Março 28, 2022
Do Colectivo Libertario Evora
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Há um mês em greve de fome, o francês Libre Flot, que tem estado detido na prisão de Bois d’Arcy e em isolamento, foi transferido na quinta-feira, 24 de março, para o hospital, devido ao seu estado débil.

Libre Flot foi preso com outras seis pessoas – todas as outras já em liberdade provisória – durante uma operação da policia em Dezembro de 2020 e acusados de “associação criminosa terrorista”. Uma acusação que todos desmentem e que a investigação parece não provar, uma vez que não refere qualquer elaboração concreta de atentado – nem sequer um esboço – mas apenas uma vaga “intenção de atacar as forças da ordem”.

Num momento em que se verificava uma forte contestação à atuação musculada da polícia, a maioria das organizações libertárias ou de “ultraesquerda” em França consideram que esta investigação foi sobretudo motivada pela presença, entre os acusados, de Libre Flot que lutou em Rojava ao lado do YPG, com outros militantes internacionalistas, na batalha de Raqqa contra o Daesh, em 2017. Vigiado pela Direcção Geral da Segurança Interna (DGSI) desde o seu regresso, que suspeita da constituição de um grupo de luta armada em torno de si. As provas, no entanto, nunca apareceram, embora Libre Flot continue detido e em isolamento.

Agora em greve de fome, ter-lhe-á sido dito que nunca será libertado antes das eleições presidenciais, cuja 1ª volta está marcada para o dia 10 de Abril.

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Eis aqui o texto integral do comunicado onde a 27 de fevereiro Libre Flot anunciava o inicio da greve de fome:

“Já passaram mais de 14 meses que refuto essa acusação infame e difamatória de associação criminosa terrorista.

Já passaram mais de 14 meses desde que a DGSI me explicou que não fui preso pelo que eles queriam que eu acreditasse, ou seja, o meu envolvimento com as forças curdas contra o Daesh em Rojava.

Já faz mais de 14 meses que nada valida a tese elaborada pela DGSI, ainda que durante pelo menos 10 meses eu tenha sido seguido, investigado, escutado 24 horas por dia no meu carro, na minha casa, espiado até na minha cama .

Há mais de 14 meses que compreendi que são as minhas opiniões políticas e a minha participação nas forças curdas do YPG na luta contra o Daesh que estão a tentar criminalizar.

Há mais de 14 meses, acusam de associação criminosa 7 pessoas, das quais nem todas se conhecem entre si.

São mais de 14 meses a responder às perguntas de um juiz de instrução que utiliza as mesmas técnicas sinuosas da DGSI: manipulação, descontextualização, omissão e invenção de palavras e factos na tentativa de influenciar as respostas.

Há mais de 14 meses que sou sujeito às provocações deste mesmo juiz de instrução que, enquanto eu definho nas prisões da República, se permite dizer-me que este caso está a fazê-lo perder tempo na luta contra o terrorismo. Pior ainda, ele permite-se ao mais inaceitável dos insultos quando se refere aos bárbaros do Estado Islâmico como os meus “amigos do Daesh”. Embora seja de forma verbal, continua a ser um acto de enorme violência. É inadmissível que este juiz se conceda o direito de me insultar no mais alto grau, tentando-me difamar e, assim, ofenda a memória dos meus amigos e camaradas curdos, árabes, sírios, turcos, armenios e internacionais que caíram na luta contra esta organização. Ainda hoje estou escandalizado com isto.

Foram mais de 14 meses de uma investigação parcial onde, contrariamente ao seu papel, o juiz de instrução apenas instrui contra e nunca a favor. Não leva em consideração nada que saia cenário pré-estabelecido e serve apenas para validar uma falsa personalidade moldada de A a Z pela DGSI, que longe de me representar apenas reflete as fantasias paranóicas desta polícia política. Assim, sou constantemente apresentado como um “líder carismático”, ainda que qualquer modo de funcionamento não horizontal seja contrário aos meus valores igualitários.

Já se passaram mais de 14 meses desde que, sem julgamento, me foi imposta a prisão dita provisória que sofro nas condições mais terríveis possíveis: o regime de isolamento (ver as cartas de março de 2021 e junho de 2021), considerado como “tortura branca” e tratamento desumano ou degradante por várias organizações de direitos humanos.

Há mais de 14 meses que estou enterrado vivo numa solidão infernal e permanente sem ter com quem conversar, apenas podendo observar a deterioração das minhas capacidades intelectuais e da minha condição física, sem ter acesso a qualquer acompanhamento. psicológico.

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Depois de ter, sob uma aparência falsamente neutra, fornecido à administração penitenciária argumentos falaciosos para garantir que eu fosse mantido em isolamento, o juiz de instrução pediu o indeferimento do meu pedido de libertação, assim como a procuradoria nacional antiterrorista. Para fazê-lo, eles praticamente copiaram e colaram o relatório DGSI de 7 de fevereiro de 2020, que está na base de todo este caso, cujas informações não sabemos de onde vieram e cuja veracidade não foi demonstrada. Temos o direito de perguntar para que serviram as escutas, a vigilância, os sistemas de escuta e estes dois anos de investigação e de instrução judicial, uma vez que são ocultados os factos que demonstram a construção mentirosa da DGSI.

A Procuradoria Nacional Antiterrorista e o Juiz de Instrução estão constantemente a tentar instalar a confusão e a criar ligações com os terroristas islâmicos, mesmo sabendo muito bem que lutei contra o Estado Islâmico, particularmente durante a libertação de Raqqa, onde foram planeados os ataques de 13 de novembro .

O juiz de instrução alega temer que eu informe pessoas imaginárias da minha situação, quando ela é pública, principalmente porque a própria DGSI ou o PNAT deixaram fugir essa informação desde o primeiro dia. Diz pretender ainda evitar qualquer pressão sobre as testemunhas, as vítimas e as suas famílias, mesmo quando não há qualquer testemunha, nem vítima, uma vez que não houve nenhum facto. É ubuesco. Também é mencionado o seu medo de uma concertação entre co-acusados ​​e cúmplices mesmo que todos os co-acusados ​​tenham sido libertados, que ele não interrogou ninguém, para além de mim,  desde outubro de 2021, e que esperei pacientemente que ele acabasse de me interrogar para fazer o pedido para ser libertado.

Noutras circunstâncias poderia ser cómico constatar a utilização de factos anódinos para servir de acusação:  usufruir do meu direito de circular livremente em França e na Europa, do meu modo de vida, das minhas opiniões políticas, das minhas práticas desportivas, dos meus gostos pelo rap comprometido ou pela música curda.

O juiz de instrução relativamente à minha mãe  considera-a como não sendo uma garantia válida pela simples razão de que ela não impediu o  filho, à época com 33 anos, de se juntar às forças curdas do YPG na luta contra o Daesh. Mais uma vez, é a minha participação neste conflito que está a ser criminalizada. Ele critica-a também por usar aplicações encriptadas (WhatsApp, Signal, Telegram, etc.) como milhões de pessoas fazem em toda a França. Por fim, desvaloriza todas as outras opções de garantias (trabalho, alojamento…) sem ter nada a opor,  ainda que o pessoal dos serviços penitenciários de integração e liberdade condicional (SPIP), a quem compete pronunciarem-se, tenham dado parecer favorável.

Por isso, como entender que, depois de ter determinado essas investigações acerca da possibilidade de me libertar com uma pulseira eletrônica, o juiz das liberdades e da detenção, apesar das conclusões, se recusa a fazê-lo? Somos muitos e muitas a constatarem que em todo este caso a “justiça”  viola as suas próprias leis e está sujeita à agenda política da DGSI.

Soube recentemente pela própria boca do diretor de detenções do centro da prisão de Yvelines (Bois d’Arcy), a quem agradeço a sua franqueza, que a minha ida e a minha permanência em isolamento foram decididas desde o primeiro dia por pessoas altamente colocadas e o que eu diga ou o que ele próprio diga ou faça, não importa nada, que isso o ultrapassa, que o dossier nem será aberto e eu vou ficar na ala de isolamento e que, de qualquer forma, nada pode mudar antes das eleições presidenciais .

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– Já que se procura criminalizar os militantes e as militantes que lutaram com os curdos contra o Daesh,

– Uma vez que a chamada prisão preventiva é usada para punir opiniões políticas,

– Uma vez que este caso só existe para fins de manipulação política,

– Uma vez que não me deixam outra perspectiva senão a lenta destruição do meu ser.

Declaro-me em greve de fome desde domingo, 27 de fevereiro de 2022, às 18h, não  reivindicando a minha libertação senão para demonstrar o lado calunioso desta acusação vergonhosa.

Libre Flot.

fontes:

https://soutienauxinculpeesdu8decembre.noblogs.org/




Fonte: Colectivolibertarioevora.wordpress.com