Abril 15, 2021
Do Jornal Mapa
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No túnel da máquina do tempo

Saio da cápsula espacial, tiro o escafandro, ponho a máscara e entro no túnel da máquina do tempo. Dizem-me que a passagem pelo passado é necessária para a descoberta do futuro. O que explica que, logo à entrada, a placa direcção Futuro esteja ao lado da que diz Passado presente. A bifurcação deve fazer-se mais longe… Eu sei que o território do passado é minado, cheio de perigos e de armadilhas. Mas não vejo outra alternativa, vou prevenido e pronto para o que der e vier.

Na penumbra do túnel cruzo-me logo de início com um fantasma de ar sério e compenetrado, conhecido como um antigo devoto do déspota Mao Tsé-Tung, que colecciona hoje num armazém tudo quanto são escritos de extrema-esquerda e mesmo mais à esquerda, anarquistas até. A ocupação é estranha, tendo em conta que se trata de ideias de que o fantasma nunca partilhou, mas que faz agora questão de proteger.

Como se o facto de as catalogar como coisas do passado fosse uma maneira de se assegurar de que estão mortas, inofensivas, como ele. Por isso as fecha a quatro chaves no seu armazém, não vão elas fugir pelo túnel do tempo e ganhar de novo vida no presente. De vez em quando, este espectro faz uma revelação teatral sobre um momento do seu passado, a fim de tornar mais instrutivo o percurso de quem avança no túnel do tempo. Desta vez, evoca-nos um episódio ocorrido em meados dos anos 60, uma viagem ao Barreiro à procura da classe operária. A cena é descrita num tom romântico e aventureiro e acaba por sensibilizar o viajante na medida em que o fantasma recorda as aspirações a uma «outra vida» que o animavam na altura. Porquê esta procura? O Barreiro era «o lugar mítico da classe operária, e, como todos os esquerdistas in the making, a terra era simbólica da revolução que desejávamos, mas para a qual não tínhamos mão-de-obra, e duvidávamos sequer de ter a legitimidade de fazer parte dela. O mundo era simples, no Barreiro havia não só operários, havia a “classe operária”, e esta “classe” pertencia ao PCP. Anos mais tarde arrogámo-nos ao direito de a roubar ao PCP, sem nunca ter grande sucesso.» 1 Instrutivo, de facto: nesta curta passagem fica exposto — com uma ironia que não nega a autenticidade do propósito — o fundamento do projecto que guiou muita desta gente «esquerdista» na sua actividade política, naqueles anos e depois, durante a revolução portuguesa. O que falhou, o que não funcionou, foi uma nova aplicação prática dos princípios da social-democracia clássica e das suas variantes activistas do leninismo e do estalinismo. Os trabalhadores eram vistos como um mero factor objectivo do movimento social — a tal «mão-de-obra» — e não como o factor subjectivo essencial da história da emancipação. Mas o insucesso esquerdista foi também a prova de que houve na revolução portuguesa de 1974/75 uma dimensão espontânea e autónoma que chocou com esta velha visão do movimento social e que, por isso mesmo, foi combatida e acabou destroçada pelas duas forças em presença, o PCP estalinista que já tinha a receita bem aplicada e os estalinistas anti-PCP que lhe queriam fazer concorrência. No interior do movimento social libertado pelo desmoronar do regime fascista, as diversas facções do esquerdismo marxista-leninista funcionaram como agentes do velho movimento operário autoritário, vanguardista, contra as energias novas do movimento espontâneo de espírito mais autónomo. Como mostra claramente Phil Mailer no seu livro sobre a revolução portuguesa 2, as forças que os trabalhadores em luta pensavam ser amigas eram finalmente as inimigas, opostas ao desenvolvimento de um poder autónomo de classe. Contas feitas, o falhanço do projecto de «roubar» a classe operária ao PCP integrou a perpetuação do velho mundo. A frustração do insucesso encaminhou muitos dos aspirantes a «chefes» para o campo da política capitalista clássica, onde estavam abertas as candidaturas. As aspirações a uma «outra vida» adaptaram-se às novas condições e acabaram de se realizar na mediocridade da vida de sempre, com novas roupagens. Fundidos na politiquice mais ou menos maquiavélica, estes pobres espectros foram condenados a vaguear no túnel da máquina do tempo até ao fim do mundo deles.

Cooperativa Bento Gonçalves

Dois operários agrícolas pela GNR, António Maria do Pomar Casquinha, 17 anos, e João Geraldo “Caravela”, de 57 anos, ambos trabalhadores rurais são baleados mortalmente no peito pela GNR em Setembro de 1979, numa acção de solidariedade contra a devolução das terras ocupadas pela cooperativa Bento Gonçalves, em Montemor-o-Novo.

Continuo o meu caminho e, mais adiante, numa curva do percurso, deparo-me com um outro fantasma que tenta impingir com veemência a sua verdade ao caminhante de passagem. Um fantasma com uma atitude de sabichão arrogante. A questão que ocupa hoje este fantasma sabichão é a relação entre a corrupção e a legitimidade democrática. Como outros arautos de maus augúrios, o espectro clama que os tempos são difíceis e que «a política portuguesa actual e a economia estão infestadas de corrupção» 3.

Aparentemente, contra tal infestação não há máscaras ou distanciamento social que nos proteja. Ao ponto de a inevitabilidade acabar por banalizar o mal. Não escapamos à fatalidade do nosso fado. As razões, acrescenta o espectro especialista, são diversas, históricas e sociais, a lista é longa. A sua mensagem é simples: «Só com a democracia se combate a corrupção.» Mas se a democracia representativa não obtém resultados, se não se vê a diferença com as ditaduras igualmente corruptas, então por que razão insistir em reivindicá-la como receita para a doença? Para o nosso fantasma, parece estar fora de questão sugerir a ideia de que a dita corrupção possa ser inerente ao sistema, ao funcionamento capitalista, independentemente das formas mais ou menos totalitárias da política, democracia autoritária ou ditadura antidemocrática. Evidentemente, o fantasma é um místico rigoroso, um integrista do sistema representativo: «O pior da corrupção é a convicção de que a legitimidade democrática, a que se obtém através do voto, dá direito a tudo! Ora, a legitimidade, sendo excelente, não dá para tudo! […] A legitimidade tem limites, como sejam a moral, o Estado de Direito, as minorias e as instituições» 4. Enfim, mete os pés pelas mãos. Curioso, aproximo-me e reconheço com estupefacção que o espectro sabichão foi um dos executores da restauração do poder capitalista privado no final dos anos 1970, ministro da Agricultura do governo socialista de Soares, artesão implicado na destruição do movimento de ocupação de terras e da reforma agrária, na restituição das propriedades aos latifundiários da velha senhora. Em suma, um defensor da sagrada propriedade privada. Houve sangue, as violentas medidas repressivas nos campos do Alentejo provocaram feridos e alguns mortos. Os nomes destes trabalhadores foram há muito esquecidos e o imundo ministro é hoje espectro «sociólogo» ao serviço da «opinião pública» e dá lições de democracia no túnel da máquina. Há aqui algo que interpela o passante.

As aspirações a uma «outra vida» adaptaram-se às novas condições e acabaram de se realizar na mediocridade da vida de sempre, com novas roupagens.

Esta gente que faz do Estado de Direito um dos seus princípios de pensamento esteve sempre, de uma maneira ou de outra, directamente ligada a formas de poder autoritárias, a começar pelo professor nazi Carl Schmitt. No caso do espectro sabichão, o Estado de Direito que ele evoca foi instaurado pela força das armas contra a agitação popular emancipadora, em abono da verdade, seja dito, já bem enfraquecida e minada pela acção das correntes estalinistas. Mas, tirando eu que estou de passagem, quem é que ainda ouve esta gente, quem é que lê as suas elucubrações? Acelero o passo, preciso de encontrar a bifurcação, a via de saída do túnel que me leve ao ar livre do futuro.

Ainda se ouvem ao longe as gesticulações do precedente espectro quando cruzo mais um morto-vivo que dava por desaparecido na boca do inferno da política. Numa gruta anexa ao túnel vejo reunido um público escolhido de fantasmas do passado, gente com ar distinto e bem-posta que ouve com atenção as palavras reconfortantes do grande fala-barato que foi o artesão emérito do neoliberalismo versão lusitana. Com um ar convencido, qual vendedor de banha da cobra, o fantasma Cavaco Silva revela à assembleia dos discípulos que o seu tempo teria sido o de uma verdadeira governação de modelo social-democrata. Bem sabemos, a condição de espectro não é garantia de ausência de senilidade. Reconheça-se, no entanto, que o propósito do contabilista de mercearia é provocador e tem o mérito de acrescentar mais confusão ao que já não é claro para a grande maioria das almas que trilham os caminhos do túnel à procura de um sentido para a vida. O facto é que, se a corrente socialista se dissolveu na ideia do liberalismo económico, não parecerá incongruente que os liberais se possam considerar como uma espécie macaca de sociais-democratas. Finalmente, tudo isto se resume à diferença abismal que há entre um aumento de 6 euros ou de 10 euros para pensionistas que recebem o balúrdio de 658 euros por mês… até que a Covid-19 lhes bata à porta. No túnel da máquina do tempo a polémica está acesa, os argumentos colidem, os especialistas afrontam-se, os ânimos exaltam-se. Alguns evocam mesmo a oportunidade de efectuar testes para decidir quem é social-democrata e quem é liberal, quem é de direita e quem é de esquerda. Até um observador inteligente e culto que respira fora do túnel do tempo vem ao barulho para questionar a visão segundo a qual a diferença entre esquerda e direita estaria ultrapassada 5. Visão que, segundo ele, estaria fundada «na ideia que se tinha dado um colapso intelectual, ideológico e moral da esquerda e que se teria dado até uma inversão ou uma alternância de valores, de tal modo que deixou de ser evidente quem estava do lado do movimento e quem estava do lado da conservação». Há, no condicional da formulação, um sopro de dúvida e o nosso autor conclui que, finalmente, «a crise mais profunda está do lado da direita», que vive um vazio de valores!? Uma maneira de reconhecer que direita e esquerda continuam a ser categorias viáveis. Só que as referências associadas a estas categorias não convencem. «Quem estava do lado do movimento»…, mas que «movimento» e «movimento» para onde? Façamos um salto para o mundo real.

Quando se trata da corrupção que contamina as instituições, da crise das instituições educativas, do colapso do sistema público de saúde, a esquerda está do lado do movimento? Sim, do movimento destruidor das condições de existência. Não, a crise mais profunda não está nem na direita nem na esquerda, a crise mais profunda é a do sistema político actual de representação. Que é raramente abordada e, quando o é, é-o no plano estritamente ideológico, sem relação com o processo contraditório da economia, com a crise do sistema capitalista. Farto e descontente, evito a balbúrdia, afasto-me da confusão e continuo o meu caminho à procura duma bifurcação para o Futuro. Que me aparece enfim numa curva do túnel. Ao longe começo a distinguir a pequena luz que anuncia a saída da máquina do tempo. Mais um esforço e encontro-me cá fora, ao ar livre, na frescura do dia e com um céu sem nuvens.

Sem o prever, vejo-me no meio de uma manifestação de uma centena de jovens e menos jovens que bloqueiam os acessos à Praça Marquês de Pombal, em Lisboa, uma acção de «desobediência civil pacifica» contra as alterações climáticas, a destruição do mundo 6. «Mudar o sistema, não o clima», está escrito num cartaz.

Uma senhora muito zangada diz a um jornalista que pesca elementos para escrever o seu artigo: «Tenho dois filhos, que não teria se tivesse sido mãe agora, mas já que estão cá, por eles e por todos os filhos dos outros, tenho de fazer alguma coisa por isso.» Mais adiante, um trabalhador reformado reivindica uma maior justiça social que, segundo ele, é inseparável da justiça ambiental. «São os pobres que mais estão a sofrer com as alterações climáticas. Não são os milionários que sofrem com as secas e florestas a arder; pelo contrário, são os multimilionários que mais poluem», grita o mesmo para o jornalista que toma apressadamente notas antes que chegue a polícia. Uma outra senhora, que parece insensível ao discurso bolorento sobre a «legitimidade democrática» do fantasma ex-ministro da contra-reforma agrária, defende que: «O povo tem o direito de fazer a mudança, independentemente do que a vontade de certos governantes possa permitir ou não.» Alto lá, que isto é importante! Estamos perante uma incitação a reflectir sobre a diferença entre a crise de legitimidade da representatividade e a necessidade de repensar a ideia de democracia em moldes novos, compatíveis com um exercício directo da soberania da colectividade. Ou seja, o que a senhora finalmente sugere é uma prática de democracia directa. Que respiração!

«Desobediência civil pacífica» seria um belo tema de debate a realizar nos salões da Gulbenkian mas não no meio da Avenida da Liberdade, neste dia solene em que se celebra a implantação da República pela acção — também directa e ilegal, lembre-se — de uns quantos maçónicos e anarquistas. O governo socialista liberal, ou liberal social-democrata, ou o raio que os parta, é impermeável a estes conceitos e a estas práticas. São utopias, dizem eles, que preferem ajudar os bancos, organizar leilões do 5G e construir aeroportos, coisas concretas e que pagam bem! O progresso, dizem eles pondo a máscara e respeitando as distâncias. A esperar a centena de manifestantes estava um número superior de mercenários do Estado de Direito, apetrechados como para a guerra social. E assim, entre murros e pancadas, os manifestantes foram levados para a berma da avenida e ficou restabelecida a livre circulação automóvel, que é o objectivo primordial de todo governo que se preza. Enfim, mais um episódio do regresso à «nova normalidade» que, ao que parece, só pode ser a continuidade da antiga. A imaginação do sistema é limitada.

O facto é que, de repente, o presente existe, um presente frágil que tenta abrir um caminho para o futuro. Deixei o túnel da máquina onde se agitam, até à eternidade do fim da história, os fantasmas e espectros do velho mundo. Cá fora, os que governam com a pulsão da morte continuam a dominar as forças que defendem a pulsão da vida. Forças que possuem uma energia que lhes vem da certeza de que a humanidade pode fazer melhor do que este desastre global e incomensurável que nos envolve. Que é um atentado à inteligência da colectividade humana. Só a partir de novas experiências de práticas directas de acção colectiva se pode construir um futuro ao presente, desembaraçado das escórias da velha política.


Ilustração [em destaque] de João Massano


Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro 2020|Fevereiro 2021.




Fonte: Jornalmapa.pt