, perturbado pela revolta polaca do Solidarnosc e pela Perestroika soviética 7.

«O Grande Massacre do 4 de Junho traçou uma fronteira. Antes, toda a gente, como um enxame de abelhas, zumbia à volta do patriotismo; a partir desse momento, todos, em filas cerradas, se aglutinaram à volta do dinheiro.»

Assim, não é de espantar que um número significativo de vítimas do massacre de 3 e 4 de Junho 1989 seja constituído por gente do povo, trabalhadores, desempregados, estudantes e jovens, confirmando a dimensão popular da insurreição. Alguns foram executados após terem sido feridos, fora da praça, por vezes mesmo nas salas de espera dos hospitais, nos bairros de Pequim onde a multidão tentou opor-se à passagem das tropas. As notas escritas sobre cada um dos casos fornecem também elementos preciosos sobre a maneira como o povo da capital viveu a situação, como o movimento estudantil era visto, como se exprimiu a solidariedade entre os estudantes e as pessoas que desceram à rua. Uma frase repetida por muitas das vítimas e recordada nos testemunhos das mães assinala a consciência aguda da importância do momento: «Vivemos um momento histórico.» Sobre a atitude do governo, os testemunhos coincidem em sublinhar o lado bárbaro da repressão militar, o desprezo do povo e a arrogância cínica do poder do partido comunista.

Poucos anos após a experiência sangrenta da Grande Revolução Cultural, a natureza totalitária da classe dirigente chinesa confirmou-se. Em poucas páginas, por entre as linhas, descobrem-se os contornos que caracterizam o poder do partido comunista. A sua ligação directa às forças armadas, a instituição que se mantém como a coluna vertebral do regime, é o sinal da fraqueza e da fragilidade da classe dirigente chinesa, incapaz de se adaptar às formas democráticas de mediação e de consenso, como acontece nas sociedades do velho capitalismo. O seu único ponto de apoio é a força bruta, o seu único modo de funcionamento é a relação de forças. Os trabalhadores chineses sabem, por experiência própria, com o que contar; no dia 4 de junho de 1989, tiveram uma vez mais a prova pelo terror. Sabem que nada de fundamental mudou depois. As especulações e elucubrações à volta dos direitos do Homem e da evolução possível do regime esvaziam-se perante a verdade bruta dos factos e a sua natureza intrinsecamente totalitária. O futuro fica marcado pelo passado, pelo sangue derramado.

Numa recente passagem pela Europa, um advogado comprometido com o apoio às greves selvagens na região de Cantão falou do reforço da repressão de Estado sob o reino do atual imperador vermelho, Xi Jinping. Repressão que atinge inclusivamente as tendências ditas «neo-maoistas», que até há pouco tentavam organizar uma rede de «clubes marxistas», sob o olhar tolerante do partido e à sombra do estudo da teologia maoista e dos cartazes gigantescos do déspota Mao. Mesmo estes clubes são objecto de medidas disciplinares e os seus militantes mais activos são presos, ao abrigo do velho princípio marxista-leninista segundo o qual: «Ser marxista é obedecer ao partido!» Interrogado sobre a memória do grande massacre de 4 de Junho, este mesmo militante, após um momento de hesitação, respondeu: «É uma questão que eu nem sequer me arrisco a levantar!» O terror das represálias continua a enterrar a recordação do massacre nas profundezas da memória. Mas um silêncio tão pesado, forçado, sobre um acontecimento desta importância, não pode ser definitivo, e a memória social irá reemergir um dia. Sabemos que isso acontece na história das ditaduras. Já hoje, a linguagem popular refere-se ao «Grande massacre» como a «Catástrofe mineira do 4 de Junho» 8, utilizando de forma sarcástica a fórmula autorizada para os acidentes de trabalho nas minas que continuam a fazer milhares e milhares de mortos.

Vimos que Liao Yiwu defende que o Grande Massacre de Tianamen foi um acontecimento marcante na expansão recente do capitalismo chinês. Com duas consequências bem evidentes no plano mundial: a sua orientação predatória, imperialista, de pilhagem de matérias-primas, de tomada de controlo de sectores que lhe são indispensáveis e podem ser fonte de lucros; e a exportação de uma nova classe de «emigrantes», que formam o que Liao Yiwu chama «a emigração da corrupção» 9. Tudo isto embrulhado na harmoniosa expressão da «Nova Rota da Seda».

Chegados a este ponto da grande História, e sem abusar da «dialéctica» da compreensão materialista do mundo, observemos por uns instantes o que se passa no palco da história do nosso país. Os alguidares vendidos nas lojas chinesas das povoações do interior ao abandono, os seguros Fidelidade e as mesas de jogo do Casino Estoril fazem parte de uma mesma lógica do lucro capitalista. São consequência directa do massacre de Tiananmen, da vitória da classe dirigente chinesa sobre o seu povo revoltado. Uma lógica que integra as empresas chinesas que produzem a mercadoria-porcaria para o conjunto do planeta, o gigante financeiro Fosum que comprou em 2014 a Fidelidade, a China Three Gorges Corporation que comprou a EDP. O sorridente e afável Sr. Choi Man Hin, que dirige a administração do grupo Estoril Sol em nome da respeitável família Ho de Macau (da qual eu não direi nada de mal porque tenho grande apreço pela saúde e bem-estar do pessoal da redacção do Mapa), faz também parte do espectáculo. Em dez anos, a China investiu biliões em Portugal, o equivalente de 3% do PIB, que é a maior percentagem de todos os países europeus onde a China investe. As leitoras e leitores do Mapa sabem que o país está à venda ao desbarato, e não é de surpreender que os capitalistas chineses venham às compras, eles que adoram os saldos. Dito isto, o minúsculo modelo do espaço económico e político da região portuguesa ilustra perfeitamente a tendência e a evolução do capitalismo chinês, centrado na compra e pilhagem de empresas de interesse económico estratégico e capazes de fornecer margens de lucro interessantes. A chegada de vários exemplares da «emigração da corrupção» com Visas Gold é outra das consequências. Dito de uma forma mais crua, os fantasmas dos mortos de Tiananmen pairam nas salas do casino Estoril, nas actividades e negociatas da Fidelidade Seguros, da EDP, do grupo de engenharia civil Profabril e outras empresas do raquítico capitalismo lusíada. E cada Visa Gold atribuído a um membro da nova burguesia corrupta chinesa é visto pelos deuses como uma afronta aos espíritos errantes dos mortos de Tiananmen.

Cada Visa Gold atribuído a um membro da nova burguesia corrupta chinesa é visto pelos deuses como uma afronta aos espíritos errantes dos mortos de Tiananmen.

Entramos num território que se encontra fora da humanidade, as cavernas negras do capitalismo. Mundo onde se agitam os cúmplices cínicos dos massacres de Estado, onde evoluem os monstros da política e das relações mercantis. Que não são responsáveis de nada, que esbugalham os olhos quando se menciona toda esta relação complexa dos acontecimentos, de massacres, de rios de dinheiro e de sangue. Gente que sabe lavar as mãos, que não gosta de gotas de sangue nas camisas e nas gravatas. Não fica mal expor algumas fotos, dar rosto aos amigos lusitanos dos carrascos de Pequim. Uma galeria de personagens que não só não vão chorar as vítimas de Tiananmen como até vão aplaudir com entusiasmo a vitória do exército chinês sobre o seu povo. Lá estão os vários gestores, o Sr. Magalhães Correia da Fidelidade, o Sr. Ayala Serôdio da Profabril, e outros menos conhecidos. Sem esquecer a Srª Fernanda Ilhéu, que preside aos «Amigos lusitanos da Nova Rota da Seda», uma referência às amizades com os carrascos de Pequim. Mas há também as fotos dos altos funcionários do Estado, entre outros que já foram e outros que virão. A preto e branco, lá está o Sr. Centeno, diplomado pela «Escola Superior de Contabilidade Oliveira Salazar», que mistura alguidares, seguros, eólicas e máquinas de casino, que não tem nada a declarar e não vai criticar massacre nenhum, que o que o inquieta são as Regras de Bruxelas sobre o Orçamento. Para ele, o que conta são os bilhetes verdes do capitalismo chinês e dos emigrantes da corrupção que continuam a chover nas caixas dos bancos do país transformado num grande campo de golfe. Mesmo ao lado, noutra foto, a cores desta vez, está o Sr. Costa, comerciante reconhecido internacionalmente. Para ele também a conversa sobre o massacre é no comment, o sangue derramado não tem nada a ver com a Fidelidade ou o Casino Estoril, nem com os Visas Gold para compradores chineses de palácios em ruína. Que diabo, há que ser realista, «o país é uma economia aberta e atractiva», repete o apparatchik sorridente, e não se vai irritar o Sr. Choi Man Hin com tão pouco, uns tantos milhares de mortos, opor uma sórdida contabilidade ao sucesso da linha justa da classe dirigente chinesa.

Por enquanto, a festa continua. Champanhe para todos e segue o jogo nas mesas de bacará do Casino Estoril.


Artigo publicado no JornalMapa, edição #24, Agosto|Outubro 2019.




Fonte: Jornalmapa.pt